sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO: A LEBRE ENCANTADA - THEOBALDO MIRANDA SANTOS - COM GABARITO

 Conto: A lebre encantada

 

        HÁ muito tempo existia um rei que só se alimentava de animais de caça. Por isso, todos os dias, seu único filho ia caçar na floresta próxima, a fim de que não faltasse o alimento preferido do seu pai. Certa vez, numa de suas excursões pela mata, o príncipe encontrou uma bonita lebre, toda branquinha. Correu atrás dela para apanhá-la, mas não conseguiu. A bichinha era veloz como uma flecha.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDomjrvLv9W4De-fa6Bpau8Kq8Crvv5DPVltfz6vdz04rLaU6ZamzNxcoogEjGd4kezmWiSvT-Mn2dc76hyphenhyphenfZEhB71cN0Ls6gqrnZmGF4tt4qRgjCRNrjWyGLj6aF_1OQgDui3u7HPoXuPHiKDSpe0sfk_Hl0DhW2-8xTMjagWDxaVP5AxG9FoYCz03SA/s1600/LEBRE.jpg


        Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão. Imediatamente, a terra se abriu, e a lebre penetrou no interior do solo. O príncipe, de um salto, entrou também na abertura e, depois de andar, durante muitas horas, por um túnel escuro, deparou com um campo cheio de flores perfumosas, no meio do qual se erguia o mais belo palácio que havia visto em sua vida. Penetrando no palácio, viu uma linda princesa que o recebeu gentilmente.
        Passou então a residir no palácio, em companhia da formosa princesa, pela qual se apaixonou loucamente. Aí levava uma vida tão alegre e divertida que se esqueceu, completamente, de seu pai e do seu reino. Passado muito tempo, ao lavar as mãos, o príncipe tirou do dedo um anel que seu pai lhe tinha oferecido. Lembrou-se, então, de sua família e do seu povo. Resolveu ir vê-los. A princesa tudo fez para que ele desistisse da ideia. Mas o príncipe disse-lhe que seria uma ingratidão de sua parte, se não fosse visitar os seus. Prometeu, porém, à formosa princesa que, em breve, estaria de volta. Diante disso, a moça conduziu-o até o lugar por onde ele havia entrado e, batendo com uma vara mágica na terra, fez com que a mesma se abrisse para o príncipe passar.

        Chegando ao seu reino, encontrou o palácio vazio e coberto de luto. Soube, então, com grande tristeza, que seus pais haviam morrido de desgosto, em virtude do seu desaparecimento. O príncipe ficou tão amargurado e cheio de remorsos, que resolveu não voltar mais ao palácio da linda princesa. Vestiu, então, uma humilde roupa de sapateiro e saiu pela estrada, sem destino.

        Depois de caminhar durante vários dias, encontrou uma cidade, na qual se realizava uma grande festa. Indagando o motivo dos festejos, teve a notícia de que reinava grande alegria na cidade pelo fato de nela se encontrar a princesa mais bonita do mundo. O príncipe pediu então que lhe mostrassem a princesa e, quando a viu, declarou que conhecia uma princesa muito mais formosa.

        Alguém ouviu a declaração do rapaz e foi correndo dizer ao rei que havia na cidade um sapateiro que afirmara ter visto uma princesa muito mais bela do que a sua filha. O rei ficou indignado com tamanha ousadia. Mandou chamar o sapateiro e o intimou, sob pena de morte, a trazer à sua presença a moça que ele dizia ser mais bonita do que sua filha. O sapateiro pediu quinze dias de prazo e partiu à procura da sua princesa.

      Depois de longa viagem, chegou ao lugar por onde a lebre tinha entrado no interior da terra. Começou então a cavar e, depois de trabalhar dia e noite, conseguiu abrir um túnel até o palácio da princesa. Mas aí chegando, encontrou tudo silencioso e triste. Bateu à porta do palácio, e apareceu uma criada que lhe disse:

        — Meu senhor, a princesa está muito doente por sua causa. Depois da sua partida, ela não mais se alimentou. Ficou tão triste e abatida, que nem pôde mais defender-se dos seus inimigos. Por isso, hoje vai acontecer uma coisa horrível. A meia-noite, o mar vai crescer e inundar todo o palácio. Virá, então, um peixe enorme, que é um feiticeiro disfarçado, que devorará a princesa.

        O rapaz quis falar com a princesa. Mas a criada o aconselhou a não fazer isso, senão a sua senhora morreria mais depressa. Nesse momento, o mar começou a inundar o palácio. O príncipe, que não tinha medo, armou-se com uma grande espada e escondeu-se atrás da porta. Quando chegou à meia-noite, surgiu um peixe gigantesco. Antes que este pudesse defender-se, o príncipe enfiou-lhe a espada no corpo três vezes. O monstro soltou um berro tremendo e morreu. As águas do mar então se afastaram e a princesa ficou salva.

        O moço apresentou-se à princesa, e esta o abraçou contente e feliz. Disse-lhe o rapaz: — Minha princesa, salvei-lhe a vida. Agora preciso que você salve a minha. Contou-lhe, então, a promessa que havia feito ao rei, sob pena de morte. A princesa, porém, o aconselhou a voltar para o lugar onde devia cumprir a promessa e esperá-la lá, descansado.

        O príncipe chegou no lugar, exatamente no dia que havia marcado. Os soldados do rei lá estavam, armados, à sua espera. O povo se havia reunido para assistir à execução do rapaz. Este tomou o caminho do palácio e pediu ao rei que aguardasse alguns momentos, pois iria cumprir a promessa.

