Lenda: Do Senhor Justo da Piedade
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8LaJZvh6IHhZTHLalW-xOxPxUk3Npnv2oBc3WgsxTBnDFpRBdlQZSNUjkcQsX48bcYIS1-hKqnm5OKl6cFugY1Ss5mcBvhyViSBpVpSJWrQezMsHtoAZ2ZV3s5cruErt5s5O9LFWheTt4t_V2XtvLNo1rlZxG9lVrM76AjRPeeIG_sVCSQCLVIPjmRRQ/s320/piedade.png Ali,
na estrada praticamente deserta, havia apenas um tosco cruzeiro, a assinalar o
caminho. E no cruzeiro, um Cristo batido pelas chuvas e pelos ventos era o
único farol de Fé a iluminar os viandantes desnorteados.
Ora, certa tardinha, vinham por
aquela mesma estrada pai e filho, que regressavam de uma romaria. Vinham a
discutir.
—
Já te disse, José, que não deves proceder assim. Um rapaz da tua idade tem de
portar-se como deve ser. De outro modo irás por mau caminho.
O rapaz mostrou-se azedo.
—
Sabe que mais? Estou farto dos seus sermões. Fartíssimo! Julga que sou algum
gaiato? Já tenho barba na cara, não o esqueça?
O
homem retorquiu, zangado:
—
E isso leva-te a deixares de ser meu filho?
O rapaz encolheu os ombros.
—
Claro que não. Mas não estou disposto a andar agarrado pelos cueiros, como se
fosse um mocinho!
—
E que és tu, afinal, senão uma criança? Pelo menos a maneira como te portaste
hoje de manhã assim o prova.
O rapaz teve outro gesto de enfado.
—
Lá vem o pai outra vez com a mesma história! Que raio! Não sabe falar noutra
coisa!
O
sangue subiu às faces do velho.
—
José, tem respeito pelo teu pai! Já tenho alguns anos em cima de mim, mas
possuo ainda a mão bastante leve para...
O
rapaz interrompeu-o.
—
Deixe-se de lérias! Isso deve ser do vinho que bebeu a mais...
A cólera quase superou o homem.
—
Que dizes, tratante? Insinuas que estou bêbedo? Tu é que bebeste demais!
Parecias um odre sem fundo. E talvez fosse por isso que me quiseste roubar!
O
rapaz deu um salto de desespero.
—
Que está para aí a dizer? Olhe que a paciência tem limites! Já lhe afirmei que
só quero aquilo que é meu! Ou pensa que todo o dinheiro da venda lhe pertence?
O
homem gritou:
—
Pois pertence! Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!
—
Histórias da carochinha! Já não vou nisso, deixei de andar de olhos tapados! Já
sabe: daqui em diante quero o meu dinheiro, para o governar como entender,
ouviu bem?
—
Endoideceste?
—
Não, não endoideci quero o meu dinheiro! E que isto fique dito de uma vez para
sempre!
Nesse
momento preciso, pai e filho iam passando junto do velho cruzeiro. E aos
ouvidos do rapaz soou uma voz semivelada:
—
Teu pai tem razão. És o seu filho. Deves-lhe obediência. Terás de seguir sempre
os seus conselhos…
O
rapaz voltou-se, surpreendido.
—
De quem é esta voz? Foi vossemecê quem falou?
O
homem também se mostrou admirado:
—
Falar, eu? Agora não disse nada… Não me deste tempo para isso!
Mas já o pai escutava, por seu
turno, um murmúrio ao seu ouvido:
—
Não sejas severo em demasia com o teu filho. Lembra-te de que já não é criança.
Trata-o como um homem igual a ti, e ele compreender-te-á.
O
homem olhou o filho.
—
Quem está aqui a falar?
—
Eu não! Também ouviu uma voz?
—
Ouvi. Mas... aqui não está mais ninguém. A não ser...
—
A não ser o quê?
Pai
e filho olharam a imagem do Cristo de pedra. Mas logo o rapaz retorquiu,
enfadado:
—
Não me diga que julga que a fala vem dali.
E
apontava com um arremesso de cabeça a imagem do Cristo.
—
Sabe-se lá!
—
Agora vejo que está realmente bêbedo!
O pai voltou a gritar:
—
Cala-te, imbecil!
—
Imbecil será vossemecê!
A
cólera tingiu de vermelho as faces do velho.
—
Ainda hoje não te livras de uma sova!
Num
ar rufião, o rapaz provocou-o:
—
Ora experimente!
