domingo, 28 de junho de 2026

CONTO: CHUVA DE MAIO - ALBERTO MORÁVIA - COM GABARITO

 Conto: Chuva de maio

           Alberto Morávia

 

        Um dia desses voltarei a Monte Mario, na Taverna dos Caçadores, mas irei com amigos, aqueles do domingo, que tocam acordeão e, na falta de moças, dançam entre si. Sozinho, nunca teria coragem. De noite, às vezes, sonho com as mesas da taverna, com a chuva quente de maio caindo em cima da gente, as árvores encrespadas que gotejam sobre as mesas, e entre as árvores, no fundo, as nuvens brancas passando e, sob as nuvens, o panorama das casas de Roma. E parece que estou ouvindo a voz do taverneiro, Antônio Tocchi, como a ouvi naquela manhã, chamando da adega: – Dirce, Dirce.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbCAHub0FEcu6CBBtuKvewP_AkxHo71R8talIE4mwefmLoWaSsSB6KzZnPiyPcmnbvHQMkgy47gLcFMJ0IF31aiFLoXQPW55GntAGyYYfxYzE4HGU1kA0JHnZTljSdYR_0RBwKkT-53_8tQT99G0ilo_PW1etmrSGFJ2zki6TtFeMPFbeAkzAaOhyphenhyphenqGSE/s320/1c35c2944bba90093bf5a6307f76c220b067c65a.jpg


        E parece que o revejo me lançando um olhar de cumplicidade, antes de descer à adega, com aquele seu passo duro que ressoa nos degraus.

        Fora parar ali por acaso, vindo do interior; e quando me ofereceram para fazer as vezes de empregado, sem me pagar, pensei:

        -- Dinheiro não vou ter, mas pelo menos estarei em família.

        -- Mas que família qual nada, ao invés de família, encontrei o inferno. O taverneiro era gordo e redondo como uma bola de manteiga, mas de uma gordura má, ácida. Tinha uma cara larga, cinzenta, com muitas rugas finas em volta do rosto por causa da gordura e dois olhinhos pequenos, pontiagudos, iguais aos das cobras: sempre de jaleco e em mangas de camisa, com um bobo de pala cinza enterrado até os olhos.

        A filha Dirce, quanto ao caráter, não era melhor que o pai, dura ela também, maldosa, áspera; porém bonita: daquelas mulheres pequenas e musculosas, bem feitas, que caminham mexendo os quadris e batendo os pés, como que dizendo:

        -- Esta terra é minha.

        Tinha uma cara larga, de olhos negros e cabelos negros, pálida que parecia uma morta. Apenas a mãe, naquela casa, talvez fosse boa: uma mulher que devia ter uns quarenta anos e aparentava sessenta, magra, com um nariz de velha e os cabelos escorridos de velha, mas talvez fosse apenas abobada, pelo menos era a impressão que dava vê-la de pé diante do fogão com a cara toda repuxada num riso mudo; se se virava, a gente via que tinha um dente ou dois e só. A taverna se debruçava com uma tabuleta em arco, vermelho-sangue, com a inscrição: “Taverna dos Caçadores, proprietário Antônio Tocchi” em letras amarelas. Depois, por uma alameda, chegava-se às mesas, debaixo das árvores, diante do panorama de Roma. A casa era rústica, só paredes e quase sem janelas, coberta de telhas. 

        No verão era a melhor época, vinha gente de manhã até à meia-noite: famílias com crianças, casais de namorados, grupos de homens, e sentavam às mesas, bebiam vinho e comiam a comida dos Tocchi, admirando o panorama. Não tínhamos tempo de respirar: nós homens sempre servindo, as duas mulheres sempre cozinhando e lavando, e à noite estávamos arrebentados e íamos para a cama sem sequer nos olharmos.

        Mas no inverno, ou mesmo no verão, se chovia, começavam os problemas. Pai e filha se odiavam, mas odiar é dizer pouco, se matariam. O pai era autoritário, avarento, estúpido, e por um nadinha já ia avançando com as mãos, a filha era dura como uma pedra, fechada, sempre ela a dar a última palavra, arrogante. Odiavam-se, talvez, sobretudo, porque eram do mesmo sangue e, como se sabe, não há nada como o mesmo sangue para se odiar; mas se odiavam também por questões de interesse. A filha era ambiciosa: dizia que eles com aquele panorama de Roma tinham um capital a ser aproveitado e que o deixavam, ao contrário, entregue aos cachorros. Dizia que o pai deveria construir uma pista de cimento para dançar, contratar uma orquestra e pendurar balõezinhos venezianos, e transformar a casa em restaurante moderno e chamá-lo de Restaurante Panorama. Mas o pai não se atrevia, um pouco porque era avarento e inimigo das novidades, outro, porque era a filha que estava propondo, e ele preferia se deixar degolar que dar o braço a torcer à filha. 

        Os choques entre pai e filha ocorriam sempre à mesa: ela implicava, com maldade, ofendendo, contra alguma coisa de pessoal, contra o fato de que o pai, comendo, soltava um arroto, por exemplo, ele respondia com palavrões e xingos  a filha insistia; o pai dava-lhe um tapa. É preciso dizer que devia sentir algum prazer em esbofeteá-la, porque fazia uma certa cara, prendendo o lábio inferior com os dentes e piscando os olhos. Mas para a, filha aquele tapa era como água fresca numa flor: ficava verde de ódio e de maldade. Então o pai a agarrava pelos cabelos e lá vinha pancadaria. Caíam pratos e copos, sobrava também para a mãe que, de boba, ficava no meio, com aquele riso eterno na boca desdentada e eu, o coração cheio de veneno, saía e ia dar uma volta pela rua que leva a Camillucia.