        Daí a pouco, surgiu no céu uma nuvem prateada. Veio descendo, descendo e, quando chegou diante do palácio e no meio do povo, dela saiu uma criada vestida de prata, que gritou: — Afaste-se, minha gente, que aí vem a minha princesa! O povo ficou boquiaberto com a cena. Mas o príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns instantes. Poucos minutos depois, apareceu outra nuvem dourada, de onde saiu uma criada vestida de ouro, gritando: Afaste-se, minha gente, que aí vem minha princesa! O espanto foi geral. O príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns momentos. Finalmente, surgiu uma nuvem tão brilhante que ofuscava os olhos de todos. Veio descendo, descendo, até o meio do povo. Dela saiu, então, a mais linda princesa do mundo, toda vestida de diamantes. Era a noiva do sapateiro.

        O povo ficou maravilhado. O rei e a princesa, quando viram aquela beleza incomparável, ficaram envergonhados e pediram muitas desculpas ao rapaz. Convidaram este e sua formosa noiva para se hospedarem no palácio. Mas os dois não aceitaram. Preferiram voltar para o seu reino, onde viveram alegres e felizes.

 

Fonte: Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional.

Entendendo o conto:

01 – Como o príncipe descobriu o palácio subterrâneo da formosa princesa?

      O príncipe estava caçando uma lebre branca muito veloz. Ele a seguiu até vê-la parar, bater o focinho no chão e entrar em uma abertura que se formou na terra. O príncipe saltou na mesma abertura e, após caminhar por um túnel escuro, encontrou um campo de flores onde ficava o belo palácio.

02 – O que fez o príncipe se lembrar de sua família e de seu reino depois de passar muito tempo no palácio?

      O príncipe esqueceu-se de tudo devido à vida alegre que levava, mas, certo dia, ao lavar as mãos, ele tirou do dedo um anel que havia recebido de presente de seu pai. Esse objeto o fez recordar de sua família e de seu povo, motivando-o a visitá-los.

03 – Que triste descoberta o príncipe fez ao retornar ao seu reino e qual decisão tomou por causa disso?

      Ao chegar, ele encontrou o palácio vazio e coberto de luto, descobrindo que seus pais haviam morrido de desgosto pelo seu sumiço. Amargurado e cheio de remorsos, ele decidiu não voltar ao palácio da princesa, vestiu roupas humildes de sapateiro e saiu sem destino pelas estradas.

04 – Por que o rei da cidade festiva ficou indignado com o jovem sapateiro e o que ordenou sob pena de morte?

      O rei ficou indignado porque o jovem, ao ver a filha do monarca (considerada a mais bonita do mundo), afirmou convictamente que conhecia uma princesa muito mais formosa. O rei considerou isso uma grande ousadia e o intimou, sob pena de morte, a trazer essa moça à sua presença em um prazo de quinze dias.

05 – Que perigo terrível a princesa estava correndo quando o jovem conseguiu retornar ao palácio subterrâneo?

      A princesa estava muito doente e fraca devido à partida do rapaz. Uma criada explicou que, à meia-noite daquele dia, o mar inundaria o palácio e um peixe enorme — que na verdade era um feiticeiro disfarçado — surgiria para devorá-la.

06 – Como o rapaz conseguiu salvar a vida da princesa e afastar as águas do mar?

      Sem medo, o rapaz armou-se com uma grande espada e escondeu-se atrás da porta. Quando o peixe gigantesco surgiu à meia-noite, o príncipe o atacou de surpresa, enfiando-lhe a espada no corpo três vezes. Com a morte do monstro, as águas do mar recuaram e a princesa foi salva.

07 – Como foi a chegada da princesa para salvar o rapaz no dia da execução e qual foi o desfecho da história?

      A chegada aconteceu de forma mágica através de três nuvens: primeiro desceu uma nuvem prateada com uma criada vestida de prata; depois uma nuvem dourada com uma criada vestida de ouro; e, finalmente, uma nuvem brilhante de onde saiu a princesa vestida de diamantes. Diante de tamanha beleza, o rei pediu desculpas ao rapaz, e o jovem casal decidiu retornar ao seu próprio reino para viver feliz.

 

CRÔNICA: ATÉ A METADE DO CÉU - ZILDETE MELO - COM GABARITO

 Crônica: Até a metade do céu

 

        Quando o rei de Wei decidiu construir uma torre que iria chegar até a metade do céu, ele deu uma ordem:

        -- Quem tentar me dissuadir, será condenado à morte.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnIPtLyTb_CIMUhX_ZGZoo2m-fv2AORKbysxLWwaZFG2_lZ1sFUP4kmjtvofxFZSxgRRNyUKemhB_yPpodE-e-DSCdACOvutu3i2biFjWR1uI4al_nohQu4vNn6IxdqMVC9qG9mz2r9X4qEFoEwVOyj16yud7mxnbfl-C-YqS03BAlxb0FyGu8Rs_r6BY/s1600/WEI.jpg


        Xu Wan, um ministro de Wei, procurou-o com um cesto nas costas e uma lança na mão.

        -- Senhor, ouvi que está querendo construir uma torre que vai chegar até a metade do céu – disse Xu, – e seu humilde servo veio lhe oferecer ajuda.

        -- O que de forte tem para me oferecer? – quis saber o rei.

        -- Eu não sou forte – respondeu Xu – mas eu posso trabalhar no projeto da construção.

        -- Sim – disse o rei.

