Conto: Lenda do testemunho de Amor
Bensafrim
é povoação muito antiga. Tão antiga que se perde na ronda do tempo. As suas
tradições andam de boca em boca entre os mais velhos do lugar. E como a lenda é
o fio doirado que tece a teia do maravilhoso, Bensafrim não podia fugir à
regra. Vamos contar uma das lendas oriundas de Bensafrim.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi9Ej_FRZYrp2hKPkCL3ONmU_4q5_ox02KlAQhXKE8cqt-43g-EktL3qoaj6qIsvbSszHXBgElFTtJiRtlRuvVEo0XPk1h8tIv8k5-vgKK8MNiqG6tTTsz8GVPyHpCZn-787KFHE0ax-vuZTHnIXRa1J_prCgkKI4iZmHIkp6OLPKObF0Hj5iwffDE96fY/s1600/BENSAFRIM.jpg Há
muitos anos existia um rei jovem e belo. Tinha vindo de um povo que descera do
norte e conquistara aquelas terras. Como ainda não casara, pensou em escolher
mulher entre as jovens mais belas do país que viera governar. Porém, era muito
exigente, pois receava que uma mulher vinda de um povo conquistado pudesse um
dia atraiçoá-lo. Assim, imaginou para aquela que ele escolhesse o maior
testemunho de amor que uma mulher pudesse dar. Enviou emissários por todo o
reino para lhe trazer a mais bela das jovens encontradas. E no dia fixado uma
fila imensa de jovens desfilou perante o seu senhor, sem que este parecesse
entusiasmado. De súbito, o rei estendeu um braço e disse para um dos seus
validos:
—
Repara! Aquela jovem, além, junto à pedra da fonte!
O
interpelado olhou. Franziu as sobrancelhas.
—
Senhor, indicas-me aquela de cabelo tão loiro como as espigas?
—
Essa mesma. É muito bela e recorda-me as mulheres do meu país.
O
outro mostrou-se embaraçado.
—
Senhor, ela é belíssima, decerto. Mas essa não a escolhemos, porque o pai foi
dos que mais nos combateram, morrendo durante a luta. Não merece confiança!
O
rei teve um suspiro de contrariedade.
—
Pois é pena! Por essa é que o meu coração vibrou.
—
Esquece-a, Senhor! Nem para simples prazer te pode servir, pois, como te disse,
é perigosa!
O
rei encolheu os ombros.
—
Ora! Saberei dominá-la. Escolhe quatro ou cinco destas mulheres. Manda as
outras embora. As escolhidas, dá-lhes prendas e ordena-lhes que se conservem no
acampamento até amanhã. Quanto à loira, cor de espiga... diz-lhe que venha
falar-me.
Embora
atónito com a decisão do rei, o valido não teve outro remédio senão cumprir as
ordens recebidas.
Devagar,
a jovem entrou na tenda ricamente adornada.
—
Senhor, mandaste-me chamar?
O
jovem rei olhou-a sorrindo.
—
Mandei. Aproxima-te.
A
jovem obedeceu. Ele tornou:
—
Tens família?
— Não, meu senhor.
—
Desde quando vives só?
—
Desde que pensaste conquistar a nossa terra.
—
Teus pais morreram?
—
Sim.
—
Odeias-me, decerto!
—
Sinto-me envergonhada por não ser assim!
—
Tens vergonha, porquê?
—
Porque devia odiar-te. Meu pai combateu-te até ao seu último alento. E eu devia
fazer o mesmo.
—
Porque não fazes?
—
Porque perdi a coragem.
—
Quando?
—
Quando te vi.
—
Porquê?
Ela
olhou-o sem responder. Ele animou-a:
—
Vamos, sê sincera comigo!
—
Nunca menti!
—
Nunca?
—
Nunca, Senhor!
—
Então, diz-me porque não me odeias?
—
Porque... quando entraste nesta terra à frente dos teus homens... vi-te tão
jovem… tão belo… tão forte e decidido que...
Ela
calou-se. Ele sorriu abertamente.
—
Vamos, continua!
Ela
baixou os olhos.
—
Senhor... Eu nunca vira um homem como tu!
—
E daí?
—
Tive pena de que não fosses dos nossos!
—
Sou o teu rei. Portanto, tu és agora uma das minhas súbditas!
—
Bem o sei. E se me chamaste porque tenho andado fugida, acredita que é do meu
povo que fujo!
—
Do teu povo?
—
Sim. Sinto-me, como te disse, envergonhada de mim mesma. Serei incapaz de
odiar-te, mesmo que me tirasses a vida!
