Crônica: Onde tudo tem sentido – Fragmento
Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert
Cada sociedade tem suas normas, cada
povo tem seus costumes. Assim, entre nós, de maneira geral os homens têm
cabelos curtos e as mulheres, cabelos compridos. No dia do casamento, a mulher
usa vestido branco e no dia do seu aniversário a pessoa ganha presente.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhn7Mba0EY3l8-YUpOS77nYFDB13E2lw7An7IEgiWIztDl_wa0hsq1TDUBVRlBfwOnfXS43qq6vyabfcYR1kb-qgrQa5FijbJ8Z_t46fzaNE-e7_Ofl0dUvC-9UcAhZ59Z9W1KnOCs9peAG5wbX0rWqnSnxx17iSBRVVM_k83m2iRDZRjndk6xss03ryRE/s1600/CULTURA.jpg Os povos indígenas têm também suas
regras e suas tradições. Muitas delas possuem um sentido religioso, pois o
espiritual está muito presente em sua vida. Assim, existem os ritos, isto é, as
normas religiosas que acompanham as várias fases da vida, como a gestação, o
nascimento das crianças, sua passagem para a vida adulta, o casamento e a
morte. Outros ritos estão ligados à plantação e à colheita dos alimentos.
Outros ainda estão ligados à caça e à guerra.
[...]
Ritos do nascimento
Entre os Tupinambá, quando nascia uma
criança era uma festa! Se fosse menino, o pai cortava seu cordão umbilical com
os dentes. Se fosse menina, era a mãe quem o fazia. Levavam a criança ao rio
para ser banhada, quando o pai achatava o nariz do guri com o polegar. Nariz
chato era sinal de beleza entre eles.
Depois voltavam a casa, onde a criança
era colocada numa rede. O menino logo recebia um arco-e-flecha, tendo sua rede
enfeitada com unhas de gavião ou garras de onça, para ser um valente guerreiro.
No caso de ser menina, recebia uma cabaça, as jarreteiras para as pernas – que
eram braceletes de algodão que iriam deixar as pernas fortes – e dentes de
capivara, para crescer com bons dentes para bem mastigar a mandioca na
preparação do cauim – uma bebida fermentada, à base de mandioca ou de milho.
Durante três dias o pai só podia comer
uma espécie de farinha, sendo-lhe proibido qualquer outro alimento. Não fazia
nenhum trabalho, até o umbigo da criança cair, pois senão ela e a mãe iam ter
cólicas. Caindo o umbigo, este era cortado em pedacinhos, que ficavam
dependurados nas vigas da casa a fim de que o menino se tornasse um bom chefe
de família.
Ao final de todos estes procedimentos,
a comunidade realizava uma grande festa com cauinagem, isto é, com muita bebida
de cauim. Neste dia era escolhido o nome da criança.
Ritos para se tornar adulto
Entre os povos indígenas em geral, a
pessoa começa a participar muito cedo da vida adulta da comunidade. A mulher se
torna mãe aos 13 ou 14 anos e o homem, com 15 ou 16, já pode estar assumindo
uma família. Mas isto não acontece sem uma preparação devida.
Entre os Apinajé, nação que vive ao
norte de Goiás [...], a passagem do menino à vida de adulto acontece aos 15
anos. O ritual para essa transposição tem duas etapas.
A primeira começa com uma festa em que
os adolescentes recebem o nome de pembkaag, que quer dizer semelhantes a
guerreiros. Durante vários meses, embora continuem dormindo na casa dos pais,
vão ter uma vida separada: ficam num acampamento à parte, tomam banho em outro
local, reúnem-se num lugar separado no pátio quando chegam para as danças, e
passam por um caminho diferente quando vão buscar comida na casa dos pais.
Todos os dias recebem orientação de
duas pessoas experientes, que acompanham o grupo e que poderíamos chamar de
padrinhos. Nesse período, os jovens furam as orelhas e os lábios. Passando o
tempo previsto, há uma nova festa, quando são acolhidos na comunidade já como pemb,
isto é, como guerreiros.
Começa então outra fase mais dura,
sendo obrigados a ficar trancados num quarto, especialmente construído para
eles, pois não devem ser vistos. Quando saem, vão para fora da aldeia
juntamente com os padrinhos, que sempre os orientam sobre a vida de casado,
sobre as tradições do grupo, as caçadas, as festas e as cerimônias.
Terminado esse período, já não são mais
crianças. São adultos e começam a ser tratados como tal. Podem casar e assumir
família. nova festa acontece para marcar este grande passo de suas vidas.
Benedito Prezia e
Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 104-106.
Entendendo a crônica:
01
– Como o texto define o conceito de "ritos" dentro das comunidades
indígenas?
O texto define ritos como
normas religiosas que acompanham as várias fases da vida (gestação, nascimento,
passagem para a vida adulta, casamento e morte), além de estarem ligados a atividades
essenciais como a plantação, a colheita, a caça e a guerra.
02
– No rito de nascimento dos Tupinambá, qual era o procedimento simbólico
realizado para meninos e meninas logo após o banho no rio?
O pai achatava o
nariz do recém-nascido com o polegar. Esse ato tinha um sentido estético e
cultural, pois o nariz chato era considerado um sinal de beleza entre aquele
povo.
03
– Quais objetos eram colocados na rede dos bebês e qual era o significado por
trás de cada um deles?
Meninos: Recebiam
arco-e-flecha e a rede era enfeitada com unhas de gavião ou onça para que se
tornassem valentes guerreiros.
Meninas: Recebiam uma
cabaça, jarreteiras de algodão (para fortalecer as pernas) e dentes de
capivara, para que tivessem bons dentes para mastigar a mandioca na preparação
do cauim.
04
– Quais eram as restrições e responsabilidades do pai Tupinambá até que o
umbigo da criança caísse?
O pai não podia
realizar nenhum trabalho e sua alimentação era restrita apenas a uma espécie de
farinha. O descumprimento dessas regras, segundo a tradição, faria com que a
mãe e a criança tivessem cólicas.
05
– De que forma o nascimento de uma criança era celebrado pela comunidade após o
cumprimento de todos os ritos iniciais?
A comunidade
realizava uma grande festa com "cauinagem" (muita bebida de cauim), e
era nesse dia festivo que se escolhia o nome da criança.
06
– Como funciona a primeira etapa da passagem para a vida adulta entre os
meninos Apinajé?
Aos 15 anos, eles
recebem o nome de pembkaag (semelhantes a guerreiros). Durante meses, eles
vivem de forma separada da comunidade: têm acampamento próprio, banham-se em
locais distintos e utilizam caminhos diferentes para buscar comida, sempre sob
a orientação de dois "padrinhos" experientes.
07
– O que caracteriza a segunda fase do ritual de transposição para a vida adulta
dos Apinajé?
É uma fase
considerada mais dura, na qual os jovens ficam trancados em um quarto especial
para não serem vistos. Sob orientação dos padrinhos, eles aprendem sobre as
tradições do grupo, a vida de casado, caçadas e cerimônias. Ao fim desse
isolamento, são tratados como adultos e podem se casar.
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