sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO: LENDA DOS SETE AIS - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Conto: Lenda dos Sete Ais

        A lenda que vou contar é um tanto estranha, na verdade. Mas justifica — segundo a tradição — o nome de um lindíssimo local do concelho da nossa famosa Sintra. Desta vez, porém, não foi nenhum velho nem velhinha quem me contou a Lenda de Sete ais, mas sim uma jovem de alma sonhadora que vive sempre debruçada sobre as histórias românticas do nosso País. Histórias que ela escuta em noites de Inverno, junto à lareira, contadas por seus avós…

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhYK6MVoR91oVFI_01176T_yqvXlUQVJ6cwnh7LirfCbuHt71rOJc8wzSAwmp32erEp80Z3PqrB6jnP3bsruvRKAvwYIQoiH2XJ8YGqqz7Msf9iEVuQlJeGL4LCoGWX4uwGC3LatC2vHP1evdmrPh9lBfB8WOEcmf6Goz5lczr_1qeXTpl4pzPzCAAe6J8/s320/sete.png


        Quando D. Afonso Henriques, ajudado por uma esquadra estrangeira, conquistou Lisboa aos Mouros em 25 de outubro de 1147, o castelo de Sintra rendeu-se sem resistência, apenas sob a condição dos mouros seus moradores se poderem estabelecer em terras vizinhas, o que lhes foi outorgado.

        Entre os cavaleiros mais chegados ao rei, estava o jovem D. Mendo de Paiva, um dos designados pelo monarca para ocupar o castelo. D. Mendo foi o primeiro a subir a serra de Xentra. Chegado ao alto, parou um instante. A azáfama era enorme. Fazia-se a retirada. Chocavam-se os homens e as mulheres, em vozearia. Os mouros mais destacados utilizavam uma saída secreta, que D. Mendo não tardou a descobrir — no momento preciso em que uma jovem moura ia a sair por ela, acompanhada da sua velha aia. Ao vê-lo, a fugitiva afligiu-se, pois esperava poder escapar aos olhares dos vencedores. Com o nervosismo da surpresa, gritou. Zuleima, a sua velha aia, ficou ainda mais aflita. E indagou, com o medo estampado no rosto:

        — Anasir! Por que gritaste?

        Ela respondeu, mal refeita ainda do susto:

        — Não pude conter este meu ai.

        D. Mendo sorriu. E perguntou, cavalheiresco:

        — Senhora, causo-vos assim tanto medo?

        A jovem moura tapou o rosto com os véus e respondeu:

        — Sois cristão, e não estava preparada para encontrar-vos.

        Ele barrou-lhe a passagem. Sorria sempre. E perguntou:

        — Por que escondeis tão grande beleza sob esses véus?

        A resposta foi pronta:

        — Porque não deveis conhecer o meu rosto!

        Sorriu mais ainda o fidalgo cristão.

        — Mas o destino quis que vos visse! Todavia… talvez tivesse sido melhor não vos ter encontrado!

        Foi a velha aia quem perguntou:

        — Porquê, senhor? Não ides permitir que partamos? Temos licença de sair em liberdade. O que pretendeis são os nossos bens e as nossas terras, não é assim? Pois aí fica tudo! Posso partir?

        D. Mendo respirou fundo, e quase maliciosamente retorquiu:

        — Sim, podes partir. Deixa-me tudo... sem esquecer a tua querida ama!

        Aflita, Anasir soltou novo grito de susto, embora desta vez mais abafado. Mas logo Zuleima lhe pegou nas mãos, presa de novo pavor.

        — Anasir, minha querida ama! Já é o segundo ai num tão curto espaço de tempo! Evitai essa exclamação, peço-vos!

        D. Mendo olhou a velha aia com surpresa. Não menos surpreendida, a jovem moura repreendeu a sua companheira.

        — Não te compreendo, Zuleima. No momento em que o inimigo te propõe deixares-me abandonada, só te preocupas com a minha pobre exclamação de repulsa e tristeza?

        Zuleima mostrou-se ainda mais aflita. Tentou justificar-se:

        — Querida Anasir! Vós não podeis entender-me porque ignorais a razão do que me atormenta. Mas confiai em mim. Sabeis que vos amo e que por vós daria a vida. Não solteis mais nenhum ai! Quanto ao cavaleiro cristão, vai agora ouvir-me.

        D. Mendo apressou-se.

        — Pois falai, velha Zuleima! É este o teu nome, não é verdade?

        Veio seca, a resposta.

        — É. Bem o entendeste, na boca da minha ama.

        — Fala, então!

        — Pois bem! Ouvide. Vou sair deste castelo, mas levando comigo a jovem princesa, que me foi confiada pela mãe, à hora da morte. Estava também a cargo do governador deste castelo; mas o medo falou nele mais alto que o dever. E partiu com a família pela passagem secreta. Agora, Anasir só tem o carinho desta humilde serva!

        D. Mendo perguntou:

        — É tudo quanto tens para dizer-me?

        — Assim o creio, pois vamos sair e espero não tornar a encontrar-vos.

        D. Mendo replicou:

        — Pois vou fazer segunda proposta. Ficarás acompanhando a tua querida menina. Mas apressa-te a seguir-me. Não quero que te vejam!

        Anasir interrompeu-o.

        — Senhor! Tratais-nos como despojos de guerra! Não fazemos parte das alfaias que ficam neste castelo!

        D. Mendo olhou fundo nos olhos negros da jovem moura. Adoçou a voz.

        — Anasir! Seria difícil explicar-vos agora porque não consentirei em deixar-vos. Mas tentarei quanto me for possível para vos fazer feliz!

        — Agora tomais-vos misterioso?...

        — Vereis que não existem mistérios. Há apenas necessidade de partir, e já!

        Zuleima atalhou:

        — Oiço ruído! Parece um exército!

        — São os meus homens que chegam. Não há tempo a perder! Se vos vêem...

        Passos apressados soaram perto. Anasir assustou-se e gritou. Mas já D. Mendo lhe tapava a boca com a mão:

        — Senhora! É preciso que vos leve daqui sem que vos vejam!

