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sexta-feira, 22 de maio de 2026

MINICONTO: PORQUE É QUE A COBRA NÃO TEM PATAS - ALBUFEIRA - COM GABARITO

 Miniconto: Porque é que a cobra não tem patas

         Então quando Adão e Eva apareceram, havia uma árvore que o fruto dela era a maçã, e a maçã nessa altura era o fruto proibido. E havia uma cobra e, nessa altura, ela tinha patas. Mas um dia, a Eva foi lá a passar por perto da árvore e a cobra estava lá e insistiu muito com a Eva para ela comer a maçã, e a Eva comeu a maçã.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDafrDZkvKt94cTeCS-g6UF4FRLhXXwQYAHcLImHyPstXrzcWT6bYEpAimoMcEqZas4nB-59ecOy2zvz9Pbi1r1vAj0tmbKgONye7A05Ab7bO9cpLyOwH2_15hEeeWSQDCv6mruSeElQlOJgElabXNjh68GZWZEHSTU3DkBQxQUykGO8MW6hhrL4dhdk0/s320/PATAS.jpg


E depois não lhe fez mal nenhum. E depois foi lá o Adão a dizer porque é que ela tinha comido a maçã, mas ela disse que não tinha acontecido nada e para ele comer também. Depois ele comeu também e depois Deus como castigo divino tirou as patas à cobra.

 

Albufeira (recolha oral).

Entendendo o miniconto:

01 – De acordo com o início do miniconto, como era a fisionomia da cobra antes do castigo divino e qual era o estatuto da maçã naquela época?

      No início da história, a cobra tinha patas, diferenciando-se da forma como a conhecemos hoje. A maçã, por sua vez, era considerada o "fruto proibido" naquela altura, logo após o aparecimento de Adão e Eva.

02 – Qual foi o papel da cobra no primeiro desvio de comportamento de Eva e como o texto descreve a reação física imediata de Eva após comer o fruto?

      A cobra atuou como a grande provocadora, insistindo muito com Eva para que ela colhesse e comesse a maçã. Após comer o fruto proibido, a reação física imediata de Eva foi de total normalidade, já que o texto afirma expressamente que a maçã "não lhe fez mal nenhum".

03 – Como Adão reagiu ao saber que Eva tinha consumido o fruto proibido e qual foi o argumento utilizado por ela para o convencer a fazer o mesmo?

      Inicialmente, Adão questionou Eva, querendo saber o motivo pelo qual ela tinha comido a maçã. Para o convencer a fazer o mesmo, Eva argumentou que não tinha acontecido nada de mau com ela (que estava tudo bem) e incentivou-o a comer também, o que levou Adão a ceder e consumir o fruto.

04 – O desfecho do miniconto apresenta uma explicação mítica para uma característica biológica da cobra. Que justificativa o texto dá para o facto de a cobra não ter patas hoje em dia?

      O texto justifica a ausência de patas na cobra como a consequência direta de um castigo divino. Deus, ao presenciar a desobediência de Adão e Eva motivada pela insistência do réptil, decidiu punir a cobra retirando-lhe as patas para sempre.

05 – Este miniconto é uma adaptação de uma famosa narrativa religiosa (o Livro do Génesis na Bíblia). Identifique duas características no vocabulário ou na estrutura do texto que demonstram que esta é uma versão simplificada ou popular da história original.

      A simplificação do texto percebe-se em dois aspetos principais:

      O vocabulário informal e repetitivo: O uso constante da conjunção "e" para ligar as frases ("E havia uma cobra...", "E depois não lhe fez mal...", "E depois foi lá o Adão...") e de expressões como "nessa altura" ou "foi lá".

      A ausência de consequências profundas para os humanos: Na história original, a queda da humanidade traz a expulsão do Paraíso e grandes provações para Adão e Eva. No miniconto, o foco do castigo é reduzido de forma simples e direta apenas à perda das patas da cobra.

 

MINICONTO: A HORTA DO ESTEVES - AUTOR DESCONHECIDO - COM GABARITO

 Miniconto: A horta do Esteves

        Dois coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor Esteves.

        -- Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... – dizia o coelho mais novo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIaX5YKHcnMlQ-lkq9JcJhlfW9s0VCGkpSfMDbW4B-DuCrwJ4Yr7d9BYR0Mhoegx0Ya3ehcpFZ8g4Td-LL-SyaAWu6ZHBXsE6q-BBsdun1UJw1Pzwh8Rp3v9D8kWRhzRZBYvMN2J9eg1ZD3Ox7-i7gEy8ZOQh6jf9hPhKIJv3rcL2oza7pEdE2MUrhdHc/s320/horta.jpg


        -- Mas não te chegues – aconselhava-o o coelho mais velho. – O Esteves, se te apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.