        Teria ido embora há tempo se não tivesse me apaixonado pela Dirce.

        Não sou do tipo que se apaixona com facilidade, porque sou positivo e as palavras e os olhares não me encantam.

        Porém, quando uma mulher, em lugar de palavras e olhares, oferece a si mesma, inteirinha, em carne e osso e, ainda por cima, de surpresa, então o sujeito fica preso como numa armadilha, e quanto mais esforço faz para se soltar, mais se afundam os dentes da armadilha na carne. Dirce devia ter a intenção antes mesmo de me conhecer, eu ou outro qualquer para ela era a mesma coisa, porque, no dia de minha chegada, entrou de noite no meu quarto quando eu já dormia; e assim, entre o sono e a vigília, que quase eu não entendia se era sonho ou realidade, me fez passar repentinamente da indiferença à paixão. Não houve entre nós nem conversas, nem olhares, nem toques de mão, nem todos os demais subterfúgios a que recorrem os namorados para dizer que se amam; ao contrário, foi como com uma mulher de rua, das baratas. Só que a Dirce não era uma mulher de rua e até passava por virtuosa e cheia de orgulho, e essa diferença foi para mim, justamente, a armadilha em que fiquei preso.

        Tenho gênio paciente, razoável, mas também sou violento e, se me espicaçam, o sangue me sobe à cabeça facilmente. Dá para ver pelo físico: loiro, com o rosto pálido, mas basta um nada para que se torne escarlate. Ora, Dirce vivia me espicaçando e logo entendi por que: queria que me pusesse contra seu pai.

        Dizia que eu era um patife por tolerar que em minha presença seu pai a esbofeteasse e depois a agarrasse pelos cabelos e até, como aconteceu uma vez, a jogasse no chão e lhe desse pontapés. E não digo que não tivesse razão: éramos amantes e devia defendê-la. Mas eu sabia que seu objetivo era outro e entre a raiva que me dava aquele insulto de patife e a raiva de saber que dizia de propósito, eu não dava mais conta.

        Depois, um belo dia mudou de conversa: como seria bonito se pudéssemos nos casar e montar o Restaurante Panorama, eu e ela, sozinhos. Tornara-se boazinha, gentil, amorosa, doce. Foi essa a melhor época do nosso amor; mas eu não mais a reconhecia e pensava: aqui tem coisa. E de fato, de repente, mudou a toada pela terceira vez e disse que, casados ou não casados, não podíamos esperar nada enquanto existisse o pai, e, resumindo, me disse abertamente: devíamos matá-lo. Foi como na primeira noite que entrou no meu quarto, sem preparo nem fingimentos: jogou a proposta ali e foi embora para eu pensar nela sozinho.

        No dia seguinte disse-lhe que estava enganada se achava que ia ajudá-la numa coisa como aquela e ela me respondeu que nesse caso eu fosse tratando de ir logo embora porque para ela eu não existia mais. E manteve a palavra porque desde aquele dia nem sequer me olhava. Quase não nos falávamos e por tabela comecei a odiar o pai porque achava que a culpa era dele.

        Por coincidência, naquela época, o pai aprontava uma todos os dias e parecia que aprontava de propósito para se fazer odiar. Era maio que é a boa estação e as pessoas vêm à taverna para tomar vinho e comer fava fresca; mas, ao contrário, só dava pancada de chuva naquele campo verde e denso, à taverna nem cachorro vinha e ele ficava sempre de mau humor.

        Uma manhã, à mesa, ele afastou o prato, dizendo:

        -- É de propósito que você me dá esta nojeira de sopa grudenta.

        E ela:

        -- Se fosse de propósito, teria posto veneno nela.

        Ele olha para ela e dá-Ihe um tapa, que faz seu pente saltar longe. Estávamos quase no escuro por causa da chuva e o rosto da Dirce naquele escuro era branco e duro como o mármore, com os cabelos que de um dos lados, onde se soltara o pente, se desmanchavam bem devagarinho, iguais a serpentes acordando.

        Eu disse ao Tocchi:

        -- Quer parar com isso de uma vez?

        Ele respondeu:

        -- Não se meta.

        Mas estarrecido porque era a primeira vez que eu intervinha. Eu tive, então, quase que uma sensação de vaidade, como se defendesse um ser frágil, que não era bem o caso, e achei que assim eu a recuperaria e que era o único modo de recuperá-la e disse com força:

        -- Pare, entendeu, não permito isso.

        Estava vermelho feito fogo, com o sangue nos olhos, e a Dirce por baixo da mesa pegou minha mão e vi que tinha caído, mas então já era tarde demais. Ele se levantou e disse:

        -- Está querendo levar o seu também?

        Pegou na bochecha, meio de atravessado, e eu agarrei um copo e atirei todo o vinho na cara dele. No copo e no vinho, pode-se dizer que já vinha pensando neles há um mês, tanto me agradava o gesto quanto odiava o Tocchi. E agora ele estava com o vinho na cara e eu tinha feito o gesto e dava o fora pela escada.