        Porém, mais pálida ainda, Zuleima apontava a sua jovem ama quase sem poder falar. Anasir indagou:

        — Que estais vendo?

        Ela esclareceu:

        — Não vejo: ouvi! Ouvi o vosso terceiro ai num espaço de tempo tão curto!

        — E que tem isso, Zuleima?

        Como se estivesse vendo um fantasma, a velha aia exclamou:

        — É o destino a marcar-nos com o fogo da sua destruição! E porquê? Porquê?...

        Alteava já a voz, indiferente ao que pudesse surgir depois.

Apontou o cavaleiro D. Mendo.

        — Fostes vós, cristão, que nos trouxestes a desgraça! Fostes vós!

        Vendo-a tão desesperada, Anasir tentou acalmá-la.

        — Zuleima! Que se passa?

        Esta respondeu no mesmo tom de amargura:

        — Prometei-me! Prometei-me, Anasir, que não soltareis mais nenhum ai! Fazei essa graça à vossa humilde serva!

        Anasir olhava-a, perplexa. D. Mendo também. Por fim, a princesa moura acalmou-a.

        — Se isso te dá alívio, prometo-te, Zuleima, que farei o possível para não pronunciar mais nenhum ai. É isso o que pretendes?

        — Sim, minha querida ama!

        Soaram vozes muito perto. Eram os cristãos que chegavam junto ao corredor que dava para a parte sul da serra. D. Mendo tomou Anasir por um braço e segredou-lhe, quase:

        — Vinde comigo! Quero isolar-vos dos que estão a chegar.

Tenho aqui perto um grande terreiro e uma pequena casa. A paisagem é maravilhosa. Sabeis montar?

        Ela respondeu:

        — Sei. Dai-nos um só cavalo. Isso nos bastará. Eu levarei Zuleima.

        D. Mendo meneou a cabeça.

        — Perdoai-me, mas a experiência tornou-me desconfiado. Vós ireis no meu cavalo e Zuleima montará outro.

        — Ela monta mal, senhor!

        — A distância é curta. Além disso, não tendes por onde escolher.

        — E se eu recusar?

        O olhar de Anasir era um desafio. D. Mendo cobrou energia, e declarou:

        — Se recusardes... levar-vos-ei à força e separar-vos-ei de Zuleima!

        Resoluto, pegou-lhe com certa violência num pulso. Ela gritou:

        — Ai!

        Zuleima agarrou-lhe os vestidos. Nasceram lágrimas nos seus olhos.

        — Senhora, senhora!... Havíeis prometido!... E afinal...

        Anasir respirou fundo. Parecia confusa.

        — Tens razão. Mas não compreendo...

        As vozes dos cristãos estavam mais perto ainda. D. Mendo impôs-se.

        — Partamos!

        E em breves instantes o cavaleiro cristão ajudava Zuleima a montar num cavalo, e colocava Anasir no seu, dirigindo-se para a casinha do terreiro...

        Começava o Sol a descer, quando D. Mendo acabou de instalar na casa a princesa moura e a velha aia.

        Anasir olhou em volta. Sentou-se comodamente. Sorriu.

        Zuleima investigava o brilho do olhar da sua jovem ama.

        Declarou, confusa:

        — Não vos entendo.

        Ela olhou-a.

        — De que te admiras?

        Respeitosa, embora deixando transparecer na inflexão das suas palavras um pouco de censura, Zuleima elucidou:

        — Senhora, somos mouras... Vós sois princesa. Perdemos uma guerra. E vós, mais do que isso: perdestes Aben-Abed!

        Ela voltou a sorrir.

        — Sim, Zuleima, perdemos uma guerra. Agora é necessário encontrar a paz. Quanto a Aben-Abed... creio que não o perdi: foi ele que me perdeu...

        — Que dizeis?

        Anasir olhou D. Mendo, que a escutava em silêncio. E perguntou:

        — Senhor!... Já alguma vez amastes?

        Ele respondeu, convicto:

        — Até hoje, não!

        Ela continuou:

        — Pois bem: se de hoje em diante amásseis, seríeis capaz de deixar ao abandono a escolhida do vosso coração, só porque o inimigo estava perto e era necessário fugir?

        D. Mendo aproximou-se. Pegou numa das mãos da princesa moura e levou-a aos lábios, dizendo:

        — Senhora, a resposta trouxeste-a convosco. Não parti sem vos trazer, Anasir!

        Ela baixou os olhos. Destapou o seu lindo rosto.

        — D. Mendo... Gosto desta casinha! Creio que ficarei aqui até o desejardes.

        Ele apertou entre as suas mãos possantes as mãos delicadas da jovem moura e afirmou, com toda a força do seu coração:

        — Querida Anasir! Prometo que sereis feliz!

        Anasir e Zuleima viviam semicativas na casinha do terreiro, onde D. Mendo as escondera de mouros e cristãos. Amava Anasir e não queria perdê-la. Desejava a sua permanente companhia.

        Contudo, temia as censuras do rei. Saía às escondidas, de vez em quando. Mas voltava logo que podia voltar.

        Certa tarde, porém, D. Mendo regressou pouco depois de ter saído.

        Ao vê-lo, Zuleima indagou, curiosa:

        — Vós... já de volta?

        D. Mendo parecia preocupado.

        — Ouve, Zuleima! Descobri que andam a rondar estes sítios. É preciso que a tua ama não saia de casa!

        Ela assustou-se.

        — A rondar, dizeis? Mas quem? Algum cristão vosso amigo?

        Enervado, o cavaleiro declarou:

        — São mouros! Mouros meus inimigos! Falaste num tal Aben-Abed. Será ele… ou alguém por ordem dele?

        Zuleima abriu os olhos, num espanto.

        — Aben-Abed?... Sim, talvez seja ele… ou alguém por ordem dele...

        Anasir atraiçoou-o… Que Alá nos proteja!

        D. Mendo irritou-se:

        — Esse tal Aben foi um cobarde! Fugiu, deixando-a entregue ao seu destino! Perdeu o direito ao seu amor. O seu destino, agora — sou eu!

        A velha ama estava pálida e atarantada.

        — Bem sei. Mas ele... virá matá-la... E eu não quero... não quero!...

