Conto: O dragão que era lagarto – Fragmento
Flávio de Souza
Existiu certa vez, no reino da
Brondolândia, uma princesa que foi aprisionada numa torre de cristal por um
mago. Isso aconteceu com a pobre princesa porque seu pai, o rei Brondo, era
muito mau e o mago cansou de ver os camponeses maltratados. Mas a jovem poderia
ser salva se um bravo príncipe matasse o dragão que ficava tomando conta da
porta da torre.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiy-0ZJstVi-X9_2ET85HRd65TgY1T2P0dw0nn2Km7XnuoQE1yxWJi-bltiV61Ii6H82ha6OqyMx66SjIEz6irjLb4IsytaTycyBAyE4UgLiS1G5L2dnzCm00Q_DmxJSdWCLvaPGbyipbWlUYky-99_2rX3HhH3bJ0nrJ_L-isslsio08nhG6ofm319u8k/s1600/DRAGAO.jpg A princesa vivia chorando e puxando os
cabelos, desesperada, porque já estava na hora de se casar e nada de um
príncipe aparecer para tirá-la da prisão de cristal. Ela olhava lá para baixo,
todo dia, por um binóculo que o mago tinha dado de presente para ela, na
esperança de que o dragão tivesse ido embora. Mas, que nada! Lá estava ele, com
sua cara amedrontadora.
Acontece que esse dragão era um lagarto.
Por isso que o mago, que não era bobo nem nada, tinha dado um binóculo para a
princesa. Ampliado pelas lentes, o lagarto ficava parecendo um bicho grande, e
sua cara simpática e sorridente, a de um monstro ameaçador. O lagarto, que não
queria perder seu emprego, ficava escondido até a princesa olhar para ele com o
binóculo e aí fazia umas caretas para assustá-la.
Um dia, a princesa avistou um príncipe
que passava a cavalo lá longe, numa colina. Ela pegou o microfone do gravador
que o mago também tinha dado de presente, ligou no amplificador e gritou
alucinada:
-- Socorro! Socorro! Gentil príncipe,
venha me salvar! Aqui, no alto desta torre de cristal! Sou uma bela princesa,
sei ler, escrever, cozinhar! Salve-me deste castigo matando o dragão que
fica...
Nem bem ouviu a princesa dizer
“dragão”, o príncipe, que antes parecia estar muito interessado, saiu galopando
a toda velocidade, olhando para os lados, como se não tivesse ouvido nada.
-- Que droga! – disse a princesa.
“Que alívio”, pensou o lagarto. “Se o
príncipe aparece, ou morro ou perco o emprego!” [...]
No outro dia, mais um príncipe passou
por ali e a princesa uma vez mais fez seu pedido. Esse príncipe veio tranquilo
e, não vendo dragão nenhum, já ia abrindo a porta da torre de cristal quando
ouviu uma voz dizer assim:
-- Ei, psiu, psiu!
-- Quem me chama? – perguntou o
príncipe.
-- Sou eu – respondeu o lagarto, saindo
do esconderijo. – Chegue perto, eu não posso falar alto, a princesa não pode me
ouvir!
O príncipe se abaixou-se e o lagarto
explicou então seu problema. O príncipe ficou com pena do bicho perder seu
emprego e, fingindo ter ficado apavorado, fugiu gritando assim:
-- Oh, que bicho terrível! Socorro, um
dragão! Oh, não posso com ele, nem com faca ou facão!
A princesa, que já tinha preparado sua
bagagem pensando que ia ser salva, ficou triste. Aí ficou brava. Então ficou
fula da vida e resolveu ela mesma descer e lutar com o dragão.
Quando viu o lagarto, teve vontade de rir.
Mas fechou a cara, chutou o bicho para longe e, pegando sua mala e sacolas,
saiu feliz pela floresta, a caminho da cidade do reino, pronta para arranjar um
príncipe para se casar.
Chegando lá, foi logo conversar com
umas princesas que lavavam o cabelo na beira de um rio e ficou sabendo da
terrível realidade:
-- Os príncipes hoje em dia não querem
mais casar com princesas comuns!
-- Eles só se interessam por princesas
“difíceis”!
-- Só estão arrumando marido as
princesas presas em torres, cavernas e grutas guardadas por leões, ursos e
dragões!
-- Mas está caro contratar esses
bichos!
-- E o preço do aluguel de torres,
cavernas e grutas está altíssimo!
A princesa nem pensou duas vezes.
Voltou correndo para o lugar da floresta onde ficava sua torre de cristal. O
lagarto ainda estava por lá, com cara de quem não sabe o que vai fazer na vida.