        -- Uma folha só, que mal faz? – dizia o mais novo.

        E ia-se chegando para a horta.

        -- Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras – gritava-lhe, já de longe, o coelho mais velho. – Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo, de recordação, um chumbo na perna.

        Mas o coelho mais novo já não o ouviu.

        O mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.

        -- A espingarda do Esteves – exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada com ele.

        Não correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num brejo, esperou.

        O amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco, entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.

        -- Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos – dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as feridas.

        O coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.

        -- Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? – perguntou o mais velho, a fingir indiferença.

        -- Mal provei – suspirou o coelhinho

        -- O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava um coelho que avisasse os mais novos – concluiu o velho coelho e concluiu muito bem.

Autor desconhecido.

Entendendo o miniconto:

 

01 – O que desencadeou o conflito no miniconto e qual era a posição de cada um dos coelhos no início da narrativa?

      O conflito foi desencadeado pela tentação do coelho mais novo em entrar na horta do senhor Esteves, atraído pela beleza das couves e pelo aspeto apetitoso das alfaces. No início, as posições eram opostas: o coelho mais novo demonstrava ingenuidade e impulsividade, minimizando o perigo, enquanto o coelho mais velho agia com prudência e sensatez, mantendo uma distância segura e aconselhando o jovem a não se aproximar.

02 – Que argumento de autoridade e experiência pessoal o coelho mais velho utilizou para tentar travar o mais novo?

      O coelho mais velho partilhou uma experiência do seu próprio passado, revelando que, quando tinha a idade do mais novo, cedeu à mesma tentação e acabou por ser baleado pelo agricultor. Como prova real do perigo, ele mencionou que ainda guardava, como recordação dolorosa, um chumbo alojado na perna.

03 – O que o coelho mais velho imaginou que pudesse ter acontecido ao seu jovem companheiro logo após ouvir o estampido da espingarda?

      Enquanto estava escondido num brejo, o coelho mais velho imaginou dois cenários dramáticos: no melhor deles, o amigo teria conseguido escapar por pouco; no pior, o jovem já estaria morto, a ser esfolado pelo senhor Esteves para acabar cozinhado numa panela, fazendo parte de um refogado com cebola e azeite.

04 – Como se pode interpretar a pergunta final do coelho mais velho ("as alfaces eram tão tenras como parecem?") e o que ela revela sobre a natureza dos coelhos?

      A pergunta, feita "a fingir indiferença", revela que, apesar de toda a sua sabedoria e prudência adquiridas com a idade, o coelho mais velho ainda sentia a mesma tentação e curiosidade em relação aos frutos proibidos da horta. Isso demonstra que o desejo pelas hortaliças é intrínseco à natureza dos coelhos, e que a única diferença entre o jovem e o velho é a capacidade de autocontrolo gerada pelo medo do castigo.

05 – Explique a conclusão do coelho mais velho: "O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria..."

        O coelho velho concluiu que a sobrevivência de ambos se devia à má pontaria do senhor Esteves. Se o agricultor fosse um atirador exímio, teria matado o coelho mais velho no passado e o mais novo no presente. Graças aos tiros de raspão do Esteves, o coelho velho sobreviveu para aconselhar os jovens e o coelho novo sobreviveu para, no futuro, poder passar a mesma lição de prudência às próximas gerações.

 

 

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

MINICONTO: DECLARAÇÃO DE AMOR - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Miniconto: Declaração de Amor

                 Clarice Lispector

        Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa.

        Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVd3ps0A0O5Y1ifVv4R5kqli08h2Zi1uVwz1s9wnyviVc_M4vCzkjR3WrZnogQTB6f75eQw2Vh3lBvYItqwkyvshHxpms20qmicscA-Nnn78u8k8drXMUoEYmXBK5kvP8jp80pygtUJMdigjUfn0RB_kdZoLLbx7-06gS6AJ8_S22PPeJigASgeiGv0iw/s320/dia-da-lingua-portuguesa3-750x350.jpg


Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

        Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Antologia universitária, vol. I. Universidade de Taubaté, 1980.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 34.

Entendendo o miniconto:

01 – Qual é a "confissão de amor" feita pela autora no início do texto?

      A autora confessa o seu amor pela língua portuguesa.

02 – Quais são as principais dificuldades da língua portuguesa apontadas pela autora?