Os
insultos seguiram-se. Mas continuaram caminhando, deixando para trás o Cristo
de pedra. E porque ambos iam toldados pelo vinho, o inevitável aconteceu. O
dinheiro voltou a ser o fulcro da discussão. Como o pai negasse, o rapaz fez
menção de lho tirar. O primeiro empurrão surgiu. O agredido respondeu. E num
instante os dois homens lutavam como se não fossem do mesmo sangue. Como se o
próprio vento tivesse ficado surpreendido, uivou na encruzilhada, batendo
forte, também, no rosto dos contendores. O velho caiu por terra. O rapaz
vencera. Sacou das algibeiras do pai todo o dinheiro e abalou correndo,
deixando o pai a gemer dolorosamente.
Abandonado
pelo filho no caminho deserto, o homem levantou-se depois de algum esforço.
Chorando copiosamente, voltou para trás até junto do cruzeiro. Aí caiu de
joelhos. Soluçava alto, como desvairado. Depois, um pouco mais sereno, sentindo
viva a união do seu espírito ao Espírito Divino de Cristo, implorou:
—
Oh meu Jesus! Tu, que também foste homem, abaixa o Teu olhar sobre mim e
derrama sobre o velho que hoje sou a Tua Misericórdia! O meu filho, aquele que
eu criei, roubou-me e faltou-me ao respeito. É um ladrão e talvez um assassino,
pois pouco se lhe dá que eu morra para aqui, abandonado. Não sei voltar à terra
onde vivi. Mas não queria morrer sabendo que ele é um ladrão. Salva-me, pois, e
salva-o a ele! Salva o meu filho, e eu Te juro que todo o meu dinheiro será para
construir aqui, neste local, uma capelinha digna de Ti, ó meu Senhor Jesus!
Salva-nos! Desce o Teu olhar sobre nós, ó Jesus de tanta Piedade!
O
vento zuniu mais forte sobre o silêncio que as palavras do homem deixaram ao
extinguir-se. Mas logo outras palavras se ouviram:
—
Tem fé, e ser-te-á dada a salvação!
O
homem gritou:
—
Senhor! E ele? E o meu filho?
A
voz tornou, complacente:
—
Escuta o seu apelo... Ele vem implorar-te perdão. Sê razoável...
Perdoa
as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!
O
homem curvou a cabeça. Chorava. De súbito ouviu-se uma voz que vinha de longe e
se aproximava cada vez mais:
—
Pai, meu pai, onde está?... Responda-me, meu pai!
O
coração do homem bateu com violência. E gritou, rouquejando:
—
Filho! Estou aqui... junto ao cruzeiro!
O
rapaz acorreu. Agarrou as mãos do pai e implorou:
—
Por amor de Deus, perdoe-me e esqueça o que fiz! Eu devia estar louco! Se
soubesse como sofro!
O
homem encostou a cabeça grisalha ao ombro do filho, chorando. Mal se ouviram as
suas palavras de perdão. Por fim, desencostou-se. Já não chorava. Perguntou,
movido por uma estranha curiosidade:
—
Filho! Porque voltaste?
O
rapaz respondeu como se estivesse a recordar um sonho:
—
Se soubesse o que me aconteceu! Quando ia a fugir, caí num barranco. Tão alto
que nem sei como não me feri. Mas não conseguia sair de lá. De repente, senti
medo. Um medo estranho. Tinha a sensação de ter caído vivo no Inferno. Foi
nessa altura que me lembrei da voz que ouvi quando passámos por este cruzeiro.
Então pedi ao Senhor Jesus que me salvasse, em troca do meu sincero
arrependimento!
Calou-se
o rapaz por alguns instantes. Depois, continuou:
—
Mal havia feito este propósito... sem bem saber como... senti forças para
erguer-me do barranco e vir até aqui!
O
vento levou até à imagem de pedra do Senhor Jesus esta elevação da alma de um
pai agradecido:
—
Obrigado, meu Deus! Obrigado pela Vossa Piedade, meu Senhor Jesus Cristo!
Pouco
tempo depois, a promessa feita em circunstâncias tão dramáticas, num local ermo
e batido pelo vento, foi cumprida pelos dois alentejanos. Ali mandaram
construir uma capelinha. Mais tarde, essa capela humilde nascida de um voto
transformou-se na igreja sumptuosa que hoje existe em Elvas, em memória do
Senhor Jesus da Piedade.
Gentil Marques
Entendendo a lenda:
01 – No início da
narrativa, antes do clímax do conflito, pai e filho ouvem uma voz semivelada
junto ao cruzeiro. De que maneira os conselhos dados por essa voz
individualmente a cada um refletiam a raiz do problema que eles enfrentavam?
A voz aborda diretamente a falha de
postura de ambos no relacionamento familiar. Para o rapaz, a voz reforça a
necessidade de respeito e obediência, combatendo a sua soberba e insolência
juvenil. Para o pai, o conselho é de moderação, sugerindo que ele reconheça a
transição do filho para a idade adulta e evite a severidade excessiva. O
conflito existia justamente porque nenhum dos dois conseguia equilibrar esses
papéis: o filho exigia independência com agressividade e o pai tentava impor
autoridade com base no autoritarismo e no controle financeiro.
