Conto: Lenda do Trágico Juramento
Esta
lenda leva-nos a Viana do Castelo, e mais precisamente a uma casa apalaçada da
Rua da Bandeira. Foi isto em tempos que já lá vão, quando nessa casa vivia uma
formosíssima donzela chamada Brites Quesado. Não existia entre Douro e Minho
quem a igualasse em beleza e fidalguia. As propostas de casamento vinham de
todos os cantos do Reino e mesmo de além fronteiras. Todavia, entre tantos
pretendentes, D. Brites distinguiu Lopo da Rocha, moço esbelto de elevada
estirpe e belos sentimentos, mas que não gozava da simpatia dos pais da
donzela. Estes empenhavam-se, por seu turno, em desposá-la com seu primo João
de Alvim.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiX7lVhx0s5kMToKQdeFcaEgfm5OucmDwwD85HrQQoFe_J2DKJrCd2xpqpDuKfbqls5hGs4ojVWBJwel2kAS4qVGM_BzS0u5YL8928K9PAiFJtACXZh4rFmXavDKQMgsddqmS_r9SaKi-LsEKqH9YqRDp-Ymbq54pIw4qcdCUI6Cx_Yq6Vhgaq4xC7lfvc/s320/lenda.jpg Tanto
D. Lopo como D. João amavam sinceramente a jovem D. Brites, e sofriam com
receio do futuro.
Certa
tarde, estava ela a bordar no varandim cuja escada dava para o pátio. O seu
pensamento andava distante do bordado. De súbito, uma voz máscula soou mesmo a
seu lado. Ela teve um gritinho e exclamou:
—
Assustastes-me, senhor meu primo!
—
Lamento profundamente. Daria metade dos meus troféus para vos dar apenas
alegrias.
A
jovem sorriu. Um sorriso enigmático. Tão enigmático como a sua frase:
—
Senhor D. João... está na vossa mão, creio, cumprir esse desejo...
D.
João de Alvim tomou-se circunspecto.
—
Senhora minha prima! Se basta a minha presença para vos assustar... como
ousarei esperar de vós a felicidade?
Voltou
a jovem a sorrir. Murmurou como se fosse para si mesma:
— Felicidade! Ninguém ainda a viu… mas
existe, pois que alguns a sentem!
—
Por exemplo, vós, não é verdade?
Abriu-se
mais o sorriso de D. Brites. Adoçou-se a sua expressão.
—
Na verdade, não devo queixar-me da minha sorte.
Tornou-se subitamente dura a expressão de
D. João de Alvim. A sua voz tomou reflexos de ironia.
—
Não deveis queixar-vos, principalmente desde ontem ao pôr do Sol!
D.
Brites mostrou-se surpreendida.
—
Que quereis dizer, senhor?
Ele
tornou:
—
Ontem... ao pôr do Sol... vi e ouvi, senhora minha prima!
Ela
tentou gracejar.
—
Creio que continuais a ver e ouvir...
D.
João enervou-se.
—
Mas vi o que não queria e ouvi o suficiente para ficar com a alma em noite
escura.
—
Sim? E o que ouvistes?
—
Lopo da Rocha, que vos surpreendeu neste mesmo lugar sem que vos assustasses.
D.
Brites ficou subitamente séria. Olhou o primo de frente, interrogando-o com dignidade
ofendida:
—
Desde quando o senhor meu primo aprendeu a escutar às portas?
Sem
se mostrar ofendido, D. João de Alvim replicou:
—
Desde que os meus olhos tiveram a desgraça de pousar nos vossos!
A
jovem não mostrou surpresa por essa afirmação. Perguntou, altiva:
—
E que pretendeis de mim?
D.
João tornou, também numa atitude de dignidade:
—
Senhora, sou vosso primo! E vossos pais dão-me a honra de me confiarem o seu
maior tesouro...
D.
Brites interrompeu-o:
—
Porém... o tesouro de que falais já não lhes pertence inteiramente. Dei o meu
coração!
O
fidalgo enervou-se. Alteou a voz.
—
Persistis nessa loucura?
Serenamente,
a jovem declarou:
—
Se loucura é amar um moço fidalgo que por sua grandeza de alma sonha conquistar
o meu coração, declaro-vos que amo essa loucura!
D.
João empalideceu. Inclinou-se numa vénia para esconder todo o desespero que o
dominava e declarou convicto:
—
Pois bem, senhora! Retiro-me por agora... mas não desistirei!
D.
Brites estendeu-lhe a mão que ele mal tocou.
—
D. João! Quero recordar-vos que sou das que têm um só parecer.
E
um único amor! Retirai-vos, pois, na certeza de que amarei apenas a D. Lopo!
Levantou-se
e, com uma vénia, entrou no salão onde o crepúsculo marcara audiência.
D.
João de Alvim, pálido, trémulo de desespero, ficou ainda algum tempo no
varandim. Depois, afastou-se a passos largos.