        — Nem eu! Escuta. Se eles conseguirem levar Anasir, juro-te que arrasarei tudo, compreendes? Não escapará nem um só mouro dos que andam por aí em liberdade!

        Zuleima retorquiu, já mais serena:

        — Descansai, cavaleiro! Ninguém nos levará daqui! A minha querida menina também vos ama. Se assim não fosse, já se teria suicidado, acreditai!

        — Onde está ela, Zuleima?

        — Foi descansar. Mas eu vou chamá-la.

        — Não! Eu esperarei. Entretanto, esclarece-me um ponto que continua para mim envolto em mistério.

        — Que é, senhor?

        — Por que te afligiste tanto quando Anasir pronunciou um ai? Se ela gritar com outra exclamação qualquer, tu não te alteras...

        Zuleima ficou a olhar por momentos um ponto vago no espaço. Depois voltou a olhar para o rosto de D. Mendo. E falou:

        — Senhor! A vós posso contar o que há muito me foi dito. Quando a minha ama nasceu, uma feiticeira disse que Anasir morreria ao pronunciar o sétimo ai.

        — E ela nunca pronunciara essa exclamação enquanto pequena?

        — Nunca!

        — Nem mesmo depois de crescida?

        — Nunca, senhor! Compreendeis agora o meu desespero por ouvi-la exclamar quatro ais quase a seguir?

        D. Mendo ficou pensativo.

        — Zuleima! Por mim... prefiro não acreditar em profecias de feiticeiras.

        — Mas eu acredito, senhor!

        — De qualquer modo, tentaremos evitar que Anasir volte a proferir tal exclamação — que, por desgraça, é tão vulgar!

        — Assim o desejo! Mas estou crente que o destino está contra nós... Nada poderemos fazer.

        No limiar da porta que dava para a alcova, Anasir surgiu, sorrindo.

        — Que surpresa agradável, meu senhor!

        E censurando Zuleima:

        — Por que não me chamaste?

        — D. Mendo assim o determinou.

        Ela tentou ralhar-lhe:

        — Ai, meu senhor, por que fizeste isso?

        Mas deixou de sorrir vendo a palidez de Zuleima. Voltou-se para o cavaleiro:

        — D. Mendo! Achais que Zuleima se assusta com razão quando eu grito: Ai?...

        D. Mendo não conseguiu esconder certa apreensão. Zuleima chorava em silêncio.

        O cavaleiro falou à sua amada:

        — Sabeis decerto que na vossa religião se acredita em vaticínios de feiticeiras.

        — Sei.

        Propositadamente, D. Mendo mentiu, fingindo acreditar no que lhe dissera Zuleima.

        — Pois bem: dizem que os ais vos trazem infelicidade.

        Ela sorriu.

        — D. Mendo! Não sei porque há-de Zuleima chorar!

        Entre lágrimas, Zuleima respondeu:

        — Porque vós, senhora, soltastes mais dois ais! São já seis, senhora! Seis!...

        Ela olhou-a, perplexa:

        — E isso que tem? Desde que os pronuncio é que conheço a felicidade! E a vós a devo, D. Mendo!

        O cavaleiro cristão apertou nos braços a jovem moura.

        — Querida! Como gostaria de ficar sempre ao pé de vós!

        — Por que não ficais?

        — Sou obrigado a ausentar-me por algum tempo. O meu senhor, el-rei D. Afonso Henriques, nomeou-me para nova empresa.

        O sorriso desapareceu do rosto da jovem moura.

        — Ides... combater os mouros?

        — Sim.

        — E tendes mesmo de obedecer?

        — Sou guerreiro, e devo obediência ao meu rei.

        — Pois ide! Continuarei a amar-vos, apesar de quanto tenta separar-nos! Quando partis?

        — Depois de amanhã.

        — Seguireis aquela estrada que se vê além?

        — Sim.

        — Pois ficarei sentada naquele penedo, a olhá-la, até os meus olhos não poderem distinguir-vos mais!

        — Minha doce Anasir! Por que há-de o mundo separar os namorados?

        Ela olhou-o através de um véu de lágrimas.

        — Porque esta terra é uma terra de mágoa e de dor! Pagamos bem caro cada minuto de felicidade!

        Como se a tarde se quisesse associar à súbita tristeza de Anasir, o Sol escondeu-se por detrás da serra, numa pequena nuvem de estranho desenho...

        Mais sete dias passaram, segundo a lenda. Anasir parecia uma sombra deslizando na pequena casa do terreiro. A saudade pelo jovem cristão punha-lhe na alma o amargo da espera. Entretanto, Zuleima espiava os arredores. Também ela descobrira sombras suspeitas que rondavam a casa. E, de súbito, a algazarra de um grupo de mouros que haviam entrado no terreiro pô-la em louco sobressalto. Zuleima correu a ver de que se tratava. Anasir seguiu-a. Então, entre os mouros um se destacou. Era Aben-Abed. Zuleima gritou-lhe:

        — Por que vens agora, se já abandonaste o que era teu?

        Aben-Abed olhou-a com rancor.

        — O que é meu é sempre meu!

        Vendo-o caminhar para Anasir, Zuleima colocou-se na sua frente, e gritou-lhe:

        — Vai-te! Afasta-te do nosso caminho e segue o teu! É melhor assim!

        Mas Aben-Abed continuou a caminhar direito a ela, vagarosamente.

        Pálida de susto, Anasir parecia ter perdido a fala. Zuleima protegia-a com o seu corpo.

        Então, Aben-Abed levantou o alfange, e sem mais palavras cortou de um só golpe a cabeça da velha e dedicada aia.

        Louca de aflição, Anasir soltou o sétimo ai, que ficou repercutindo no espaço. Vendo o algoz da que fora a sua segunda mãe, a jovem moura gritou-lhe:

        — Maldito sejas, Aben-Abed!

        A voz, porém, extinguiu-se-lhe na garganta. O mouro ferira-a no peito. E era mortal, a ferida.

        No horizonte surgiu uma mancha de fogo. Aben-Abed fugia pela segunda vez, abandonando as suas vítimas. O silêncio voltou a reinar na casinha do terreiro. Um silêncio profundo. Um silêncio de morte.

