Crônica: Sabedoria indígena – Fragmento
Jean de Léry
Jean de Léry, missionário
[...] que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, deixou-nos
um interessante relato de tudo o que viu e ouviu, mostrando que aquele povo,
longe de ser selvagem, tinha uma grande sabedoria, moldada através do tempo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLvZ4sPj7vT-8JbSAZc2Y2UNlXwCake9QPvOzKfnVF5jlbdAGEOs4vDQqPkpG0M1T99o6RH0dbFKAC3W71lxGXAB8viJSCwpJ2PMt8SFsiEYjPgWKuwOz0_Oujmf8UreG1U_9YjL3o5QD-CZvop9j7ENZLcXLCaDWZSfFvqsLnKPBsMYEoaNC4LcGcg20/s1600/Jean-de-Lery.jpg Uma vez, um velho me perguntou:
-- Por que
vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para
se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra?
Respondi que tínhamos muitas, mas não
daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele pensava, mas dela
tirávamos tinta para tingir.
-- E vocês precisam de muita? perguntou
o velho imediatamente.
-- Sim [...] pois em nosso país existem
negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias
que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm,
voltando com muitos navios carregados.
-- Ah! retrucou o selvagem, mas esse
homem tão rico, de que me fala, não morre?
-- Sim, disse eu, como os outros.
-- E quando morre, para quem fica o que
deixa?
-- Para seus filhos, se ele tem, ou
para seus irmãos ou parentes próximos, respondi.
-- Na verdade, continuou o velho – que
como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns
grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem
quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus
filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los
também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que,
depois de nossa morte, a terra que nos sustentou os sustentará também, e por
isso descansamos sem maiores preocupações.
Jean de Léry. Viagem à
Terra do Brasil. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha
dono. São Paulo, FTD, 1995.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 94.
Entendendo a crônica:
01
– Qual é o principal motivo de estranhamento do velho indígena em relação aos
europeus?
O ancião não
entende por que os europeus (mair e peró) viajam de tão longe para buscar
madeira (pau-brasil), questionando se eles não possuem lenha em suas próprias
terras para se aquecerem.
02
– Qual explicação Jean de Léry dá para a necessidade de levar tanto pau-brasil
para a Europa?
Ele explica que a
madeira não serve para queimar, mas para extrair tinta para tingir tecidos.
Além disso, menciona a existência de grandes negociantes que acumulam
mercadorias e riqueza, precisando de navios carregados para sustentar seus
negócios.
03
– O que a pergunta do indígena sobre a morte do "homem rico" revela
sobre sua visão de mundo?
Revela uma
perspectiva voltada para a finitude da vida e a inutilidade do acúmulo material
excessivo. Para o indígena, não faz sentido trabalhar exaustivamente para
juntar riquezas que não poderão ser levadas após a morte.
04
– Segundo o texto, para quem os europeus deixam suas riquezas quando morrem e
qual é a crítica do ancião sobre isso?
As riquezas são
deixadas para filhos ou parentes próximos. O ancião critica isso chamando os
europeus de "loucos", pois sofrem grandes perigos no mar para
amontoar bens, ignorando que a mesma terra que os alimentou será capaz de
sustentar seus descendentes.
05
– Como o indígena justifica a sua falta de preocupação com o futuro material de
seus filhos?
Ele afirma que os
indígenas amam seus familiares, mas descansam sem preocupações porque têm a
certeza de que a terra que os sustenta hoje continuará sustentando seus filhos
após sua morte, sem a necessidade de acúmulo de bens.
06
– Por que o narrador afirma que o velho "como se vê não era nenhum
ignorante"?
Porque o
raciocínio do ancião demonstra uma sabedoria lógica e filosófica profunda sobre
a existência humana, a natureza e a sustentabilidade, desafiando a lógica
mercantilista europeia que o narrador representava.
07
– Qual é o conflito central de valores apresentado no fragmento?
O conflito entre
o mercantilismo europeu (focado no acúmulo de capital, lucro e exploração da
natureza) e a filosofia indígena (focada na subsistência, no usufruto presente
da natureza e na confiança no ciclo da vida).
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