        -- Senhor, ouvi dizer que a distância entre o céu e a terra é de 15 mil li. Como quer construir uma torre que chega até a metade da distância entre a terra e o céu, a torre deve ter 7.500 li de altura. Para aguentar essa estrutura, os alicerces devem ter a circunferência de oito mil li. Toda a suas terras juntas, senhor, não são suficientes para os alicerces. Há muito tempo atrás, os reis Yao e Shun estabeleceram ducados com a circunferência de cinco mil li. Se estiver determinado a construir essa torre, deve primeiro atacar os duques e pegar todas as terras deles. Mas ainda não vai ser o bastante. Deve também expulsar várias tribos que vivem em longínquas regiões ao norte, ao sul, a leste e a oeste. Quando conseguir uma área com limites de oito mil li, aí, sim, será o suficiente para os alicerces. Quanto a questão do material de construção, trabalhadores e depósitos de comida, tudo isso deve ser calculado em algumas centenas de milhões. For a da área cercada de 8 mil li, uma grande extensão de campos deve ser escolhida para a produção de comida para os trabalhadores se alimentarem enquanto estiverem construindo a torre. Quando todas essas condições para a construção das torres forem preenchidas, o trabalho pode começar.

        O rei ficou calado, sem encontrar uma resposta. Ele abandonou a ideia da construção da torre.

Zildete Melo.

Entendendo a crônica:

01 – Qual era a ordem dada pelo rei de Wei em relação à construção da torre e qual era a punição para quem a desobedecesse?

      A ordem era que ninguém tentasse dissuadi-lo (convencê-lo a desistir) de construir a torre. A punição para quem tentasse impedi-lo era a condenação à morte.

      Explicação: O rei estava tão determinado em seu projeto grandioso que usou do medo e de sua autoridade máxima para calar qualquer tipo de oposição ou conselho sensato logo no início.

02 – De que maneira o ministro Xu Wan conseguiu se aproximar do rei sem ser condenado à morte?

      Em vez de contrariar o rei abertamente, Xu Wan aproximou-se oferecendo ajuda para o projeto, carregando um cesto e uma lança para demonstrar que estava pronto para o trabalho.

      Explicação: Sabendo da ameaça de morte, o ministro usou de astúcia e diplomacia. Ao fingir que apoiava a ideia do rei, ele garantiu sua segurança e ganhou a atenção do monarca para apresentar seus argumentos.

03 – Quais foram os argumentos matemáticos e territoriais que Xu Wan utilizou para mostrar a inviabilidade da torre?

      Xu Wan argumentou que, como o céu estava a 15 mil li da terra, a torre precisaria ter 7.500 li de altura. Para sustentar isso, a circunferência dos alicerces teria que ser de 8 mil li, uma área maior do que todas as terras do rei juntas.

      Explicação: O ministro utilizou a lógica e a dimensão real do reino para provar que o projeto era fisicamente impossível de ser realizado dentro do território atual do rei, transformando o desejo do monarca em um problema puramente matemático.

04 – O que o rei precisaria fazer com os reinos vizinhos e tribos distantes se decidisse seguir em frente com a construção?

      O rei precisaria atacar os duques vizinhos para tomar suas terras e expulsar várias tribos que viviam em regiões longínquas ao norte, sul, leste e oeste.

      Explicação: Xu Wan demonstrou que a ambição do rei exigiria uma guerra de expansão massiva apenas para conseguir o espaço físico necessário para a base da torre, o que traria destruição e conflitos generalizados.

05 – Qual foi a reação do rei após ouvir as explicações de Xu Wan e o que isso revela sobre o sucesso da estratégia do ministro?

      O rei ficou calado, não encontrou argumentos para responder e decidiu abandonar completamente a ideia de construir a torre.

      Explicação: Isso revela que a estratégia de Xu Wan foi extremamente bem-sucedida. Em vez de confrontar o rei com autoridade, ele usou a ironia e o realismo exagerado para fazer o próprio rei perceber o absurdo de sua ambição, poupando a vida do ministro e salvando o reino de uma ruína certa.

 

 

MINICONTO: PORQUE É QUE A COBRA NÃO TEM PATAS - ALBUFEIRA - COM GABARITO

 Miniconto: Porque é que a cobra não tem patas

         Então quando Adão e Eva apareceram, havia uma árvore que o fruto dela era a maçã, e a maçã nessa altura era o fruto proibido. E havia uma cobra e, nessa altura, ela tinha patas. Mas um dia, a Eva foi lá a passar por perto da árvore e a cobra estava lá e insistiu muito com a Eva para ela comer a maçã, e a Eva comeu a maçã.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDafrDZkvKt94cTeCS-g6UF4FRLhXXwQYAHcLImHyPstXrzcWT6bYEpAimoMcEqZas4nB-59ecOy2zvz9Pbi1r1vAj0tmbKgONye7A05Ab7bO9cpLyOwH2_15hEeeWSQDCv6mruSeElQlOJgElabXNjh68GZWZEHSTU3DkBQxQUykGO8MW6hhrL4dhdk0/s320/PATAS.jpg


E depois não lhe fez mal nenhum. E depois foi lá o Adão a dizer porque é que ela tinha comido a maçã, mas ela disse que não tinha acontecido nada e para ele comer também. Depois ele comeu também e depois Deus como castigo divino tirou as patas à cobra.

 

Albufeira (recolha oral).

Entendendo o miniconto:

01 – De acordo com o início do miniconto, como era a fisionomia da cobra antes do castigo divino e qual era o estatuto da maçã naquela época?

