sexta-feira, 15 de maio de 2026

CONTO: QUEM TEM MEDO DE ONÇA? - JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO - COM GABARITO

 Conto: QUEM TEM MEDO DE ONÇA?

         José Cândido de Carvalho    

        Apareceu na cidadezinha de Pedras Altas numa chuva antiga. Em boa sela e melhor estribo veio ele. Falava pelo canto da boca ─ do outro lado a brasa do charuto ameaçava incendiar o mundo. No Hotel da Estação, depois de sacar de uma devastadora garrucha, deu nome e patente:          

        ─ Capitão Quirino Dias.      

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgEe9Jno9rXT8GhjU2D57gvRpvWhsm2j2bG9MMsH0s4EqwTTlLm0-_epqoq8j9SsWKo807zjn-k7pPU4RxkxbVZjWIa7QBANAnchyphenhyphenVcfRzqpwpByD40nL5shAX-flbxl-kDrlfQfMF0eOlAD4sGs8BJ4zGawMkj4Kbzk7L0LzVtbExy95YOYfW-A3-Gap4/s320/ON%C3%87A.png

     

        Mandou que arrumassem o seu baú dentro do maior cuidado. E espadanando fumaça até no teto da sala:          

        ─ É tudo munição! Coisa de muita responsabilidade.            

        A cidadezinha de Pedras Altas viu logo que estava diante de um pistoleiro de marca maior. E isso ganhou raiz quando um tropeiro, parando no Hotel da Estação para deixar encomenda de boca, espalhou que o sujeitão do charuto era perseguido da Justiça. Que matava só pelo gosto de ver que lado o cristão caía. E de mula picada:            

        ─ Vou ligeirinho que esse capitão é pior que cobra em brasa.

        Foi. Atrás da poeira do tropeiro a fama de Quirino Dias cresceu de não caber em sala e saleta, de jorrar pelos telhados de Pedras Altas. No Hotel da Estação o melhor pedaço era para seu dente, o melhor doce, para sua língua. E no dia em que bebeu cachaça com pólvora, na vista de todo o Hotel da Estação, sua fama não teve mais freio. Bebeu e disse:   

         ─ Tenho trabalho longe. Só volto na semana entrante.           

        No quarto, remexeu o baú e sumiu nas patas do seu brasino. Pedras Altas, por trás de portas e janelas assustadas, comentou:

        ─ É viagem de tocaia.            

        A bem dizer, a cidade era dele. Seus pedidos de dinheiro corriam nos pés dos moleques de leva-e-traz. E era quem mais queria municiar o capitão, no medo que ele fosse ao baú. Quirino mesmo apregoava pelo canto da boca que o charuto deixava livre:

        ─ Não abro aquela peça sem proveito.         

        Foi quando aconteceu o caso da onça. A notícia veio ligeira e ligeira entrou no 29 Hotel da Estação. A pintada era um capeta de olho em brasa. Um portador, chegado fresquinho do mato, derramou no ouvido do povo a última artimanha da onça:

        ─ Limpou o curral de Nonô Pestana de não ficar nem bicho de pele nem bicho de pena.

        Uma embaixada de coronéis, com todos os seus pertences, correu para pedir a Quirino Dias providências contra a onça. E Quirino, espantado:

        ─ Onça? Deu onça em Pedras Altas? Socorro! Quero lá saber disso! Vou embora neste justo momento.

        Não teve tempo de levar o baú, uma peça de folha-de-flandres onde guardava suas bugigangas ─ pentes, rendinhas, frascos de cheiro, alfinetes e águas de moça. Quirino Dias era caixeiro-viajante.

José Cândido de Carvalho. © by herdeiros de José Cândido de Carvalho. Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 63-65.

Entendendo o conto:

01 – Como o Capitão Quirino Dias é descrito fisicamente e qual impressão ele desejava causar ao chegar em Pedras Altas?

      Ele é descrito como alguém que falava pelo canto da boca, sempre com um charuto aceso, usando boa sela e estribo. Ao sacar uma "devastadora garrucha" e dar seu nome e patente, ele desejava causar uma impressão de autoridade, valentia e perigo.

02 – O que o Capitão Quirino afirmava haver dentro de seu baú e por que ele pedia tanto cuidado com o objeto?

      Ele afirmava que o baú estava cheio de munição e que era uma "coisa de muita responsabilidade". O objetivo era reforçar a farsa de que ele era um homem de armas e perigoso, intimidando os moradores.

03 – Como a fama de "pistoleiro de marca maior" de Quirino se espalhou pela cidade?

      A fama cresceu a partir dos boatos espalhados por um tropeiro, que disse que o capitão era perseguido pela justiça e que matava pessoas por puro prazer. Atitudes do próprio Quirino, como beber cachaça com pólvora em público, alimentaram ainda mais esse mito.

04 – Como a cidade de Pedras Altas tratava o Capitão Quirino devido ao medo que ele inspirava?

      A cidade o tratava com extrema regalia e servilismo. No hotel, ele recebia a melhor comida e os melhores doces; além disso, os moradores lhe davam dinheiro prontamente para evitar que ele precisasse recorrer ao seu "baú de munições".

05 – Qual foi o evento que colocou à prova a suposta valentia do Capitão Quirino?

      O surgimento de uma onça pintada na região, que estava atacando as fazendas locais (como o curral de Nonô Pestana). Os coronéis da cidade recorreram a ele como a única pessoa capaz de enfrentar e eliminar a fera.

06 – Qual foi a reação real de Quirino Dias ao ser solicitado para caçar a onça?

      Ele demonstrou pavor imediato. Gritou por socorro, disse que não queria saber de onça e decidiu fugir da cidade naquele exato momento, abandonando inclusive seu precioso baú.

07 – Qual é a grande revelação final do conto sobre a verdadeira identidade de Quirino e o conteúdo de seu baú?

      Revela-se que Quirino Dias não era capitão nem pistoleiro, mas sim um caixeiro-viajante. Seu baú, em vez de munição, continha apenas "artigos femininos" e bugigangas, como pentes, rendinhas, alfinetes e frascos de perfume.

 

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