terça-feira, 12 de maio de 2026

ARTIGO CIENTÍFICO: O JONGO COMO TÁTICA DE RESISTÊNCIA E COMO ELEMENTO DE CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA E IDENTIDADE NO TERRITÓRIO QUILOMBOLA - FRAGMENTO - IONE DO CARMO

 Artigo científico: O Jongo como tática de resistência e como elemento de construção da memória e identidade no território quilombola – Fragmento

          Ione do Carmo

        O jongo, entendido enquanto dança e gênero musical-poético, foi inicialmente praticado pelos escravos de origem bantu, que trabalhavam nas fazendas de café do Vale do Paraíba. Datam do século XIX os primeiros registros dos jongos nessas fazendas através de relatos dos viajantes. Praticado como diversão, mas abrangendo também aspectos religiosos, é através dos pontos – melodia cantada nas rodas de jongo – que seus praticantes expressam suas ideias e emoções. Em versos curtos, os jongueiros transmitem mensagens ou enigmas a serem decifrados, nos quais a utilização de metáforas e a mescla do português com expressões de origem africana transformam os pontos em canções difíceis de serem interpretadas. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlblJdbsq55iui3TKhZM1QRjbBDeiaIOhvT5ehCPCBqsMLwt0_bqpX6UotMgqytwdbghIWlfIyGzhEnvW7o_GPosSDmZr5Qs9ebhv1W-KtmmHUnBjJWXSPw6fKtklNTLpdPvLkSAQuD8NRHpUbNr-8JHa0MwBPV0bSUqRfmCEUUvy5jCInHZLNudXWTtA/s1600/JONGO.jpg 


        No período da escravidão, as cantigas ritmadas do jongo acompanhavam o movimento da enxada e, através dos pontos, os escravos relatavam os acontecimentos do cotidiano, excluindo seus senhores e feitores da compreensão de suas mensagens. As fugas, que muitas vezes foram planejadas através dos cânticos do jongo, marcaram os limites da dominação e proporcionaram a formação de comunidades de escravos fugidos, os quilombos. Dessa forma, o jongo constituiu-se como um elemento importante para as fugas, podendo ser interpretado enquanto tática de resistência ao cativeiro.

        Essa manifestação cultural, que continua sendo transmitido de geração a geração através dos africanos e seus descendentes que o praticavam, é uma representação coletiva vivenciada em determinados territórios ocupados pelas comunidades negras rurais e urbanas, que remete diretamente a uma ancestralidade africana e quilombola. Essa transmissão é parte da construção de uma memória coletiva de um grupo, onde os acontecimentos passados, vividos pessoalmente ou “por tabela” são significativos na formação de uma identidade no presente. [...]

        Segundo o relato de Antônio Nascimento Fernandes, líder da comunidade negra rural da Fazenda de São José da Serra, o jongo antecede o quilombo, já que era através do cântico do jongo que o escravo “combinava quem ia fugir, como ia fugir, com quem iria fugir. Mas os feitores, que ficavam o dia todo nas lavouras de café não tomavam conhecimento daquilo.” Considerando essa narrativa, recorre-se claramente a uma referência ao jongo que referenda o seu papel da formação da comunidade de escravos fugidos, que por sua vez resgata o papel do mesmo jongo referendando a comunidade atual [...]

        Dessa forma, as representações coletivas da comunidade de São José da Serra traduzem um modo de vida particular, que levam para além de sua dimensão espacial, um significado simbólico que influi no processo de construção da memória e na afirmação da identidade do grupo. As treze famílias que atualmente moram na comunidade têm por descendência uma família negra em comum formada pelo casal Tertuliano e Miquelina, escravos de José Gonçalves Roxo, proprietário da fazenda São José da Serra na década de 1860.  É importante destacar que os laços familiares dentro da comunidade são mantidos entre os que moram na fazenda, mas também com aqueles que saíram dela. Os familiares que moram fora da fazenda São José da Serra ainda hoje vivenciam as práticas culturais, através da participação nas comemorações, das práticas religiosas e das rodas de jongo.   

        Ainda hoje, nessa comunidade, o jongo é dançado em volta de uma fogueira e a mãe de santo – atualmente Mãe Tetê, descendente da última geração de escravos – benze a fogueira e os participantes, dando continuidade a uma tradição.   É possível que a presença do fogo na roda de jongo esteja ligada a forte influência cultural africana dos escravos bantus, que constituíram a maioria dos escravos trazidos para o Centro-Sul do Brasil entre o final do século XVIII e 1850. [...]

        Dessa forma, a prática atual simboliza a forte relação entre o jongo e a religiosidade, e relação da comunidade de São José da Serra com os antepassados, representando a manutenção da memória coletiva desse grupo e afirmando sua identidade quilombola.

        [...].

CARMO, Ione do. O Jongo como tática de resistência e como elemento de construção da memória e identidade no território quilombola (1988-1999). In: XIV Encontro Nacional da Anpuh-Rio Memória e Patrimônio, 2010, Rio de Janeiro: Unirio,2010. p. 2-3. Disponível em: www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1278432815_ARQUIVO_texto-anpuhione.pdf. Acesso em: 19 abr. 2021. Adaptado.

Fonte: linguagens. EJA. Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 75-76.

Entendendo o artigo:

01 – Qual é a origem histórica do jongo e em que região ele se consolidou inicialmente?

      O jongo teve origem com os escravos de origem bantu. Ele foi praticado inicialmente nas fazendas de café do Vale do Paraíba, com registros que datam do século XIX através de relatos de viajantes.

02 – O que são os "pontos" de jongo e como eles eram utilizados para excluir os senhores e feitores da comunicação?

      Os "pontos" são as melodias cantadas nas rodas de jongo. Eles utilizam versos curtos, metáforas, enigmas e a mistura do português com expressões de origem africana, o que tornava a mensagem difícil de ser interpretada por quem não pertencia ao grupo, como os senhores e feitores.

03 – Por que o jongo pode ser interpretado como uma "tática de resistência" ao cativeiro?

      Porque, além de acompanhar o ritmo do trabalho, o jongo era usado para relatar acontecimentos do cotidiano e, principalmente, para planejar fugas sem que os feitores percebessem, resultando na formação de quilombos.

04 – De acordo com o texto, qual é a relação entre o jongo e a formação de comunidades quilombolas?

      O jongo antecede e fundamenta o quilombo. Ele servia como ferramenta de articulação para as fugas ("quem ia fugir, como ia fugir"). Atualmente, a prática do jongo resgata essa história, legitimando a identidade e a ancestralidade dessas comunidades.

05 – Como a memória coletiva é mantida na comunidade da Fazenda de São José da Serra?

      A memória é mantida através da transmissão de geração em geração de práticas culturais e religiosas. Isso envolve tanto as famílias que residem na fazenda quanto os parentes que moram fora, que retornam para participar das rodas de jongo e celebrações.

06 – Qual é o papel da "mãe de santo" e do fogo nas rodas de jongo atuais?

      A mãe de santo (como Mãe Tetê) tem o papel de benzer a fogueira e os participantes, reforçando o caráter religioso da tradição. A presença do fogo é uma herança cultural direta dos escravos bantus e simboliza a conexão com os antepassados.

07 – Como o jongo influi na afirmação da identidade quilombola no presente?

      O jongo funciona como um símbolo de resistência e união. Ao praticarem o jongo, os descendentes reafirmam sua ancestralidade africana, mantêm viva a memória dos que lutaram contra a escravidão e fortalecem os laços de pertencimento ao território quilombola.

 

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