O
rei exultou.
—
Eis uma esplêndida confissão! Diz-me: como te chamas?
—
Griselda.
—
Um nome estranho, como estranha é a tua beleza.
Pegou-lhe
numa das mãos, que estavam frias e húmidas. Perguntou, adoçando a voz:
—
Serás capaz de amar-me?
Com
a maior sinceridade, a jovem respondeu:
—
Já te amo, Senhor!
Ele
riu.
—
Óptimo! E gostarias de ser minha mulher?
Ela
abriu os seus lindos olhos.
—
Casar contigo, eu? Mas... sou pobre e sem família!
—
Isso não me incomoda. Responde apenas: gostarias ou não de ser minha mulher?
—
Sim! Seria a realização de um maravilhoso sonho!
—
Pois casarás comigo, se te sujeitares a uma condição.
—
Qual?
—
Terás de obedecer-me cegamente em tudo quanto te pedir. Será esse o teu
testemunho de amor.
Griselda
sorriu, comentando:
— Senhor, é fácil obedecer a quem amamos.
—
Conforme!
Ela
meneou a cabeça.
—
Não creio que isso me custe. A tua vontade será sempre a minha, pois já te amo
desde que te vi entrar como triunfador.
—
Que fazias junto à fonte?
—
Queria ver-te. Sempre que posso, observo-te.
Ele
riu. Depois chamou o seu valido e declarou-lhe, solene:
—
Já encontrei a esposa que procurava. Podes tu escolher entre as cinco que foram
eleitas. Mas chama toda a corte. Quero que oiçam a jura que Griselda vai
prestar antes das nossas bodas.
O
outro perguntou, curioso:
—
Que jura, senhor?
—
A de obedecer-me cegamente de hoje em diante. Será o maior testemunho de amor!
—
E como saberás que será esse o maior testemunho de amor?
—
O tempo falará por mim!
E
resoluto:
—
Vai... Espalha aos quatro ventos que o teu rei já arranjou esposa!
As
bodas celebraram-se com a maior pompa. Ricamente vestida, Griselda era, sem
dúvida, a mais bela jovem de léguas em redor. O régio par sentia-se feliz e a
sua alegria transbordava para os que de perto com eles conviviam.
Um
ano passou. Griselda adorava de tal modo o esposo que lhe perdoava qualquer
modo mais brusco ou acedia sem protesto a assistir ao julgamento de algum
conterrâneo mais rebelde.
Griselda
andava radiante e o rei também. Esperavam um herdeiro. Os homens da corte
diziam em voz baixa:
—
Oxalá traga o sangue do nosso rei!
Nasceu
um rapaz. Loiro como as espigas de trigo, olhos verdes, cor do mar. Griselda
apertava-o ao peito, louca de alegria. Também lhe pareceu ver emocionado o
rosto do seu amado esposo ao contemplar o seu menino. E sentiu mais quente o
beijo que ele lhe deu. Passados oito dias, porém, Griselda viu entrar nos seus
aposentos o rei seu esposo acompanhado de três dos seus conselheiros. Sem saber
porquê, o seu coração bateu forte. Afrouxou o sorriso nos seus lábios.
Estreitou o filho nos braços e ficou muda, olhando o seu senhor. E eis que ele
a chamou com a voz solene dos grandes momentos:
—
Griselda! Estás recordada do teu juramento?
Tremendo,
ela declarou:
—
Sim, meu senhor!
—
Pois bem: sinto dizer-te que terei de matar o menino nascido de ti, porque um
rei só pode ter descendência de sangue puro!
Griselda
arregalou os olhos de pavor.
—
Que dizeis? Vais matar o teu filho?
—
Que é teu, também!
—
Mas... porque casaste comigo?
—
Porque juraste obedecer-me cegamente.
—
Assim foi!
—
Então, dá-me o menino!
Griselda
abraçou o filho. Depois olhou o esposo. Baixou o olhar. Lágrimas silenciosas
inundaram o seu rosto. O rei ordenou aos seus:
—
Levem-no!
Griselda
deixou que o filho lhe fosse arrebatado. Não teve um queixume. Fechou os olhos.
Dir-se-ia à parte do mundo!
Sem
dizer mais palavra, o rei deixou os aposentos da mulher. E durante meses não
mais lhe apareceu.
Outro
ano decorreu. Griselda parecia um fantasma vagueando pelo palácio. Um dia,
inesperadamente, o rei veio visitá-la. E perguntou-lhe:
—
Griselda, ainda me amas?