        Quando o jovem D. Mendo regressou e soube da horrível tragédia, ficou louco de dor. Deu ao terreiro que lhe pertencia o nome de Sete ais, em memória da jovem moura que ele tanto amava. Ao sair dali, jurou eterna vingança.

        E nunca D. Afonso Henriques chegou a compreender a razão porque o seu súbdito D. Mendo de Paiva se tornara, desde a tomada do castelo de Sintra, um dos mais ferozes caçadores de mouros...


Gentil Marques  - Sintra.

Entendendo o conto:

 

01 – Em qual contexto histórico se passa a lenda e sob qual condição o castelo de Sintra se rendeu?

      A lenda se passa logo após D. Afonso Henriques ter conquistado Lisboa aos Mouros, em 25 de outubro de 1147. Diante disso, o castelo de Sintra rendeu-se sem oferecer resistência, mas sob a condição de que os moradores mouros pudessem se estabelecer em terras vizinhas em liberdade.

02 – Quem era D. Mendo de Paiva e como ele conheceu a princesa moura Anasir?

      D. Mendo de Paiva era um jovem cavaleiro cristão, muito chegado ao rei D. Afonso Henriques e um dos designados para ocupar o castelo de Sintra. Ele conheceu Anasir no momento em que ela e sua velha aia, Zuleima, tentavam fugir do castelo utilizando uma saída secreta que ele acabara de descobrir.

03 – Qual era a terrível profecia que envolvia a vida da princesa Anasir?

      Quando Anasir nasceu, uma feiticeira lançou um vaticínio prevendo que a princesa morreria no exato momento em que pronunciasse o seu sétimo "ai". Por essa razão, a aia Zuleima entrava em completo desespero e pânico cada vez que a jovem soltava essa exclamação.

04 – Como Anasir e Zuleima foram parar na casinha do terreiro e qual era a situação delas lá?

      D. Mendo apaixonou-se por Anasir e, por medo de que ela partisse ou fosse vista pelos outros soldados cristãos, forçou-as a segui-lo. Ele as instalou em uma pequena casa num terreiro de sua propriedade na serra. Lá, elas viviam uma situação de "semicativeiro", pois D. Mendo as escondia tanto de mouros quanto de cristãos para protegê-las e garantir a companhia de Anasir, já que temia as censuras do rei.

05 – Quem era Aben-Abed e por que D. Mendo e Anasir o consideravam um cobarde?

      Aben-Abed era o antigo companheiro mouro de Anasir (a quem ela supostamente "pertencia"). Ele era considerado um cobarde porque, quando os cristãos atacaram o castelo, o medo falou mais alto e ele fugiu com sua família pela passagem secreta, deixando Anasir e a aia para trás, entregues ao próprio destino.

06 – Como se concretizou a profecia do sétimo "ai" durante o ataque final?

      Aproveitando-se da ausência de D. Mendo (que partira para uma missão militar), Aben-Abed e um grupo de mouros cercaram a casa para reivindicar Anasir. Quando Zuleima tentou proteger a princesa, Aben-Abed cortou a cabeça da aia com um alfange. Ao ver a cena horrível da morte de sua "segunda mãe", Anasir soltou, louca de aflição, o seu sétimo ai. Logo em seguida, Aben-Abed desferiu-lhe um golpe mortal no peito, cumprindo a profecia.

07 – Qual foi a origem do nome do famoso local em Sintra e como a tragédia mudou o comportamento de D. Mendo?

      Ao regressar e encontrar Anasir e Zuleima mortas, D. Mendo ficou louco de dor. Em memória dos últimos gritos e do sofrimento da mulher que amava, ele batizou o seu terreiro com o nome de Sete Ais (atualmente conhecido como o Palácio/Sítio de Sete ais em Sintra). Consumido pela dor, ele jurou vingança eterna e transformou-se, dali em diante, em um dos mais ferozes e implacáveis caçadores de mouros do exército de D. Afonso Henriques.

  

 

 

CONTO: LENDA DO TESTEMUNHO DE AMOR - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Conto: Lenda do testemunho de Amor

 

        Bensafrim é povoação muito antiga. Tão antiga que se perde na ronda do tempo. As suas tradições andam de boca em boca entre os mais velhos do lugar. E como a lenda é o fio doirado que tece a teia do maravilhoso, Bensafrim não podia fugir à regra. Vamos contar uma das lendas oriundas de Bensafrim.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi9Ej_FRZYrp2hKPkCL3ONmU_4q5_ox02KlAQhXKE8cqt-43g-EktL3qoaj6qIsvbSszHXBgElFTtJiRtlRuvVEo0XPk1h8tIv8k5-vgKK8MNiqG6tTTsz8GVPyHpCZn-787KFHE0ax-vuZTHnIXRa1J_prCgkKI4iZmHIkp6OLPKObF0Hj5iwffDE96fY/s1600/BENSAFRIM.jpg 


        Há muitos anos existia um rei jovem e belo. Tinha vindo de um povo que descera do norte e conquistara aquelas terras. Como ainda não casara, pensou em escolher mulher entre as jovens mais belas do país que viera governar. Porém, era muito exigente, pois receava que uma mulher vinda de um povo conquistado pudesse um dia atraiçoá-lo. Assim, imaginou para aquela que ele escolhesse o maior testemunho de amor que uma mulher pudesse dar. Enviou emissários por todo o reino para lhe trazer a mais bela das jovens encontradas. E no dia fixado uma fila imensa de jovens desfilou perante o seu senhor, sem que este parecesse entusiasmado. De súbito, o rei estendeu um braço e disse para um dos seus validos:

        — Repara! Aquela jovem, além, junto à pedra da fonte!

        O interpelado olhou. Franziu as sobrancelhas.

        — Senhor, indicas-me aquela de cabelo tão loiro como as espigas?

        — Essa mesma. É muito bela e recorda-me as mulheres do meu país.

        O outro mostrou-se embaraçado.

        — Senhor, ela é belíssima, decerto. Mas essa não a escolhemos, porque o pai foi dos que mais nos combateram, morrendo durante a luta. Não merece confiança! 