        Ouvi ele gritar:

        -- Eu te mato, viu, vagabundo, mendigo.

        Então, fechei a porta do meu quarto e fui até a janela olhar a chuva caindo e de raiva peguei uma faca que eu tinha na gaveta e a finquei no peitoril com tanta força que a lâmina partiu.

        Chega, estávamos lá em cima, no topo do Monte Mario do mau agouro, e talvez, se estivesse em Roma, não teria aceito, mas ali tudo se tornava natural e o que no dia anterior era impossível, no dia seguinte já estava decidido. Assim, eu e a Dirce combinamos e estabelecemos juntos o modo, o dia e a hora. Tocchi, de manhã, descia à adega para pegar o vinho do dia, junto com a Dirce que lhe trazia o garrafão. A adega era subterrânea e para descer havia uma escadinha montada em cima de um tear e apoiada na parede: seriam sete degraus. Decidimos que eu os alcançaria e, enquanto Tocchi se abaixava para espichar o vinho, eu lhe bateria na cabeça com uma barra curta, de ferro, que servia para atiçar carvões. Em seguida, retiraríamos a escadinha e diríamos que ele tinha caído e ferido a cabeça. Eu queria e não queria; e de raiva disse:

        -- Estou fazendo isso para te mostrar que eu não tenho medo... mas depois eu vou embora e não volto mais.

        E ela:

        -- Então é melhor que você não faça nada e vá indo depressa... eu gosto de você e não quero te perder.

        Sabia quando queria, simular a paixão: e assim eu disse que faria e depois ficaria e abriríamos o restaurante.

        No dia marcado Tocchi disse à Dirce que pegasse o garrafão e se dirigisse à porta da adega, no fundo da taverna. Chovia, o de sempre, e a taverna estava quase às escuras. Dirce pegou o garrafão e seguiu o pai; mas, antes de descer, virou-se e me fez um gesto de cumplicidade, às claras. A mãe, que estava diante do fogão, viu o gesto e ficou de boca aberta, olhando a gente. Eu me ergui da mesa, fui até o fogão e peguei o atiçador em cima da chaminé, passando na frente da mãe. Essa, então, me olhava, olhava a Dirce, ficava olhando, olhando, mas via-se que não iria falar. O pai berrou da adega:

        -- Dirce, Dirce!

        E ela respondeu:

        -- Estou indo.

        Lembro que me agradou fisicamente pela última vez, enquanto descia a escada, com aquele seu andar duro e sensual, dobrando o pescoço branco e roliço sob a viga mestra.

        Naquele instante, a porta que dava para o jardim se abriu e entrou um homem com um saco molhado nas costas: um carroceiro. Sem me olhar, disse:

        -- Moço, me dá uma mãozinha?

        E eu, maquinalmente, com o ferro na mão, o acompanhei. Ali ao lado, numa chácara, estavam construindo uma cocheira, e a carroça carregada de pedras ficara atolada na passagem da porteira e o carvão não conseguia sair. O carroceiro parecia fora de si, um homem torto e feio, quase um animal. Pousei o ferro em cima de uma das pilastras da porteira, pus duas pedras embaixo das rodas e empurrei o carroceiro puxava o cavalo pelo cabresto. Chovia a cântaros sobre as sebes de sabugueiro verdes e cerradas e sobre as acácias floridas que cheiravam forte; a carroça não se movia e o carroceiro praguejava.

        Pegou o chicote e bateu no cavalo com o cabo, depois, enfurecido, agarrou o ferro que eu deixara em cima da pilastra. Dava para ver que estava fora de si não pela carroça, mas pela vida inteira, e que odiava o cavalo como uma pessoa.

        Pensei: – Agora vai matá-lo e quase gritei:

        -- Não, largue esse ferro.

        Mas depois pensei que se ele matasse o cavalo, eu estava salvo. Achava que toda minha raiva estava passando para o corpo daquele carroceiro que parecia um possesso, e de fato, ele se atirou sobre os varais, empurrou de novo e depois bateu na cabeça do cavalo, com o ferro. Eu, ante o golpe, fechei os olhos, e ouvi que ele continuava batendo, e ao mesmo tempo eu me esvaziava e quase desmaiava, e depois voltei a abrir os olhos e vi que o cavalo tinha caído de joelhos e que ele continuava batendo, agora não para fazê-lo levantar, mas para matá-lo. O cavalo arreou de costas, escoiceou o ar, mas debilmente e aí largou a cabeça na lama. O carroceiro arquejante, a cara transtornada, jogou o ferro e deu um safanão no cavalo, porém sem convicção: sabia que o tinha matado.

        Eu passei a seu lado, sem sequer tocá-lo, e pus-me a caminhar pela estrada. Passou o bonde que ia para Roma, eu o peguei na corrida e depois olhei para trás e vi pela última vez a tabuleta:

        "Taverna dos Caçadores, proprietário Antônio Tocchi", entre a folhagem de maio, lavada pela chuva.

Alberto Morávia – Contos Romanos.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Qual é o conflito central que move a trama na "Taverna dos Caçadores"?

