Conto: O corvo
Preto
e luzidio como todos o são, este corvo sentia-se fadado para grandes voos.
Mas
que voos?
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDLO3RVw2A3UXBqeXp3hWFBiFnc7OcmqIw3BdZGLAi16NCGSsbKXeI-xjFgVPb7eqOPDnaIbRxk1j22lAZ8Qq3t8zX_ql0nmLXs5lgWHERcrcF6DZqCILRR9L1dzvwSZ3jU2cZDWBVyzx8A3KjGnwXLwYbCsh7PoUcjeOf4Z_r__VNnFQpoPPdaATlXCo/s320/corvo.jpg Assim
vestido, como se usasse casaca, podia ser músico. Aí estava uma profissão bonita.
Atrairia os olhares das plateias e os aplausos do público, seria conhecido e
gabado. Ele, o corvo violinista ou pianista ou violoncelista, com o nome
destacado em todos os cartazes de concertos, pelo mundo fora, não era
sensacional?
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de aprender música. Pois era. Aí
é que estava o enfado. Aprender, estudar, ensaiar, em intermináveis sessões de
trabalho, debruçado sobre pautas, repetindo, insistindo... Que enjoo!
Afinal,
pensando bem, já não queria ser músico.
Mas
podia ser ilusionista. Com todos os holofotes concentrados sobre ele, num
círculo mágico de luz, o corvo brilharia. Tirava um lenço do bolso e
transformava-o numa borboleta. Abria um baralho em leque e adivinhava, de olhos
fechados, o valor de cada carta. Soprava um balão e desfazia-o em poalha de
espuma. E palmas, muitas palmas sempre, ao fim de cada número.
Mas,
para que isso acontecesse, tinha primeiro de exercitar minuciosamente cada
truque, preparar-se muito bem, experimentar, adestrar-se. Que canseira!
Afinal,
pensando bem, já não queria ser ilusionista.
Mas
podia ser juiz. A presidir ao tribunal, com toda a autoridade de quem decide,
sendo respeitado e temido, concentraria sobre ele a admiração de todos.
Mas,
para que isso acontecesse, tinha primeiro de ler os códigos, tinha de passar
longas noites a consultar calhamaços, a avaliar os processos, a tirar
apontamentos, a escrever pareceres, a decorar leis. Que aborrecimento!
Afinal,
pensando bem, já não queria ser juiz.
O
corvo via-se ao espelho e imaginava para a sua bela plumagem, para o requinte
dos seus gestos, para a elegância da sua pose, os mais distintos atributos
profissionais.
Apetecia-lhe
ser pregador, professor catedrático, diplomata, presidente da república, eu sei
lá que mais, embora houvesse sempre uns preparos a cumprir, uns estudos a
fazer, que antecipadamente o agoniavam.
Em
qualquer dos casos, sobre o preto brilhante das penas, a fieira de condecorações
em destaque provaria que ele era um corvo distinto, diferente, especial, um
corvo lançado em altos voos.
Pois
sim, mas... Há sempre um "mas" arreliador, ao cabo destas histórias.
Alguém
lhe lançou uma rede, enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos. Alguém o
meteu num saco. Alguém o levou a uma feira. Alguém o expôs de pernas para o ar,
presas com um atilho. Alguém o vendeu por pouco dinheiro.
--
Quer que lhe corte as asas? – perguntou esse alguém ao comprador.
--
É mais prudente. Assim já não pode fugir.
Umas
tantas tesouradas riparam-lhe as penas mais compridas das asas. Para sempre.
O
corvo trabalha agora num armazém de carvão. Faz de guarda. Usa uma corrente
comprida presa à pata e grasna, a dar sinal, à presença de qualquer estranho.
Os
corvos são muito bons nisso.
António Torrado.
Entendendo o conto:
01 – O que motivava
o corvo a imaginar-se em profissões de grande prestígio, como músico,
ilusionista ou juiz? O que todas essas ambições tinham em comum?
O corvo era
movido pela vaidade e pelo desejo de reconhecimento social. Ele olhava para a
sua plumagem preta e luzidia e sentia-se "fadado para grandes voos".
O que todas as profissões sonhadas tinham em comum era o desejo pelos
holofotes, aplausos, admiração e autoridade. Ele não se importava com a
profissão em si, mas sim com o estatuto, a fama e as condecorações que ela lhe
traria.
02 – Apesar dos seus
grandes sonhos, o corvo desiste rapidamente de cada uma das profissões que
imagina. Qual era o principal obstáculo que o impedia de concretizar os seus
planos?
O principal
obstáculo era a sua total aversão ao esforço, ao estudo e ao trabalho. Sempre
que pensava nas exigências práticas para alcançar o sucesso — como as intermináveis
sessões de ensaio da música, o treino minucioso dos truques de ilusionismo ou
as noites passadas a ler calhamaços de leis para ser juiz —, ele sentia
preguiça e agonia. O corvo queria a glória do topo, mas rejeitava o sacrifício
do processo.
03 – Como a
distração do corvo com os seus próprios delírios de grandeza contribuiu para a
sua captura?
O corvo vivia tão
alienado e focado nas suas fantasias de sucesso que perdeu a noção da realidade
e do perigo ao seu redor. O texto afirma que ele foi capturado ("Alguém
lhe lançou uma rede") justamente "enquanto ele se aturdia, no meio
dos seus sonhos". A sua falta de atenção e o desprezo pelas ações práticas
do presente tornaram-no uma presa fácil.
04 – No final do
conto, as asas do corvo são cortadas. Qual é o significado simbólico desse ato
em relação ao início da história?
No início do
conto, o corvo acreditava estar "fadado para grandes voos", uma
metáfora para o sucesso e a liberdade de atingir grandes objetivos na vida. O
corte das suas asas pelas tesouras do comprador simboliza a destruição
definitiva dos seus sonhos e do seu potencial de crescimento. Ao perder as
penas mais compridas, ele perde também a capacidade física e metafórica de
"voar", ficando condenado a uma vida rasteira e limitada.
05 – Explique a
ironia trágica presente no desfecho da vida do corvo, considerando o local onde
ele vai trabalhar e a função que passa a desempenhar.
A ironia é total
e trágica por dois motivos:
O local: O corvo, que tanto se orgulhava
do brilho requintado das suas penas pretas e queria o luxo dos palcos e
tribunais, acaba a trabalhar num armazém de carvão, um lugar sujo e escuro onde
o seu brilho se apaga.
A função: Ele, que sonhava ser uma
exceção única e "um corvo diferente, especial", acaba preso por uma
corrente à pata para fazer o trabalho genérico de um cão de guarda, cumprindo
apenas aquilo em que "os corvos [em geral] são muito bons". Em vez da
distinção, ele terminou na mais absoluta banalidade.
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