Conto: QUEM TEM MEDO DE ONÇA?
José Cândido de Carvalho
Apareceu na cidadezinha de Pedras Altas
numa chuva antiga. Em boa sela e melhor estribo veio ele. Falava pelo canto da
boca ─ do outro lado a brasa do charuto ameaçava incendiar o mundo. No Hotel da
Estação, depois de sacar de uma devastadora garrucha, deu nome e patente:
─ Capitão Quirino Dias.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgEe9Jno9rXT8GhjU2D57gvRpvWhsm2j2bG9MMsH0s4EqwTTlLm0-_epqoq8j9SsWKo807zjn-k7pPU4RxkxbVZjWIa7QBANAnchyphenhyphenVcfRzqpwpByD40nL5shAX-flbxl-kDrlfQfMF0eOlAD4sGs8BJ4zGawMkj4Kbzk7L0LzVtbExy95YOYfW-A3-Gap4/s320/ON%C3%87A.png Mandou que arrumassem o seu baú dentro
do maior cuidado. E espadanando fumaça até no teto da sala:
─ É tudo munição! Coisa de muita
responsabilidade.
A cidadezinha de Pedras Altas viu logo
que estava diante de um pistoleiro de marca maior. E isso ganhou raiz quando um
tropeiro, parando no Hotel da Estação para deixar encomenda de boca, espalhou
que o sujeitão do charuto era perseguido da Justiça. Que matava só pelo gosto
de ver que lado o cristão caía. E de mula picada:
─ Vou ligeirinho que esse capitão é
pior que cobra em brasa.
Foi. Atrás da poeira do tropeiro a fama
de Quirino Dias cresceu de não caber em sala e saleta, de jorrar pelos telhados
de Pedras Altas. No Hotel da Estação o melhor pedaço era para seu dente, o
melhor doce, para sua língua. E no dia em que bebeu cachaça com pólvora, na
vista de todo o Hotel da Estação, sua fama não teve mais freio. Bebeu e
disse:
─ Tenho trabalho longe. Só volto na
semana entrante.
No quarto, remexeu o baú e sumiu nas
patas do seu brasino. Pedras Altas, por trás de portas e janelas assustadas,
comentou:
─ É viagem de tocaia.
A bem dizer, a cidade era dele. Seus
pedidos de dinheiro corriam nos pés dos moleques de leva-e-traz. E era quem
mais queria municiar o capitão, no medo que ele fosse ao baú. Quirino mesmo
apregoava pelo canto da boca que o charuto deixava livre:
─ Não abro aquela peça sem
proveito.
Foi quando aconteceu o caso da onça. A
notícia veio ligeira e ligeira entrou no 29 Hotel da Estação. A pintada era um
capeta de olho em brasa. Um portador, chegado fresquinho do mato, derramou no
ouvido do povo a última artimanha da onça:
─ Limpou o curral de Nonô Pestana de
não ficar nem bicho de pele nem bicho de pena.
Uma embaixada de coronéis, com todos os
seus pertences, correu para pedir a Quirino Dias providências contra a onça. E
Quirino, espantado:
─ Onça? Deu onça em Pedras Altas?
Socorro! Quero lá saber disso! Vou embora neste justo momento.
Não teve tempo de levar o baú, uma peça
de folha-de-flandres onde guardava suas bugigangas ─ pentes, rendinhas, frascos
de cheiro, alfinetes e águas de moça. Quirino Dias era caixeiro-viajante.
José Cândido de
Carvalho. © by herdeiros de José Cândido de Carvalho. Por que Lulu Bergantim
não atravessou o Rubicon. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 63-65.
Entendendo o conto:
01 – Como o Capitão Quirino
Dias é descrito fisicamente e qual impressão ele desejava causar ao chegar em Pedras
Altas?
Ele é descrito
como alguém que falava pelo canto da boca, sempre com um charuto aceso, usando
boa sela e estribo. Ao sacar uma "devastadora garrucha" e dar seu
nome e patente, ele desejava causar uma impressão de autoridade, valentia e perigo.
02 – O que o Capitão Quirino
afirmava haver dentro de seu baú e por que ele pedia tanto cuidado com o
objeto?
Ele afirmava que
o baú estava cheio de munição e que era uma "coisa de muita
responsabilidade". O objetivo era reforçar a farsa de que ele era um homem
de armas e perigoso, intimidando os moradores.
03 – Como a fama de
"pistoleiro de marca maior" de Quirino se espalhou pela cidade?
A fama cresceu a
partir dos boatos espalhados por um tropeiro, que disse que o capitão era
perseguido pela justiça e que matava pessoas por puro prazer. Atitudes do
próprio Quirino, como beber cachaça com pólvora em público, alimentaram ainda
mais esse mito.
04 – Como a cidade de Pedras
Altas tratava o Capitão Quirino devido ao medo que ele inspirava?
A cidade o
tratava com extrema regalia e servilismo. No hotel, ele recebia a melhor comida
e os melhores doces; além disso, os moradores lhe davam dinheiro prontamente
para evitar que ele precisasse recorrer ao seu "baú de munições".
05 – Qual foi o evento que
colocou à prova a suposta valentia do Capitão Quirino?
O surgimento de
uma onça pintada na região, que estava atacando as fazendas locais (como o
curral de Nonô Pestana). Os coronéis da cidade recorreram a ele como a única
pessoa capaz de enfrentar e eliminar a fera.
06 – Qual foi a reação real de
Quirino Dias ao ser solicitado para caçar a onça?
Ele demonstrou
pavor imediato. Gritou por socorro, disse que não queria saber de onça e
decidiu fugir da cidade naquele exato momento, abandonando inclusive seu
precioso baú.
07 – Qual é a grande revelação
final do conto sobre a verdadeira identidade de Quirino e o conteúdo de seu
baú?
Revela-se que
Quirino Dias não era capitão nem pistoleiro, mas sim um caixeiro-viajante. Seu
baú, em vez de munição, continha apenas "artigos femininos" e
bugigangas, como pentes, rendinhas, alfinetes e frascos de perfume.
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