Conto: Vovó quer namorar – Fragmento
Ela estava ali, no meio da sala, miúda
na cadeira alta que é ruim de sentar, porque a gente tem que ficar com as
costas retinhas e aí dói, e esparramar não dá, que escorrega. Mas ela gosta de
sentar justo ali e ali se encontrava ela. De vestido claro enfeitado de
crisântemos, sapatos de salto. Cabelos caindo nos ombros, os reflexos de prata
teimando em mostrar uma idade que só mamãe teima identificar. Joelhos
juntinhos, braços cruzados, cabeça baixa. Ela, minha avó Frosina.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7xM3cJWGXxrldGfsKFL8wDczzXx11ZcCyeiJ1phTyJRk_xxym3mYqAWyPhWI8l2Rk9BVppSR_sB_7aVbtQVneZJaAi8ADKZVsh8UlxT2Yx4lSBbw5-IXLrE6n1DPBWBE7n-reKhsigfULlNEXb9RTG6OmqzgnjtevKlhBctXmI09BCbSJivz7GPx6tLc/s1600/images.jpg -- Eles inventaram o capricho do nome,
e eu precisei carregar o ridículo pala vida.
Eles são meus bisavós, pais dela.
-- Era para ser de sorte, lembrando
flor, mas só me deu acasos na vida – ela diz.
Parece dormir, os olhos fechados, mas
no duro estava era olhando pra dentro dela mesma, gosta de fazer assim.
Espiando a vida tanta que já viveu, os sorrisos que já sorriu, as alegrias e
lágrimas que espalhou ou sufocou, os sustos, os sobressaltos.
-- É viver de novo – ela diz. – Eu
gosto dos meus pedaços bons, que foram tantos, e finjo que os maus não me
tocaram.
Estendeu a mão até a mesa do telefone,
ao lado. Alcançou a bolsa vermelha de couro.
-- É cor errada – reprova mamãe. – De
mocinha, não de velha de respeito.
Provocação, provocação e meia:
-- Então combina comigo, que não sou de
respeito... [...]
Da bolsa a vó tirou um estojo de
pintura, um espelho e se examinou. Retocou o blush, que deixou mais rosado o
rosto, e o batom, que lhe avisou os lábios. Mirou-se e gostou do que viu.
Vaidosa, molhou na língua a ponta do
indicador direito, passando nas sobrancelhas e nos cílios. Mamãe insiste em que
isso é vergonhoso, na cidade da vó. A vó diz que então combina, que ela é toda
vergonhosa – elas não vivem sem o pingue-pongue particular.
Vó Frosina afastou um tanto o espelho,
pra se conferir melhor: os olhos escuros analisaram o rosto e os frisos do
cabelo, que ela consegue com um aparelho elétrico, antigo
Guardou o espelho e o estojo na bolsa,
olhou ao redor, não me percebeu atrás da cortina.
Suspirou. Buliçosa, jamais suportou a
espera que enfrenta agora: Frosina, minha avó. [...]
Me aproximei, sentei no chão, perto da
cadeira dela.
-- Que foi, vó? A senhora está esquisita...
Ela contornou com o indicador direito a
raiz dos meus cabelos, um carinho bem dela. Suspirou.
-- Luci já voltou?
Neguei. Vó cansa de saber que mamãe
chega do consultório só depois das sete, e eram cinco e meia.
-- Ela não vai gostar. Reprova o que
faço, porque o que faço não combina com a ideia dela de uma mãe com quase
setenta anos. [...]
Vó desceu a cabeça até a minha.
-- Marquei encontro. Com um homem.
Estou esperando por ele. [...]
Eu teria aguentado, se ela tivesse
contado que: estava planejando assaltar um banco; fizesse parte de um grupo de
grafiteiros; fosse a responsável pela crise econômica do país.
Mas um homem! Minha avó esperando um
homem, e tão produzida!
Pra mostrar que, naquela tarde, estava
toda novidadeira, vó largou:
-- É um gato. Com toda a idade,
gatíssimo, como vocês dizem. Tem outras aí de olho nele. Mas cheguei
primeiro... – Seus olhos maliciavam, divertidos.
Por que uma avó, de cabelos brancos,
tão cheia de idade – só nos olhos agarrando um brilho jovem –, inventa ilusões?
Eu ouvia minha mãe:
-- Mulher de respeito, ainda por cima
viúva, é pra bordar, fazer crochê e doces. Acarinhar um pouco os netos, lembrar
o passado, rezar.
Certamente não pra acalentar esperanças
próprias de futuro – não chegando aos setenta!
Vai dizer isso pra vó Frosina!
-- Velha é pra usar roupas escuras,
quem sabe alguns rabiscos de cor, umas florzinhas, tudo muito discreto. Pra
usar cabelo atrás, preso em caracol, sem vaidades. É pra ter um rosto de
ninguém perceber direito.
