Conto: O lavrador Tomé e o saco das libras
O
senhor Tomé era um lavrador abastado.
De uma vez que foi à feira da vila fazer uns negócios, levou consigo uma bolsa com libras, com libras bem contadas e recontadas. Como tivesse medo que lhas roubassem, nos encontrões da feira, deu-as a guardar ao estalajadeiro
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiRK6xa7NvkwpR1WLZfP25ZZne4ptmpgitkGyq5JRSRoFG7wy93MzdcfzEuwhP-SCDwsJgDaRkQCRi-4s9rpjRdV8Q0PZzTJnMgbBND8WWIg-Hoj7LDli8PPuz5WIttk7D9LMx9R7k1IYOO7fOM2ywu9_yaki915pNwhj4eFDVmLH1nM6UCd4vitrMAh4/s320/LIBRAS.jpg.
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Vá descansado que ficam em boas mãos – disse-lhe este.
Quando, mais tarde, precisou das libras, voltou à estalagem para as levar.
Sabem o que o estalajadeiro lhe respondeu? Respondeu-lhe, fingindo de parvo,
que não se lembrava de ter recebido nenhuma bolsa com libras. Vejam lá o
descaramento!
O
senhor Tomé esteve quase para ir chamar um médico que consertasse a pouca
memória do estalajadeiro. Depois, pensando melhor, achou que o caso era mais da
conta de um bom advogado do que da medicina. Consultado o doutor jurista,
disse-lhe este assim:
--
Tenha paciência, meu amigo, mas só vejo uma solução.
Manhosos
destes tratam-se com a pele das suas manhas. Portanto, vá ter com o
estalajadeiro, fale-lhe com bons modos e peça-lhe desculpa. Diga-lhe que se
esquecera de que as tais cem libras tinham ficado ao cuidado de outra pessoa de
confiança...
--
Mas não ficaram – atalhou o senhor Tomé. – Se ainda agora disse ao senhor
doutor que foi esse malandro que se governou com elas.
--
Deixe-me acabar e não perca a cabeça – aconselhou-lhe o advogado.
--
Vai ver que, guiando-se pelos meus planos, o dinheiro há-de voltar-lhe às mãos.
Depois de lhe pedir desculpa pelo engano, volte lá com um amigo, como
testemunha, e entregue outras cem libras ao estalajadeiro.
--
Que é lá isso?! Assim se paga aos ladrões nesta terra? Está o mundo avariado.
O
advogado não se ofendeu e mais miudamente explicou a armadilha que queria armar
ao estalajadeiro desonesto. Ainda que com má vontade, o senhor Tomé resolveu-se
a seguir o conselho.
Procurou na feira um amigo endinheirado, que lhe emprestasse cem libras e que
se dispusesse a acompanhá-lo à estalagem. Encontrada a testemunha, levou-a
consigo, pedindo-lhe segredo do que se estava a tramar.
--
Desculpe, mas há bocado pensei mal de si – disse o senhor Tomé ao
estalajadeiro. – Foi tudo um engano meu, porque o dinheiro que eu procurava
tinha-o eu deixado noutra parte. Guarde-me agora estas cem libras, que, depois,
lhas peço.
E
os dois, o senhor Tomé e o amigo, despediram-se do estalajadeiro, que ficou de
boca aberta.
--
E agora? – perguntou o senhor Tomé, passado tempo, ao advogado.
--
Agora volte à estalagem e peça só as cem libras.
--
Levo o meu amigo?
--
Não, vá sozinho. Estas não pode ele recusar-lhas, pois havia testemunha para
provar a verdade.
O
lavrador assim fez e o estalajadeiro prontamente lhe entregou as cem libras.
Foi
o lavrador, pulando de contente, a casa do advogado:
--
Estas já cá estão! Só faltam as outras cem.
--
Também virão, descanse – tranquilizou-o o advogado. – Passe por lá agora com o
seu amigo, que as viu depositar.
Não
é preciso dizer que o estalajadeiro se viu apanhado e não teve outro remédio
senão dar as outras cem libras ao lavrador.
António Torrado.
Entendendo o conto:
01 – Por que o senhor Tomé decidiu dar a sua
bolsa com libras ao estalajadeiro?
Sendo um lavrador abastado e temendo que lhe roubassem o
dinheiro nos encontrões da feira da vila, ele decidiu entregar a bolsa ao
estalajadeiro para que este a guardasse em segurança.
02 – Como o estalajadeiro reagiu quando o
senhor Tomé voltou para reaver o seu dinheiro?
O estalajadeiro agiu de forma desonesta e, fingindo-se de
parvo, respondeu que não se lembrava de ter recebido nenhuma bolsa com libras,
recusando-se a devolver o dinheiro.
03 – Qual foi a estratégia (ou armadilha)
aconselhada pelo advogado para recuperar o dinheiro?
O advogado aconselhou Tomé a pedir desculpa pelo
"engano" e a entregar outras cem libras ao estalajadeiro, mas desta
vez na presença de uma testemunha (um amigo), para depois recuperar ambas as
somas estrategicamente.
04 – Como o plano do advogado funcionou na
prática para recuperar a primeira e a segunda parte do dinheiro?
Primeiro, Tomé foi sozinho pedir as cem libras; o
estalajadeiro não pôde recusar porque sabia que havia uma testemunha do
depósito. Depois, Tomé voltou com o amigo (a testemunha) para pedir as cem
libras que tinham sido vistas depositar, obrigando o estalajadeiro apanhado a
devolver a quantia inicial.
05 – Que lição sobre a esperteza e a justiça
podemos retirar deste conto?
O conto ensina que contra pessoas manhosas e desonestas
muitas vezes não basta a força ou a confrontação direta, sendo necessário usar
de inteligência, estratégia e prudência (como obter testemunhas) para repor a
justiça.
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