02 – O dinheiro é o
fulcro (o ponto central) da discussão entre pai e filho. Explique como a
questão financeira revela visões de mundo diferentes entre as duas personagens
antes da reconciliação.
O dinheiro
simboliza o poder e a transição de autonomia. Para o pai, a gestão do dinheiro
representa a manutenção da sua autoridade e liderança familiar ("Enquanto
for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!"). Para o filho, o dinheiro da
venda é o passaporte para a sua independência e a afirmação de que deixou de
ser criança. A disputa financeira materializa o choque de gerações, onde o pai
se recusa a abrir mão do controle e o filho tenta tomá-lo à força, sem maturidade
para dialogar.
03 – Descreva o
cenário natural em que a história se passa e disserte sobre como os elementos
da natureza (como o vento e a tempestade) funcionam como um espelho do estado
psicológico das personagens.
A lenda se passa
em uma estrada praticamente deserta, marcada por um tosco cruzeiro e condições
climáticas adversas. Os elementos da natureza funcionam como um reflexo
patético da intensidade dramática da cena. Conforme a fúria e o orgulho das
personagens aumentam, o vento "uiva na encruzilhada" e bate forte em
seus rostos, emoldurando a violência física entre pai e filho. Mais tarde,
quando o homem se ajoelha para rezar, o zunido forte do vento sublinha o
silêncio e a solidão de seu desespero, mostrando que o ambiente externo acompanha
o tumulto interno dos corações dos protagonistas.
04 – Após ser
agredido e roubado pelo próprio filho, o pai recorre à oração. Quais são os
dois pedidos principais que ele faz ao Senhor Jesus e o que essa prece revela
sobre os seus sentimentos paternos?
O pai pede a sua
própria salvação (conforto e direção na solidão) e, principalmente, a salvação
de seu filho, implorando para que ele não permaneça no erro como um ladrão ou
assassino. Essa prece revela que, apesar da profunda dor, humilhação e violência
sofridas, o amor paterno sobrepujou o orgulho e o desejo de vingança. O pai
prioriza a restauração moral e espiritual do filho em detrimento da punição,
demonstrando um espírito de sacrifício e misericórdia que ecoa a própria figura
do Cristo a quem ele roga.
05 – A voz divina
impõe uma condição ao pai para que ele receba a salvação que tanto pedia. Que
condição é essa e qual a sua importância teológica ou moral dentro do contexto
da lenda?
A voz exige que o
pai perdoe as ofensas do filho, utilizando o princípio de que para receber o
perdão divino (do Pai Celeste), o ser humano deve primeiro ser capaz de perdoar
o seu semelhante ("Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste
perdoe as tuas!"). Do ponto de vista moral e teológico, essa condição
quebra o ciclo de ódio e violência. Ela estabelece que a verdadeira piedade e a
salvação não vêm de barganhas ou promessas puramente materiais, mas sim de uma
transformação interna baseada na empatia, no amor e na reconciliação.
06 – O rapaz decide voltar
para os braços do pai após viver uma experiência traumática. Explique o que
aconteceu com ele durante a fuga e de que forma esse evento operou o seu
arrependimento.
Durante a fuga, o
rapaz caiu em um barranco profundo e, embora não tenha se ferido gravemente,
viu-se incapaz de sair. O isolamento e a escuridão do local provocaram um medo
avassalador, fazendo-o sentir como se tivesse caído "vivo no
Inferno". Esse choque de realidade e a vulnerabilidade física desarmaram a
sua soberba arrogante. Diante do desespero, ele se lembrou da voz misteriosa do
cruzeiro e compreendeu a gravidade do seu ato, convertendo o seu medo em um
sincero propósito de arrependimento e pedido de perdão.
07 – A lenda cumpre
a função tradicional de explicar a origem de um monumento real. Com base no
desfecho do texto, explique a promessa feita e como ela originou a Igreja do
Senhor Jesus da Piedade em Elvas.
No momento de
maior desespero, o pai jurou que, se ele e o filho fossem salvos daquela ruína
moral e física, utilizaria todo o seu dinheiro para construir uma capelinha
digna no exato local do velho cruzeiro. Após a reconciliação milagrosa
promovida pela fé, pai e filho cumpriram o voto construindo uma humilde capela
naquele ermo alentejano. Com o passar do tempo e a devoção popular, essa
estrutura inicial foi ampliada e modificada, transformando-se na "igreja
sumptuosa" que hoje existe em Elvas, perpetuando a memória do milagre da
piedade e do perdão familiar.
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