Vai dizer isso pra vó Frosina!
Mãe foi e disse. Ou não disse:
adiantou? Vó às vezes resmunga:
-- Tanto estudo, ser médica-doutora pra
quê?
E mãe sabe que teimar é batalha
perdida.
-- Ele falou que viria às cinco.
-- A mãe vai saber...
-- Não, se guardarmos segredo, não
acha? Antes das sete ele terá ido embora.
Olhei o meu relógio.
-- Vai ver, ele esqueceu a hora.
Vó Frosina riu.
-- Nessa idade, não dá mesmo pra
lembrar tudo. Mas ele aparece, eu sei.
Emocionei com o vermelho que pintou no
rosto dela. Me fez pensar na outra vó Frosina, que conheci no álbum de família.
Maria de Lourdes
Krieger. Vovó quer namorar. São Paulo, FTD, 1997.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 170-172.
Entendendo o conto:
01
– No início do texto, como a avó Frosina reage em relação ao próprio nome e
qual justificativa ela dá para esse sentimento?
Vó Frosina
considera o próprio nome "um ridículo" que precisou carregar pela
vida inteira, fruto de um "capricho" de seus pais (os bisavós do
narrador). Ela justifica esse sentimento explicando que, embora o nome tenha
sido escolhido para lhe trazer sorte por lembrar uma flor, ele acabou lhe
trazendo apenas "acasos na vida".
02
– O narrador descreve um hábito que a avó tem quando parece estar dormindo de
olhos fechados. Que hábito é esse e como ela mesma o define?
Quando está de
olhos fechados, a avó na verdade está "olhando para dentro dela
mesma", espionando e relembrando a longa vida que já viveu, com seus
sorrisos, alegrias, lágrimas e sustos. Ela define esse hábito como um ato de
"viver de novo", no qual ela prefere focar nos inúmeros pedaços bons
e fingir que os momentos ruins não a tocaram.
03
– Há um conflito geracional claro entre a mãe do narrador (Luci) e a avó
Frosina. De que maneira a bolsa vermelha de couro simboliza esse embate?
A bolsa vermelha
simboliza a quebra das expectativas sociais sobre a velhice. A mãe reprova o
acessório por achar que a cor vermelha é "de mocinha" e inadequada
para uma "velha de respeito". Em contrapartida, a avó usa a bolsa
como provocação, assumindo uma postura bem-humorada e rebelde ao responder que,
justamente por não ser "de respeito", a bolsa combina perfeitamente
com ela.
04
– Quais são os rituais de vaidade que a avó Frosina realiza enquanto se avalia
no espelho antes do seu compromisso?
Vó Frosina retoca
o blush para deixar o rosto mais rosado e passa batom para destacar os lábios.
Além disso, ela molha a ponta do dedo indicador na língua para alinhar as
sobrancelhas e os cílios, e utiliza um aparelho elétrico antigo para fazer
frisos (ondas/penteado) em seus cabelos.
05
– Qual é a grande revelação que a avó faz ao narrador e qual é a reação inicial
dele diante dessa notícia?
A avó revela que
marcou um encontro amoroso com um homem e está esperando por ele. O narrador
reage com extremo espanto e perplexidade; ele afirma que teria aguentado mais
facilmente se ela contasse que planejava assaltar um banco, fazer parte de
grafiteiros ou ter causado a crise econômica do país, demonstrando o quão
impactante e fora do comum foi ver sua avó agindo daquela forma por causa de um
homem.
06
– Segundo o pensamento da mãe do narrador, qual seria o papel social e o
comportamento esperado de uma "mulher de respeito" e viúva de quase
setenta anos?
De acordo com a
visão da mãe, uma mulher nessa idade deveria ter uma postura extremamente
discreta e voltada ao lar. Esperava-se que ela usasse roupas escuras ou com
estampas muito discretas, mantivesse o cabelo preso em um caracol sem vaidades,
e ocupasse seu tempo bordando, fazendo crochê, preparando doces, rezando,
lembrando o passado e acarinhando os netos, sem alimentar novas esperanças de
futuro.
07
– Apesar do atraso do homem com quem marcou o encontro (já eram cinco e meia e
ele havia marcado às cinco), como a avó reage à situação e o que isso revela
sobre a sua personalidade?
Diante do atraso,
a avó reage com bom humor e leveza, rindo e comentando que "nessa idade,
não dá mesmo pra lembrar tudo", mas demonstrando total confiança ao
afirmar "mas ele aparece, eu sei". Essa reação revela que ela possui
uma personalidade otimista, segura de si, paciente e que encara as limitações
da velhice sem amargura ou desespero.
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