      A autora descreve a língua portuguesa como não sendo fácil e nem maleável. Ela aponta que a língua não foi profundamente trabalhada pelo pensamento e que às vezes reage com um "pontapé" quando usada para expressar sutilezas ou pensamentos complexos.

03 – No texto, a autora faz uma analogia para descrever como gosta de "manejar" a língua portuguesa. Qual é essa analogia?

      Ela compara o ato de manejar a língua com a experiência de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, ora lentamente, ora a galope.

04 – Segundo Clarice, por que a herança deixada por grandes escritores como Camões não é suficiente para os autores atuais?

      A autora afirma que a herança de Camões e outros não é suficiente porque a língua precisa ser constantemente trabalhada e renovada. Para ela, todos que escrevem estão "fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida".

05 – No final do texto, a autora faz uma escolha entre línguas. Se fosse muda e não pudesse escrever, qual língua ela escolheria? E por que ela, de fato, escolhe o português?

      Se fosse muda, ela escolheria o inglês, que considera preciso e belo. No entanto, como pode escrever, ela se dá conta de que sua única e verdadeira vontade é escrever em português, e chega a desejar não ter aprendido outras línguas para que sua abordagem ao português fosse "virgem e límpida".

 

 

MINICONTO: AS MARAVILHAS DE CADA MUNDO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Miniconto: As Maravilhas de cada mundo

                Clarice Lispector

        Tenho uma amiga chamada Azaléia, que simplesmente gosta de viver. Viver sem adjetivos. É muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. Sua vida é difícil, mas é sua.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgBj-z77ADSVIQpIi1NLsjcS_Lw8eK84zyqkhcv7xV3rfCIVqt9UJRZMZWBqD2UfVQ_Yf5zzZdWyQQuVoQdies0Ia8Ke94HucD7Sv64Aem1IBMfINiJC789YVwm0jtwyXGwNeyADBxpN_X4rabzxSygFQXVbMyEAVdA_ax2Nbgg5l-9jHj3HTtrAIWATos/s320/MO%C3%87A.png


        Um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. Quais? Dependia da pessoa.

        Ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.

        Primeira: ter nascido. Ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.

        Segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. Com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.

        Terceira: sua capacidade de amar. Através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.

        Quarta: sua intuição. A intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.

        Quinta: sua inteligência. Considera-se uma privilegiada por entender. Seu raciocínio é agudo e eficaz.

        Sexta: a harmonia. Conseguiu-a através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.

        Sétima: a morte. Ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.

Clarice Lispector. A Descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 65.

Entendendo o miniconto:

01 – Quem é Azaléia e qual a sua característica principal, apesar de suas dificuldades?

      Azaléia é uma amiga da narradora que "simplesmente gosta de viver". Apesar de ser muito doente de corpo e ter uma vida difícil, ela é caracterizada por seus "risos claros e constantes".

02 – Qual a ideia central que Azaléia compartilha com a narradora sobre as "maravilhas"?

      Ela diz que cada pessoa tem sete maravilhas em seu próprio mundo, e que essas maravilhas são particulares de cada indivíduo.

03 – De acordo com Azaléia, qual é a primeira maravilha e por que ela a considera assim?

      A primeira maravilha é o fato de ter nascido. Para ela, ter nascido é um dom, e a narradora complementa, dizendo que "existir... é um milagre".

04 – Como Azaléia descreve a "capacidade de amar" e a "intuição" em sua lista?

      Ela considera a capacidade de amar uma maravilha por ser menos comum do que se pensa, e por meio dela, seu peito se "alarga" com amor por muitas pessoas. Já a intuição é uma maravilha porque alcança o que o raciocínio e os sentidos não conseguem perceber.

05 – Qual é a sétima maravilha de Azaléia e por que ela a inclui na lista?

      A sétima maravilha é a morte. Azaléia a inclui porque, por meio de sua crença teosófica, ela acredita que após a morte a alma se reencarna, e a vida e suas sete maravilhas recomeçam com alegria.

 

MINICONTO: HOJE - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO - COM GABARITO

 Miniconto: Hoje

            Ignácio de Loyola Brandão

        Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o toque. Para emitir som e luz, imagem e movimento. Todos se ajeitam. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia do escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme. Todos sabem que não virá visita. Se vier alguma, chegará antes da telenovela. Conversas esparsas durante os comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais. Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo. Enquanto o corpo suportar, estarão ali. Depois, tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhwJxsGwYQZxeL7OOf7xCBBQeAb7I54dyRcZKMNUzn04F_iZBPMmmARNjP2g4_mBjlnvZstKXG3AlS2qdo2x4o9PQb7PYrQBRoJjtyoTAo9Ta-k1WVdK0v_MLPQzXQSwToUHIfgsqgIkUJfslkOO3x64Xb2OmsgoIR-iwtiW1Q1aADK2XHHCSKeqymFZOI/s320/NOITE.jpg


Dentes ao sol. Rio de Janeiro, Codecri, 1980.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 108-109.