Com
voz dolorida, ela confessou:
— Sim, meu senhor… embora devesse
odiar-te!
—
Pois bem. Se me amas, vais compreender a minha situação.
—
Que situação, Senhor?
—
O povo quer um herdeiro, mas de sangue puro.
—
Já o calculava!
E
eu peço-te que te retires do palácio e vás habitar novamente a tua casa de
solteira, pois breve chegará do meu país a noiva que me destinaram. Ficarás com
o suficiente para viveres.
Com
o coração despedaçado, ela apenas disse:
—
Jurei obedecer-te cegamente... e obedeço-te! Mas… porque não preferes tirar-me
a vida?
—
Porque deves viver para continuares a amar-me!
Griselda
levou uma das mãos ao peito.
—
Senhor, creio que não será por muito tempo. Mas enquanto o meu coração bater,
só por ti baterá!
E
sem querer ouvir mais foi arranjar as roupas que havia trazido de solteira, e
saiu do palácio sem que alguém se opusesse à sua partida.
Mais
outro ano passou. Griselda era visitada com frequência por um conselheiro do
rei, a saber da sua saúde. Triste, mas sem um lamento, a esposa do rei sorria,
afável, e tinha sempre a mesma resposta:
—
Dizei ao meu senhor que estarei bem enquanto puder fazer a sua vontade.
O
conselheiro abanou a cabeça, condoído.
—
Senhora! Não sei se vos é possível ir mais além...
Ela
pareceu assustada.
—
Mais? Que pode o rei desejar de mim?
—
Que consentis em ir assistir às suas novas bodas, pois acaba de chegar a esposa
que ele esperava.
Griselda
fez-se horrivelmente pálida. Para não cair, encostou-se à mesa da sua pobre
casa. E respondeu, baixando o olhar:
—
Enquanto tiver vida hei-de obedecer sempre, sem queixumes, aos desejos do meu
rei!
—
Viremos buscar-te.
—
Quando?
— Dentro de alguns dias.
—
Espero que ainda me encontrareis com a vida!
Saiu
o conselheiro do rei. Só então Griselda se deixou cair sobre um banco, cabeça
entre as mãos, sem lágrimas já para chorar!
Amparada
pelas damas, Griselda deixou-se vestir com as maiores galas. Uma das damas
perguntou:
—
Senhora! Não sentis curiosidade em saber porque vos vestimos assim?
Ela
sorriu. A sua voz era fraca.
—
O vosso rei e senhor não deseja que a sua nova esposa me encontre mal trajada!
Sorriram
as damas, entreolhando-se. Uma delas arriscou:
—
Admiro-vos! Como podeis suportar tanto?
Cada
vez mais fraca, Griselda respondeu:
—
Se suporto... é porque posso aguentar. De outra forma já teria feito companhia
ao meu adorado filho!
—
Mas vós consentistes...
—
Perdoa... se não falo mais em tal assunto... Mas não devo… nem posso...
Tremia
Griselda, ainda admiravelmente bela, embora magra e pálida como defunta.
Soaram
trombetas. As damas sorriram.
—
Vamos! Preparai-vos para tudo!
A
outra dama recomendou:
—
Cuidado! Não faleis demais!
Griselda
aceitou os braços que lhe ofereciam, mas caminhou com firmeza. Algo de estranho
fazia-lhe bater mais forte o coração. Uma das damas censurou:
—
Senhora, caminhais com tanta energia que vais cansar-te!
Ela
ainda encontrou forças para sorrir e dizer:
—
Vou ao encontro do nosso rei!
O
salão esplendidamente decorado estava cheio. No trono, o rei. Vaga, a cadeira
da rainha. Quando Griselda entrou, toda a corte se manifestou com respeito e
alegria. O rei veio buscá-la. Olhou-a nos olhos profundamente. Beijou-lhe uma
das mãos e disse alto:
—
Senhoras e senhores! Eis a vossa rainha, a quem fiz passar pelas mais duras
provas! Em público quero pedir-lhe perdão pelo que a fiz sofrer e regozijar-me
pelo grande testemunho de amor que me deu a mulher que eu amo e que escolhi
para minha esposa!
Não
disse mais o rei. Griselda desmaiara de comoção!
Foi
um burburinho. Vieram físicos para a reanimarem.
Lentamente,
a rainha voltou a si. Abriu os olhos. Viu o seu senhor, as damas da corte, os
conselheiros do rei, mas os seus olhos procuravam mais. Algo mais que ali não
via. E aos seus lábios subiam perguntas ansiosas, mas que não queria formular,
não fossem elas desgostar o rei. Por fim, foi o próprio monarca quem falou.
