sexta-feira, 15 de maio de 2026

CRÔNICA: SANTOS NOMES EM VÃO - FRAGMENTO - RAUL DREWNICK - COM GABARITO

 Crônica: Santos nomes em vão – Fragmento

        Drama verídico e gerado por virgulazinhas mal postas, cúmplices de tantas reticências

        Praxedes é gramático. Aristarco também. Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num jornal. Praxedes despacha as questiúnculas à tarde. Aristarco, à noite. Um jamais concordou com uma vírgula sequer do outro, e é lógico que seja assim. Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer 999.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_Q13seDwXNAYNIJYDlPONsa0pHfkNpBJZkzoOFrWAt4yZfvzn5G-tcpTv4yUtHCepaUHhV71lUBFBNzXiERz9hDIdA3_KzUEZz5-9yBTdQhujxeSCJ49UOu_man7hhQOg3SPXBGYdKJhHaxpTfgblAAxFAOXrni-5Q_YhUCZOp1sTir3AMiidvJyiKoA/s320/NOMES.jpg


        Praxedes é um santo homem. Aristarco também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a bramir como um leão.

        Adversários inconciliáveis, têm um ponto em comum, além da obsessão pela gramática: não são nada populares. Na frente deles, as pessoas ficam inibidas, quase não conversam. Porque nunca sabem se dizem bom-dia ou bons-dias, se meio quilo são quinhentos gramas ou é quinhentas gramas, se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia, se nasceram em Santa Rita do Passa Quatro ou dos Passam Quatro.

        Para que os dois não se matem, o chefe pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco), trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta. Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes) assume as vírgulas dos editoriais e das páginas de política e economia. [...]

        Sempre estiveram a um passo do quebra-pau. Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontram na fila do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois há já um mês e agora ninguém duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir quem é o mais eficiente no braço.

        Aristarco toma a iniciativa. Avança e despeja:

        -- Seu patife, biltre, poltrão, pusilânime.

        Praxedes responde à altura:

        -- Seu panaca, almofadinha, calhorda, caguincha.

        Aristarco mete o dedo no nariz de Praxedes:

        -- É a vossa progenitora!

        Praxedes toca o dedo no nariz de Aristarco:

        -- É a sua mãe!

        Engalfinham-se, rolam pelo chão, esmurram-se.

        Quando o segurança do banco chega para apartar, é tarde, Praxedes e Aristarco estão desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira.

        O guarda pergunta à torcida o que aconteceu. Um boy que viu tudo desde o início explica:

        -- Pra mim, esses caras não é bom de bola. Eles começaram a falá em estrangeiro, um estranhô o outro, os dois foram se esquentando, se esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro, pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do outro. Aí os dois rolô no chão.

        Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.

Raul Drewnick. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 6/3/1988.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 108-109.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que Praxedes e Aristarco não poderiam ser cantores de rock?

      Por causa de seus nomes. O narrador utiliza o humor para sugerir que nomes como "Praxedes" e "Aristarco" soam antigos, solenes e eruditos, o que contrasta com a imagem moderna e rebelde associada aos cantores de rock.

02 – Como a gramática é descrita no texto e qual a consequência disso para a relação entre os dois personagens?

      A gramática é descrita como "democrática", pois permite diversas interpretações e versões. No entanto, para os personagens, isso é motivo de conflito, pois cada um segue uma corrente diferente e jamais concorda com a pontuação ou as escolhas gramaticais do outro.

03 – Apesar de serem descritos como "santos homens" e educados, em que momento Praxedes e Aristarco perdem a calma?

      Eles perdem a calma quando alguém ousa discordar de suas escolhas gramaticais (como a posição de um pronome ou o uso da crase) ou quando a discussão envolve temas técnicos, como verbos defectivos. Nessas horas, eles deixam a voz mansa de lado e passam a "bramir como leões".

04 – Qual é o efeito da presença dos dois gramáticos sobre as pessoas ao redor?

      As pessoas ficam inibidas e evitam conversar. Isso ocorre pelo medo de cometer erros linguísticos comuns (como concordância de peso, hora ou nomes de cidades) e serem julgados ou corrigidos pelos dois especialistas obsessivos.

05 – Como o chefe do jornal resolveu o conflito de horários e estilos entre os dois?

      O chefe os separou por horários e seções: Praxedes, visto como mais "liberal", trabalha nos suplementos onde a linguagem é mais solta. Já Aristarco, considerado "ortodoxo", cuida dos editoriais e das páginas de política e economia, que exigem maior rigor formal.

06 – No momento da briga, qual é a principal diferença entre os xingamentos usados por Aristarco e por Praxedes?

      Aristarco utiliza xingamentos eruditos e pouco comuns no dia a dia (biltre, poltrão, pusilânime). Já Praxedes, embora também gramático, utiliza termos mais coloquiais e populares (panaca, calhorda, caguincha), o que reforça a visão de Aristarco de que ele é um "vendilhão" da língua.

07 – Como a explicação do "boy" no final do texto acentua o humor da crônica?

      O humor reside no contraste linguístico. Enquanto os gramáticos brigam por detalhes ínfimos da norma culta, o boy narra a cena usando gírias e desvios de concordância ("esses caras não é bom", "os dois rolô"). Além disso, ele interpreta o vocabulário rebuscado deles como se fosse "estrangeiro", demonstrando o abismo entre a norma gramatical rigorosa e a realidade da fala popular.

 

 

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