Entendendo miniconto:

01 – Qual é a rotina da família descrita no texto, todas as noites, após o jantar?

      Depois do jantar, o pai da família se levanta e liga a "caixa quadrada" (a televisão). Todos se ajeitam e se posicionam para assistir, em silêncio.

02 – Por que a família não conversa durante o ritual de assistir TV?

      Não há o que falar porque o pai não compartilha nada de seu dia no escritório, e os filhos são proibidos de interromper o momento. O silêncio é a regra, exceto por conversas esparsas durante os comerciais.

03 – Como a crônica descreve a interação da família com a "caixa azulada"?

      A família se senta junta, mas não há comunicação. Eles se tornam espectadores passivos, com "olhos excitados, cabeças inflamadas", apenas "recebendo, recebendo" o que a televisão transmite, em uma atitude de total passividade.

04 – O que acontece depois que a família desliga a televisão e vai dormir?

      Depois de desligar a TV, as pessoas vão para a cama e sonham. No entanto, elas sonham "com as coisas vistas" na televisão, e não com as próprias experiências, sentimentos ou vidas.

05 – Qual a crítica principal do autor sobre o estilo de vida da família?

      O autor critica a passividade e a falta de conexão real entre os membros da família. Eles vivem de forma "imunizada... contra a própria vida", preferindo a realidade mediada pela tela em vez de vivenciar e sentir suas próprias experiências. A televisão se torna a única fonte de conteúdo para seus pensamentos e até mesmo seus sonhos.

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

MINICONTO: BETSY - RUBEM FONSECA - COM GABARITO

 Miniconto: Betsy

        Rubem Fonseca

        Betsy esperou a volta do homem para morrer.

        Antes da viagem ele notara que Betsy mostrava um apetite incomum. Depois surgiram outros sintomas, ingestão excessiva de água, incontinência urinária. O único problema de Betsy até então era a catarata numa das vistas. Ela não gostava de sair, mas antes da viagem entrara inesperadamente com ele no elevador e os dois passearam no calçadão da praia, algo que ela nunca fizera. No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer. Vinte dias sem comer, deitada na cama com o homem. Os especialistas consultados disseram que não havia nada a fazer. Betsy só saia da cama para beber água.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8hjnXqdMPfFEX_pOqyvv51_Vr3h5moy1OvV3gZuAaSYetjDjipmefx_qZ4NEIEMGNVgaPR4naOqhb5bgZF-42-VLn5uk4HH0OQym5R-DYu8yiJxlxSrFKJHTe349cdRgqBnvU7f8Ct-vPsUAkNp7Lnp1UznbIeP4syJOqzxVpIRI0xzbMMBEZWnGQ7wk/s1600/images.jpg


        O homem permaneceu com Betsy na cama durante toda a sua agonia, acariciando seu corpo, sentindo com tristeza a magreza de suas ancas. No último dia, Betsy, muito quieta, os olhos azuis abertos, fitou o homem com o mesmo olhar de sempre, que indicava o conforto e o prazer produzidos pela presença e pelos carinhos dele. Começou a tremer e ele a abraçou com mais força. Sentindo que os membros dela estavam frios, o homem arranjou para Betsy uma posição confortável na cama. Então ela estendeu o corpo, parecendo se espreguiçar, e virou a cabeça para trás, num gesto cheio de langor. Depois esticou o corpo ainda mais e suspirou, uma exalação forte. O homem pensou que Betsy havia morrido. Mas alguns segundos depois ela emitiu novo suspiro. Horrorizado com sua meticulosa atenção o homem contou, um a um, todos os suspiros de Betsy. Com o intervalo de alguns segundos ela exalou nove suspiros iguais, a língua para fora, pendendo do lado da boca. Logo ela passou a golpear a barriga com os dois pés juntos, como fazia ocasionalmente, apenas com mais violência. Em seguida, ficou imóvel. O homem passou a mão de leve no corpo de Betsy. Ela se espreguiçou e alongou os membros pela última vez. Estava morta. Agora, o homem sabia, ela estava morta.

        A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido juntos dezoito anos.

        De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera tão vazia e triste.

