Conto: A pedra no caminho
Conta-se
a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era
muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus
súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas
tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpNb1GOhled-UxGCZpxAWbMl5DXpwSHHtKTpt1jeJnsk0f_hd1F1mWpCKZm_D-D8mk9vg-e5TsRPT098lvTW-AwK_AWZ6Y-YF0YdvdE_l1hRF0kKwPu1fFcIz5GLREfsgjndbvzG7r_I6YJNu7vbWTZpcojLM2xzwKGERXJokpWnRfLg00l26i48j59fQ/s320/images.jpg —
Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que
outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos
problemas por conta própria.
Uma
noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo
palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que
acontecia.
Primeiro,
veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a
moagem.
—
Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a
sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam
retirar a pedra da estrada? E continuou
a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na
pedra.
Logo
depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na
brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na
extraordinária coragem que revelaria na guerra.
O
soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento.
Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os
preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada.
Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia
retirar a pedra.
Assim
correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa
da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.
Finalmente,
ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e
estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho.
Mas
disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode
tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”
E
tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e
empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua
surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.
Ergueu
a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os
seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”
Ela
abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.
A
filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o
fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido,
juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés
o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.
—
Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no
nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto
nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A
decepção é normalmente o preço da preguiça.
Então,
o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites,
retirou-se.
William J. Bennett O Livro das Virtudes II Editora Nova Fronteira, 1996.
Entendendo o conto:
01 – Qual era o principal objetivo do rei ao
colocar uma pedra propositalmente no meio da estrada e o que isso revela sobre
a sua visão de liderança?
O rei, descrito como sábio, não buscava apenas pregar uma
peça, mas sim criar uma lição prática sobre cidadania e iniciativa. Seu
objetivo era "inculcar bons hábitos" e testar a disposição do povo em
resolver problemas por conta própria em vez de apenas reclamar. Isso revela uma
visão de liderança educativa, onde o governante não apenas provê, mas desafia
seus súbditos a serem proativos e responsáveis pelo bem comum.
02 – Compare a reação do fazendeiro e do
soldado diante do obstáculo. O que há de comum entre as atitudes desses dois
personagens?
Ambos os personagens reagem com indignação e buscam culpados
externos ("preguiçosos"), mas nenhum deles considera a possibilidade
de resolver o problema pessoalmente. O fazendeiro desvia sua carroça e reclama;
o soldado, embora sofra um acidente físico ao tropeçar, também se limita a
limpar a poeira e amaldiçoar os outros. O ponto comum é a passividade e o
egoísmo: eles enxergam a pedra como um incômodo para si, mas não sentem a
responsabilidade de removê-la para ajudar a coletividade.
03 – Por que a filha do moleiro foi a única a
retirar a pedra e qual foi a sua principal motivação, de acordo com o texto?
Diferente dos outros, a filha do moleiro foi movida pela
empatia e pela prudência. Mesmo estando cansada após um dia de trabalho, ela
pensou na segurança alheia ao notar que, com a chegada da noite, alguém poderia
tropeçar e se ferir gravemente. Sua motivação não foi a busca por recompensa
(já que ela não sabia do ouro), mas sim o desejo genuíno de evitar um mal ao
próximo e melhorar o caminho para todos.
04 – Explique o significado da frase final do
rei: "A decepção é normalmente o preço da preguiça." Relacione-a com
o comportamento final dos outros súbditos ao descobrirem o ouro.
A frase sugere que aqueles que evitam o esforço e o trabalho perdem
as oportunidades de crescimento e recompensa que estão escondidas sob os
desafios. A "decepção" mencionada refere-se ao sentimento do
fazendeiro e do soldado que, ao verem o ouro, perceberam que a riqueza poderia
ter sido deles se tivessem tido a iniciativa de agir. O comportamento final
deles, de procurar ouro no pó da estrada, demonstra que eles ainda não haviam
entendido a lição: a recompensa não cai do céu por sorte, mas é fruto de
enfrentar o obstáculo.
05 – O conto utiliza a "pedra" como
uma metáfora. Para além do objeto físico, o que a pedra representa na vida
humana e qual é a mensagem central do conto sobre como devemos lidar com os
nossos "fardos"?
A pedra representa as dificuldades, problemas sociais e obstáculos
inesperados que surgem em nossa jornada. A mensagem central é que os problemas
não devem ser apenas contornados ou usados como motivo de reclamação; eles são
oportunidades disfarçadas para o desenvolvimento pessoal e para o serviço ao
próximo. O conto ensina que o progresso (o "ouro") pertence àqueles
que arregaçam as mangas para transformar obstáculos em degraus.




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