sábado, 16 de maio de 2026

CONTO: VIVA O NATÉRIO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Viva o Natério

             António Torrado

Lá na aldeia todos sabiam que ele era ladrão, mas tinham-lhe medo.
Diziam que ele assaltava viajantes, noite alta. Também contavam de assaltos a casas dos povoados próximos, estivessem lá moradores ou não. E era cruel, rancoroso, arrebatado, perverso. Um tojo, um cardo de malvadez.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiPi0reRUxJkXlv5T2HqdHOonOBDvdqkRmW-Kbf9lVeMOmQDQWp_Ieh_QueSDeoVLwG_CII9-I1B0Mp5MUvooRIr4KZAmq8FiRvkDydx_2y4Jl3LLVzDeY0B4A1OCXN_BovxVV7wNyx2sF3PcdSDwlmgX1pKxq4PvPj2idVYsrYA_xTwxG7EH66dKCkH1k/s320/natercio.jpg

 
A gente pacífica da aldeia não descortinava maneira de ver-se livre do malfeitor. No tempo em que esta história aconteceu, não havia polícia senão nas cidades maiores. Os caminhos para lá chegar eram demorados e pouco seguros.
Por isso, sem autoridades que lhes valessem, os aldeãos viviam em perpétuo terror.
Até que, um dia, o Natério, um dez-réis de gente, mas muito vivaço e destemido, resolveu dar a volta à história. Naquele estado de pavor geral é que as coisas não podiam continuar.
Antes de o ladrão ir ter à casa onde se acoitava, costumava passar por perto de um poço da aldeia. Quando lhe adivinhavam a sombra, as mulheres que vinham buscar água fugiam e até bilhas e celhas deixavam na borda.
Desta vez, o malfeitor encontrou um rapaz, que chorava baba e ranho, à beira do poço. Era o Natério.
Não que se impressionasse com as lágrimas, mas por curiosidade, o ladrão perguntou qual a razão da choradeira.
- Trazia uma pesada taça de prata, que a minha mãe tinha areado, a mando do senhor padre...
- Era pesada a taça, disseste tu? - interessou-se o maganão, de olhos a luzir.
O rapaz fez que sim e continuou o seu relato:
- Debrucei-me para o poço, à caça de uma lagartixa, e a taça caiu-me lá dentro. Uma desgraça! O que é que eu vou dizer à minha mãe? E ao senhor prior?
Como se temesse as respostas, o rapaz voltou ao berreiro.
- Deixa estar que eles escusam de saber - disse o ladrão, escarranchado no bordo do poço. - Eu trago-te a taça, não tarda.
Enfiou pelo poço abaixo, que era fundo e estava menos de meio.
- Não encontro a taça - dizia ele.
A voz ecoava na abóbada do poço. Era assustadora.
- Procure o senhor do seu lado direito, que ela caiu mais para esse lado.
O ladrão, que se segurava por uma corda presa à cintura, desceu mais um tanto, agarrado às paredes do poço. Valente era ele.
- Ainda não achei - dizia.
- Mas achámo-lo nós - gritou-lhe de cima o Natério.
Dos pinhais ao redor romperam mulheres e homens, à chamada do rapaz. Agarraram todos uma enorme pedra e puseram-na a tapar a boca do poço. O bandido gritou, mas de nada lhe valeu.
Já outros da aldeia tinham ido à cidade chamar a guarda. Dias depois, foi removida a pedra e o ladrão saiu a praguejar da armadilha que lhe tinham pregado. Chegando ao cimo, calou-se. Tinha guarda de honra à espera, uma fieira de canos de espingarda apontada para ele.
Os guardas levaram-no e nunca mais se soube do brutamontes.
O poço ganhou nome. Passou a ser conhecido pelo poço do Natério. E se, um dia, andarem por terras monfortinhas, a caminho de Castelo Branco, talvez ainda haja quem saiba dizer onde fica.

 

Entendendo o texto

01. Por que a população da aldeia não conseguia se ver livre do ladrão e vivia em perpétuo terror?

a. porque o ladrão era muito querido por parte dos moradores, que o protegiam da polícia.

b. porque o poço da aldeia pertencia ao bandido e ninguém podia pegar água sem a permissão dele.

c. porque não havia polícia na região, apenas nas cidades maiores, e os caminhos até lá eram demorados e inseguros.

d. porque o Natério ajudava o malfeitor a planejar os assaltos contra os viajantes.

 

02. Qual foi o argumento utilizado pelo Natério para atrair a atenção e despertar a ganância do ladrão à beira do poço?

a. ele fingiu que estava caçando lagartixas e que havia encontrado moedas de ouro no fundo do poço.

b. ele chorou e inventou que uma pesada taça de prata, que pertencia ao padre, havia caído lá dentro.

c. ele desafiou o bandido a provar a sua valentia descendo até o fundo do poço sem usar cordas.

d. ele prometeu revelar o esconderijo onde os aldeãos guardavam todas as suas bilhas e celhas.

 

03. Como o Natério e os moradores da aldeia conseguiram prender o criminoso antes da chegada das autoridades?

a. eles cortaram a corda que segurava o ladrão assim que ele chegou ao fundo.

b. eles jogaram pedras enormes na cabeça do bandido enquanto ele procurava a taça de prata.

c. eles saíram dos pinhais ao redor, chamados pelo rapaz, e taparam a boca do poço com uma enorme pedra.

d. eles esvaziaram toda a água do poço para deixar o malfeitor preso na lama.

 

04. O que aconteceu com o bandido após passar alguns dias preso na armadilha do poço?

a. ele conseguiu empurrar a pedra sozinho, mas foi cercado pelos moradores armados com foices.

b. ele se arrependeu de seus crimes, pediu perdão ao padre e foi libertado pelo Natério.

c. a pedra foi removida e ele saiu a praguejar, mas acabou preso pela guarda da cidade que já o esperava com espingardas apontadas.

d. ele fugiu pelos canais subterrâneos do poço e nunca mais voltou às terras monfortinhas.

 

05. De acordo com o final do texto, qual foi a homenagem ou marca que esse acontecimento deixou na região?

a. o vilão virou uma estátua de pedra que foi colocada na entrada da cidade.

b. o poço passou a ser conhecido como o "poço do Natério", local que fica a caminho de Castelo Branco.

c. o Natério foi nomeado o novo chefe da guarda e ganhou uma taça de prata real do prior.

d. os pinhais ao redor foram derrubados para que ninguém mais pudesse se esconder ali.

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