quarta-feira, 20 de maio de 2026

CONTO: O CORVO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: O corvo

          Era uma vez um corvo.

        Preto e luzidio como todos o são, este corvo sentia-se fadado para grandes voos.

        Mas que voos?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDLO3RVw2A3UXBqeXp3hWFBiFnc7OcmqIw3BdZGLAi16NCGSsbKXeI-xjFgVPb7eqOPDnaIbRxk1j22lAZ8Qq3t8zX_ql0nmLXs5lgWHERcrcF6DZqCILRR9L1dzvwSZ3jU2cZDWBVyzx8A3KjGnwXLwYbCsh7PoUcjeOf4Z_r__VNnFQpoPPdaATlXCo/s320/corvo.jpg


        Assim vestido, como se usasse casaca, podia ser músico. Aí estava uma profissão bonita. Atrairia os olhares das plateias e os aplausos do público, seria conhecido e gabado. Ele, o corvo violinista ou pianista ou violoncelista, com o nome destacado em todos os cartazes de concertos, pelo mundo fora, não era sensacional?
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de aprender música. Pois era. Aí é que estava o enfado. Aprender, estudar, ensaiar, em intermináveis sessões de trabalho, debruçado sobre pautas, repetindo, insistindo... Que enjoo!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser músico.

        Mas podia ser ilusionista. Com todos os holofotes concentrados sobre ele, num círculo mágico de luz, o corvo brilharia. Tirava um lenço do bolso e transformava-o numa borboleta. Abria um baralho em leque e adivinhava, de olhos fechados, o valor de cada carta. Soprava um balão e desfazia-o em poalha de espuma. E palmas, muitas palmas sempre, ao fim de cada número.

        Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de exercitar minuciosamente cada truque, preparar-se muito bem, experimentar, adestrar-se. Que canseira!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser ilusionista.

        Mas podia ser juiz. A presidir ao tribunal, com toda a autoridade de quem decide, sendo respeitado e temido, concentraria sobre ele a admiração de todos.

        Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de ler os códigos, tinha de passar longas noites a consultar calhamaços, a avaliar os processos, a tirar apontamentos, a escrever pareceres, a decorar leis. Que aborrecimento!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser juiz.

        O corvo via-se ao espelho e imaginava para a sua bela plumagem, para o requinte dos seus gestos, para a elegância da sua pose, os mais distintos atributos profissionais.

        Apetecia-lhe ser pregador, professor catedrático, diplomata, presidente da república, eu sei lá que mais, embora houvesse sempre uns preparos a cumprir, uns estudos a fazer, que antecipadamente o agoniavam.

        Em qualquer dos casos, sobre o preto brilhante das penas, a fieira de condecorações em destaque provaria que ele era um corvo distinto, diferente, especial, um corvo lançado em altos voos.

        Pois sim, mas... Há sempre um "mas" arreliador, ao cabo destas histórias.

        Alguém lhe lançou uma rede, enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos. Alguém o meteu num saco. Alguém o levou a uma feira. Alguém o expôs de pernas para o ar, presas com um atilho. Alguém o vendeu por pouco dinheiro.

        -- Quer que lhe corte as asas? – perguntou esse alguém ao comprador.

        -- É mais prudente. Assim já não pode fugir.

        Umas tantas tesouradas riparam-lhe as penas mais compridas das asas. Para sempre.

        O corvo trabalha agora num armazém de carvão. Faz de guarda. Usa uma corrente comprida presa à pata e grasna, a dar sinal, à presença de qualquer estranho.

        Os corvos são muito bons nisso.


António Torrado.

Entendendo o conto:

01 – O que motivava o corvo a imaginar-se em profissões de grande prestígio, como músico, ilusionista ou juiz? O que todas essas ambições tinham em comum?

      O corvo era movido pela vaidade e pelo desejo de reconhecimento social. Ele olhava para a sua plumagem preta e luzidia e sentia-se "fadado para grandes voos". O que todas as profissões sonhadas tinham em comum era o desejo pelos holofotes, aplausos, admiração e autoridade. Ele não se importava com a profissão em si, mas sim com o estatuto, a fama e as condecorações que ela lhe traria.

02 – Apesar dos seus grandes sonhos, o corvo desiste rapidamente de cada uma das profissões que imagina. Qual era o principal obstáculo que o impedia de concretizar os seus planos?

      O principal obstáculo era a sua total aversão ao esforço, ao estudo e ao trabalho. Sempre que pensava nas exigências práticas para alcançar o sucesso — como as intermináveis sessões de ensaio da música, o treino minucioso dos truques de ilusionismo ou as noites passadas a ler calhamaços de leis para ser juiz —, ele sentia preguiça e agonia. O corvo queria a glória do topo, mas rejeitava o sacrifício do processo.

03 – Como a distração do corvo com os seus próprios delírios de grandeza contribuiu para a sua captura?

      O corvo vivia tão alienado e focado nas suas fantasias de sucesso que perdeu a noção da realidade e do perigo ao seu redor. O texto afirma que ele foi capturado ("Alguém lhe lançou uma rede") justamente "enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos". A sua falta de atenção e o desprezo pelas ações práticas do presente tornaram-no uma presa fácil.

04 – No final do conto, as asas do corvo são cortadas. Qual é o significado simbólico desse ato em relação ao início da história?

      No início do conto, o corvo acreditava estar "fadado para grandes voos", uma metáfora para o sucesso e a liberdade de atingir grandes objetivos na vida. O corte das suas asas pelas tesouras do comprador simboliza a destruição definitiva dos seus sonhos e do seu potencial de crescimento. Ao perder as penas mais compridas, ele perde também a capacidade física e metafórica de "voar", ficando condenado a uma vida rasteira e limitada.

05 – Explique a ironia trágica presente no desfecho da vida do corvo, considerando o local onde ele vai trabalhar e a função que passa a desempenhar.

      A ironia é total e trágica por dois motivos:

      O local: O corvo, que tanto se orgulhava do brilho requintado das suas penas pretas e queria o luxo dos palcos e tribunais, acaba a trabalhar num armazém de carvão, um lugar sujo e escuro onde o seu brilho se apaga.

      A função: Ele, que sonhava ser uma exceção única e "um corvo diferente, especial", acaba preso por uma corrente à pata para fazer o trabalho genérico de um cão de guarda, cumprindo apenas aquilo em que "os corvos [em geral] são muito bons". Em vez da distinção, ele terminou na mais absoluta banalidade.

 

 

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