        Felizmente o homem não jogara fora a caixa de papelão do liquidificador. Voltou para o quarto. Cuidadosamente, colocou o corpo de Betsy dentro da caixa. Com a caixa debaixo do braço caminhou para a porta. Antes de abri-la e sair, enxugou os olhos. Não queria que o vissem assim.

Rubem Fonseca. Histórias de amor. Companhia das Letras: São Paulo, 1997, p. 09.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 9º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 164-165.

Entendendo o miniconto:

01 – Quais foram os primeiros sintomas de Betsy que o homem notou e o que ela fez de diferente antes da viagem dele?

      Os primeiros sintomas foram apetite incomum, ingestão excessiva de água e incontinência urinária. De forma incomum, Betsy entrou no elevador e passeou com o homem no calçadão da praia, algo que nunca havia feito.

02 – Como o homem reagiu durante a agonia de Betsy e qual era a duração da convivência deles?

      O homem permaneceu deitado na cama com Betsy, acariciando-a durante toda a sua agonia. A história revela que eles viveram juntos por dezoito anos.

03 – De que forma o narrador descreve os momentos finais de Betsy, em especial a sequência de suspiros?

      Após tremer e ser abraçada pelo homem, Betsy estendeu o corpo e suspirou nove vezes com intervalos de segundos. O homem, horrorizado, contou cada um dos suspiros antes de ela golpear a barriga com os pés e, finalmente, morrer.

04 – O que o homem fez com o corpo de Betsy na manhã seguinte à sua morte?

      Na manhã seguinte, o homem cuidadosamente colocou o corpo de Betsy dentro da caixa de papelão de um liquidificador que ele não tinha jogado fora.

05 – Por que o homem enxugou os olhos antes de sair de casa com a caixa?

      O homem enxugou os olhos porque não queria ser visto chorando, o que demonstra seu desejo de esconder a sua profunda tristeza e a sua dor pela perda.

 

 

domingo, 3 de agosto de 2025

MINICONTO: O PLANETINHA ENCHARCADO - FRAGMENTO - LUCA RISCHBIETER - COM GABARITO

 Miniconto: O planetinha encharcado – Fragmento

        Luca Rischbieter

Era uma vez um médico de planetas
Que passeava em uma galáxia
Muuuuuito distante
Quando... Vejam só
Que interessante:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3AKJkXgqzyiPOTkcM-YSHTDLuyuIIbTMkNVhqou3JWH-v8Zy7HiNouziONHXhAZfRK9bX_lHdFJwyHLnstomFrSCZGyDuJRiG7mTHqbV-6hthRYlcDpZLzD8q_6mxzd8Qlq1JR8lAnHNRT2XRpZDdw_27vEm_ZUseCngZ5RTy_W1a-SdPBCCQ0GyXhoY/s320/MINICONTO.jpg



Encontrou três
Planetinhas,
Que eram aquecidos
Pelo mesmo sol.

Olhando com atenção, o doutor
Percebeu que dois de três
Planetinhas estavam dormindo
E que só um deles parecia
Acordado.
O doutor perguntou-se,
Ensimesmado:
"Por que será que, em dois
Planetinhas, as coisas
Andam tão quentinhas?"
[...]

Luca Rischbieter. O planetinha encharcado. Curitiba: Aymará, 2009. p. 7-8.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 8º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 82.

Entendendo o miniconto:

01 – Qual a profissão do personagem principal do miniconto?

      O personagem principal do miniconto é um médico de planetas.

02 – Onde o médico de planetas encontrou os três planetinhas?

      Ele encontrou os três planetinhas enquanto passeava em uma galáxia "muuuuito distante".

03 – Qual característica comum os três planetinhas compartilhavam?

      Os três planetinhas eram aquecidos pelo mesmo sol.

04 – O que o médico de planetas percebeu sobre os três planetinhas ao observá-los atentamente?

      Ele percebeu que dois dos três planetinhas estavam "dormindo", e apenas um deles parecia "acordado".

05 – Qual a pergunta que o médico de planetas se fez ao final do fragmento?

      O médico de planetas se perguntou: "Por que será que, em dois planetinhas, as coisas andam tão quentinhas?"