      O conflito central gira em torno do ódio profundo e da disputa de interesses entre o taverneiro, Antônio Tocchi, e sua filha, Dirce. Enquanto o pai é descrito como um homem autoritário, avarento, violento e avesso a novidades, a filha é ambiciosa, arrogante e deseja modernizar o negócio. Ela quer transformar a taverna rústica no "Restaurante Panorama", construindo uma pista de dança e contratando uma orquestra, mas o pai se recusa a ceder, o que gera agressões físicas e um clima insustentável na casa.

 

02 – Como o narrador-personagem foi parar na taverna e qual foi a "armadilha" que o prendeu ali?

      O narrador chegou à taverna por acaso, vindo do interior. Ele aceitou trabalhar no local sem receber salário em troca de abrigo, pensando que encontraria um ambiente acolhedor, "em família". No entanto, a verdadeira "armadilha" foi ter se apaixonado obsessivamente por Dirce. Ela entrou em seu quarto na primeira noite, e essa entrega carnal súbita e inesperada fez com que ele passasse da indiferença à paixão violenta, tornando-se incapaz de ir embora.

 

03 – De que maneira Dirce manipula o narrador ao longo do conto?

      Dirce manipula o narrador mudando de comportamento estrategicamente para atingir seu objetivo (eliminar o pai). Primeiro, ela o insulta, chamando-o de "patife" por não defendê-la das agressões do pai, tentando jogá-lo contra Antônio Tocchi. Depois, ela muda radicalmente a tática: torna-se doce, gentil e amorosa, prometendo que eles se casarão e abrirão o restaurante juntos. Por fim, quando o ganha pelo afeto, ela propõe abertamente o assassinato do taverneiro.

 

04 – Qual foi o estopim que fez o narrador finalmente aceitar participar do plano de assassinato?

      O estopim ocorre durante uma manhã chuvosa de maio. Após uma discussão à mesa sobre a comida, Antônio Tocchi esbofeteia Dirce com tanta força que seu pente salta longe. Pela primeira vez, o narrador intervém e exige que o taverneiro pare. O pai reage com deboche e agride o narrador de raspão na bochecha. Tomado pelo ódio acumulado, o narrador joga um copo de vinho na cara de Tocchi e foge para o quarto. Humilhado e desafiado pelo patrão, ele decide aceitar o plano de Dirce.

 

05 – Como funcionaria o plano elaborado por Dirce e pelo narrador para matar Antônio Tocchi?

      O plano aproveitaria a rotina matinal da taverna. Antônio Tocchi costumava descer à adega subterrânea para buscar o vinho do dia, descendo uma escada rústica de sete degraus enquanto Dirce segurava o garrafão. O plano consistia em o narrador surpreender Tocchi por trás e desferir um golpe fatal em sua cabeça usando um atiçador de carvão de ferro. Em seguida, eles retirariam a escada para simular que o taverneiro havia caído sozinho e se acidentado.

 

06 – Qual evento inesperado interrompe a execução do crime no momento decisivo?

      No exato momento em que o narrador pega o ferro para descer à adega, a porta do jardim se abre e entra um carroceiro desesperado com uma carroça atolada na lama. Maquinalmente, o narrador larga o plano para ajudá-lo. Na tentativa de desatolar o veículo, o carroceiro — enfurecido com a vida e com a situação — pega o próprio ferro que o narrador carregava e começa a espancar violentamente a cabeça do cavalo até matá-lo.

 

07 – Qual é o significado simbólico do cavalo morto pelo carroceiro e como isso afeta o desfecho da história?

      O espancamento do cavalo funciona como uma catarse e um espelho psicológico para o narrador. Ao ver o carroceiro descarregar toda a sua fúria e brutalidade no animal, o narrador sente como se a sua própria raiva e o seu desejo de matar Antônio Tocchi estivessem sendo transferidos e purgados no corpo daquele homem. Diante da violência real e crua, o narrador "se esvazia" do ódio, desiste do crime, abandona o ferro e foge definitivamente de ônibus para Roma, deixando para trás a taverna e Dirce.

 

 

MÚSICA/POEMA(ATIVIDADES): HINO À PAZ - GOIÁS - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Música/poema (Atividades): HINO À PAZ – Goiás

            José Fernandes

Ó Paz, divina Paz, musica ouvida nos absconsos
silêncios, longe dos olhos dos deuses e dos homens,
que confundes amor e ódio, temperas a guerra com as chamas
da mentira e sufocas a verdade no interior das frias pedras
dos pólos, esconjuro-te pela poderosa Necessidade,
pela inexorável flecha de Eros e pela lira de Hermes,
incendeie os sistemas límbicos de homens e deuses,
para que eles, revigorados pela flecha do grande
arqueiro possam derreter-se em amor uns para os outros
e celebrar as palavras de paulos e pedros nos montes
e nas oliveiras restaurados pelas bem-aventuranças!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDWsvwzC7IEIZIiCaQ_XrlG-Yu2EKvhNUsC5__HKf9jTMqp0pmoXPhke6QhrfGiVfjvQ8fN-za2ggv9hCUeVUl_5eCz95fQymYizk4jCaYRAkby0gUeacQgeyqApltYyfNP3pIqhPjIJGWrvVfTHJjfPDpXGZ3bwvVxttr2tyS4dkpheIUaeB45bCkW5M/s320/paz_2024.jpg



Ó Paz, que consomes os sonhos de cristos e maomés,
que desejas silenciar o tiritir, o zinir e o sibilar de balas,
raios, coriscos, baionetas e bombardas de mísseis,
levanta-te e vede por todos os lugares e ponde sobre
o trágico viver dos infelizes humanos que se digladiam,
a fuga dos ventos maus que esfuziam canhões e bombas
e, como uma chama acesa, como um relâmpago,
enfraqueça-os, debilite-os e os torne incapazes
de qualquer atividade que contrarie Aquele
que é Logos, Palavra, Amor, Ahavá, Szerelem.
Ó Sabaot, Adonai, Eloim, Pagourê, Zagourê!