      No início da história, a cobra tinha patas, diferenciando-se da forma como a conhecemos hoje. A maçã, por sua vez, era considerada o "fruto proibido" naquela altura, logo após o aparecimento de Adão e Eva.

02 – Qual foi o papel da cobra no primeiro desvio de comportamento de Eva e como o texto descreve a reação física imediata de Eva após comer o fruto?

      A cobra atuou como a grande provocadora, insistindo muito com Eva para que ela colhesse e comesse a maçã. Após comer o fruto proibido, a reação física imediata de Eva foi de total normalidade, já que o texto afirma expressamente que a maçã "não lhe fez mal nenhum".

03 – Como Adão reagiu ao saber que Eva tinha consumido o fruto proibido e qual foi o argumento utilizado por ela para o convencer a fazer o mesmo?

      Inicialmente, Adão questionou Eva, querendo saber o motivo pelo qual ela tinha comido a maçã. Para o convencer a fazer o mesmo, Eva argumentou que não tinha acontecido nada de mau com ela (que estava tudo bem) e incentivou-o a comer também, o que levou Adão a ceder e consumir o fruto.

04 – O desfecho do miniconto apresenta uma explicação mítica para uma característica biológica da cobra. Que justificativa o texto dá para o facto de a cobra não ter patas hoje em dia?

      O texto justifica a ausência de patas na cobra como a consequência direta de um castigo divino. Deus, ao presenciar a desobediência de Adão e Eva motivada pela insistência do réptil, decidiu punir a cobra retirando-lhe as patas para sempre.

05 – Este miniconto é uma adaptação de uma famosa narrativa religiosa (o Livro do Génesis na Bíblia). Identifique duas características no vocabulário ou na estrutura do texto que demonstram que esta é uma versão simplificada ou popular da história original.

      A simplificação do texto percebe-se em dois aspetos principais:

      O vocabulário informal e repetitivo: O uso constante da conjunção "e" para ligar as frases ("E havia uma cobra...", "E depois não lhe fez mal...", "E depois foi lá o Adão...") e de expressões como "nessa altura" ou "foi lá".

      A ausência de consequências profundas para os humanos: Na história original, a queda da humanidade traz a expulsão do Paraíso e grandes provações para Adão e Eva. No miniconto, o foco do castigo é reduzido de forma simples e direta apenas à perda das patas da cobra.

 

FÁBULA: A RAPOSA QUE PERDEU A CAUDA - ESOPO - COM GABARITO

 Fábula: A Raposa que perdeu a cauda


        Uma Raposa foi apanhada numa armadilha. Conseguiu escapar, mas ficou sem a cauda porque a armadilha a cortou.
Sentindo-se envergonhada e ridícula, pensou convencer as outras raposas a cortarem também as suas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEixa7QF8CpeU-QsXyMBkbrGUTo5H-IVBws0mVFBf99p_Z2IZzxTcQZdV-SUThcy21hiSTEsBmRVJOn4Rh5HPnWc8kRXz5TiSg0olWesW1H1wKotlFPSZUyJ0rRBWFmRDB3ENOo3h5jZR79z2wFl-sstf0_RlnlVlV3rKmc_5VmmMIxcQiLPihsV9FcteOs/s320/raposa.jpg


        Reuniu um bom número de amigas e explicou-lhes que, sem cauda, não só ficariam muito mais bonitas, mas também se livrariam de um peso inútil.

        Ouvindo isto, uma das raposas interrompeu-a e perguntou-lhe:

        -- Se não tivesses perdido a tua cauda, também nos aconselharias a cortar as nossas?


Moral da história: Tem cuidado com quem te dá conselhos tendo em vista os seus próprios interesses.

 

Fábula de Esopo.

Entendendo a fábula:

 

01 – O que aconteceu à raposa no início da história e qual foi a consequência física desse acontecimento?

      A raposa foi apanhada numa armadilha. Embora tenha conseguido escapar com vida, a armadilha acabou por cortar e prender a sua cauda, deixando-a permanentemente sem ela.

02 – Qual foi o verdadeiro motivo que levou a raposa a tentar convencer as outras a cortarem as suas caudas?

      O verdadeiro motivo foi a vergonha e o sentimento de ridículo por ser a única raposa sem cauda. Para não se sentir inferiorizada ou isolada, ela quis que todas as outras ficassem na mesma situação que ela.

03 – Que argumentos a raposa usou perante as suas amigas para justificar que viver sem cauda era uma vantagem?

      A raposa tentou usar a vaidade e o pragmatismo, argumentando que, sem a cauda, elas ficariam muito mais bonitas esteticamente e que também se livrariam de um peso que, segundo ela, era completamente inútil no dia a dia.

04 – De que forma a pergunta feita pela raposa que a interrompeu desmascarou as intenções da protagonista?

      A pergunta questionou se o conselho seria o mesmo caso a protagonista ainda tivesse a sua cauda. Isto expôs o facto de que o conselho não era genuíno nem focado no bem-estar do grupo, mas sim uma estratégia motivada puramente pela sua nova condição de sobrevivente mutilada.

05 – Como a moral da história se aplica ao comportamento da raposa principal na fábula?

      A moral alerta para termos cuidado com conselhos de quem tem interesses próprios. Na fábula, a raposa principal não queria ajudar as amigas a melhorar; ela queria apenas resolver o seu próprio complexo de inferioridade. Ela disfarçou um desejo puramente egoísta de um conselho amigo.