—
Griselda, sei o que procuras! Sei o que busca o teu olhar ansioso. Já mandei
buscar o nosso filho! Ele vive! Vive, e é lindo e bom como tu!
Griselda
fechou os olhos. Lágrimas límpidas correram pelo seu rosto emagrecido. Apertou
a mão do esposo e murmurou:
—
Senhor, mostra-me o meu filho!... Depois... poderei morrer!
O
rei ciciou:
—
Não morrerás! Os físicos vão curar-te! Quero-te a meu lado por muitos anos! E
quero dar-te em alegrias o que te dei em sofrimento!
Uma
aia entrou no aposento onde estava a rainha. Trazia ao colo um lindo menino.
Griselda abriu os olhos, estendeu os braços e murmurou:
—
Meu adorado filho!
Os
braços descaíram de novo. A cabeça descaiu também.
Desmaiara
uma vez mais. Aflitos, os físicos acorreram. O rei perguntou:
—
É grave o que tem a rainha?
Um
dos físicos olhou o rei.
—
Senhor, não sei se poderá resistir. Foste grande, tanto no tirar como no dar!
O
rei abriu os olhos num espanto.
—
Não quero que ela morra! Eu amo-a, podem crer!
Fez-se
silêncio a seu lado. Mas, lá fora, o vento veio bater ao de leve na janela da
câmara de Griselda, como um convite a segui-lo na liberdade do espaço...
Gentil Marques - Faro.
Entendendo o conto:
01 – Por que o jovem
rei era tão exigente na escolha de sua esposa e o que ele exigia dela?
O rei vinha de um
povo do norte que havia conquistado aquelas terras. Por governar um povo conquistado,
ele tinha muito medo de ser traído por uma esposa local. Para mitigar esse
receio, ele decidiu que a escolhida deveria lhe dar o maior testemunho de amor
possível: a obediência cega.
02 – Qual foi o
principal impedimento inicial apresentado pelo valido do rei para que ele não
escolhesse Griselda?
O valido alertou
o rei de que Griselda era "perigosa" e não merecia confiança, pois
ela era filha de um dos homens que mais havia combatido os conquistadores,
tendo inclusive morrido durante a guerra de resistência.
03 – Por que
Griselda afirmou que se sentia envergonhada ao confessar que não odiava o rei?
Griselda
sentia-se envergonhada porque, por honra e lealdade à memória de seu pai (que
lutou até a morte contra o rei), o seu dever moral era odiar o conquistador. No
entanto, ela perdeu essa coragem assim que o viu, apaixonando-se imediatamente
por sua beleza, juventude e força.
04 – Quais foram as
três duras provas de obediência pelas quais o rei fez Griselda passar ao longo
dos anos?
As três provas foram:
A perda do filho: Permitir que
levassem o seu bebê recém-nascido de apenas oito dias sob o pretexto de que o
rei o mataria por não ser de "sangue puro".
O exílio e o divórcio: Aceitar ser
expulsa do palácio e voltar a morar em sua antiga e pobre casa de solteira para
dar lugar a uma suposta nova noiva.
Assistir às novas bodas: Consentir
em retornar ao palácio, vestida de gala, para assistir ao novo casamento do
rei.
05 – Qual era o
verdadeiro paradeiro do filho de Griselda e do rei?
O menino nunca
foi morto. Tudo fez parte de uma farsa cruel do rei para testar a jura de
obediência de Griselda. A criança foi mantida viva e escondida em segredo
durante os anos em que a mãe sofreu achando que o filho havia sido assassinado.
06 – Como a corte
reagiu quando Griselda entrou no salão para o suposto novo casamento do rei?
Ao contrário do
que Griselda esperava (que seria apenas uma espectadora rejeitada), toda a
corte a recebeu com profundo respeito e alegria. O rei veio ao seu encontro,
beijou sua mão e declarou publicamente que ela era a verdadeira rainha,
pedindo-lhe perdão pelas duras provas a que a submeteu.
07 – Qual é o
desfecho da lenda em relação à saúde de Griselda e o que o físico quis dizer ao
rei?
Após tantas
emoções extremas e anos de sofrimento silencioso, o corpo de Griselda não
resistiu e ela desmaiou sucessivas vezes ao rever o filho. O físico alertou o
rei dizendo: "Foste grande, tanto no tirar como no dar!", criticando
implicitamente a crueldade do teste. O conto termina de forma ambígua e
melancólica, sugerindo a morte iminente de Griselda, com o vento batendo na
janela como um convite para o seu descanso final.
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