José Fernandes.

 

Entendendo a música:

01 – No início do poema, a Paz não é descrita de forma puramente idílica ou romântica; o eu lírico aponta ambiguidades em sua atuação. Como o texto caracteriza essa natureza complexa da Paz na primeira estrofe?

      A Paz é caracterizada como uma força complexa e ambígua que atua nos "absconsos silêncios". O eu lírico afirma que ela "confundes amor e ódio", "temperas a guerra com as chamas da mentira" e "sufocas a verdade". Essa descrição mostra que, para que a paz exista no mundo dos homens, muitas vezes ocorrem concessões duras, silenciamentos e uma tênue linha entre o equilíbrio e o conflito, distanciando-a de uma visão puramente ingênua.

02 – O autor mistura referências da mitologia clássica grega com a tradição judaico-cristã. Identifique esses dois universos no texto e explique como eles se fundem no pedido do eu lírico.

      O universo mitológico grego aparece na primeira estrofe através das menções à "Necessidade" (Ananque), à "flecha de Eros" (deus do amor) e à "lira de Hermes". Já o universo judaico-cristão surge nas referências às "palavras de paulos e pedros", aos "montes e nas oliveiras" e às "bem-aventuranças". Eles se fundem no clamor para que a força avassaladora do amor mitológico (Eros) revigore os homens para que eles possam, finalmente, compreender e celebrar as mensagens de amor, paz e espiritualidade cristãs.

03 – A segunda estrofe utiliza várias palavras que mimetizam os sons de armas e combates. Que recurso estilístico é esse e quais palavras o autor usa para retratar a violência da guerra?

      O recurso estilístico utilizado é a onomatopeia (ou aliteração associada a imagens sonoras). O autor utiliza os termos "tiritir", "zinir" e "sibilar" para reproduzir o som agudo, metálico e ameaçador de balas, raios, baionetas e mísseis. O objetivo é criar um forte contraste acústico entre o barulho destrutivo da guerra e o silêncio/calmaria pedidos para a manifestação da Paz. 

04 – O que o eu lírico roga que a Paz faça com os seres humanos que se "digladiam" e qual é o objetivo final dessa intervenção?

      O eu lírico roga para que a Paz se levante e dissipe os "ventos maus que esfuziam canhões e bombas". Ele pede que a Paz enfraqueça, debilite e torne os seres humanos incapazes de realizar qualquer atividade violenta. O objetivo final é neutralizar a capacidade humana de fazer o mal, forçando-os a parar a guerra para que não contrariem Aquele que representa a essência universal do "Logos, Palavra, Amor".

 

05 – O poema se encerra com uma sequência de palavras de forte apelo sagrado: "Ó Sabaot, Adonai, Eloim, Pagourê, Zagourê!". Qual é a função dessa escolha de vocabulário no fechamento do hino?

      A escolha de vocábulos como Sabaot, Adonai e Eloim (nomes hebraicos ancestrais para Deus na tradição judaica), junto a termos de tradições místicas e sincréticas (Pagourê, Zagourê), funciona como um encantamento, prece litúrgica ou mantra universal. Ao evocar o divino através de diferentes nomes e línguas, o poema reforça o caráter ecumênico e sagrado do pedido, clamando por uma intervenção espiritual e superior para estabelecer a paz universal acima de qualquer barreira religiosa ou cultural.

 

CONTO: A MÁSCARA DA MORTE RUBRA - EDGAR ALLAN POE - COM GABARITO

 Conto: A máscara da morte rubra

           Edgar Allan Poe

        A “Morte Rubra” havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhkPeuFjyYH_2_XrQEz4uhCifAeZGI9m-Nj2PwaJvPy3PIyKUU6h0ybDZB2KROvlL1RndTYo9jRgysAQDUoQmCWMI780iRMPytdeV3CUdgMiPiiVUJRzf3Jm5a1MsiqsDPlFRvETOZyVAK0-vjo4irCYc8iS1p_Y9gDzSve939Kelh7pQx_dwc235ufxM/s320/81qiDTORgxL._UF1000,1000_QL80_.jpg


        Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesões trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero dos que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesões podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Rubra”.

        Lá pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um magnífico baile de máscaras.

    Que voluptuosa cena a daquela mascarada! Mas antes descrevamos os salões em que ela se desenrolava. Era uma série imperial de sete salões. Em muitos palácios, porém, esses salões formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do príncipe pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas do salão. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul – e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada. O quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder à das decorações. As vidraças, ali, eram rubras – de uma violenta cor de sangue.

        Ora, em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da sequência de salões. Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante dos que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali penetrar.

        Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro, alto, grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.

        Apesar disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gostos do príncipe eram estranhos. Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas ideias brilhavam com um esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.

        Para essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia e fantasia – muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza, muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles – os sonhos – giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão. Mas os ecos das batidas extinguem-se – duraram apenas um instante – e risos levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às alegrias nos salões mais afastados.