 

 

CONTO: LENDA DO TRÁGICO JURAMENTO - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Conto: Lenda do Trágico Juramento

 

        Esta lenda leva-nos a Viana do Castelo, e mais precisamente a uma casa apalaçada da Rua da Bandeira. Foi isto em tempos que já lá vão, quando nessa casa vivia uma formosíssima donzela chamada Brites Quesado. Não existia entre Douro e Minho quem a igualasse em beleza e fidalguia. As propostas de casamento vinham de todos os cantos do Reino e mesmo de além fronteiras. Todavia, entre tantos pretendentes, D. Brites distinguiu Lopo da Rocha, moço esbelto de elevada estirpe e belos sentimentos, mas que não gozava da simpatia dos pais da donzela. Estes empenhavam-se, por seu turno, em desposá-la com seu primo João de Alvim.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiX7lVhx0s5kMToKQdeFcaEgfm5OucmDwwD85HrQQoFe_J2DKJrCd2xpqpDuKfbqls5hGs4ojVWBJwel2kAS4qVGM_BzS0u5YL8928K9PAiFJtACXZh4rFmXavDKQMgsddqmS_r9SaKi-LsEKqH9YqRDp-Ymbq54pIw4qcdCUI6Cx_Yq6Vhgaq4xC7lfvc/s320/lenda.jpg


        Tanto D. Lopo como D. João amavam sinceramente a jovem D. Brites, e sofriam com receio do futuro.

        Certa tarde, estava ela a bordar no varandim cuja escada dava para o pátio. O seu pensamento andava distante do bordado. De súbito, uma voz máscula soou mesmo a seu lado. Ela teve um gritinho e exclamou:

        — Assustastes-me, senhor meu primo!

        — Lamento profundamente. Daria metade dos meus troféus para vos dar apenas alegrias.

        A jovem sorriu. Um sorriso enigmático. Tão enigmático como a sua frase:

        — Senhor D. João... está na vossa mão, creio, cumprir esse desejo...

        D. João de Alvim tomou-se circunspecto.

        — Senhora minha prima! Se basta a minha presença para vos assustar... como ousarei esperar de vós a felicidade?

        Voltou a jovem a sorrir. Murmurou como se fosse para si mesma:

        — Felicidade! Ninguém ainda a viu… mas existe, pois que alguns a sentem!

        — Por exemplo, vós, não é verdade?

        Abriu-se mais o sorriso de D. Brites. Adoçou-se a sua expressão.

        — Na verdade, não devo queixar-me da minha sorte.

        Tornou-se subitamente dura a expressão de D. João de Alvim. A sua voz tomou reflexos de ironia.

        — Não deveis queixar-vos, principalmente desde ontem ao pôr do Sol!

        D. Brites mostrou-se surpreendida.

        — Que quereis dizer, senhor?

        Ele tornou:

        — Ontem... ao pôr do Sol... vi e ouvi, senhora minha prima!

        Ela tentou gracejar.

        — Creio que continuais a ver e ouvir...

        D. João enervou-se.

        — Mas vi o que não queria e ouvi o suficiente para ficar com a alma em noite escura.

        — Sim? E o que ouvistes?

        — Lopo da Rocha, que vos surpreendeu neste mesmo lugar sem que vos assustasses.

        D. Brites ficou subitamente séria. Olhou o primo de frente, interrogando-o com dignidade ofendida:

        — Desde quando o senhor meu primo aprendeu a escutar às portas?

        Sem se mostrar ofendido, D. João de Alvim replicou:

        — Desde que os meus olhos tiveram a desgraça de pousar nos vossos!

        A jovem não mostrou surpresa por essa afirmação. Perguntou, altiva:

        — E que pretendeis de mim?

        D. João tornou, também numa atitude de dignidade:

        — Senhora, sou vosso primo! E vossos pais dão-me a honra de me confiarem o seu maior tesouro...

        D. Brites interrompeu-o:

        — Porém... o tesouro de que falais já não lhes pertence inteiramente. Dei o meu coração!

        O fidalgo enervou-se. Alteou a voz.

        — Persistis nessa loucura?

        Serenamente, a jovem declarou:

        — Se loucura é amar um moço fidalgo que por sua grandeza de alma sonha conquistar o meu coração, declaro-vos que amo essa loucura!

        D. João empalideceu. Inclinou-se numa vénia para esconder todo o desespero que o dominava e declarou convicto:

        — Pois bem, senhora! Retiro-me por agora... mas não desistirei!

        D. Brites estendeu-lhe a mão que ele mal tocou.

        — D. João! Quero recordar-vos que sou das que têm um só parecer.

        E um único amor! Retirai-vos, pois, na certeza de que amarei apenas a D. Lopo!

        Levantou-se e, com uma vénia, entrou no salão onde o crepúsculo marcara audiência.

        D. João de Alvim, pálido, trémulo de desespero, ficou ainda algum tempo no varandim. Depois, afastou-se a passos largos.

        Alguns meses passaram. A fidalguinha via muitas vezes o eleito do seu coração. Porém, apenas podia trocar com ele, além de apaixonados olhares, uma ou outra missiva, porque seu primo João de Alviin, com o acordo dos pais de D. Brites, parecia sentinela vigilante.

        Chegou o dia dos anos da jovem. No palacete foi oferecida uma linda festa. Vieram fidalgos de todo o reino. Havia música, flores e alegria por toda a parte. E entre os fidalgos convidados, com grande surpresa da jovem fidalga, surgiu também Lopo da Rocha. Era bem visto e estimado entre os maiores e seria notada a sua falta.