        O rei teve um suspiro de contrariedade.

        — Pois é pena! Por essa é que o meu coração vibrou.

        — Esquece-a, Senhor! Nem para simples prazer te pode servir, pois, como te disse, é perigosa!

        O rei encolheu os ombros.

        — Ora! Saberei dominá-la. Escolhe quatro ou cinco destas mulheres. Manda as outras embora. As escolhidas, dá-lhes prendas e ordena-lhes que se conservem no acampamento até amanhã. Quanto à loira, cor de espiga... diz-lhe que venha falar-me.

        Embora atónito com a decisão do rei, o valido não teve outro remédio senão cumprir as ordens recebidas.

        Devagar, a jovem entrou na tenda ricamente adornada.

        — Senhor, mandaste-me chamar?

        O jovem rei olhou-a sorrindo.

        — Mandei. Aproxima-te.

        A jovem obedeceu. Ele tornou:

        — Tens família?

        — Não, meu senhor.

        — Desde quando vives só?

        — Desde que pensaste conquistar a nossa terra.

        — Teus pais morreram?

        — Sim.

        — Odeias-me, decerto!

        — Sinto-me envergonhada por não ser assim!

        — Tens vergonha, porquê?

        — Porque devia odiar-te. Meu pai combateu-te até ao seu último alento. E eu devia fazer o mesmo.

        — Porque não fazes?

        — Porque perdi a coragem.

        — Quando?

        — Quando te vi.

        — Porquê?

        Ela olhou-o sem responder. Ele animou-a:

        — Vamos, sê sincera comigo!

        — Nunca menti!

        — Nunca?

        — Nunca, Senhor!

        — Então, diz-me porque não me odeias?

        — Porque... quando entraste nesta terra à frente dos teus homens... vi-te tão jovem… tão belo… tão forte e decidido que...

        Ela calou-se. Ele sorriu abertamente.

        — Vamos, continua!

        Ela baixou os olhos.

        — Senhor... Eu nunca vira um homem como tu!

        — E daí?

        — Tive pena de que não fosses dos nossos!

        — Sou o teu rei. Portanto, tu és agora uma das minhas súbditas!

        — Bem o sei. E se me chamaste porque tenho andado fugida, acredita que é do meu povo que fujo!

        — Do teu povo?

        — Sim. Sinto-me, como te disse, envergonhada de mim mesma. Serei incapaz de odiar-te, mesmo que me tirasses a vida!

        O rei exultou.

        — Eis uma esplêndida confissão! Diz-me: como te chamas?

        — Griselda.

        — Um nome estranho, como estranha é a tua beleza.

        Pegou-lhe numa das mãos, que estavam frias e húmidas. Perguntou, adoçando a voz:

        — Serás capaz de amar-me?

        Com a maior sinceridade, a jovem respondeu:

        — Já te amo, Senhor!

        Ele riu.

        — Óptimo! E gostarias de ser minha mulher?

        Ela abriu os seus lindos olhos.

        — Casar contigo, eu? Mas... sou pobre e sem família!

        — Isso não me incomoda. Responde apenas: gostarias ou não de ser minha mulher?

        — Sim! Seria a realização de um maravilhoso sonho!

        — Pois casarás comigo, se te sujeitares a uma condição.

        — Qual?

        — Terás de obedecer-me cegamente em tudo quanto te pedir. Será esse o teu testemunho de amor.

        Griselda sorriu, comentando:

        — Senhor, é fácil obedecer a quem amamos.

        — Conforme!

        Ela meneou a cabeça.

        — Não creio que isso me custe. A tua vontade será sempre a minha, pois já te amo desde que te vi entrar como triunfador.

        — Que fazias junto à fonte?

        — Queria ver-te. Sempre que posso, observo-te.

        Ele riu. Depois chamou o seu valido e declarou-lhe, solene:

        — Já encontrei a esposa que procurava. Podes tu escolher entre as cinco que foram eleitas. Mas chama toda a corte. Quero que oiçam a jura que Griselda vai prestar antes das nossas bodas.

        O outro perguntou, curioso:

        — Que jura, senhor?

        — A de obedecer-me cegamente de hoje em diante. Será o maior testemunho de amor!

        — E como saberás que será esse o maior testemunho de amor?

        — O tempo falará por mim!

        E resoluto:

        — Vai... Espalha aos quatro ventos que o teu rei já arranjou esposa!

        As bodas celebraram-se com a maior pompa. Ricamente vestida, Griselda era, sem dúvida, a mais bela jovem de léguas em redor. O régio par sentia-se feliz e a sua alegria transbordava para os que de perto com eles conviviam.

        Um ano passou. Griselda adorava de tal modo o esposo que lhe perdoava qualquer modo mais brusco ou acedia sem protesto a assistir ao julgamento de algum conterrâneo mais rebelde.

        Griselda andava radiante e o rei também. Esperavam um herdeiro. Os homens da corte diziam em voz baixa:

        — Oxalá traga o sangue do nosso rei!

        Nasceu um rapaz. Loiro como as espigas de trigo, olhos verdes, cor do mar. Griselda apertava-o ao peito, louca de alegria. Também lhe pareceu ver emocionado o rosto do seu amado esposo ao contemplar o seu menino. E sentiu mais quente o beijo que ele lhe deu. Passados oito dias, porém, Griselda viu entrar nos seus aposentos o rei seu esposo acompanhado de três dos seus conselheiros. Sem saber porquê, o seu coração bateu forte. Afrouxou o sorriso nos seus lábios. Estreitou o filho nos braços e ficou muda, olhando o seu senhor. E eis que ele a chamou com a voz solene dos grandes momentos:

        — Griselda! Estás recordada do teu juramento?

        Tremendo, ela declarou:

        — Sim, meu senhor!

        — Pois bem: sinto dizer-te que terei de matar o menino nascido de ti, porque um rei só pode ter descendência de sangue puro!

        Griselda arregalou os olhos de pavor.

        — Que dizeis? Vais matar o teu filho?

        — Que é teu, também!

        — Mas... porque casaste comigo?

        — Porque juraste obedecer-me cegamente.

        — Assim foi!

