quinta-feira, 4 de junho de 2026

REPORTAGEM: CRIANÇAS NA DIREÇÃO - FRAGMENTO - RICARDO KOTSCHO - COM GABARITO

 Reportagem: Crianças na direção – Fragmento

            RICARDO KOTSCHO

        Nos confins da chapada do Araripe, em Nova Olinda, cidade sertaneja de 12 mil habitantes, a 580 quilômetros de Fortaleza (CE), esconde-se um pequeno império de arte e comunicação, a Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9gRqz4wG9ai3qY3Qj5H0mBwJzS_hTdJgoCggJLAqxD_0BsqJte_YJ3HO5V2w8LYhqt5ZOsB5JSnK0Y9ivX_iT_32zpICWjVC1y4IStAgpmQJs_1pGljAnnxbyz9cha84dlfgB41l3257O-9OWpOF04EaNzPja7U7hlCyRWHEHp6cdVp9Sf-8FZjckw4k/s1600/images.jpg 


        Não chega a ser uma Fundação Roberto Marinho, mas a Casa Grande é uma ONG que já tem rádio, televisão, jornal, editora, museu, grupos de teatro e de música. Detalhe: tudo é tocado por 70 crianças e adolescentes da cidade, artistas multimídia com idades que vão dos três aos 18 anos.

        Como dizem lá no sertão, a história para ser bem entendida tem de ser contada desde o começo. Neste caso, vem de muito antigamente, de quando foi construída a primeira casa grande nas terras dos índios kariri, em 1717.

        Comprada e reformada em meados do século passado pela família de Neco Trajano, avô de Francisco Alemberg de Souza, 36, o Alemberg Quindins, a casa foi abandonada em 1975 e estava servindo de banheiro público.

        Músico e pesquisador, Alemberg rodou o Brasil por dez anos, trabalhando ao lado da mulher, Rosiane Limaverde, 36, cantora e percussionista. Em 92, o casal voltou para Nova Olinda. Como precisasse de um canto para guardar o material recolhido durante as viagens, no rastro do universo geográfico dos kariri, Alemberg pediu a velha casa à família e ajuda à prefeitura para restaurá-la.

        Quem conta essa história nos mínimos detalhes aos visitantes que chegam a Nova Olinda são os adolescentes Alderiana Tavares Siebra e Francisco Cordeiro Teles, os dois com 13 anos. Entre outras funções, eles são também os guias do museu. "O povo mais antigo foi contando as histórias para a gente", explica Francisco.

        Escola e trabalho

        A ideia de criar a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão surgiu ainda durante as obras, quando algumas crianças começaram a se interessar pelo trabalho de Alemberg e Rosiane. "O nosso maior desafio era trocar as enxadas das crianças que largavam a escola para trabalhar na lavoura pela tecnologia da comunicação", lembra Alemberg.

        Além da prefeitura, o projeto foi ajudado desde o começo pelo Unicef, o que permitiu ao Casa Grande montar os laboratórios de rádio, televisão e editoração. Outras parcerias foram surgindo com o governo do Ceará, universidades e, mais recentemente, com o Instituto Airton Senna.

        "Aqui tudo se cria, nada se copia. Casa Grande FM, a rádio que educa. Amanhã, à uma da tarde em ponto, volto com a melhor música infantil aqui no programa ‘Submarino Amarelo’. Boa tarde", anuncia ao microfone a locutora Jossamiris Alves Muniz, 9, ao lado da aprendiz Ana, 5, filha de Alemberg e Rosiane.

        Produção, operação e apresentação, além das vinhetas montadas em computador, tudo na FM 105.9, que alcança cinco cidades vizinhas, fica por conta de crianças como Jossamiris.

        Há três anos no ar, das 5h às 22h, a rádio comunitária Casa Grande apresenta o noticiário da cidade, também preparado pelas crianças, de meia em meia hora. A programação musical vai do jazz e blues à música clássica, cantoria de viola, MPB e ao forró de pé de serra. Um dos grandes sucessos é o "Baú do Raul", um programa só com músicas de Raul Seixas.

        Só podem participar das atividades multimídias crianças e adolescentes que frequentam a escola regular e tiram boas notas. "Aqui ninguém ganha dinheiro, só se ganha conhecimento. E quem comanda tudo é a meninada", diz Alemberg, orgulhoso da sua obra, enquanto caminha pelos bem arborizados jardins da casa. Em volta, atrás de cada porta, há sempre grupos estudando e trabalhando.

        Meires Moreira, 16, gerente da editora, mostra a uma turma de sete crianças como foram produzidas as 11 publicações da Casa Grande. "São revistas de histórias em quadrinhos com material pedagógico, que tratam desde educação sexual até campanha contra o fumo", diz a jovem. Além disso, a editora já imprimiu 28 edições do "Karirizinho", jornal quinzenal de circulação interna com tiragem de dez cópias.

        [...]
        Toda a comunicação visual dos diferentes núcleos da Fundação Casa Grande e do Memorial do Homem Kariri foi desenvolvida pelos próprios meninos e meninas da chapada do Araripe, que acabaram mesmo trocando a enxada pela tecnologia digital em menos de uma década.

KOTSCHO, Ricardo. Crianças na direção. Folha de São Paulo, 11 jul. 2001, p. E1.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 96-98.

Entendendo a reportagem:

01 – O que é a Fundação Casa Grande e onde ela está localizada?

      A Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri é uma ONG descrita como um "pequeno império de arte e comunicação" que possui rádio, televisão, jornal, editora, museu, além de grupos de teatro e música. Ela fica localizada nos confins da chapada do Araripe, em Nova Olinda, uma cidade sertaneja com 12 mil habitantes, a 580 quilômetros de Fortaleza (CE).

02 – Quem são os responsáveis por comandar e tocar as atividades da Fundação Casa Grande?

      Todas as atividades e núcleos da Fundação são tocados por 70 crianças e adolescentes da própria cidade. Eles atuam como artistas multimídia e suas idades variam dos três aos 18 anos.

03 – Qual era o estado da "casa grande" antes de ser restaurada por Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde?

      A casa, construída originalmente em 1717 nas terras dos índios kariri e reformada no século passado pelo avô de Alemberg, havia sido abandonada em 1975 e estava servindo como banheiro público antes da restauração.

04 – Como surgiu a ideia de criar a "Escola de Comunicação da Meninada do Sertão"?

      A ideia surgiu durante as obras de restauração da velha casa, quando algumas crianças da região começaram a demonstrar interesse pelo trabalho de pesquisa e recolhimento de materiais que estava sendo feito por Alemberg e Rosiane.

05 – Qual foi o maior desafio apontado por Alemberg Quindins no início do projeto?

      O maior desafio era social e educativo: consistia em trocar as enxadas das crianças — que costumavam abandonar a escola regular para trabalhar na lavoura — pela tecnologia da comunicação.

06 – Quais são os requisitos obrigatórios para que as crianças e adolescentes possam participar das atividades multimídia da ONG?

      De acordo com o texto, só podem participar das atividades da Fundação Casa Grande os jovens e crianças que frequentam regularmente a escola tradicional e que tiram boas notas. Além disso, o trabalho não é remunerado ("ninguém ganha dinheiro, só se ganha conhecimento").

07 – O que a gerente Meires Moreira, de 16 anos, revela sobre as publicações produzidas pela editora da Fundação?

      Meires explica que a editora produziu 11 publicações, que consistem em revistas de histórias em quadrinhos com conteúdo pedagógico, abordando temas importantes como educação sexual e campanhas contra o fumo. Além disso, a editora também imprime o "Karirizinho", um jornal quinzenal de circulação interna.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário