Conto: Sorte para o pintassilgo
António Torrado
Era uma vez um velho lenhador. Andara a vida inteira a percorrer a floresta e, agora que as forças já lhe faltavam para empunhar o machado, passava os dias, tristemente, à porta do seu casebre.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjkVuf0oe3TrZom_-u5NZsVLAvRblkiDI8EOI67ZM3pXuUqp86xYGdYHHxS4kIN1NvPxvr-VdoQ1vGb6tPqZ3dgYCTs__sPinX_EcfR4YrjRtER4EBYyR-tnJcobOa-rNZMQOnImx23T4QSMLzO2Ylfsxaae62ZuZHdvDya3l4p-1i0ZE0hMLjSIcSb-CA/s320/pitassilgo.jpgEntre as lembranças mais antigas que lhe preenchiam a memória, recordava-se de uma história que o tinha encantado, na infância. Nela se contava que havia, na floresta, anõezinhos tão pequenos que nem um palmo mediriam. Os anões ou gnomos, tanto faz, guardavam, num esconderijo, pedras de ouro puro, acumuladas, ao longo de séculos pelo trabalho incansável de várias gerações de mineiros anõezinhos.
O lenhador, que conhecia a floresta de lés a lés, nunca vira um gnomo nem, a bem dizer, acreditava que a história correspondesse à verdade.
- Invenções para entreter meninos. E velhos... - dizia ele de si para si, com um sorriso desencantado.
Mas não é que, um dia, descobriu mesmo um gnomo?
Um gnomo a dormir, de boca aberta, junto à raiz de um pinheiro da floresta, era uma descoberta fantástica.
O lenhador agarrou-o pela cintura como quem agarra um gafanhoto e gritou-lhe:
- Afinal, sempre é verdade. Agora, só falta saber o segredo do tesouro dos gnomos...
O homenzinho, preso entre o polegar e o indicador do homenzarrão, debatia-se e protestava que nunca tinha ouvido falar em tal tesouro.
- Se não me dizes, onde o esconderam, aperto-te a barriga, que nem tempo tens para dizer ? Chega - ameaçou o lenhador.
E era bem capaz... A possibilidade imprevista de vir a ficar rico, riquíssimo, quase o enlouquecia.
- Diz-me onde está o tesouro ou esborracho-te - insistiu o lenhador.
O gnomo, não tendo outra alternativa, acabou por apontar uma árvore, confessando que, debaixo da raiz da árvore, numa loca, estava, agasalhado entre musgos, o maior tesouro do mundo.
- Já vamos saber se é como contas - disse o lenhador.
Mas entardecia. Era Inverno, estação do ano em que, como se sabe, a noite cai cedo e depressa. O lenhador, contrariado por ter de guardar para o dia seguinte o que queria resolver naquele dia, fez uma cruz a canivete, no tronco da árvore indicada, e disse:
- Amanhã voltamos cá e, pelo seguro, tu hoje à noite vais ficar hospedado em minha casa.
Maneira de dizer... Hospedado no casebre, isto é, prisioneiro na gaiola, donde despejou um pintassilgo. Sorte para o pintassilgo.
O lenhador, nessa noite, dormiu mal. Quanto ao gnomo, nunca saberemos se dormiu bem ou não, visto que, na manhã seguinte, o lenhador deu com a gaiola vazia.
- Mas o tesouro há-de estar onde ele apontou - animou-se o lenhador.
De enxadão ao ombro, avançou para a floresta.
- Cá está a árvore que eu marquei - exclamou.
Efectivamente, a árvore tinha uma cruz, no tronco, riscada a canivete. Mas outras árvores perto e outras longe tinham uma cruz igual. Não havia uma única árvore da imensa floresta que não exibisse uma cruz, em cheio, no dorso do tronco.
Os gnomos, pela calada da noite, tinham trabalhado bem.
O lenhador, a sentir-se ainda mais velho e ainda mais cansado, deixou o enxadão encostado a uma das árvores, e voltou para casa, de cabeça baixa. Nada ganhara e até o pintassilgo da gaiola ele tinha perdido...
António Torrado
Entendendo o texto
01. O que o velho
lenhador costumava fazer nos seus dias atuais, agora que as forças já lhe
faltavam para o trabalho?
a) passava os dias tristemente à porta do
seu casebre, pois não conseguia mais empunhar o machado.
b) percorria a floresta inteira à procura de pistas
sobre o tesouro dos gnomos.
c) divertia as crianças da região contando
histórias que ouviu na sua infância.
d) dedicava o seu tempo a criar e cuidar de um
pintassilgo em uma gaiola.
02. Como o lenhador
reagia, inicialmente, à história sobre o tesouro dos gnomos que tinha ouvido
quando era criança?
a) ele acreditava piamente e passou a vida inteira
cavando buracos sob os pinheiros.
b) ele achava que eram apenas invenções
para entreter meninos e velhos, demonstrando desencanto.
c) ele tinha medo dos gnomos e evitava entrar nas
partes mais densas da floresta.
d) ele procurava os gnomos apenas para pedir que
libertassem as aves da floresta.
03. Para garantir que
encontraria o tesouro no dia seguinte, já que estava escurecendo, quais medidas
o lenhador tomou?
a) amarrou o gnomo no pinheiro e cobriu a raiz da
árvore com musgo para ninguém ver.
b) levou o enxadão para a floresta e começou a
cavar imediatamente, mesmo no escuro.
c) fez uma cruz a canivete no tronco da
árvore indicada e levou o gnomo preso para casa.
d) desenhou um mapa detalhado da floresta e soltou
o gnomo como recompensa.
04. Por que o título do
texto faz uma referência à "Sorte para o pintassilgo"?
a) porque o pintassilgo ganhou o tesouro dos gnomos
no final da história.
b) porque o lenhador resolveu soltar a ave por pura
bondade antes de ir dormir.
c) porque o gnomo ajudou o pássaro a fugir da
gaiola durante a madrugada.
d) porque o lenhador despejou o pássaro
da gaiola para poder prender o gnomo lá dentro.
05. Qual foi a
estratégia utilizada pelos gnomos para proteger o tesouro e enganar o lenhador
durante a noite?
a) eles mudaram o tesouro de lugar e o esconderam
em uma loca sob outra raiz.
b) eles apagaram a marca que o lenhador tinha feito
no tronco da árvore com o canivete.
c) eles fizeram uma cruz idêntica no
tronco de absolutamente todas as árvores da imensa floresta.
d) eles prenderam o lenhador dentro do seu próprio
casebre para que ele não voltasse à floresta.
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