        — Então, dá-me o menino!

        Griselda abraçou o filho. Depois olhou o esposo. Baixou o olhar. Lágrimas silenciosas inundaram o seu rosto. O rei ordenou aos seus:

        — Levem-no!

        Griselda deixou que o filho lhe fosse arrebatado. Não teve um queixume. Fechou os olhos. Dir-se-ia à parte do mundo!

        Sem dizer mais palavra, o rei deixou os aposentos da mulher. E durante meses não mais lhe apareceu.

        Outro ano decorreu. Griselda parecia um fantasma vagueando pelo palácio. Um dia, inesperadamente, o rei veio visitá-la. E perguntou-lhe:

        — Griselda, ainda me amas?

        Com voz dolorida, ela confessou:

        — Sim, meu senhor… embora devesse odiar-te!

        — Pois bem. Se me amas, vais compreender a minha situação.

        — Que situação, Senhor?

        — O povo quer um herdeiro, mas de sangue puro.

        — Já o calculava!

        E eu peço-te que te retires do palácio e vás habitar novamente a tua casa de solteira, pois breve chegará do meu país a noiva que me destinaram. Ficarás com o suficiente para viveres.

        Com o coração despedaçado, ela apenas disse:

        — Jurei obedecer-te cegamente... e obedeço-te! Mas… porque não preferes tirar-me a vida?

        — Porque deves viver para continuares a amar-me!

        Griselda levou uma das mãos ao peito.

        — Senhor, creio que não será por muito tempo. Mas enquanto o meu coração bater, só por ti baterá!

        E sem querer ouvir mais foi arranjar as roupas que havia trazido de solteira, e saiu do palácio sem que alguém se opusesse à sua partida.

        Mais outro ano passou. Griselda era visitada com frequência por um conselheiro do rei, a saber da sua saúde. Triste, mas sem um lamento, a esposa do rei sorria, afável, e tinha sempre a mesma resposta:

        — Dizei ao meu senhor que estarei bem enquanto puder fazer a sua vontade.

        O conselheiro abanou a cabeça, condoído.

        — Senhora! Não sei se vos é possível ir mais além...

        Ela pareceu assustada.

        — Mais? Que pode o rei desejar de mim?

        — Que consentis em ir assistir às suas novas bodas, pois acaba de chegar a esposa que ele esperava.

        Griselda fez-se horrivelmente pálida. Para não cair, encostou-se à mesa da sua pobre casa. E respondeu, baixando o olhar:

        — Enquanto tiver vida hei-de obedecer sempre, sem queixumes, aos desejos do meu rei!

        — Viremos buscar-te.

        — Quando?

        — Dentro de alguns dias.

        — Espero que ainda me encontrareis com a vida!

        Saiu o conselheiro do rei. Só então Griselda se deixou cair sobre um banco, cabeça entre as mãos, sem lágrimas já para chorar!

        Amparada pelas damas, Griselda deixou-se vestir com as maiores galas. Uma das damas perguntou:

        — Senhora! Não sentis curiosidade em saber porque vos vestimos assim?

        Ela sorriu. A sua voz era fraca.

        — O vosso rei e senhor não deseja que a sua nova esposa me encontre mal trajada!

        Sorriram as damas, entreolhando-se. Uma delas arriscou:

        — Admiro-vos! Como podeis suportar tanto?

        Cada vez mais fraca, Griselda respondeu:

        — Se suporto... é porque posso aguentar. De outra forma já teria feito companhia ao meu adorado filho!

        — Mas vós consentistes...

        — Perdoa... se não falo mais em tal assunto... Mas não devo… nem posso...

        Tremia Griselda, ainda admiravelmente bela, embora magra e pálida como defunta.

        Soaram trombetas. As damas sorriram.

        — Vamos! Preparai-vos para tudo!

        A outra dama recomendou:

        — Cuidado! Não faleis demais!

        Griselda aceitou os braços que lhe ofereciam, mas caminhou com firmeza. Algo de estranho fazia-lhe bater mais forte o coração. Uma das damas censurou:

        — Senhora, caminhais com tanta energia que vais cansar-te!

        Ela ainda encontrou forças para sorrir e dizer:

        — Vou ao encontro do nosso rei!

        O salão esplendidamente decorado estava cheio. No trono, o rei. Vaga, a cadeira da rainha. Quando Griselda entrou, toda a corte se manifestou com respeito e alegria. O rei veio buscá-la. Olhou-a nos olhos profundamente. Beijou-lhe uma das mãos e disse alto:

        — Senhoras e senhores! Eis a vossa rainha, a quem fiz passar pelas mais duras provas! Em público quero pedir-lhe perdão pelo que a fiz sofrer e regozijar-me pelo grande testemunho de amor que me deu a mulher que eu amo e que escolhi para minha esposa!

        Não disse mais o rei. Griselda desmaiara de comoção!

        Foi um burburinho. Vieram físicos para a reanimarem.

        Lentamente, a rainha voltou a si. Abriu os olhos. Viu o seu senhor, as damas da corte, os conselheiros do rei, mas os seus olhos procuravam mais. Algo mais que ali não via. E aos seus lábios subiam perguntas ansiosas, mas que não queria formular, não fossem elas desgostar o rei. Por fim, foi o próprio monarca quem falou.

        — Griselda, sei o que procuras! Sei o que busca o teu olhar ansioso. Já mandei buscar o nosso filho! Ele vive! Vive, e é lindo e bom como tu!

        Griselda fechou os olhos. Lágrimas límpidas correram pelo seu rosto emagrecido. Apertou a mão do esposo e murmurou:

        — Senhor, mostra-me o meu filho!... Depois... poderei morrer!

        O rei ciciou:

        — Não morrerás! Os físicos vão curar-te! Quero-te a meu lado por muitos anos! E quero dar-te em alegrias o que te dei em sofrimento!

        Uma aia entrou no aposento onde estava a rainha. Trazia ao colo um lindo menino. Griselda abriu os olhos, estendeu os braços e murmurou:

        — Meu adorado filho!

        Os braços descaíram de novo. A cabeça descaiu também.