        D. Lopo estava na festa. Mas D. João e os pais de D. Brites conseguiam tê-la sempre isolada do jovem fidalgo a quem ela tanto queria. Somente já no fim do sarau e nos alvores do dia seguinte D. Lopo da Rocha conseguiu encontrar-se com D. Brites num recanto do salão, junto ao varandim que dava para o pátio. Tomou-lhe uma das mãos, que beijou com ternura. A sua voz soou repassada de emoção:

        — Meu amor! Julguei sonhar toda esta noite! Fitai uma vez mais os vossos olhos nos meus! Tal como o nadador que antes de mergulhar enche os pulmões de ar puro, assim eu pretendo armazenar no coração o olhar da mulher a quem tanto amo!

        Enleada, D. Brites corou de felicidade.

        — Meu bem-amado! Falais com tanto ardor, tanto carinho!... Que mais posso eu dizer-vos do que isto: levais convosco a minha alma inteira! Viva ou morta pertencer-vos-ei para sempre!

        — Jurais?

        Ela olhou-o perplexa. Como se tivesse pressa da resposta, ele insistiu:

        — Jurais que cumprireis o que me dissestes?

        Ainda surpreendida pelo tom de voz e pela palidez repentina do rosto do seu bem-amado, ela afirmou:

        — Juro, meu amor! Viva ou morta, serei sempre vossa. Seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na Eternidade. Porém, dizei-me: porque empalidecestes?

        Ele suspirou:

        — Senhora! Não sei que estranho pressentimento me assalta! Mas agora estou mais sossegado.

        Olhava-a com tanta intensidade que ela baixou o olhar. Mas o jovem insistiu:

        — Não… não escondais os vossos olhos bonitos sob as pálpebras! Quero ver o brilho do vosso olhar a projectar-se no meu. Assim… assim mesmo... Levo-vos na alma!... Adeus, meu anjo!... Hei-de amar-vos mesmo para além da minha morte!

        Beijou-lhe uma das mãos, mais uma vez, com ternura. Depois saiu do salão, desceu a escadaria que levava ao pátio, e preparava-se para se afastar quando esbarrou com um embuçado. O desconhecido gritou-lhe:

        — Cautela, vilão!

        Pela voz, D. Lopo reconheceu o embuçado. E sem dar mostras de surpresa ripostou-lhe:

        — Enganais-vos, senhor D. João de Alvim! Vilão sois vós, que injuriais quem vos não ofendeu!

        D. João descobriu-se. Replicou colérico:

        — São vilões os que fazem vilanias requestando fidalgas ricas às escondidas de seus pais!

        Cerrando os dentes, D. Lopo perguntou:

        — É uma provocação, o que procurais?

        — Não! É uma vingança!

        E sem dar tempo a que D. Lopo se pusesse em guarda, D. João desferiu uma estocada ao peito do seu rival.

        Nesse mesmo instante, D. Brites, que assistira à cena, gritou no auge do desespero:

        — Lopo! Defendei-vos, senão morrereis!

        Com uma das mãos na espada, outra no peito donde o sangue corria, D. Lopo tentou falar.

        — Brites... afastai-vos, meu anjo!

        D. João gracejou:

        — Na verdade chegais tarde, minha prima, pois já matei o vosso bem-amado!

        Num assomo de energia, D. Lopo ergueu a espada. E vibrando um golpe certeiro no rival rouquejou:

        — Mais uma vez vos enganastes, senhor D. João! Como vedes, ainda não morri!

        Com o supremo esforço que fizera, D. Lopo não resistiu. Caiu prostrado, junto do corpo do seu rival.

        D. Brites soltou um grito estridente. Depois, chorando, suplicava, ajoelhada junto de D. Lopo:

        — Meu amor! Vivei! Vivei só para mim!

        Porém, D. Lopo já não a ouvia neste mundo. Do salão começou a correr gente. Ante o quadro macabro que se lhes oferecia, as senhoras desmaiavam, e os homens rodeavam os cadáveres dos dois jovens fidalgos, tentando levá-los dali. Debruçada sobre um deles, a jovem Brites não consentia que a separassem do seu bem-amado. Gritava, dizia incoerências... Chorava como uma criança, ou ficava-se como fera pronta a saltar sobre o caçador que lhe põe em perigo a cria. Compreenderam então que a jovem fidalga havia enlouquecido. Só com muito esforço conseguiram arrancá-la do pátio. A sua loucura era das que não mais encontram alívio. Desfazia-se em choros, em lamentos, e repetia a jura mil vezes jurada:

        — Viva ou morta serei sempre vossa! E seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na Eternidade!

        Pouco tempo durou a que fora a formosa D. Brites. Morreu cansada de sofrer, de se lamentar... E conta a lenda velhinha que a alma de D. Brites continua a errar por ali, altas horas da noite, naquela casa apalaçada da rua da Bandeira, em Viana do Castelo.

Gentil Marques -  Viana do Castelo.

Entendendo o conto:

 

01 – Quem era D. Brites Quesado e como se caracterizava a sua situação amorosa no início da lenda?

      D. Brites Quesado era uma formosíssima donzela de elevada fidalguia que vivia numa casa apalaçada na Rua da Bandeira, em Viana do Castelo. Devido à sua extrema beleza, recebia propostas de casamento de todo o Reino e do estrangeiro. No entanto, ela apaixonou-se por D. Lopo da Rocha, um jovem nobre e de belos sentimentos que, infelizmente, não tinha a simpatia dos pais dela, pois estes preferiam casá-la com o seu primo, D. João de Alvim.