Alguns
meses passaram. A fidalguinha via muitas vezes o eleito do seu coração. Porém,
apenas podia trocar com ele, além de apaixonados olhares, uma ou outra missiva,
porque seu primo João de Alviin, com o acordo dos pais de D. Brites, parecia
sentinela vigilante.
Chegou o dia dos anos da jovem. No palacete
foi oferecida uma linda festa. Vieram fidalgos de todo o reino. Havia música,
flores e alegria por toda a parte. E entre os fidalgos convidados, com grande
surpresa da jovem fidalga, surgiu também Lopo da Rocha. Era bem visto e
estimado entre os maiores e seria notada a sua falta.
D.
Lopo estava na festa. Mas D. João e os pais de D. Brites conseguiam tê-la
sempre isolada do jovem fidalgo a quem ela tanto queria. Somente já no fim do
sarau e nos alvores do dia seguinte D. Lopo da Rocha conseguiu encontrar-se com
D. Brites num recanto do salão, junto ao varandim que dava para o pátio.
Tomou-lhe uma das mãos, que beijou com ternura. A sua voz soou repassada de
emoção:
—
Meu amor! Julguei sonhar toda esta noite! Fitai uma vez mais os vossos olhos
nos meus! Tal como o nadador que antes de mergulhar enche os pulmões de ar
puro, assim eu pretendo armazenar no coração o olhar da mulher a quem tanto
amo!
Enleada,
D. Brites corou de felicidade.
—
Meu bem-amado! Falais com tanto ardor, tanto carinho!... Que mais posso eu
dizer-vos do que isto: levais convosco a minha alma inteira! Viva ou morta
pertencer-vos-ei para sempre!
—
Jurais?
Ela
olhou-o perplexa. Como se tivesse pressa da resposta, ele insistiu:
—
Jurais que cumprireis o que me dissestes?
Ainda
surpreendida pelo tom de voz e pela palidez repentina do rosto do seu
bem-amado, ela afirmou:
—
Juro, meu amor! Viva ou morta, serei sempre vossa. Seguirei sempre a vossa
sorte no mundo e na Eternidade. Porém, dizei-me: porque empalidecestes?
Ele
suspirou:
—
Senhora! Não sei que estranho pressentimento me assalta! Mas agora estou mais
sossegado.
Olhava-a
com tanta intensidade que ela baixou o olhar. Mas o jovem insistiu:
—
Não… não escondais os vossos olhos bonitos sob as pálpebras! Quero ver o brilho
do vosso olhar a projectar-se no meu. Assim… assim mesmo... Levo-vos na
alma!... Adeus, meu anjo!... Hei-de amar-vos mesmo para além da minha morte!
Beijou-lhe
uma das mãos, mais uma vez, com ternura. Depois saiu do salão, desceu a
escadaria que levava ao pátio, e preparava-se para se afastar quando esbarrou
com um embuçado. O desconhecido gritou-lhe:
— Cautela, vilão!
Pela
voz, D. Lopo reconheceu o embuçado. E sem dar mostras de surpresa ripostou-lhe:
—
Enganais-vos, senhor D. João de Alvim! Vilão sois vós, que injuriais quem vos
não ofendeu!
D.
João descobriu-se. Replicou colérico:
—
São vilões os que fazem vilanias requestando fidalgas ricas às escondidas de
seus pais!
Cerrando
os dentes, D. Lopo perguntou:
—
É uma provocação, o que procurais?
—
Não! É uma vingança!
E
sem dar tempo a que D. Lopo se pusesse em guarda, D. João desferiu uma estocada
ao peito do seu rival.
Nesse
mesmo instante, D. Brites, que assistira à cena, gritou no auge do desespero:
—
Lopo! Defendei-vos, senão morrereis!
Com
uma das mãos na espada, outra no peito donde o sangue corria, D. Lopo tentou
falar.
—
Brites... afastai-vos, meu anjo!
D.
João gracejou:
—
Na verdade chegais tarde, minha prima, pois já matei o vosso bem-amado!
Num
assomo de energia, D. Lopo ergueu a espada. E vibrando um golpe certeiro no
rival rouquejou:
—
Mais uma vez vos enganastes, senhor D. João! Como vedes, ainda não morri!
Com
o supremo esforço que fizera, D. Lopo não resistiu. Caiu prostrado, junto do
corpo do seu rival.
D.
Brites soltou um grito estridente. Depois, chorando, suplicava, ajoelhada junto
de D. Lopo:
—
Meu amor! Vivei! Vivei só para mim!
Porém,
D. Lopo já não a ouvia neste mundo. Do salão começou a correr gente. Ante o
quadro macabro que se lhes oferecia, as senhoras desmaiavam, e os homens
rodeavam os cadáveres dos dois jovens fidalgos, tentando levá-los dali.