        Desmaiara uma vez mais. Aflitos, os físicos acorreram. O rei perguntou:

        — É grave o que tem a rainha?

        Um dos físicos olhou o rei.

        — Senhor, não sei se poderá resistir. Foste grande, tanto no tirar como no dar!

        O rei abriu os olhos num espanto.

        — Não quero que ela morra! Eu amo-a, podem crer!

        Fez-se silêncio a seu lado. Mas, lá fora, o vento veio bater ao de leve na janela da câmara de Griselda, como um convite a segui-lo na liberdade do espaço...


Gentil Marques -  Faro.

Entendendo o conto:

01 – Por que o jovem rei era tão exigente na escolha de sua esposa e o que ele exigia dela?

      O rei vinha de um povo do norte que havia conquistado aquelas terras. Por governar um povo conquistado, ele tinha muito medo de ser traído por uma esposa local. Para mitigar esse receio, ele decidiu que a escolhida deveria lhe dar o maior testemunho de amor possível: a obediência cega.

02 – Qual foi o principal impedimento inicial apresentado pelo valido do rei para que ele não escolhesse Griselda?

      O valido alertou o rei de que Griselda era "perigosa" e não merecia confiança, pois ela era filha de um dos homens que mais havia combatido os conquistadores, tendo inclusive morrido durante a guerra de resistência.

03 – Por que Griselda afirmou que se sentia envergonhada ao confessar que não odiava o rei?

      Griselda sentia-se envergonhada porque, por honra e lealdade à memória de seu pai (que lutou até a morte contra o rei), o seu dever moral era odiar o conquistador. No entanto, ela perdeu essa coragem assim que o viu, apaixonando-se imediatamente por sua beleza, juventude e força.

04 – Quais foram as três duras provas de obediência pelas quais o rei fez Griselda passar ao longo dos anos?

      As três provas foram:

      A perda do filho: Permitir que levassem o seu bebê recém-nascido de apenas oito dias sob o pretexto de que o rei o mataria por não ser de "sangue puro".

      O exílio e o divórcio: Aceitar ser expulsa do palácio e voltar a morar em sua antiga e pobre casa de solteira para dar lugar a uma suposta nova noiva.

      Assistir às novas bodas: Consentir em retornar ao palácio, vestida de gala, para assistir ao novo casamento do rei.

05 – Qual era o verdadeiro paradeiro do filho de Griselda e do rei?

      O menino nunca foi morto. Tudo fez parte de uma farsa cruel do rei para testar a jura de obediência de Griselda. A criança foi mantida viva e escondida em segredo durante os anos em que a mãe sofreu achando que o filho havia sido assassinado.

06 – Como a corte reagiu quando Griselda entrou no salão para o suposto novo casamento do rei?

      Ao contrário do que Griselda esperava (que seria apenas uma espectadora rejeitada), toda a corte a recebeu com profundo respeito e alegria. O rei veio ao seu encontro, beijou sua mão e declarou publicamente que ela era a verdadeira rainha, pedindo-lhe perdão pelas duras provas a que a submeteu.

07 – Qual é o desfecho da lenda em relação à saúde de Griselda e o que o físico quis dizer ao rei?

      Após tantas emoções extremas e anos de sofrimento silencioso, o corpo de Griselda não resistiu e ela desmaiou sucessivas vezes ao rever o filho. O físico alertou o rei dizendo: "Foste grande, tanto no tirar como no dar!", criticando implicitamente a crueldade do teste. O conto termina de forma ambígua e melancólica, sugerindo a morte iminente de Griselda, com o vento batendo na janela como um convite para o seu descanso final.

 

 

CONTO: TANG, O CAÇADOR - CONTO CLÁSSICO CHINÊS - COM GABARITO

 Conto: Tang, o caçador

         Meu primo Zhong Han era juiz no condado de Jin. Nessa época, um tigre tinha matado vários caçadores na região e ninguém conseguia pegá-lo. As pessoas foram então procurar meu tio para que ele contratasse Tang, o caçador, para prender esse tigre, achando que ninguém mais seria capaz de fazer esse serviço.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9G4JdtxYels2e8208atumDTbDC9gGvBF7M1YkzRNu21YW_cJRTaa2EyU6BpPKVsVvDjO9JBwhyphenhyphenTPO4ebsJoANHnXriodqJPgj8iZWggR5o7v0QFrfdDdi1t6vioM8iZZpdvTZ7I2EXhDpMy2gJnXhtVFuC5un3nlKKYpR4F4vHkDCMCr3UdOOK0LLo5s/s1600/MING.jpg


        De acordo com Daí Dongyuan, de Xiuning, a história desses Tang vinha desde a Dinastia Ming, quando existiu um caçador chamado Tang, que foi morto por um tigre logo depois de se casar. Sua mulher, grávida, deu à luz um menino e fez uma promessa:
“Se não conseguir matar tigre, nunca vai ser meu filho e todos os seus filhos e filhos de seus filhos que não conseguirem, também não serão meus descendentes”.

        Devido a isso, todos os Tang, do sexo masculino, são especialistas em matar tigres.

        Zhong Han sabia disso e enviou então alguém para chamar um Tang, separando uma boa quantia de dinheiro para pagá-lo depois do serviço feito.

        Na sua volta, esses homens disseram que eles tinham contratado os melhores dos Tang e que eles chegariam a qualquer momento. Chegaram, mas era um velho com a barba e o cabelo brancos, que tossia e fungava a cada instante e um ajudante de 16 anos.

        O juiz ficou muito desapontado com o que viu. Mas ordenou que a primeira coisa a ser feita era alimentar esses homens. Percebendo que o juiz parecia desapontado, o velho ajoelhou com um só joelho e disse:

        “Estou ouvindo esse tigre por perto, no máximo a 5 li* do povoado. Melhor a gente ir logo. A gente pega o tigre e depois come alguma coisa”.

        O juiz mandou então que um de seus homens servisse de guia e eles partiram.

        Chegando na boca de uma ravina, os homens não seguiram adiante. Mas o velho sorriu:

        “Comigo aqui, como podem estar com medo?”

        Quando eles já tinham quase descido o barranco, o velho olhou para o rapaz e disse:

        “Parece que esse tigre está dormindo. Vai lá e dá um jeito dele acordar”.