 

MINICONTO: DE UM CERTO TOM AZULADO - MARINA COLASANTI - COM GABARITO

 Miniconto: De um certo tom azulado

       Marina Colasanti

        Casou-se com o viúvo de espessa barba, embora sabendo que antes três esposas haviam morrido. E com ele subiu em dorso de mula até o sombrio castelo.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiU8Bv8piGlrKbtWjQmgIJ2rQdYlK_CevgwksHPQwE9M1-VbRxII85MijY5WPrppQewYwAtph0H33iQdITLKAwFDJkCzr0hf2DpkcTzK1qDtYjUeaFykj9eTaUx3hopnof0bOq1M629rHL-FnVd1L0rN6IVLvMx19tlkFaYmS74S8caby4k4e05lSBEEso/s320/AZUL.jpg

        Poucos dias haviam passado, quando ele a avisou de que num cômodo jamais deveria entrar. Era o décimo quinto quarto do corredor esquerdo, no terceiro andar. A chave, mostrou, estava junto com as outras no grande molho. E a ela seria entregue, tão certo estava de que sua virtude não lhe permitiria transgredir a ordem.

        E não permitiu, na semana toda em que o marido ficou no castelo. Mas chegando a oportunidade da primeira viagem, despediu-se ela acenando com a mão, enquanto com a outra
apalpava no bolso a chave proibida.

        Só esperou ver o marido afastar-se caminho abaixo. Então, rápida, subiu as escadas do primeiro, do segundo, do terceiro andar, avançou pelo corredor, e ofegante parou frente à décima quinta
porta.

        Batia seu coração, inundando a cabeça de zumbidos. Tremia a mão hesitante empunhando a chave. Nenhum som vinha além da pesada porta de carvalho. Apenas uma fresta de luz escorria junto ao
chão.

        Devagar botou a chave na fechadura. Devagar rodou, ouvindo o estalar de molas e linguetas. E empurrando lentamente, bem
lentamente, entrou.

        No grande quarto, sentadas ao redor da mesa, as três esposas esperavam. Só faltava ela para completar o jogo de buraco.

COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 115-116.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 8º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 77.

Entendendo o miniconto:

01 – Qual a principal proibição imposta pelo marido à sua nova esposa?

      A principal proibição imposta pelo marido à sua nova esposa era a de jamais entrar no décimo quinto quarto do corredor esquerdo, no terceiro andar do castelo.

02 – Como a esposa demonstra sua intenção de desobedecer à proibição?

      A esposa demonstra sua intenção de desobedecer à proibição ao apalpar no bolso a chave proibida com uma mão, enquanto acena com a outra para o marido em sua partida. Isso revela sua antecipação e determinação em transgredir a ordem.

03 – Qual o ambiente físico e psicológico criado pela narrativa antes da revelação final?

      A narrativa cria um ambiente de tensão e mistério. A descrição da esposa subindo as escadas "rápida", o coração batendo "inundando a cabeça de zumbidos", a mão tremendo e a porta pesada com uma fresta de luz, tudo contribui para a expectativa do que seria revelado no quarto proibido.

04 – Quem a esposa encontra dentro do quarto proibido?

      Dentro do quarto proibido, a esposa encontra as três esposas anteriores do viúvo, sentadas ao redor de uma mesa.

05 – Qual é o desfecho surpreendente do miniconto e o que ele sugere?

      O desfecho surpreendente é que as três esposas anteriores estavam esperando a nova esposa para "completar o jogo de buraco". Isso sugere um destino macabro e recorrente para as esposas do viúvo, indicando que elas não morreram de causas naturais, mas possivelmente foram vítimas de um padrão sombrio que a nova esposa agora também enfrentaria

domingo, 27 de julho de 2025

MINICONTO: O FIM DA MALDIÇÃO - EMANUEL R. MARQUES - COM GABARITO

 Miniconto: O FIM DA MALDIÇÃO

           Emanuel R. Marques

        Em todas as primeiras quintas-feiras de cada mês, algo de misterioso ou macabro acontecia naquela rua. Era uma maldição vinda de tempos imemoráveis e as especulações e inúmeras lendas eram a única fonte de explicação para tal. Por vezes eram os ataques de vampiros, outras, um qualquer lobisomem que se divertia em sanguinárias carnificinas, e havia ainda os possessos humanos que se lançavam aos devaneios da loucura. Os habitantes viviam constantemente atormentados com a chegada desse dia, e a cautela era a palavra de ordem quando ele se aproximava. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhRtXPVm0mEEJpLJISK63VbHX1fRMrVdHJ2UZcOj4HB7DA2KJ2CpE60gIItLJoPEnctxj1268KabNZp4UyDm7pJopSvf_6R-FE2chaZlMBOF4fX9IkAVH2NsZqMV6RgU5CXCBmQA7cenp7DMsQ8Avi29BScDkKpsDwP5Yf_CgPOGuJiJ5Kw4jk3Dm1QjKg/s320/184_questoesartisticas.jpg


        No entanto, seis quintas-feiras passaram sem que algo de bizarro acontecesse. Teria a maldição terminado? Os alegres habitantes decidiram então dar uma grandiosa festa, para comemorar este fato. Escolheram a quinta-feira seguinte.

