Crônica: O Exercício da Crônica – Fragmento
Vinícius de Moraes
O cronista trabalha com um instrumento
de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um
jornal, por menos que seja, é um veículo de ideias que são lidas, meditadas e
observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta.^
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjSv26ViYq3pg0lIui2uUYGpyrJvpz1IH3HkCfMZyRlzF5sLzyQqaIYIALN6CKt7Tw5NSftPA_npw8AbgkNZemv2AoNz5QElM8kxoC2JnbCXK8GeF6Aqa3LYYVY9R9WvQLYqkfr4UMUa6abBoFe4kr0eJEN8wnT2J_gdTwPweAHWVo_eyeL2nG0UtGPlQ0/s1600/JORNAL.jpg Um jornal é um pouco como um organismo
humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias;
as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as secções, o
aparelho digestivo — a crónica é o seu coração. A crónica é matéria tácita de
leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a
função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre
“muito tido, muito visto, muito conhecido”, como diria o poeta Rimbaud.
Daí a seriedade do ofício do cronista e
a frequência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe
balões de oxigénio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século
XVIII, na Inglaterra — os chamados essayists — praticaram
o essay, isto de onde viria a sair a crónica moderna, com um zelo
artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro.
Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os
oitocentistas ingleses deram à crónica suas primeiras lições de liberdade,
casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade.
[...]
MORAES, Vinícius de. Para uma menina com uma flor. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p. 53.
Fonte: Coleção Rotas.
Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura
Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 272.
Entendendo a crônica:
01
– De acordo com a crônica, qual o significado das palavras abaixo:
·
Casualidade: aquilo que ocorre ao
acaso.
· Essay: ensaio (gênero textual em
que o autor expressa opiniões, críticas e reflexões sobre determinado tema).
·
Essayists: ensaísta (aquele que
escreve ensaios).
·
Lirismo: modo poético de apresentar
alguma coisa.
·
Proficiente: competente.
·
Tácito: tranquilo.
02
– Qual é a metáfora utilizada por Vinícius de Moraes para descrever a função da
crônica dentro de um jornal?
O autor compara o
jornal a um organismo humano. Nessa analogia, enquanto o editorial é o cérebro
e as notícias são as artérias, a crônica é o coração do jornal.
03
– Segundo o texto, qual é o efeito da leitura de uma crônica sobre o leitor de
jornais?
A crônica serve
para desafogar o leitor da tensão das notícias pesadas do jornal. Ela estimula
a "função do sonho" e oferece uma nova perspectiva sobre o cotidiano,
que muitas vezes é repetitivo e cansativo.
04
– O autor cita uma frase do poeta Rimbaud. O que essa citação revela sobre o
cotidiano?
A frase: "muito
tido, muito visto, muito conhecido" reforça a ideia de que o cotidiano
pode ser monótono e previsível. A crônica surgiria justamente para dar um novo
fôlego a essa realidade comum.
05
– Quem o autor considera os "melhores cronistas do mundo" e qual foi
a contribuição deles para o gênero?
São os ensaístas (essayists) da Inglaterra do século XVIII.
Eles praticaram o ensaio com um "zelo artesanal" e, ao se libertarem
das amarras exclusivamente morais, introduziram lições de liberdade,
casualidade e lirismo à crônica moderna.
06
– Como Vinícius de Moraes descreve o ofício do cronista em relação à
regularidade de sua escrita?
O autor destaca a
seriedade do ofício e a pressão da "tirania diária" (o prazo para
escrever todos os dias). Ele menciona que, devido a essa pressão, o cronista
muitas vezes precisa aplicar "balões de oxigênio" em seu trabalho
para manter a qualidade e o vigor do texto.
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