        O rapaz então urrou como um tigre e num instante o tigre veio de entre as árvores na direção deles e pulou sobre o velho. O velho permaneceu firme, levantando um pequeno machado, de oito cun** de cumprimento e quatro de largura. Quando o tigre estava para esmagá-lo, ele afastou-se de lado, e tigre pulou, caindo no chão todo ensanguentado. As pessoas reuniram-se em volta e descobriram que o tigre tinha sido cortado do queixo até a ponta do rabo, ao tocar no machado.

        O juiz então recompensou com generosidade os caçadores Tang, agradecendo-os por sua ajuda.

        O velho contou então que que tinha treinado seus braços e olhos por mais de dez anos. Ele conseguia encarar um tigre sem piscar, mesmo quando seus olhos estavam com um cisco. E os seus braços eram tão fortes que mesmo o homem mais forte não conseguia movê-los um centímetro.

        Zhuangzi, o antigo filósofo chinês, disse uma vez:

        “O que é feito com prática é sempre convincente. Uma pessoa que nasce hábil nunca pode ultrapassar quem pratica constantemente”

        Isso deve ser verdade. Um homem chamado Shi Sibiao podia escrever no escuro de uma forma tão perfeita como se estivesse usando uma luz de vela. Eu ouvi falar também de Sua Excelência, Li Wnke (1628-1703), de Jing Hai, que separava 100 pedaços de papel e escrevia um carácter em cada um. Punha todos em pilha contra a luz e os 100 caracteres ficavam exatamente um em cima do outro, formando um único carácter, e isso não é mágica.


Contos do Oriente. Conto Clássico Chinês.

Entendendo o conto:

 

01 – Qual era a origem da promessa feita pela matriarca da família Tang que obrigava todos os seus descendentes masculinos a serem caçadores de tigres?

      Na época da Dinastia Ming, um caçador chamado Tang foi morto por um tigre logo após casar-se. Sua esposa, que estava grávida, prometeu que qualquer filho ou descendente dela que não conseguisse matar um tigre seria deserdado e não seria considerado parte da sua linhagem.

02 – Por que o juiz Zhong Han ficou desapontado quando os caçadores contratados finalmente chegaram?

      Ele ficou desapontado porque os homens que chegaram para a difícil missão não pareciam fortes guerreiros; eram um velho de barba e cabelos brancos, que tossia e fungava constantemente, acompanhado por um jovem ajudante de apenas 16 anos.

03 – O que o velho caçador propôs fazer ao perceber o desapontamento do juiz, antes mesmo de se alimentar?

      Ele afirmou que conseguia ouvir o tigre por perto (a no máximo 5 li do povoado) e propôs irem caçar o animal imediatamente, deixando para comer somente depois que o serviço estivesse concluído.

04 – Como o velho e o jovem ajudante agiram para atrair e derrotar o tigre na ravina?

      O velho pediu ao rapaz que fizesse o tigre acordar. O jovem urrou como um tigre e, quando o animal saltou sobre o velho, este esquivou-se lateralmente segurando firmemente um pequeno machado. O próprio impulso do salto fez com que o tigre fosse cortado do queixo até o rabo ao colidir com a lâmina.

05 – Qual é o ensinamento ou moral central do conto defendido pelo autor e ilustrado pelos exemplos finais (como o de escrever no escuro)?

      A moral central é que a prática constante e o treinamento rigoroso superam o talento natural. O próprio velho treinou seus braços e olhos por mais de dez anos, o que comprova a citação do filósofo Zhuangzi de que "o que é feito com prática é sempre convincente".

 

 

CONTO: UM PEIXE NA SALA - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Um peixe na sala

         -- Não gosto nada que olhem para mim – dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.

Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9d5KCOHtDsSLe71Kh6wKapleiBPCTYU6aOGF1MBMQn1b0nCqje7bCC_0gZMzXCBK5hyPmQaqMmRU9W4BbXgDrkRa5Cxm7MUcLTpXL1L1FOs2AzStjawKnu3424pgZTAsxuaOzenqzWurAUWASero-1uRqdT2NXX7YI3okJoiqlZgzg9Ur3sVHwcudAq4/s320/PEIXE.jpg


        Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.

        Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.

        -- Detesto que me observem – dizia o peixe. – Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.

        E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.

        A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.

        Mas a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:

        -- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?

        Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:

        -- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.

        Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.

        Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.

        Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.

        -- Quem quer ficar com o peixe do aquário? – perguntou um deles.

        Nenhum queria.

        -- Deita-se o peixe para o tanque do quintal – decidiu um e os outros concordaram.

        O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.

        Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

António Torrado.

Entendendo o conto:

 

01 – Qual era o principal motivo de irritação do peixinho enquanto ele morava no aquário da tia Elisa?

      O peixinho detestava ser observado e olhado pelas visitas que iam à casa da tia Elisa. Ele sentia-se invadido e enervado com a atenção constante das pessoas.

02 – Por que o peixinho não conseguia esconder-se quando tentava refugiar-se atrás das algas do aquário?

      Ele não tinha êxito porque o espaço ou o tamanho das algas não era suficiente para cobri-lo totalmente; como descreve o texto, "ou sobrava cauda ou sobrava cabeça".

03 – Como mudou a rotina de alimentação do peixe após a tia Elisa adoecer, e qual foi a reação dele a essa mudança?

      Após a doença da tia Elisa, quem passou a alimentar o peixe foi uma empregada. O peixe sentiu uma diferença negativa, pois a funcionária colocava a comida sem as gentilezas e o desvelo característicos da sua antiga dona.

04 – Qual foi o destino dado ao peixinho pelos sobrinhos da tia Elisa após o falecimento dela?

      Como nenhum dos sobrinhos quis ficar com o peixe, eles decidiram levá-lo para o quintal e jogá-lo dentro de um tanque de águas profundas.

05 – O que o peixinho sentiu quando finalmente foi para o tanque profundo onde ninguém mais o conseguia ver?

      Ao contrário do que se poderia imaginar, quando ficou isolado no meio das sombras e dos lodos sem que ninguém o visse, o peixinho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.