Crônica: Santos nomes em vão – Fragmento
Drama verídico e gerado por
virgulazinhas mal postas, cúmplices de tantas reticências
Praxedes é gramático. Aristarco também.
Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num
jornal. Praxedes despacha as questiúnculas à tarde. Aristarco, à noite. Um
jamais concordou com uma vírgula sequer do outro, e é lógico que seja assim.
Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil
versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer 999.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_Q13seDwXNAYNIJYDlPONsa0pHfkNpBJZkzoOFrWAt4yZfvzn5G-tcpTv4yUtHCepaUHhV71lUBFBNzXiERz9hDIdA3_KzUEZz5-9yBTdQhujxeSCJ49UOu_man7hhQOg3SPXBGYdKJhHaxpTfgblAAxFAOXrni-5Q_YhUCZOp1sTir3AMiidvJyiKoA/s320/NOMES.jpg Praxedes é um santo homem. Aristarco
também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A
voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar
de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a
conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas
apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a
bramir como um leão.
Adversários inconciliáveis, têm um ponto em
comum, além da obsessão pela gramática: não são nada populares. Na frente
deles, as pessoas ficam inibidas, quase não conversam. Porque nunca sabem se
dizem bom-dia ou bons-dias, se meio quilo são quinhentos gramas ou é quinhentas
gramas, se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia, se nasceram em Santa Rita do
Passa Quatro ou dos Passam Quatro.
Para que os dois não se matem, o chefe
pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco),
trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta.
Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes) assume as vírgulas dos
editoriais e das páginas de política e economia. [...]
Sempre estiveram a um passo do quebra-pau.
Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que
finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontram na fila
do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois há já um mês e agora ninguém
duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir
quem é o mais eficiente no braço.
Aristarco toma a iniciativa. Avança e
despeja:
-- Seu patife, biltre, poltrão,
pusilânime.
Praxedes responde à altura:
-- Seu panaca, almofadinha, calhorda,
caguincha.
Aristarco mete o dedo no nariz de
Praxedes:
-- É a vossa progenitora!
Praxedes toca o dedo no nariz de
Aristarco:
-- É a sua mãe!
Engalfinham-se, rolam pelo chão,
esmurram-se.
Quando
o segurança do banco chega para apartar, é tarde, Praxedes e Aristarco estão
desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira.
O guarda pergunta à torcida o que
aconteceu. Um boy que viu tudo desde o início explica:
-- Pra mim, esses caras não é bom de
bola. Eles começaram a falá em estrangeiro, um estranhô o outro, os dois foram
se esquentando, se esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro,
pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do
outro. Aí os dois rolô no chão.
Para a sorte do boy, Aristarco e
Praxedes continuavam desacordados.
Raul Drewnick. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 6/3/1988.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 108-109.
Entendendo a crônica:
01
– Por que o narrador afirma que Praxedes e Aristarco não poderiam ser cantores
de rock?
Por causa de seus
nomes. O narrador utiliza o humor para sugerir que nomes como
"Praxedes" e "Aristarco" soam antigos, solenes e eruditos,
o que contrasta com a imagem moderna e rebelde associada aos cantores de rock.
02
– Como a gramática é descrita no texto e qual a consequência disso para a
relação entre os dois personagens?
A gramática é
descrita como "democrática", pois permite diversas interpretações e
versões. No entanto, para os personagens, isso é motivo de conflito, pois cada
um segue uma corrente diferente e jamais concorda com a pontuação ou as
escolhas gramaticais do outro.
03
– Apesar de serem descritos como "santos homens" e educados, em que
momento Praxedes e Aristarco perdem a calma?
Eles perdem a
calma quando alguém ousa discordar de suas escolhas gramaticais (como a posição
de um pronome ou o uso da crase) ou quando a discussão envolve temas técnicos,
como verbos defectivos. Nessas horas, eles deixam a voz mansa de lado e passam
a "bramir como leões".
04
– Qual é o efeito da presença dos dois gramáticos sobre as pessoas ao redor?
As pessoas ficam
inibidas e evitam conversar. Isso ocorre pelo medo de cometer erros
linguísticos comuns (como concordância de peso, hora ou nomes de cidades) e
serem julgados ou corrigidos pelos dois especialistas obsessivos.
05
– Como o chefe do jornal resolveu o conflito de horários e estilos entre os
dois?
O chefe os
separou por horários e seções: Praxedes, visto como mais "liberal",
trabalha nos suplementos onde a linguagem é mais solta. Já Aristarco,
considerado "ortodoxo", cuida dos editoriais e das páginas de
política e economia, que exigem maior rigor formal.
06
– No momento da briga, qual é a principal diferença entre os xingamentos usados
por Aristarco e por Praxedes?
Aristarco utiliza
xingamentos eruditos e pouco comuns no dia a dia (biltre, poltrão, pusilânime).
Já Praxedes, embora também gramático, utiliza termos mais coloquiais e
populares (panaca, calhorda, caguincha), o que reforça a visão de Aristarco de
que ele é um "vendilhão" da língua.
07
– Como a explicação do "boy" no final do texto acentua o humor da
crônica?
O humor reside no
contraste linguístico. Enquanto os gramáticos brigam por detalhes ínfimos da
norma culta, o boy narra a cena usando gírias e desvios de concordância
("esses caras não é bom", "os dois rolô"). Além disso, ele
interpreta o vocabulário rebuscado deles como se fosse "estrangeiro",
demonstrando o abismo entre a norma gramatical rigorosa e a realidade da fala
popular.
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