Miniconto: A horta do Esteves
Dois
coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor
Esteves.
--
Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... – dizia o coelho mais
novo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIaX5YKHcnMlQ-lkq9JcJhlfW9s0VCGkpSfMDbW4B-DuCrwJ4Yr7d9BYR0Mhoegx0Ya3ehcpFZ8g4Td-LL-SyaAWu6ZHBXsE6q-BBsdun1UJw1Pzwh8Rp3v9D8kWRhzRZBYvMN2J9eg1ZD3Ox7-i7gEy8ZOQh6jf9hPhKIJv3rcL2oza7pEdE2MUrhdHc/s320/horta.jpg --
Mas não te chegues – aconselhava-o o coelho mais velho. – O Esteves, se te
apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.
--
Uma folha só, que mal faz? – dizia o mais novo.
E
ia-se chegando para a horta.
--
Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras – gritava-lhe, já de longe, o
coelho mais velho. – Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo,
de recordação, um chumbo na perna.
Mas
o coelho mais novo já não o ouviu.
O
mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.
--
A espingarda do Esteves – exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada
com ele.
Não
correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num
brejo, esperou.
O
amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco,
entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do
refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem
os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o
aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.
--
Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos –
dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as
feridas.
O
coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.
--
Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? – perguntou o mais
velho, a fingir indiferença.
--
Mal provei – suspirou o coelhinho
--
O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava
um coelho que avisasse os mais novos – concluiu o velho coelho e concluiu muito
bem.
Autor desconhecido.
Entendendo o miniconto:
01 – O que desencadeou o conflito no miniconto
e qual era a posição de cada um dos coelhos no início da narrativa?
O conflito foi desencadeado pela tentação do coelho mais novo
em entrar na horta do senhor Esteves, atraído pela beleza das couves e pelo
aspeto apetitoso das alfaces. No início, as posições eram opostas: o coelho
mais novo demonstrava ingenuidade e impulsividade, minimizando o perigo,
enquanto o coelho mais velho agia com prudência e sensatez, mantendo uma
distância segura e aconselhando o jovem a não se aproximar.
02 – Que argumento de autoridade e experiência
pessoal o coelho mais velho utilizou para tentar travar o mais novo?
O coelho mais velho partilhou uma experiência do seu próprio
passado, revelando que, quando tinha a idade do mais novo, cedeu à mesma
tentação e acabou por ser baleado pelo agricultor. Como prova real do perigo,
ele mencionou que ainda guardava, como recordação dolorosa, um chumbo alojado
na perna.
03 – O que o coelho mais velho imaginou que
pudesse ter acontecido ao seu jovem companheiro logo após ouvir o estampido da
espingarda?
Enquanto estava escondido num brejo, o coelho mais velho
imaginou dois cenários dramáticos: no melhor deles, o amigo teria conseguido
escapar por pouco; no pior, o jovem já estaria morto, a ser esfolado pelo
senhor Esteves para acabar cozinhado numa panela, fazendo parte de um refogado
com cebola e azeite.
04 – Como se pode interpretar a pergunta final
do coelho mais velho ("as alfaces eram tão tenras como parecem?") e o
que ela revela sobre a natureza dos coelhos?
A pergunta, feita "a fingir indiferença", revela
que, apesar de toda a sua sabedoria e prudência adquiridas com a idade, o
coelho mais velho ainda sentia a mesma tentação e curiosidade em relação aos
frutos proibidos da horta. Isso demonstra que o desejo pelas hortaliças é
intrínseco à natureza dos coelhos, e que a única diferença entre o jovem e o
velho é a capacidade de autocontrolo gerada pelo medo do castigo.
05 – Explique a conclusão do coelho mais velho:
"O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria..."
O coelho velho concluiu que a sobrevivência de ambos se devia
à má pontaria do senhor Esteves. Se o agricultor fosse um atirador exímio,
teria matado o coelho mais velho no passado e o mais novo no presente. Graças
aos tiros de raspão do Esteves, o coelho velho sobreviveu para aconselhar os
jovens e o coelho novo sobreviveu para, no futuro, poder passar a mesma lição
de prudência às próximas gerações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário