Artigo de opinião: Nossa língua brasileira – Fragmento
Wilson Liberato
Fui dar um passeio por Rondônia. Lá
pelas tantas, comecei a perceber que não estava entendendo a conversa do povo.
Eu, que falo o português do centro-oeste mineiro, achei toada na fala da
região. Cheguei numa beira de porto e pus sentido na prosa em redor. Decorei
alguma coisa, que divido agora com o leitor. [...] Eis meu relato:
O regatão saltou do alvarenga onde
estava morcegando e berrou:
-- Açaí, cajarana, cupuaçu e pupunha!
Loção contra caravana, mucuim, mutuca e pium. Vai levar, patrão? [...]
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjG2Hpaute8C5xsiwxf5GHUDYt97pIVG77G9JmgN4l4dFuP0DbzKOmOrqheaetaDv7RyPXR3204Skg6PiFc-BRR0ZAsGc2TjOviRr7MP9JkgApQJ0WRc7ci0ACwcXcml2Of4HAwkaLhGBvmeeIu6l6MPjpvZXNICyadbqKZ__GiQnFVWd6yAjG8r3y-17I/s1600/LINGUA.jpg Procurei um táxi, mas desanimei ao
ouvir o informante dizer:
-- Aqui, BK é só pra quem tá
bamburrado. Tu tá?
E saiu rindo, apontando para mim e
falando:
-- Brabo aqui vai de catraia! Vôte! [...]
Logo que pude, abri buraqueira (fugi)
para não ser forçado a fazer uso de uma assistência (ambulância) com destino a
um hospício; nem para ser submetido a um baculejo (revista policial). Claro! Do
jeito que fiquei, talvez pensassem que eu estava bodado (maluco) [...]. Logo eu,
que sou tão virado (trabalhador)!
É uma faceta (epa!) da nossa língua...
brasileira ou portuguesa?
Wilson Liberato. Nossa língua brasileira. Jornal O Pergaminho, 21 out.
2000.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 118-119.
Entendendo o artigo:
01
– O que motivou o autor, Wilson Liberato, a escrever o relato apresentado no
texto?
O autor foi
motivado por um passeio que fez a Rondônia, onde percebeu que não conseguia
entender completamente a conversa dos habitantes locais. Por falar o português
do centro-oeste mineiro, ele notou um sotaque e um vocabulário muito diferentes
("achei toada na fala da região") e decidiu registrar e compartilhar
essas expressões regionais com o leitor.
02
– No segundo parágrafo, o autor cita a fala de um "regatão". Que tipo
de termos esse personagem utiliza e o que eles revelam sobre a cultura da
região visitada?
O regatão utiliza
termos que fazem referência direta à fauna, à flora e ao ambiente
amazônico/nortista, como frutas regionais (açaí, cajarana, cupuaçu e pupunha) e
insetos típicos da região (caravana, mucuim, mutuca e pium). Isso revela como a
língua local é profundamente conectada com a natureza e a biodiversidade do
território de Rondônia.
03
– Ao procurar um táxi, o autor recebe a seguinte resposta de um informante:
“Aqui, BK é só pra quem tá bamburrado. Tu tá?”. O que o informante quis dizer
com essa frase?
O informante quis
dizer que andar de táxi (ou usar aquele transporte específico, chamado ali de
"BK") era algo muito caro, acessível apenas para quem estava com muito
dinheiro ou enriquecido ("bamburrado"). Ao perguntar "Tu
tá?", ele questiona se o autor tinha essa condição financeira.
04
– No quarto parágrafo, o autor utiliza uma estratégia de colocar palavras da
região seguidas de parênteses. Qual é a função desses parênteses no texto?
A função dos parênteses é
"traduzir" as gírias e expressões regionais de Rondônia para o
português padrão ou para termos mais comuns em outras regiões do Brasil. O
autor faz isso para garantir que o leitor compreenda o significado de palavras
como abrir buraqueira (fugir), assistência (ambulância), baculejo (revista
policial), bodado (maluco) e virado (trabalhador).
05
– O autor termina o texto com o seguinte questionamento: “É uma faceta (epa!)
da nossa língua... brasileira ou portuguesa?”. Qual é a reflexão que ele propõe
com essa pergunta final?
O autor propõe
uma reflexão sobre a identidade linguística do Brasil. Ao mostrar como o
português falado em Rondônia é tão diferente do falado em Minas Gerais (a ponto
de parecer outro idioma), ele questiona se a nossa língua ainda deve ser
chamada de "portuguesa" ou se as variações culturais e regionais já a
transformaram em uma legítima "língua brasileira".
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