02 – Durante a conversa no varandim, como D. João de Alvim revelou que tinha descoberto o segredo de D. Brites e qual foi a reação dela?

      D. João revelou, com ironia e amargura, que no dia anterior, ao pôr do sol, tinha visto e escutado às escondidas o encontro entre D. Brites e D. Lopo da Rocha naquele mesmo varandim. Inicialmente, D. Brites tentou gracejar, mas ao perceber a gravidade da situação, assumiu uma postura altiva e de dignidade ofendida, criticando o primo por "escutar às portas" e reafirmando com firmeza o seu amor por D. Lopo.

03 – Que obstáculos D. Lopo e D. Brites enfrentavam para comunicar e como conseguiram contorná-los na festa de aniversário da jovem?

      Os jovens mal podiam falar, limitando-se a trocar olhares apaixonados e algumas cartas, porque D. João de Alvim e os pais da donzela agiam como sentinelas vigilantes. Na festa de aniversário de D. Brites, D. Lopo foi convidado por ser muito estimado na corte, mas passou a noite isolado dela. Só no fim do sarau, já ao amanhecer, é que ele conseguiu encontrar um momento a sós com ela num recanto do salão, perto do varandim.

04 – Qual foi o juramento solene feito por D. Brites a D. Lopo e que pressentimento motivou esse pedido?

      D. Brites declarou a D. Lopo que ele levava a sua alma inteira e jurou: "Viva ou morta pertencer-vos-ei para sempre! Seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na Eternidade". Este juramento foi motivado por um estranho e repentino pressentimento de morte e despedida que assaltou o coração de D. Lopo, deixando-o pálido e com a necessidade urgente de fixar o olhar da sua amada uma última vez.

05 – Descreva como se desencadeou o confronto físico entre D. João de Alvim e D. Lopo da Rocha no pátio do palacete.

      Ao descer a escadaria do pátio para ir embora, D. Lopo esbarrou com D. João, que estava embuçado (disfarçado com uma capa). D. João insultou-o, chamando-o de "vilão" por cortejar uma fidalguia rica às escondidas dos pais. D. Lopo respondeu à altura e, sem que tivesse tempo de desembainhar a espada ou pôr-se em guarda, foi traiçoeiramente atacado por D. João com uma estocada no peito, motivada por puro desejo de vingança.

06 – Como terminou o duelo entre os dois pretendentes e qual foi o desfecho imediato para ambos?

      Mesmo ferido de morte e sangrando abundantemente, D. Lopo reuniu as suas últimas forças ao ouvir o grito de desespero de D. Brites. Ele ergueu a espada e desferiu um golpe certeiro e mortal em D. João de Alvim. Com esse supremo esforço, D. Lopo acabou por cair prostrado imediatamente a seguir, morrendo os dois rivais lado a lado no pátio.

07 – O que aconteceu a D. Brites após a tragédia e de que forma a lenda perpetua a sua história em Viana do Castelo?

      Diante do cenário macabro da morte do seu grande amor, D. Brites enlouqueceu de dor. Ela recusava-se a largar o corpo de D. Lopo e passou a repetir obsessivamente o seu juramento de amor. A jovem adoeceu e morreu pouco tempo depois, desgastada pelo sofrimento. A lenda perpetua a sua história afirmando que, até aos dias de hoje, a alma de D. Brites continua a errar altas horas da noite por aquela casa apalaçada na Rua da Bandeira.

 

 

MINICONTO: A HORTA DO ESTEVES - AUTOR DESCONHECIDO - COM GABARITO

 Miniconto: A horta do Esteves

        Dois coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor Esteves.

        -- Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... – dizia o coelho mais novo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIaX5YKHcnMlQ-lkq9JcJhlfW9s0VCGkpSfMDbW4B-DuCrwJ4Yr7d9BYR0Mhoegx0Ya3ehcpFZ8g4Td-LL-SyaAWu6ZHBXsE6q-BBsdun1UJw1Pzwh8Rp3v9D8kWRhzRZBYvMN2J9eg1ZD3Ox7-i7gEy8ZOQh6jf9hPhKIJv3rcL2oza7pEdE2MUrhdHc/s320/horta.jpg


        -- Mas não te chegues – aconselhava-o o coelho mais velho. – O Esteves, se te apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.

        -- Uma folha só, que mal faz? – dizia o mais novo.

        E ia-se chegando para a horta.

        -- Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras – gritava-lhe, já de longe, o coelho mais velho. – Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo, de recordação, um chumbo na perna.

        Mas o coelho mais novo já não o ouviu.

        O mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.

        -- A espingarda do Esteves – exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada com ele.

        Não correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num brejo, esperou.

        O amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco, entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.

        -- Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos – dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as feridas.

        O coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.

        -- Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? – perguntou o mais velho, a fingir indiferença.

        -- Mal provei – suspirou o coelhinho

        -- O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava um coelho que avisasse os mais novos – concluiu o velho coelho e concluiu muito bem.

Autor desconhecido.

Entendendo o miniconto:

 

01 – O que desencadeou o conflito no miniconto e qual era a posição de cada um dos coelhos no início da narrativa?

      O conflito foi desencadeado pela tentação do coelho mais novo em entrar na horta do senhor Esteves, atraído pela beleza das couves e pelo aspeto apetitoso das alfaces. No início, as posições eram opostas: o coelho mais novo demonstrava ingenuidade e impulsividade, minimizando o perigo, enquanto o coelho mais velho agia com prudência e sensatez, mantendo uma distância segura e aconselhando o jovem a não se aproximar.

02 – Que argumento de autoridade e experiência pessoal o coelho mais velho utilizou para tentar travar o mais novo?

