Conto: História de Hefestos
Domício Proença Filho
“Não sei falar bonito. Sou um deus do
povo. Sou Hefestos, o metalúrgico. Fiquei até escabreado, o senhor não duvide,
quando me pediu para falar de mim. Que que é isso, gente fina? Deixe eu ficar
aqui tranquilão, na minha forja! Fale com os outros deuses. O pessoal aí, estão
loucos para inventar histórias”.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBxwi8AC_11EF3yxwJaPKusI3sSvK-Gr8UN9N3pT1Qw-49XiTCZ9qmvQQI4Ggc5NUnwBnSCDZvd1sK75PeYylDNUxm_OK1ur0G2vkjKUkKtHc44Kv6SBpnvT2eUSQobAusm4VNQUwwKgY7Ji2QPRrcyKqdkMFnI9v3PiuZ4e5S1Gs_LgKsujkyvy0A-Pc/s320/Vulcan_Coustou_Louvre_MR1814.jpg Esse deus, que personifica o brilho do
raio e o fogo devorador e produtivo, foi rejeitado pela mãe por ser feio e
coxo. Mais tarde, preparou uma vingança contra ela. assim como na introdução, o
narrador conversa com um interlocutor imaginário, que pode ser o próprio
leitor.
“Deu-se que, fazia tempo, eu pensava em
me vingar da minha mãe. O que ela fez comigo não se faz com ninguém, muito
menos com um filho. Aquilo me roía o fígado. Eu sabia que a mulher de Zeus era
muito presunçosa, cheia de vaidades. Então forjei o mais deslumbrante trono de
ouro que o senhor possa imaginar. Pus nele todo o meu talento de construção,
linhas certas, leves, uma harmonia única na peça toda, um adorno no centro do
encosto trabalhadíssimo, filigranado, com a figura de um cuco estilizado, ficou
uma figura fantástica. Mandei para o Olimpo como um presente, mas sem dizer
para quem. Se o senhor ainda não sabe, vai ficar sabendo: eu conheço muito
segredo da magia e da feitiçaria. Aprendi nas estradas de minha vida
claudicante. Não deu outra coisa: Hera não demorou mais que uma frase para
sentar-se na peça, o trono é meu, cheia de orgulho. Ficou maravilhada. Por
causa de minhas artes, ela só sentia, naquele instante, o delírio do poder e da
glória. E reinava diante dos basbaques dos seus súditos. Foi até meio
engraçado. Ficou todo mundo paradão, olhando pra ela, e ela sorrindo, sorrindo.
Mas mesmo a contemplação acaba cansando. O pessoal foram ficando com sono e se
retiraram no fim da noite. Hera, ali, nem se deu conta de que era uma deusa só,
naquela escuridão, embevecida com a luminosidade que saía da cadeira real. De
repente, tenta levantar. Claro que não consegue. Meu presente estava encantado.
Era minha vingança. Ela ficaria ali sentada para sempre, por toda a
eternidade”.
PROENÇA FILHO, Domício.
Estórias da mitologia – o cotidiano dos deuses. Rio de Janeiro, Leviatã, 1994.
p. 198-199.
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 118-119.
Entendendo o conto:
01
– No início do texto, Hefestos afirma: "Não sei falar bonito. Sou um deus
do povo. Sou Hefestos, o metalúrgico." Explique como a linguagem utilizada
pelo personagem ao longo do conto reforça essa autoimagem de "deus do
povo".
A linguagem de
Hefestos reforça sua identidade popular por meio do uso de marcas da oralidade,
gírias e desvios da norma-padrão da língua. Expressões como "tranquilão,
na minha forja", "Que que é isso, gente fina?", "Ficou todo
mundo paradão" e a falta de concordância em "O pessoal aí, estão
loucos" e "O pessoal foram ficando" aproximam a divindade do
falar cotidiano do povo brasileiro, distanciando-o da erudição e da pompa
tradicionalmente associadas aos deuses olímpicos.
02
– A estrutura narrativa do conto simula uma situação de comunicação específica.
Como o narrador se posiciona em relação ao seu interlocutor e qual é o efeito
dessa escolha para o leitor?
O narrador-personagem
estabelece um diálogo com um interlocutor imaginário (que pode ser interpretado
como o próprio leitor), utilizando vocativos como "o senhor não
duvide" e "Se o senhor ainda não sabe". Essa escolha cria um tom
de conversa informal, como um desabafo ou uma linha de confidência, o que gera
maior proximidade, empatia e cumplicidade entre o leitor e o deus Hefestos.
03
– De acordo com o texto, qual foi a principal motivação de Hefestos para
planejar uma vingança contra sua mãe, Hera? O que essa motivação revela sobre o
passado do personagem?
A motivação de
Hefestos foi o fato de ter sido rejeitado por sua mãe logo ao nascer, devido à
sua aparência física (por ser considerado feio e coxo). Ele afirma que "o
que ela fez comigo não se faz com ninguém", revelando que guardava um
profundo rancor e mágoa por esse abandono originário, o qual "roía o seu
fígado" há muito tempo.
04
– Hefestos utiliza seus conhecimentos e habilidades de duas áreas distintas
para confeccionar e dar funcionalidade ao trono de ouro. Quais são essas áreas
e como cada uma delas atua no plano de vingança?
As duas áreas são
o seu talento na metalurgia (ou artesanato/construção) e o seu conhecimento em
feitiçaria (ou magia). O talento metalúrgico foi aplicado para criar um trono
de ouro deslumbrante, harmonioso e irrecusável, servindo como a
"isca" perfeita para atrair o orgulho de Hera. Já a feitiçaria,
aprendida em suas andanças, foi usada para encantar o trono, fazendo com que
Hera ficasse presa e impossibilitada de levantar assim que se sentasse.
05
– Explique de que maneira Hefestos se aproveita dos traços de personalidade de
sua mãe, Hera, para garantir que sua armadilha funcionasse perfeitamente.
Hefestos se
aproveita da presunção, da vaidade e do orgulho de Hera. Sabendo que ela era
extremamente vaidosa, ele enviou o trono ao Olimpo sem remetente, prevendo que
o ego da mãe a faria reivindicar o objeto imediatamente para si. De fato, ao
ver a riqueza do trono, ela assumiu o controle dizendo "o trono é
meu", sendo cegada pelo "delírio do poder e da glória" antes
mesmo de perceber que corria perigo.
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