        Mas nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio. Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, tudo ficou intranquilamente imobilizado. Mas agora iriam ser doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou murmúrio que expressava a reprovação e surpresa – e, finalmente, terror, horror e repulsa.

        Numa reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e esquálida, envolta dos pés à cabeça em vestes mortuárias. A máscara que escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o tipo da Morte Rubra. Seu vestuário estava borrifado de sangue, e sua alta testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror rubro.

        Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu semblante tornou-se vermelho de raiva.

        -- Quem ousa…? perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto – quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!

        O príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.

        O príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado. Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso, que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão, como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o início, passando do salão azul para o púrpura, do púrpura para o verde, do verde para o alaranjado, e desse ainda para o branco, e daí para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para detê-lo. Foi então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.

        E então reconheceu-se a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um morreu na mesma posição de desespero em que tombou ao chão. E a vida do relógio de ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e da Morte Rubra estendeu-se sobre tudo.

 

Edgar Allan Poe. Histórias Extraordinárias. A máscara da morte rubra. Dos cem melhores do mundo. revista Bravo.

Entendendo o conto:

01 – Como a peste da "Morte Rubra" se manifestava em suas vítimas e qual era o tempo estimado entre o contágio e a morte?

      A doença se manifestava por meio de dores agudas, tontura súbita e um sangramento profuso pelos poros. A marca característica (o estigma da peste) eram as manchas rubras no corpo e, principalmente, no rosto da vítima. Todo o processo, desde o aparecimento dos sintomas até a morte, durava no máximo meia hora.

 

02 – Qual foi a estratégia do príncipe Próspero para escapar da epidemia que devastava seus domínios?

      O príncipe escolheu um milhar de amigos sadios e divertidos entre os nobres da corte e refugiou-se com eles em reclusão total em um de seus mosteiros encastelados. Para garantir o isolamento absoluto, os cortesãos soldaram os ferrolhos das portas de ferro, impedindo qualquer entrada ou saída. Lá dentro, ele providenciou fartas provisões e diversos entretenimentos (músicos, bufões, vinho) para ignorar o mundo exterior.

 

03 – Como estavam dispostos os sete salões do palácio onde ocorreu o baile de máscaras e qual era a peculiaridade do sétimo salão?

      Diferente de outros palácios, onde as salas formavam uma linha reta, os salões de Próspero eram dispostos de forma irregular, com desvios abruptos a cada vinte ou trinta metros, impedindo que se visse mais de um salão por vez. Cada sala tinha uma cor temática (azul, púrpura, verde, alaranjado, branco, roxo). O sétimo salão era decorado com tapeçarias de veludo negro, mas sua peculiaridade residia nas janelas: ao contrário dos outros salões, cujos vitrais combinavam com a cor da sala, os vitrais do salão negro eram de uma cor rubra, "cor de sangue".

 

04 – De que forma os salões eram iluminados, já que não havia lâmpadas ou candelabros em seu interior?

      A iluminação provinha de corredores que circundavam os salões. Em frente a cada janela gótica, do lado de fora, ficava um pesado tripé com um braseiro aceso. O fogo projetava seus raios através dos vitrais coloridos, iluminando brilhantemente as salas e criando efeitos visuais fantásticos e artísticos.

 

05 – Qual era o efeito das badaladas do relógio de ébano sobre os participantes da festa e os músicos?

      A cada hora cheia, o relógio emitia um som tão claro, grave e peculiar que os músicos eram obrigados a interromper a orquestra e os dançarinos paravam suas coreografias. Durante o soar das badaladas, os convidados ficavam perturbados, os mais frívolos empalideciam e os mais velhos passavam a mão pela testa em devaneio. Assim que as badaladas cessavam, todos riam do próprio nervosismo e tentavam retomar a alegria.

 

06 – O que caracterizava a fantasia do novo mascarado que surgiu à meia-noite e por que ela causou tanta repulsa?

      O intruso vestia trajes mortuários (uma mortalha) e usava uma máscara que imitava perfeitamente o rosto rígido de um cadáver. O que causou horror e repulsa extrema foi o fato de a fantasia encarnar a própria "Morte Rubra": as vestes estavam borrifadas de sangue e a testa e o rosto da máscara estavam salpicados com o horror rubro da peste, quebrando as regras de diversão do príncipe.

 

07 – O que os convivas descobriram quando finalmente agarraram o mascarado após a morte do príncipe Próspero?

      Ao reunirem coragem e avançarem sobre o mascarado no salão negro, os convivas arrancaram a violência a máscara e a mortalha, apenas para descobrir, tomados de pavor indescritível, que não havia nenhuma forma palpável ou corpo físico por baixo das roupas. Eles perceberam, então, que a própria Morte Rubra havia entrado no local "como um ladrão na noite".

 



 

 

POEMA: NÃO TE RENDAS! MARIO BENEDETTI - COM GABARITO

 Poema: Não Te Rendas!

            Mario Benedetti

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos

Soltar o lastro,
Retomar o voo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiRuCqKI5OCXRdBE852e0FAiA2dAqzD6W0VXj0c1qojJsDJzos3jphjCbI8uZ_JCGEFr7byJZowqdmvy7vBHC-Rbr6ThhMbQy1xGy1in7mdTZAWQY5Ukbk1-M_eYeUUmFkkwpVbDQT0vHZvYtXslD0QXW9KIAa8VNJkQqlWLU6PRNlTpxCCbkaiFknU4dY/s320/sddefault.jpg


Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,

Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

Poema publicado no Livro “Entre los poetas míos” de Mario Benedetti. 