      O coelho mais velho partilhou uma experiência do seu próprio passado, revelando que, quando tinha a idade do mais novo, cedeu à mesma tentação e acabou por ser baleado pelo agricultor. Como prova real do perigo, ele mencionou que ainda guardava, como recordação dolorosa, um chumbo alojado na perna.

03 – O que o coelho mais velho imaginou que pudesse ter acontecido ao seu jovem companheiro logo após ouvir o estampido da espingarda?

      Enquanto estava escondido num brejo, o coelho mais velho imaginou dois cenários dramáticos: no melhor deles, o amigo teria conseguido escapar por pouco; no pior, o jovem já estaria morto, a ser esfolado pelo senhor Esteves para acabar cozinhado numa panela, fazendo parte de um refogado com cebola e azeite.

04 – Como se pode interpretar a pergunta final do coelho mais velho ("as alfaces eram tão tenras como parecem?") e o que ela revela sobre a natureza dos coelhos?

      A pergunta, feita "a fingir indiferença", revela que, apesar de toda a sua sabedoria e prudência adquiridas com a idade, o coelho mais velho ainda sentia a mesma tentação e curiosidade em relação aos frutos proibidos da horta. Isso demonstra que o desejo pelas hortaliças é intrínseco à natureza dos coelhos, e que a única diferença entre o jovem e o velho é a capacidade de autocontrolo gerada pelo medo do castigo.

05 – Explique a conclusão do coelho mais velho: "O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria..."

        O coelho velho concluiu que a sobrevivência de ambos se devia à má pontaria do senhor Esteves. Se o agricultor fosse um atirador exímio, teria matado o coelho mais velho no passado e o mais novo no presente. Graças aos tiros de raspão do Esteves, o coelho velho sobreviveu para aconselhar os jovens e o coelho novo sobreviveu para, no futuro, poder passar a mesma lição de prudência às próximas gerações.

 

 

FÁBULA: A FAIA E A CANANOURA - ESOPO - COM GABARITO

 Fábula: A Faia e a Cananoura

 

        A Faia alta e direita não queria dobrar-se ao vento, antes vendo a Cananoura que se meneava facilmente, a aconselhava que estivesse tesa, sem dobrar-se. Respondeu a Cananoura:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvqVUiE5blTeee99xeJ8ypf0VqA5zRN2M031LYO4Wc_B1BltTvSEquhqRnJTLDzjio08SnnErWdOo0JBviaz7c3N90bRW_cAU0Y5BK2aWLGK_q_aGjbwkyPWfw0p8bTi_uf5p-J4uFAnhVm6aKyiVp4pdFzyJTrknyl_-uSMgP75cuj5MKpDHno2-byiw/s320/Faia.jpg


        -- Tu podes resistir e eu não, que não tenho raízes compridas, nem sou forte como tu és.

        Dizendo isto, veio um pé de vento com braveza, que arrancou a Faia com raízes e tudo; mas a Cananoura, que se dobrou, ficou em pé.

 

Moral da fábula: A importância do autoconhecimento.


Fábulas de Esopo.

Entendendo a fábula:

 

01 – Qual era o conselho que a faia dava à cananoura e qual era a justificativa para essa atitude?

      A faia aconselhava a cananoura a manter-se tesa, firme e sem se dobrar perante o vento. A faia agia assim porque confiava na sua própria estrutura física, por ser uma árvore alta, direita e forte, acreditando que a rigidez era a melhor forma de enfrentar as adversidades.

02 – De que forma a resposta da cananoura demonstra que ela possuía uma qualidade que faltava à faia?

      A resposta da cananoura demonstra que ela possuía autoconhecimento e humildade. Ao reconhecer que não tinha raízes compridas nem a força da faia, ela assumiu as suas fraquezas biológicas. Essa consciência permitiu-lhe adotar uma estratégia de sobrevivência baseada na flexibilidade, enquanto a faia, por orgulho e ignorância das suas limitações face a uma força maior, preferiu a rigidez.

03 – O que aconteceu a cada uma das plantas quando o "pé de vento com braveza" atingiu o local?

      A faia, que se recusou terminantemente a ceder e a dobrar-se, acabou por ser arrancada do solo com raízes e tudo pela força do vento. Por outro lado, a cananoura, que se inclinou e acompanhou o movimento do vento com facilidade, conseguiu resistir à tempestade e permaneceu em pé após o perigo passar.

04 – Como o desfecho da fábula ilustra o contraste entre o conceito de força bruta e o conceito de adaptabilidade?

      O desfecho mostra que a força bruta e a rigidez (representadas pela faia) parecem invencíveis à primeira vista, mas tornam-se frágeis e quebram quando enfrentam um poder superior. Em contrapartida, a adaptabilidade e a maleabilidade (representadas pela cananoura) provam ser muito mais eficazes para a sobrevivência, já que ceder temporariamente não significa derrota, mas sim uma forma inteligente de preservação.

05 – Explique como o comportamento das personagens se relaciona diretamente com a moral da história: "A importância do autoconhecimento."

      A fábula liga-se à moral mostrando que o autoconhecimento salva vidas. A cananoura conhecia os seus limites e, por saber que era frágil, usou a flexibilidade a seu favor e sobreviveu. Já a faia carecia de autoconhecimento real: ela julgava-se inabalável devido à sua altura e porte, mas não soube avaliar que o vento podia ser mais forte do que as suas raízes. A falta de noção sobre si mesma e sobre o ambiente levou à sua destruição total.