sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO: UM PEIXE NA SALA - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Um peixe na sala

         -- Não gosto nada que olhem para mim – dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.

Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9d5KCOHtDsSLe71Kh6wKapleiBPCTYU6aOGF1MBMQn1b0nCqje7bCC_0gZMzXCBK5hyPmQaqMmRU9W4BbXgDrkRa5Cxm7MUcLTpXL1L1FOs2AzStjawKnu3424pgZTAsxuaOzenqzWurAUWASero-1uRqdT2NXX7YI3okJoiqlZgzg9Ur3sVHwcudAq4/s320/PEIXE.jpg


        Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.

        Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.

        -- Detesto que me observem – dizia o peixe. – Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.

        E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.

        A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.

        Mas a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:

        -- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?

        Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:

        -- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.

        Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.

        Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.

        Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.

        -- Quem quer ficar com o peixe do aquário? – perguntou um deles.

        Nenhum queria.

        -- Deita-se o peixe para o tanque do quintal – decidiu um e os outros concordaram.

        O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.

        Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

António Torrado.

Entendendo o conto:

 

01 – Qual era o principal motivo de irritação do peixinho enquanto ele morava no aquário da tia Elisa?

      O peixinho detestava ser observado e olhado pelas visitas que iam à casa da tia Elisa. Ele sentia-se invadido e enervado com a atenção constante das pessoas.

02 – Por que o peixinho não conseguia esconder-se quando tentava refugiar-se atrás das algas do aquário?

      Ele não tinha êxito porque o espaço ou o tamanho das algas não era suficiente para cobri-lo totalmente; como descreve o texto, "ou sobrava cauda ou sobrava cabeça".

03 – Como mudou a rotina de alimentação do peixe após a tia Elisa adoecer, e qual foi a reação dele a essa mudança?

      Após a doença da tia Elisa, quem passou a alimentar o peixe foi uma empregada. O peixe sentiu uma diferença negativa, pois a funcionária colocava a comida sem as gentilezas e o desvelo característicos da sua antiga dona.

04 – Qual foi o destino dado ao peixinho pelos sobrinhos da tia Elisa após o falecimento dela?

      Como nenhum dos sobrinhos quis ficar com o peixe, eles decidiram levá-lo para o quintal e jogá-lo dentro de um tanque de águas profundas.

05 – O que o peixinho sentiu quando finalmente foi para o tanque profundo onde ninguém mais o conseguia ver?

      Ao contrário do que se poderia imaginar, quando ficou isolado no meio das sombras e dos lodos sem que ninguém o visse, o peixinho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

 

 

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