sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO: O LAVRADOR TOMÉ E O SACO DAS LIBRAS - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: O lavrador Tomé e o saco das libras

        O senhor Tomé era um lavrador abastado.

        De uma vez que foi à feira da vila fazer uns negócios, levou consigo uma bolsa com libras, com libras bem contadas e recontadas. Como tivesse medo que lhas roubassem, nos encontrões da feira, deu-as a guardar ao estalajadeiro

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiRK6xa7NvkwpR1WLZfP25ZZne4ptmpgitkGyq5JRSRoFG7wy93MzdcfzEuwhP-SCDwsJgDaRkQCRi-4s9rpjRdV8Q0PZzTJnMgbBND8WWIg-Hoj7LDli8PPuz5WIttk7D9LMx9R7k1IYOO7fOM2ywu9_yaki915pNwhj4eFDVmLH1nM6UCd4vitrMAh4/s320/LIBRAS.jpg

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        -- Vá descansado que ficam em boas mãos – disse-lhe este.
Quando, mais tarde, precisou das libras, voltou à estalagem para as levar. Sabem o que o estalajadeiro lhe respondeu? Respondeu-lhe, fingindo de parvo, que não se lembrava de ter recebido nenhuma bolsa com libras. Vejam lá o descaramento!

        O senhor Tomé esteve quase para ir chamar um médico que consertasse a pouca memória do estalajadeiro. Depois, pensando melhor, achou que o caso era mais da conta de um bom advogado do que da medicina. Consultado o doutor jurista, disse-lhe este assim:

        -- Tenha paciência, meu amigo, mas só vejo uma solução.

        Manhosos destes tratam-se com a pele das suas manhas. Portanto, vá ter com o estalajadeiro, fale-lhe com bons modos e peça-lhe desculpa. Diga-lhe que se esquecera de que as tais cem libras tinham ficado ao cuidado de outra pessoa de confiança...

        -- Mas não ficaram – atalhou o senhor Tomé. – Se ainda agora disse ao senhor doutor que foi esse malandro que se governou com elas.

        -- Deixe-me acabar e não perca a cabeça – aconselhou-lhe o advogado.

        -- Vai ver que, guiando-se pelos meus planos, o dinheiro há-de voltar-lhe às mãos. Depois de lhe pedir desculpa pelo engano, volte lá com um amigo, como testemunha, e entregue outras cem libras ao estalajadeiro.

        -- Que é lá isso?! Assim se paga aos ladrões nesta terra? Está o mundo avariado.

        O advogado não se ofendeu e mais miudamente explicou a armadilha que queria armar ao estalajadeiro desonesto. Ainda que com má vontade, o senhor Tomé resolveu-se a seguir o conselho.
Procurou na feira um amigo endinheirado, que lhe emprestasse cem libras e que se dispusesse a acompanhá-lo à estalagem. Encontrada a testemunha, levou-a consigo, pedindo-lhe segredo do que se estava a tramar.

        -- Desculpe, mas há bocado pensei mal de si – disse o senhor Tomé ao estalajadeiro. – Foi tudo um engano meu, porque o dinheiro que eu procurava tinha-o eu deixado noutra parte. Guarde-me agora estas cem libras, que, depois, lhas peço.

        E os dois, o senhor Tomé e o amigo, despediram-se do estalajadeiro, que ficou de boca aberta.

        -- E agora? – perguntou o senhor Tomé, passado tempo, ao advogado.

        -- Agora volte à estalagem e peça só as cem libras.

        -- Levo o meu amigo?

        -- Não, vá sozinho. Estas não pode ele recusar-lhas, pois havia testemunha para provar a verdade.

        O lavrador assim fez e o estalajadeiro prontamente lhe entregou as cem libras.

        Foi o lavrador, pulando de contente, a casa do advogado:

        -- Estas já cá estão! Só faltam as outras cem.

        -- Também virão, descanse – tranquilizou-o o advogado. – Passe por lá agora com o seu amigo, que as viu depositar.

        Não é preciso dizer que o estalajadeiro se viu apanhado e não teve outro remédio senão dar as outras cem libras ao lavrador.

António Torrado.

Entendendo o conto: 

 

01 – Por que o senhor Tomé decidiu dar a sua bolsa com libras ao estalajadeiro?

      Sendo um lavrador abastado e temendo que lhe roubassem o dinheiro nos encontrões da feira da vila, ele decidiu entregar a bolsa ao estalajadeiro para que este a guardasse em segurança.

02 – Como o estalajadeiro reagiu quando o senhor Tomé voltou para reaver o seu dinheiro?

      O estalajadeiro agiu de forma desonesta e, fingindo-se de parvo, respondeu que não se lembrava de ter recebido nenhuma bolsa com libras, recusando-se a devolver o dinheiro.

03 – Qual foi a estratégia (ou armadilha) aconselhada pelo advogado para recuperar o dinheiro?

      O advogado aconselhou Tomé a pedir desculpa pelo "engano" e a entregar outras cem libras ao estalajadeiro, mas desta vez na presença de uma testemunha (um amigo), para depois recuperar ambas as somas estrategicamente.

04 – Como o plano do advogado funcionou na prática para recuperar a primeira e a segunda parte do dinheiro?

      Primeiro, Tomé foi sozinho pedir as cem libras; o estalajadeiro não pôde recusar porque sabia que havia uma testemunha do depósito. Depois, Tomé voltou com o amigo (a testemunha) para pedir as cem libras que tinham sido vistas depositar, obrigando o estalajadeiro apanhado a devolver a quantia inicial.

05 – Que lição sobre a esperteza e a justiça podemos retirar deste conto?

      O conto ensina que contra pessoas manhosas e desonestas muitas vezes não basta a força ou a confrontação direta, sendo necessário usar de inteligência, estratégia e prudência (como obter testemunhas) para repor a justiça.

 

 

 

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