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema e que sentimento ele busca despertar no leitor?

      O tema central é a resiliência e a persistência diante das adversidades da vida. O poema busca despertar um sentimento de esperança e coragem, incentivando o leitor a não desistir de seus sonhos e objetivos, independentemente das "cicatrizes", do cansaço ou dos obstáculos temporários que possam surgir no caminho.

02 – O que representam as metáforas do "frio que queima" e do "medo que morde" no contexto da obra?

      Essas metáforas representam as dificuldades externas e internas que tentam paralisar o indivíduo. O "frio que queima" simboliza as circunstâncias adversas do ambiente ou da vida que causam dor, enquanto o "medo que morde" refere-se à insegurança e à ansiedade que podem corroer a determinação de alguém. O poema sugere que, embora esses sentimentos existam, eles não devem ser motivos para interromper a jornada.

03 – Como o poema aborda a relação do indivíduo com o seu passado e as suas falhas?

      O autor aborda o passado não como um fardo impeditivo, mas como algo que deve ser aceito para que se possa seguir em frente. Ao dizer "vencer o tempo e retomar a viagem", o poema enfatiza que as falhas e as feridas do ontem ("enterrar seus medos", "liberar o lastro") não definem o futuro. A mensagem é de que cada novo dia oferece uma oportunidade de recomeço, independentemente do que aconteceu anteriormente.

04 – No poema, por que o autor afirma que "a vida é tua e o desejo também"?

      Essa afirmação reforça o conceito de autonomia e responsabilidade pessoal sobre a própria felicidade. Ao dizer que a vida e o desejo pertencem ao indivíduo, o autor destaca que o poder de mudar a realidade e de persistir em um sonho reside dentro de cada um. É um chamado para o protagonismo, lembrando ao leitor que ninguém mais pode viver ou desejar por ele.

05 – Qual é a importância da natureza e dos ciclos (como o fogo e o vinho) para a mensagem final do poema?

      O uso de elementos como o "fogo na alma" e o "vinho e o cedro" serve para ilustrar a vitalidade e a renovação. O fogo simboliza a paixão e a motivação interna que deve ser mantida acesa. Já a referência ao vinho e ao cedro remete à celebração da vida e à solidez. O poema conclui que a vida é um ciclo de renovação constante ("porque cada dia é um novo começo"), onde a esperança deve ser sempre cultivada.

 

 

POEMA: ESPERANÇA: DA GENTE QUE EU GOSTO - MÁRIO BENEDETTI - COM GABARITO

 Poema: Esperança: Da gente que eu gosto

            Mário Benedetti

Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW2KmXhG8Eor3rAi_xwNmgIF-CzXvH5EdTi5JqPck1si1HrCIy7sUvi2rUt3kxqUGIs3YZ57iKPMY9WnYyIQOhfsikT03PZimwbhWoZOh4s2DdfXkU6eRBMEElTLROEOPTGB56iR4Pa5LxZURx-4eXmung2pddRbpu2AqIN-_Es4Q-Hh6CdaJKe6khjww/s1600/images.jpg

 

Gosto da gente com capacidade de medir
as consequências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.

Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.

Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.

Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.

Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.

Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.

Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.

Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.

Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.

Mario Benedetti, poeta uruguaio. Poema traduzido para o português por AjAraujo.

Entendendo o poema:

01 – De acordo com a primeira estrofe, quais características definem a atitude das pessoas de quem o eu lírico gosta em relação às suas tarefas cotidianas?

      O eu lírico gosta de pessoas que possuem iniciativa e autonomia. São descritas como pessoas que vibram, que não precisam ser empurradas ou cobradas para fazer as coisas, pois já sabem exatamente o que deve ser feito e realizam suas obrigações em menos tempo do que o esperado.

02 – Como o poema equilibra a busca pela excelência e pela cobrança com a aceitação das limitações humanas?

      O poema alcança esse equilíbrio ao afirmar que gosta de pessoas que são exigentes consigo mesmas e com seus companheiros ("com seu pessoal"), mas que, ao mesmo tempo, mantêm a sensibilidade de lembrar que somos humanos e, por consequência, estamos sujeitos a cometer erros e equívocos.

03 – Qual é a postura ideal recomendada pelo autor quando se trata de discordar de autoridades ou superiores?

      O autor valoriza a sinceridade e a franqueza pautadas no equilíbrio. Para ele, a pessoa ideal é aquela capaz de opor-se às decisões de seus superiores utilizando argumentos serenos e racionais, demonstrando critério e maturidade em vez de rebeldia vazia.

04 – Como o eu lírico define as pessoas que têm o direito ou a liberdade de criticá-lo diretamente e sem rodeios?

      Ele define essas pessoas especificamente como seus amigos. Para o eu lírico, a verdadeira amizade se manifesta na capacidade de oferecer uma crítica construtiva, honesta e direta, sem a necessidade de disfarces ou falsidades.

05 – Qual é o valor atribuído ao trabalho em equipe no poema em comparação com as ações individuais?

      O poema exalta o trabalho em equipe, feito entre amigos, afirmando que ele é capaz de produzir muito mais resultados do que os "caóticos esforços individuais". Há uma clara valorização da cooperação organizada frente ao individualismo desordenado.

 

 

 

CONTO: O ESPELHO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Conto: O espelho

          Machado de Assis

 

        Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3wJU_GhPWbvg_QEdPljA8jbpS_hRiV3zoVfWkdzwhArbQ8FeTgNdZTGOXXgvVW0Mmxpfu-O83dvP6OkLJ2wGAaMvR0cIzJQ0YLi3V53auyqLV9Dc8prOxyVnkugRyh96vnYf-WcHQYES2n3Nm-hB2u_Awt4-swe2Sv3c45s89BxrqqFYhyphenhypheno6b-O_ZJiA/s320/71zQ+0s3oBL._UF1000,1000_QL80_.jpg
 

        Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

        -- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

        Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos.

        Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, – uma conjetura, ao menos.

        -- Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

        -- Duas?

        -- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; –  e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

        -- Não?

        -- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, – na verdade, gentilíssima, – que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...

        -- Perdão; essa senhora quem é?

        -- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...

        Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia.

        Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

        -- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e

que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas

que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

        -- Espelho grande?

        -- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

        -- Não.

        -- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

        -- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

        -- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. “Adeus, sobrinho! Adeus, alferes!” Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

        -- Matá-lo?

        -- Antes assim fosse.

        -- Coisa pior?

        -- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! – For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: – Never, for ever! – For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

        -- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

        -- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: – o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único – porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

        -- Mas não comia?

        -- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac... Na verdade, era de enlouquecer. Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. – Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia...

        -- Diga.

        -- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

        -- Mas, diga, diga.

        -- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...

        Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

 

Fonte: ASSIS, Machado de. O ESPELHO. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Qual é a tese principal defendida pelo personagem Jacobina a respeito da natureza humana?

      Jacobina defende que o ser humano não possui apenas uma alma, mas sim duas. A primeira é a "alma interior", que olha de dentro para fora. A segunda é a "alma exterior", que olha de fora para dentro. Segundo ele, as duas metades se completam para formar o indivíduo e a perda da alma exterior pode esvaziar ou até extinguir a própria existência do homem.

 

02 – O que pode constituir a "alma exterior" de uma pessoa, de acordo com a teoria de Jacobina?

      A alma exterior é extremamente variável e moldável. Ela pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto ou até uma operação. Como exemplos, Jacobina cita que a alma exterior de um judeu Shylock eram seus ducados, a de Camões era a pátria, a de César era o poder, e que para outras pessoas pode ser um botão de camisa, a ópera, um jogo de cartas ou um par de botas.

 

03 – Qual acontecimento na juventude de Jacobina mudou radicalmente a percepção que ele e os outros tinham de sua identidade?

      Aos 25 anos, sendo jovem e pobre, Jacobina foi nomeado alferes da Guarda Nacional. Esse posto gerou enorme orgulho e alegria em sua mãe e parentes, além de despeito em alguns rapazes da vila. A partir de então, todos passaram a tratá-lo exclusivamente pelo título de "senhor alferes", fazendo com que a vaidade do posto (a nova alma exterior) eliminasse progressivamente a sua antiga natureza humana original.

 

04 – Por que a tia Marcolina decidiu colocar um espelho grande e luxuoso no quarto de Jacobina?

      Foi uma demonstração de grande agrado, respeito e entusiasmo pela nomeação do sobrinho. O espelho era a melhor peça da casa, uma obra rica e magnífica com moldura de ouro e detalhes em madrepérola que destoava do restante da mobília simples. A tradição dizia que o objeto fora comprado de uma fidalga que viera de Portugal com a corte de Dom João VI em 1808.

 

05 – Como Jacobina acabou ficando completamente isolado no sítio de sua tia?

      Cerca de três semanas após sua chegada, tia Marcolina recebeu a notícia de que uma de suas filhas estava à beira da morte. Ela partiu às pressas levando o cunhado e deixando Jacobina encarregado de tomar conta do sítio. Na noite seguinte à partida dos tios, os escravos da propriedade decidiram fugir juntos, levando inclusive os cães e deixando Jacobina totalmente sozinho, sem nenhum outro ser humano por perto.

 

06 – O que Jacobina enxergava quando olhou pela primeira vez no espelho após passar uma semana em completa solidão?

        Ele não viu sua figura de forma nítida e inteira. A imagem projetada pelo vidro aparecia vaga, esfumada, difusa — o que ele descreve como uma "sombra de sombra" ou uma "nuvem de linhas soltas". Embora as leis físicas reproduzissem seus contornos reais, a sensação de esvaziamento de sua alma exterior fez com que ele se sentisse incapaz de enxergar a própria identidade humana, gerando-lhe medo de enlouquecer.

 

07 – Como Jacobina conseguiu resolver o problema da imagem difusa no espelho e sobreviver ao restante dos dias de solidão?

      Por um impulso inexplicável, ele teve a ideia de vestir a sua farda de alferes completa. Ao olhar novamente para o espelho fardado, o vidro reproduziu instantaneamente sua figura integral, sem nenhuma linha borrada. Ele percebeu que sua alma exterior, que havia sumido com as pessoas do sítio, estava recolhida na farda. A partir daí, ele passou a vestir-se de alferes por duas ou três horas todos os dias diante do espelho para recuperar a própria existência e suportar o isolamento.