        Dançavam, cantavam, bebiam e celebravam tranquilamente. Subitamente, todos os monstros e criaturas demenciais surgiram, surpreendendo-os e dizimando todos os habitantes de uma só vez. Era o fim da maldição.

Emanuel R. Marques. Em: Ademir Pasale e Elenir Alves (Org.). TerrorZine – minicontos de terror n .16. Disponível em < http:// www.cranik.com/terrorzine.html. Acesso em: 21 mar. 2015.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 7º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 145.

Entendendo o conto:

01 – Qual era o evento misterioso que ocorria na rua e com que frequência ele acontecia?

      Algo de misterioso ou macabro acontecia na rua em todas as primeiras quintas-feiras de cada mês.

02 – Que tipo de criaturas ou eventos sobrenaturais eram atribuídos à maldição, de acordo com as lendas dos habitantes?

      As lendas atribuíam à maldição ataques de vampiros, aparições de lobisomens e humanos possessos que caíam em devaneios de loucura.

03 – O que levou os habitantes a acreditar que a maldição havia terminado e como eles decidiram celebrar?

      Os habitantes acreditaram que a maldição havia terminado porque seis quintas-feiras consecutivas se passaram sem que nada bizarro acontecesse. Para celebrar, eles decidiram dar uma grandiosa festa na quinta-feira seguinte.

04 – O que aconteceu durante a festa de celebração, surpreendendo os habitantes?

      Durante a festa, todos os monstros e criaturas demenciais surgiram subitamente, surpreendendo e dizimando todos os habitantes de uma só vez.

05 – Qual é o significado irônico do título "O FIM DA MALDIÇÃO" à luz dos eventos finais do conto?

      O título é irônico porque o "fim da maldição" não significou o fim do sofrimento ou do perigo para os habitantes. Em vez disso, a maldição culminou em um evento catastrófico que dizimou a todos, encerrando a maldição de uma forma trágica e definitiva, ou seja, não havia mais ninguém para ser amaldiçoado.

 

 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

MINICONTO: A CERCA - FRAGMENTO - PATATIVA DO ASSARÉ - COM GABARITO

 Miniconto: A cerca – Fragmento

                 Patativa do Assaré

        Olhe, eu tinha minha cerca lá perto da minha casa na Serra de Santana. Começaram a roubar as varas da cerca para cozinhar em panela, viu? 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh2tnabL2aEeXgfkHYVQWi8bi33SKmMLVVwwt_mw9lKAybAdUxOXs00VymbQkSP6T9kQZmXarLpXl9LWTdA5mWHfH-Q0Y-EgZEXot-zIuzFQdllhilDR5P_1pRFIg9n71C9is6dxsC0rXpugQrz-uExd9PIprkShmipiTfDExogvz8A9pjSa9942n0jd0/s320/Cercas-De-Madeira.jpg


Ai eu perguntava e todo mundo dizia: não, eu não fui, eu não fui. E eu, sabendo que o matuto tem muito medo de praga, e achando que rogando praga pega, aí eu perdoei a todos quanto tivesse tirado até aquele dia e roguei praga a quem tirasse daquele dia em diante, botei num papel e botei lá na cerca. Aquele que sabia ler, era aquela roda, um lendo e aí melhorou, não buliram mais
não. [...].

ASSARÉ, Patativa do. Digo e não peço segredo. São Paulo: Escrituras, 2001. p. 67. (Fragmento).

Fonte: Língua Portuguesa: Singular & Plural. Laura de Figueiredo; Marisa Balthasar e Shirley Goulart – 6º ano – Moderna. 2ª edição, São Paulo, 2015. p. 197.

Entendendo o miniconto:

01 – Qual era o problema que o narrador enfrentava em relação à sua cerca?

      O narrador enfrentava o problema de roubo das varas de sua cerca, que eram utilizadas para cozinhar.

02 – Que estratégia o narrador utilizou para tentar impedir os roubos, sabendo do medo dos matutos?

      O narrador, ciente do medo dos matutos em relação a pragas, perdoou todos os ladrões até aquele dia e rogou uma praga a quem roubasse as varas a partir daquele momento. Ele registrou a praga em um papel e o fixou na cerca.

03 – Qual foi a reação das pessoas ao serem questionadas sobre os roubos?

      As pessoas, ao serem questionadas sobre os roubos, negavam a autoria, dizendo: "não, eu não fui, eu não fui".

04 – Como a estratégia do narrador se mostrou eficaz e por quê?

      A estratégia do narrador se mostrou eficaz porque os roubos cessaram depois que o papel com a praga foi colocado na cerca. A eficácia se deu porque, segundo o narrador, os matutos têm muito medo de praga, e a existência de alguém que sabia ler e transmitia a mensagem amplificava o impacto.

05 – O que esse miniconto revela sobre a cultura e as crenças populares retratadas por Patativa do Assaré?

      O miniconto revela a forte influência das crenças populares e do medo de pragas na cultura do matuto, como retratado por Patativa do Assaré. Mostra como o conhecimento dessas crenças pode ser usado de forma astuta para resolver problemas, mesmo sem a necessidade de intervenção legal ou confrontos diretos. É um exemplo da sabedoria prática e da forma como a oralidade e o imaginário popular se manifestam na vida cotidiana.

 

 

sábado, 26 de abril de 2025

MINICONTO: ATRÁS DO ESPESSO VÉU - MARINA COLASANTI - COM GABARITO

 Miniconto: Atrás do espesso véu

                 Marina Colasanti 

      Disse adeus aos pais e, montada no camelo, partiu com a longa caravana na qual seguiam seus bens e as grandes arcas do dote. Atravessaram deserto, atravessaram montanhas. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVWgeU3RcbtguFz3jdCxfPT33cw0juaPvG6wwJdQJ9KPbmWRPOTpwcLylQ7whNuWPSbu8tDh_GjS1Akdotn9J5mF9sIx-_KvthZ1S0TSkWOzWdtxCGmd2PT8tfepBlqXRg5FDw67PB9xmKg0Oxj6xvJqf2oQNoQwPSMPdEMdg1-JIpfeUInqdpCMzsww8/s320/photo-1553913861-dc2ce76b856c.jpg


Chegando afinal à terra do futuro esposo, eis que ele saiu de casa e veio andando ao seu encontro. “Este é aquele com quem viverás para sempre”, disse o chefe da caravana à mulher. Então ela pegou a ponta do espesso véu que trazia enrolado na cabeça, e com ele cobriu o rosto, sem que nem se visse os olhos. Assim permaneceria dali em diante. Para que jamais, soubesse o que havia escolhido, aquele que a escolhera sem conhecê-la.

COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 47.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, 2. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 9ª Ed. – Ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 140.

Entendendo o miniconto:

01 – Qual a situação inicial apresentada no miniconto e quem são os personagens envolvidos nessa partida?

      A situação inicial apresenta uma mulher que se despede dos pais e parte em uma longa caravana montada em um camelo. Junto com ela, seguem seus bens e o grande dote. Os personagens envolvidos nessa partida são a mulher, seus pais e o chefe da caravana.

02 – Qual o significado da chegada à "terra do futuro esposo" para a protagonista da história?

      A chegada à "terra do futuro esposo" marca o momento do encontro da protagonista com o homem com quem ela viverá para sempre, conforme a designação do chefe da caravana. É o ponto culminante da sua jornada e o início de sua nova vida matrimonial.

03 – Qual a ação da mulher ao ser apresentada ao futuro esposo e qual o simbolismo desse gesto?

      Ao ser apresentada ao futuro esposo, a mulher pega a ponta do espesso véu que trazia e cobre completamente o rosto, de modo que nem mesmo seus olhos ficam visíveis. Esse gesto simboliza uma renúncia à sua própria identidade e individualidade diante do casamento arranjado. O véu a oculta, impedindo que o esposo a conheça antes do matrimônio e, como se revela no final, evitando que ela própria saiba o que escolheu.

04 – Segundo a última frase do miniconto, qual o propósito de a mulher permanecer com o rosto coberto dali em diante?

      A mulher permanece com o rosto coberto para que jamais soubesse o que havia escolhido, aquele que a escolhera sem conhecê-la. Isso sugere uma crítica à falta de escolha e ao casamento arranjado, onde a individualidade e o conhecimento mútuo são suprimidos.

05 – Que reflexão o miniconto pode suscitar sobre temas como casamento arranjado, identidade feminina e conhecimento no contexto das relações?

      O miniconto suscita reflexões sobre a natureza do casamento arranjado e a passividade imposta à mulher, que é escolhida sem ser conhecida e, por sua vez, é impedida de conhecer sua escolha. O véu simboliza a ocultação da identidade feminina e a ausência de conhecimento mútuo como base para o relacionamento, levantando questões sobre liberdade de escolha e a construção de laços afetivos autênticos.