Debruçada sobre um deles, a jovem Brites não consentia que a separassem do seu
bem-amado. Gritava, dizia incoerências... Chorava como uma criança, ou
ficava-se como fera pronta a saltar sobre o caçador que lhe põe em perigo a
cria. Compreenderam então que a jovem fidalga havia enlouquecido. Só com muito
esforço conseguiram arrancá-la do pátio. A sua loucura era das que não mais
encontram alívio. Desfazia-se em choros, em lamentos, e repetia a jura mil
vezes jurada:
—
Viva ou morta serei sempre vossa! E seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na
Eternidade!
Pouco
tempo durou a que fora a formosa D. Brites. Morreu cansada de sofrer, de se
lamentar... E conta a lenda velhinha que a alma de D. Brites continua a errar
por ali, altas horas da noite, naquela casa apalaçada da rua da Bandeira, em
Viana do Castelo.
Gentil Marques - Viana do Castelo.
Entendendo o conto:
01 – Quem era D. Brites Quesado e como se
caracterizava a sua situação amorosa no início da lenda?
D. Brites Quesado era uma formosíssima donzela de elevada
fidalguia que vivia numa casa apalaçada na Rua da Bandeira, em Viana do Castelo.
Devido à sua extrema beleza, recebia propostas de casamento de todo o Reino e
do estrangeiro. No entanto, ela apaixonou-se por D. Lopo da Rocha, um jovem
nobre e de belos sentimentos que, infelizmente, não tinha a simpatia dos pais
dela, pois estes preferiam casá-la com o seu primo, D. João de Alvim.
02 – Durante a conversa no varandim, como D.
João de Alvim revelou que tinha descoberto o segredo de D. Brites e qual foi a
reação dela?
D. João revelou, com ironia e amargura, que no dia anterior,
ao pôr do sol, tinha visto e escutado às escondidas o encontro entre D. Brites
e D. Lopo da Rocha naquele mesmo varandim. Inicialmente, D. Brites tentou
gracejar, mas ao perceber a gravidade da situação, assumiu uma postura altiva e
de dignidade ofendida, criticando o primo por "escutar às portas" e
reafirmando com firmeza o seu amor por D. Lopo.
03 – Que obstáculos D. Lopo e D. Brites
enfrentavam para comunicar e como conseguiram contorná-los na festa de
aniversário da jovem?
Os jovens mal podiam falar, limitando-se a trocar olhares
apaixonados e algumas cartas, porque D. João de Alvim e os pais da donzela
agiam como sentinelas vigilantes. Na festa de aniversário de D. Brites, D. Lopo
foi convidado por ser muito estimado na corte, mas passou a noite isolado dela.
Só no fim do sarau, já ao amanhecer, é que ele conseguiu encontrar um momento a
sós com ela num recanto do salão, perto do varandim.
04 – Qual foi o juramento solene feito por D.
Brites a D. Lopo e que pressentimento motivou esse pedido?
D. Brites declarou
a D. Lopo que ele levava a sua alma inteira e jurou: "Viva ou morta
pertencer-vos-ei para sempre! Seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na
Eternidade". Este juramento foi motivado por um estranho e repentino
pressentimento de morte e despedida que assaltou o coração de D. Lopo,
deixando-o pálido e com a necessidade urgente de fixar o olhar da sua amada uma
última vez.
05 – Descreva como se desencadeou o confronto
físico entre D. João de Alvim e D. Lopo da Rocha no pátio do palacete.
Ao descer a escadaria do pátio para ir embora, D. Lopo
esbarrou com D. João, que estava embuçado (disfarçado com uma capa). D. João
insultou-o, chamando-o de "vilão" por cortejar uma fidalguia rica às
escondidas dos pais. D. Lopo respondeu à altura e, sem que tivesse tempo de
desembainhar a espada ou pôr-se em guarda, foi traiçoeiramente atacado por D.
João com uma estocada no peito, motivada por puro desejo de vingança.
06 – Como terminou o duelo entre os dois
pretendentes e qual foi o desfecho imediato para ambos?
Mesmo ferido de morte e sangrando abundantemente, D. Lopo
reuniu as suas últimas forças ao ouvir o grito de desespero de D. Brites. Ele
ergueu a espada e desferiu um golpe certeiro e mortal em D. João de Alvim. Com
esse supremo esforço, D. Lopo acabou por cair prostrado imediatamente a seguir,
morrendo os dois rivais lado a lado no pátio.
07 – O que aconteceu a D. Brites após a
tragédia e de que forma a lenda perpetua a sua história em Viana do Castelo?
Diante do cenário macabro da morte do seu grande amor, D.
Brites enlouqueceu de dor. Ela recusava-se a largar o corpo de D. Lopo e passou
a repetir obsessivamente o seu juramento de amor. A jovem adoeceu e morreu
pouco tempo depois, desgastada pelo sofrimento. A lenda perpetua a sua história
afirmando que, até aos dias de hoje, a alma de D. Brites continua a errar altas
horas da noite por aquela casa apalaçada na Rua da Bandeira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário