Conto: O castelo de areia
Era uma praia muito carregada de
gente. Toldos e barracas de lona tapavam a vista do mar. Chapéus-de-sol, em
cacho, uns sobre os outros, tapavam a vista do céu.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgdOLwuVrp728bvUmDwNGqZbr1x8NCiQquQTkrg6mmos1giefIU4rZnzycP5qYsNvhcnNhhlVB1ONkyPqm-URmKBAHVMODDjX46R2ZtmJ9i9lUYn82f3RL54SEozausdy2VAgNlYWaMiRnXeuni3Hck-rvNy_ujTNbaGPxL6e9nGXfnPNtvCe2PNN3DL2c/s320/areia.jpg Para
que um banhista, mesmo magrinho, conseguisse estender a toalha de banho sobre a
areia, tinha de pedir? “Com licença, com licença” aos vizinhos, para que se
chegassem um pouco mais para o lado. Então, toda a praia se movia, à esquerda e
à direita, como uma onda e as pessoas, sucessivamente, diziam? “Com licença,
com licença”, a pedirem espaço ao vizinho do lado, até nos dois extremos da
praia os últimos banhistas gritarem: “Não apertem mais!” E estes últimos
banhistas acabavam por ter de ficar em pé, de encontro à muralha.
--
Quero fazer um castelo de areia – disse o menino, que tinha trazido para a
praia um balde novo e uma pá e um ancinho.
--
Só quando o teu pai for tomar banho – disse a mãe.
--
Para que lado é que é a água? – perguntou o pai.
--
Acho que é para ali – apontou a mãe. – Foi donde veio ainda agora aquele
senhor, que está a limpar-se.
O
pai, para ter a certeza, foi perguntar ao tal senhor:
--
O mar estava bom?
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Não sei – respondeu o senhor, que esfregava furiosamente a cabeça com uma
toalha. – Não encontrei mar nenhum. Para me refrescar, tive de ir tomar duche a
um balneário.
--
Se fosse a ti não saía de ao pé de nós – disse a mãe do menino. – Vais e,
depois nunca mais nos encontras, no meio de tanta gente.
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Então quando é que eu faço o castelo de areia? – perguntou o menino, já amuado.
--
Descansa que eu vou já tomar banho – disse o pai. – Para voltar, oriento-me
pela cor do nosso chapéu-de-sol.
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Há milhares de chapéus-de-sol iguais – disse a mãe, mas o marido dela e pai do
menino já ia longe.
Ia,
todo satisfeito, a caminho do mar, embora só muito mais tarde viesse a
descobrir, quando chegou à estrada, que se tinha enganado.
O
menino pôs-se a construir o castelo de areia, cheio de entusiasmo. Depois de
ter erguido o torreão e a primeira cintura de ameias, lembrou-se de pedir à
mãe:
--
Quero um gelado.
A
mãe escusou-se, explicando-lhe que se ela fosse procurar a barraca dos gelados,
ia ser muito difícil depois dar de novo com o sítio onde estavam.
Mas
o menino insistiu tanto, que ela acedeu.
No
bocado de areia deixado livre pela mãe, o menino acrescentou ao castelo uma
segunda cintura de muralhas e um fosso todo à volta. Estava um trabalho
perfeito e já com uma certa dimensão.
Passou
que tempos.
--
Estou cheio de fome – gritou o menino, sem tirar os olhos da sua construção,
que já tinha preenchido todo o espaço disponível.
Um par de namorados, que estava estendido ao lado, condoeu-se daquele menino,
que se perdera dos pais, e foi procurar o cabo-do-mar, para dar-lhe conta da
ocorrência. Os namorados partiram de mão dada, tendo a mãe da rapariga
recomendado que não se demorassem.
Pois
sim. A verdade é que se demoraram, tanto que a mãe da rapariga, muito enervada,
resolveu ir à cata deles, pela praia fora.
A
obra crescia a olhos vistos. Era um imponente amuralhado com várias cercas e
fossas, torres anexas e trincheiras defensivas, esculpidas com primor pelos
dedos hábeis do menino, esquecido de tudo o mais à sua volta.
Preenchia
uma importante extensão de terreno, que até parecia impossível que, no aperto
de tanta gente, ainda houvesse um quadrado de areia disponível para um menino
brincar tão à vontade.
Declinava
o sol, quando o pai regressou, tiritando. Logo a seguir apareceu a mãe, com um
gelado todo derretido. Abraçaram-se, como se já tivessem perdido a esperança de
voltarem a encontrar-se.
--
Este dia correu muito mal – concordaram os pais.
Só
o menino não era da mesma opinião.
Autor desconhecido.
Entendendo o conto:
01 – De que forma o autor descreve a
superlotação da praia no início do texto e que consequências isso trazia para os
banhistas?
O autor descreve uma praia extremamente cheia, onde toldos,
barracas e chapéus-de-sol em "cacho" tapavam completamente a vista do
mar e do céu. Para conseguir um espaço na areia, as pessoas tinham de pedir
licença sucessivamente, gerando um efeito de onda que empurrava os últimos
banhistas das extremidades para a muralha, onde eram obrigados a ficar de pé.
02 – Por que razão o pai do menino teve
dificuldade em encontrar o mar e o que acabou por lhe acontecer?
A praia estava tão cheia e a vista tão obstruída que nem
sequer se conseguia ver onde ficava a água. O pai tentou guiar-se pelas
indicações da mãe e pela direção de outro banhista, mas acabou por se enganar
no caminho e foi parar à estrada, descobrindo o erro muito mais tarde.
03 – Qual foi a condição imposta pela mãe para
que o menino pudesse começar a construir o seu castelo de areia e por que razão
ela hesitou em ir comprar o gelado?
A mãe estabeleceu que o menino só poderia fazer o castelo
quando o pai fosse tomar banho, presumivelmente para aproveitar o espaço que o
pai deixaria vago ao levantar-se. Mais tarde, ela hesitou em comprar o gelado
porque temia perder-se e não conseguir encontrar novamente o local onde tinham
estendido as toalhas, devido à imensidão de pessoas iguais.
04 – Como o menino conseguiu expandir tanto o
seu castelo de areia num espaço inicialmente tão apertado?
O menino aproveitou o espaço deixado livre pelas pessoas que
se iam ausentando. Primeiro, usou o espaço do pai; depois, expandiu o castelo
para o lugar da mãe quando esta foi buscar o gelado; e, finalmente, ocupou o
espaço do par de namorados e da mãe da rapariga que saíram para se procurar uns
aos outros.
05 – O que motivou a saída do par de namorados
e da mãe da rapariga do seu lugar na areia?
O par de namorados sentiu pena do menino, achando que ele
estava abandonado e perdido dos pais porque gritava que tinha fome sozinho. Por
isso, afastaram-se para procurar o cabo-do-mar. Como os namorados demoraram a
voltar, a mãe da rapariga ficou enervada e decidiu ir atrás deles pela praia afora,
libertando ainda mais espaço.
06 – Descreva a evolução da construção do
menino ao longo do conto e o que isso demonstra sobre o seu estado de espírito.
O castelo começou de forma simples, com um torreão e uma
cintura de ameias. À medida que as pessoas se afastavam, transformou-se numa
obra imponente com uma segunda muralha, fossos, várias cercas, torres anexas e
trincheiras esculpidas com primor. Isto demonstra que o menino estava totalmente
focado, entusiasmado e alheio à confusão e aos problemas dos adultos ao seu
redor.
07 – Por que razão, no final do dia, a opinião
do menino era diferente da opinião dos seus pais sobre como correu o dia de
praia?
Para os pais, o dia correu muito mal porque se perderam,
enfrentaram a enorme confusão da praia e viveram momentos de grande stresse e
ansiedade. Para o menino, o dia foi excelente porque o facto de os adultos se
terem perdido uns dos outros deu-lhe o espaço e o tempo necessários para realizar
o seu grande objetivo: construir um castelo de areia perfeito e gigante.
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