Ela conversou com o lagarto, prometendo que, se conseguisse casar, iria
convidá-lo para morar em seu castelo. O bicho concordou, sorrindo simpático
como só os lagartos sabem sorrir. E a princesa pôs seu plano em prática.
Comprou uma lente de aumento bem grande para o lagarto ficar atrás e parecer
enorme. Contratou um artista de circo para ensinar o seu “dragão” a soltar fogo
pela boca. E colocou placas por toda a floresta, onde se lia:
“Atenção! Nesta direção existe uma
torre de cristal, guardada por terrível dragão, onde mora uma gentil princesa
com intenções de se casar!”
Meia hora depois, surgiu um príncipe muito
chique, com armadura brilhante e cacho de plumas coloridas no alto do capacete.
A princesa gritou, fingindo estar desesperada, e ligou uma máquina de fazer
fumaça para o príncipe não enxergar direito o lagarto aumentado pela lente. O príncipe
se enfiou fumaça adentro e deu alguns golpes de espada no ar. O lagarto deu uns
pulos, soltou fogo pela boca e gritou:
-- Ai, ai, estou ferido! Morro, oh,
morro, mas satisfeito por ter lutado com tão valente príncipe!
Então o bicho se jogou no chão,
fazendo-se de morto. O príncipe abriu orgulhoso a porta da torre e nem teve que
subir, porque a princesa desceu correndo e se jogou nos braços dele, dizendo:
-- Muito obrigada, meu herói! Que
grande cavalheiro és tu! Salvaste-me da besta-fera e só me resta casar contigo
em troca de tão belo e generoso ato!
E, assim, a princesa conseguiu se
casar. Poco tempo depois da lua-de-mel, o porteiro de seu castelo veio
informar:
-- Está lá na porta um pequeno bicho,
estranho, verdinho, sorrindo de modo simpático, dizendo ter laços de amizade
com vossa majestade...
E foram todos felizes para sempre. A
princesa e seu príncipe. Seus filhinhos, parentes e vizinhos. E o simpático
amigo que veio para uma visitinha e nunca mais se foi. De vez em quando, o
príncipe olha para o lagarto e tem a impressão de que o conhece de algum lugar.
Flávio de Souza.
Príncipes e princesas, sapos e lagartos. São Paulo, FTD, 1994.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 24-27.
Entendendo o conto:
01 – Qual era o verdadeiro
motivo de a princesa estar presa em uma torre de cristal?
Ela foi aprisionada
por um mago porque seu pai, o Rei Brondo, era um homem muito mau e o mago
estava cansado de ver como ele maltratava os camponeses.
02 – Como o mago conseguiu
enganar a princesa para que ela acreditasse que um simples lagarto era um
dragão terrível?
O mago deu a ela um binóculo de presente. Através das lentes,
a imagem do lagarto era ampliada, fazendo-o parecer um bicho enorme e
transformando sua cara simpática na de um monstro ameaçador.
03 – Por que o lagarto ajudou
o segundo príncipe a fingir que estava apavorado em vez de deixá-lo abrir a
torre?
O lagarto explicou ao príncipe que não
queria perder seu "emprego" de guardião da torre. O príncipe sentiu
pena do bicho e fingiu estar com medo para que o lagarto pudesse continuar em
seu posto.
04 – O que a princesa
descobriu ao conversar com as outras moças na beira do rio após fugir da torre?
Ela descobriu que
o "mercado de casamentos" havia mudado: os príncipes modernos só
queriam casar com princesas "difíceis", ou seja, aquelas que estavam
presas e protegidas por feras, pois isso trazia status de herói ao pretendente.
05 – Quais recursos a princesa
utilizou para "modernizar" o lagarto e a torre para atrair um novo
pretendente?
Ela comprou uma
lente de aumento gigante para o lagarto ficar atrás, contratou um artista de
circo para ensiná-lo a soltar fogo, instalou placas de propaganda pela floresta
e usou uma máquina de fumaça para dificultar a visão do príncipe.
06 – Como termina o confronto
entre o "príncipe chique" e o lagarto?
Foi uma encenação. O príncipe deu golpes de espada no ar
dentro da fumaça e o lagarto fingiu estar ferido de morte, elogiando a valentia
do príncipe para que este se sentisse orgulhoso e resgatasse a princesa.
07 – O que aconteceu com o
lagarto após o casamento da princesa?
A princesa
cumpriu sua promessa. O lagarto foi até o castelo, foi recebido pela princesa e
passou a morar lá com a família real, vivendo "feliz para sempre" com
eles, apesar de o príncipe desconfiar que já o conhecia de algum lugar.
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