sábado, 6 de junho de 2026

CONTO: HISTÓRIA DE HEFESTOS - DOMÍCIO PROENÇA FILHO - COM GABARITO

 Conto: História de Hefestos

         Domício Proença Filho

        “Não sei falar bonito. Sou um deus do povo. Sou Hefestos, o metalúrgico. Fiquei até escabreado, o senhor não duvide, quando me pediu para falar de mim. Que que é isso, gente fina? Deixe eu ficar aqui tranquilão, na minha forja! Fale com os outros deuses. O pessoal aí, estão loucos para inventar histórias”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBxwi8AC_11EF3yxwJaPKusI3sSvK-Gr8UN9N3pT1Qw-49XiTCZ9qmvQQI4Ggc5NUnwBnSCDZvd1sK75PeYylDNUxm_OK1ur0G2vkjKUkKtHc44Kv6SBpnvT2eUSQobAusm4VNQUwwKgY7Ji2QPRrcyKqdkMFnI9v3PiuZ4e5S1Gs_LgKsujkyvy0A-Pc/s320/Vulcan_Coustou_Louvre_MR1814.jpg


        Esse deus, que personifica o brilho do raio e o fogo devorador e produtivo, foi rejeitado pela mãe por ser feio e coxo. Mais tarde, preparou uma vingança contra ela. assim como na introdução, o narrador conversa com um interlocutor imaginário, que pode ser o próprio leitor.

        “Deu-se que, fazia tempo, eu pensava em me vingar da minha mãe. O que ela fez comigo não se faz com ninguém, muito menos com um filho. Aquilo me roía o fígado. Eu sabia que a mulher de Zeus era muito presunçosa, cheia de vaidades. Então forjei o mais deslumbrante trono de ouro que o senhor possa imaginar. Pus nele todo o meu talento de construção, linhas certas, leves, uma harmonia única na peça toda, um adorno no centro do encosto trabalhadíssimo, filigranado, com a figura de um cuco estilizado, ficou uma figura fantástica. Mandei para o Olimpo como um presente, mas sem dizer para quem. Se o senhor ainda não sabe, vai ficar sabendo: eu conheço muito segredo da magia e da feitiçaria. Aprendi nas estradas de minha vida claudicante. Não deu outra coisa: Hera não demorou mais que uma frase para sentar-se na peça, o trono é meu, cheia de orgulho. Ficou maravilhada. Por causa de minhas artes, ela só sentia, naquele instante, o delírio do poder e da glória. E reinava diante dos basbaques dos seus súditos. Foi até meio engraçado. Ficou todo mundo paradão, olhando pra ela, e ela sorrindo, sorrindo. Mas mesmo a contemplação acaba cansando. O pessoal foram ficando com sono e se retiraram no fim da noite. Hera, ali, nem se deu conta de que era uma deusa só, naquela escuridão, embevecida com a luminosidade que saía da cadeira real. De repente, tenta levantar. Claro que não consegue. Meu presente estava encantado. Era minha vingança. Ela ficaria ali sentada para sempre, por toda a eternidade”.

PROENÇA FILHO, Domício. Estórias da mitologia – o cotidiano dos deuses. Rio de Janeiro, Leviatã, 1994. p. 198-199.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 118-119.

Entendendo o conto:

01 – No início do texto, Hefestos afirma: "Não sei falar bonito. Sou um deus do povo. Sou Hefestos, o metalúrgico." Explique como a linguagem utilizada pelo personagem ao longo do conto reforça essa autoimagem de "deus do povo".

      A linguagem de Hefestos reforça sua identidade popular por meio do uso de marcas da oralidade, gírias e desvios da norma-padrão da língua. Expressões como "tranquilão, na minha forja", "Que que é isso, gente fina?", "Ficou todo mundo paradão" e a falta de concordância em "O pessoal aí, estão loucos" e "O pessoal foram ficando" aproximam a divindade do falar cotidiano do povo brasileiro, distanciando-o da erudição e da pompa tradicionalmente associadas aos deuses olímpicos.

02 – A estrutura narrativa do conto simula uma situação de comunicação específica. Como o narrador se posiciona em relação ao seu interlocutor e qual é o efeito dessa escolha para o leitor?

      O narrador-personagem estabelece um diálogo com um interlocutor imaginário (que pode ser interpretado como o próprio leitor), utilizando vocativos como "o senhor não duvide" e "Se o senhor ainda não sabe". Essa escolha cria um tom de conversa informal, como um desabafo ou uma linha de confidência, o que gera maior proximidade, empatia e cumplicidade entre o leitor e o deus Hefestos.

03 – De acordo com o texto, qual foi a principal motivação de Hefestos para planejar uma vingança contra sua mãe, Hera? O que essa motivação revela sobre o passado do personagem?

      A motivação de Hefestos foi o fato de ter sido rejeitado por sua mãe logo ao nascer, devido à sua aparência física (por ser considerado feio e coxo). Ele afirma que "o que ela fez comigo não se faz com ninguém", revelando que guardava um profundo rancor e mágoa por esse abandono originário, o qual "roía o seu fígado" há muito tempo.

04 – Hefestos utiliza seus conhecimentos e habilidades de duas áreas distintas para confeccionar e dar funcionalidade ao trono de ouro. Quais são essas áreas e como cada uma delas atua no plano de vingança?

      As duas áreas são o seu talento na metalurgia (ou artesanato/construção) e o seu conhecimento em feitiçaria (ou magia). O talento metalúrgico foi aplicado para criar um trono de ouro deslumbrante, harmonioso e irrecusável, servindo como a "isca" perfeita para atrair o orgulho de Hera. Já a feitiçaria, aprendida em suas andanças, foi usada para encantar o trono, fazendo com que Hera ficasse presa e impossibilitada de levantar assim que se sentasse.

05 – Explique de que maneira Hefestos se aproveita dos traços de personalidade de sua mãe, Hera, para garantir que sua armadilha funcionasse perfeitamente.

      Hefestos se aproveita da presunção, da vaidade e do orgulho de Hera. Sabendo que ela era extremamente vaidosa, ele enviou o trono ao Olimpo sem remetente, prevendo que o ego da mãe a faria reivindicar o objeto imediatamente para si. De fato, ao ver a riqueza do trono, ela assumiu o controle dizendo "o trono é meu", sendo cegada pelo "delírio do poder e da glória" antes mesmo de perceber que corria perigo.

 

 

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