sexta-feira, 15 de maio de 2026

CRÔNICA: SABEDORIA INDÍGENA - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Crônica: Sabedoria indígena – Fragmento

          Jean de Léry

        Jean de Léry, missionário [...] que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, deixou-nos um interessante relato de tudo o que viu e ouviu, mostrando que aquele povo, longe de ser selvagem, tinha uma grande sabedoria, moldada através do tempo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLvZ4sPj7vT-8JbSAZc2Y2UNlXwCake9QPvOzKfnVF5jlbdAGEOs4vDQqPkpG0M1T99o6RH0dbFKAC3W71lxGXAB8viJSCwpJ2PMt8SFsiEYjPgWKuwOz0_Oujmf8UreG1U_9YjL3o5QD-CZvop9j7ENZLcXLCaDWZSfFvqsLnKPBsMYEoaNC4LcGcg20/s1600/Jean-de-Lery.jpg


        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra? 

        Respondi que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir. 

        -- E vocês precisam de muita? perguntou o velho imediatamente. 

        -- Sim [...] pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados. 

        -- Ah! retrucou o selvagem, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim, disse eu, como os outros. 

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos, respondi.

        -- Na verdade, continuou o velho – que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações. 

Jean de Léry. Viagem à Terra do Brasil. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 94.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o principal motivo de estranhamento do velho indígena em relação aos europeus?

      O ancião não entende por que os europeus (mair e peró) viajam de tão longe para buscar madeira (pau-brasil), questionando se eles não possuem lenha em suas próprias terras para se aquecerem.

02 – Qual explicação Jean de Léry dá para a necessidade de levar tanto pau-brasil para a Europa?

      Ele explica que a madeira não serve para queimar, mas para extrair tinta para tingir tecidos. Além disso, menciona a existência de grandes negociantes que acumulam mercadorias e riqueza, precisando de navios carregados para sustentar seus negócios.

03 – O que a pergunta do indígena sobre a morte do "homem rico" revela sobre sua visão de mundo?

      Revela uma perspectiva voltada para a finitude da vida e a inutilidade do acúmulo material excessivo. Para o indígena, não faz sentido trabalhar exaustivamente para juntar riquezas que não poderão ser levadas após a morte.

04 – Segundo o texto, para quem os europeus deixam suas riquezas quando morrem e qual é a crítica do ancião sobre isso?

      As riquezas são deixadas para filhos ou parentes próximos. O ancião critica isso chamando os europeus de "loucos", pois sofrem grandes perigos no mar para amontoar bens, ignorando que a mesma terra que os alimentou será capaz de sustentar seus descendentes.

05 – Como o indígena justifica a sua falta de preocupação com o futuro material de seus filhos?

      Ele afirma que os indígenas amam seus familiares, mas descansam sem preocupações porque têm a certeza de que a terra que os sustenta hoje continuará sustentando seus filhos após sua morte, sem a necessidade de acúmulo de bens.

06 – Por que o narrador afirma que o velho "como se vê não era nenhum ignorante"?

      Porque o raciocínio do ancião demonstra uma sabedoria lógica e filosófica profunda sobre a existência humana, a natureza e a sustentabilidade, desafiando a lógica mercantilista europeia que o narrador representava.

07 – Qual é o conflito central de valores apresentado no fragmento?

      O conflito entre o mercantilismo europeu (focado no acúmulo de capital, lucro e exploração da natureza) e a filosofia indígena (focada na subsistência, no usufruto presente da natureza e na confiança no ciclo da vida).

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário