domingo, 17 de maio de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: BALBINO EM CHAMAS - FRAGMENTO - PAULA SALDANHA - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Balbino em chamas – Fragmento

        Paraíso e morada dos pescadores

        O lugar onde a nossa gente mora é assim: mar verde, dunas de areia cercando lagoas azuis e praias com coqueirais. É claro que os terrenos na beira das praias são os mais bonitos e os mais valorizados. Por isso tudo é que gente rica fica de olho. Faz proposta para ao pescador, quer comprar... mas aqui na nossa região ninguém vende terreno, não.

        Os moradores mais velhos sempre dizem que a nossa terra é muito boa e muito rica, por isso nós não queremos sair daqui nunca!

        No mar tem o peixe, o siri, o camarão... No mangue tem os mariscos, o caranguejo, mais peixes... Na terra nascem os coqueiros, os pés de caju, manga, abacate, goiaba, limão, tangerina, mamão e um montão de outras frutas. Na turfa (terra preta e fofa), debaixo dos coqueirais, a gente planta feijão, milho, arroz, mandioca, inhame, abóbora... A água pra beber a gente tem limpinha nas cacimbas, que são poços abertos na areia, que a gente tampa e cuida pra não contaminar.

        Todo mundo aqui tem sempre comida boa – o dente das pessoas não estraga por causa do peixe, que tem muito cálcio – e as crianças crescem com saúde. [...]

        A primeira invasão

        Os pistoleiros começaram a rodear as casas do Balbino de manhã cedinho. Primeiro as casas perto do coqueiral, junto do mar. Depois vieram em direção às nossas casas, na beira da lagoa. Gritaram pra todo mundo sair. Viraram móveis e tiraram as pessoas da cama, ameaçando com espingardas e revólveres. [...]

        Capangas covardes. Gritavam com mulheres e crianças como se estivessem tocando o gado. Mostraram as armas e avisaram que todo mundo ia sair dos terrenos por bem ou por mal.

        Por fim, os caras derramaram gasolina e tocaram fogo em quatro casas, com tudo dos pescadores dentro.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEQXl39enVGSuZfCiJzkujseDAfzKpLt1hNslkZ0bJBPGS4dOecPA6JOQBS-B__lZxthD41nK9ttiRMB1Wd3KZNZ02O9DsI11obGv4QCDCocLwmQseUc0NTLcv9BSwhTxw6SxeLAYNvVAXl2dLZtC6cUCnX6GnTWSbSBy8Omx1fn6jnCfcs2DZq_g2Gvs/s1600/BALBINO.jpg

        -- É só uma pequena mostra – falaram sorrindo.

        Os pistoleiros estavam com cara de loucos e ao mesmo tempo de deboche. Disseram que voltariam depois pra completar o serviço.

      A segunda invasão

        Era quase hora do almoço quando a polícia chegou. Não dava nem pra acreditar: um papel da Justiça dizia preto no branco que os nossos terrenos pertenciam a uma imobiliária e que os moradores iam ter que sair.

        Mas quem vendeu terreno por aqui? Ninguém.

        Então que história era essa?

        Não adiantava discutir, era ordem do juiz. Todas as famílias iam ter que sair do Balbino, que nem foi no Batoque.

        Mas o povo daqui fez resistência. As mulheres pareciam mais valentes que os homens, fechando a passagem dos policiais, com aquele bando de filhos atrás.

        Diante da coragem das mulheres, os policiais se acovardaram e começaram a apelar, berrando, cutucando as pessoas com o cano das espingardas e dando tiros de revólver pro alto.

        Um tiro disparado perto de casa fez meu ouvido ficar zunindo um tempão. Nem dava mais pra ouvir a gritaria das pessoas que corriam em bando, que nem gado acuado.

        Mas eu pude ver muito bem o fogaréu levantando por trás do coqueiral. Muita labareda alta e muita fumaça. [...]

        Os policiais jogavam gasolina e, quando botavam fogo, dava aquele estrondo e as casas lambiam inteirinhas.

        A casa do Chico, meu melhor amigo, foi a que queimou por último. Não posso me esquecer do desespero dele e do pai vendo tudo, tudinho, até aa rede de pesca, queimando lá dentro.

        Deu uma dor aqui no peito...

        O balanço de tudo

        A Arquidiocese de Fortaleza já estava sabendo das confusões e ajudou a apurar as coisas pra comunidade do Balbino. A primeira providência foi chamar um promotor público pra ver direito o caso na Justiça.

        Dona Francisca ia e vinha de Fortaleza trazendo as notícias que conseguia com o promotor, com os repórteres e com os padres. O documento da tal imobiliária era de um terreno lá pro interior. Terra ruim, sem valor nenhum.

        Mas o juiz levou dinheiro pra fazer toda a manobra: colocar os terrenos do Balbino, que sempre foram dos pescadores, como propriedade da imobiliária.

        Com uma simples troca de lugar, endereço, o juiz estava levando muita grana, a imobiliária lucrando bilhões...

        E os pescadores? Centenas de famílias, milhares de pessoas iriam ter que virar mendigos na cidade grande. Ainda bem que do Balbino ninguém saiu. [...].

        Final feliz

        A igreja, a imprensa e o promotor ajudaram o povo de Balbino até o fim. Ao contrário do juiz, que estava levando dinheiro pra prejudicar a gente, o promotor não recebeu nada e colocou a Comunidade de Balbino na Justiça contra a imobiliária – por todo o prejuízo que ela causou.

        Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental. [...].

        Nós vencemos na Justiça. Nossa história teve um final feliz, que nem em filme de julgamento que passa na TV. Só que em filme é tudo de mentirinha, nada machuca. E a nossa história foi mesmo de verdade, marcou nossa gente. marcou pra valer. Teve gente que perdeu tudo e foi obrigada a começar vida nova.

        Coragem e esperança foi o que moveu esse povo. Coragem pra enfrentar a injustiça. E esperança de tudo dar certo. [...].

        A gente agora vai contar pros filhos e pros netos tudo o que se passou com o povo aqui no Balbino e nos outros lugares do litoral.

        Assim, os mais novos vão aprender um pouco da nossa história e vão lutar pra que esse tipo de coisa não aconteça nunca mais.

Paula Saldanha. Balbino em chamas. São Paulo, FTD, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 126-129.

Entendendo o artigo:

01 – Como o narrador descreve a comunidade de Balbino antes das invasões e qual é a principal fonte de sustento e saúde dos moradores?

      O narrador descreve Balbino como um verdadeiro "paraíso": um lugar com mar verde, dunas, lagoas azuis e praias com coqueirais. A comunidade é autossustentável e rica em recursos naturais. Os moradores garantem o sustento através da pesca (peixe, siri, camarão) e do mangue (mariscos, caranguejo), colhem frutas variadas (caju, manga, abacate) e plantam alimentos (feijão, milho, mandioca) na terra preta e fofa (turfa). A saúde das crianças é boa e os dentes não estragam devido ao cálcio abundante dos peixes.

02 – O que atrai o interesse de pessoas ricas pela região de Balbino e qual é a postura inicial dos moradores diante das propostas de compra?

      O interesse da "gente rica" é despertado pelo fato de os terrenos na beira da praia serem os mais bonitos e valorizados. No entanto, a postura inicial dos moradores é de total recusa. Influenciados pelos conselhos dos mais velhos, que reconhecem o valor e a riqueza daquela terra, os pescadores afirmam categoricamente que ninguém vende terreno por ali e que não querem sair de lá nunca.

03 – Quem promoveu a "primeira invasão" a Balbino, como agiram e qual foi a justificativa ou aviso que deixaram para os moradores?

      A primeira invasão foi promovida por pistoleiros (capangas). Eles agiram com extrema violência e covardia: chegaram de manhã cedo, expulsaram as pessoas da cama apontando armas (espingardas e revólveres), gritaram com mulheres e crianças como se estivessem "tocando gado" e incendiaram quatro casas com os pertences dos pescadores dentro. Eles avisaram que todos teriam que sair por bem ou por mal e debocharam dizendo que o fogo era "só uma pequena mostra" e que voltariam para completar o serviço.

04 – Qual foi a grande surpresa dos moradores durante a "segunda invasão" e que justificativa legal foi apresentada para expulsá-los?

      A surpresa foi que, na segunda vez, quem apareceu para expulsá-los foi a própria polícia, trazendo uma ordem do juiz ("um papel da Justiça"). A justificativa legal apresentada era a de que, oficialmente, os terrenos pertenciam a uma imobiliária e que, portanto, todas as famílias teriam que desocupar a área.

05 – Como a comunidade reagiu à ação da polícia e quem se destacou na liderança da resistência?

      A comunidade não aceitou a ordem passivamente e ofereceu resistência. As mulheres se destacaram na liderança, mostrando-se ainda mais valentes que os homens ao fecharem a passagem dos policiais com os filhos atrás de si. Diante dessa coragem, os policiais apelaram para a violência física, empurrando as pessoas com canos de espingardas e dando tiros para o alto, além de incendiarem o restante das casas (incluindo a do melhor amigo do narrador, o Chico).

06 – Qual foi o esquema de corrupção descoberto com a ajuda da Arquidiocese de Fortaleza e do promotor público?

      Descobriu-se que o documento apresentado pela imobiliária era falso ou adulterado: referia-se, na verdade, a um terreno sem valor nenhum localizado no interior do estado. No entanto, o juiz responsável pelo caso aceitou suborno ("levou dinheiro") para fazer uma manobra jurídica, alterando o endereço do documento para que os valiosos terrenos litorâneos do Balbino passassem a constar como propriedade da imobiliária. Isso geraria bilhões de lucro para a empresa.

07 – Qual foi o desfecho da história na Justiça e qual lição o narrador pretende deixar para as próximas gerações?

      O desfecho foi a vitória da comunidade na Justiça, graças ao apoio da Igreja, da imprensa e de um promotor público íntegro. Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental e as famílias puderam ficar. A lição que o narrador quer deixar para os filhos e netos é a importância da coragem para enfrentar as injustiças e a esperança de lutar pelos seus direitos, para que abusos desse tipo nunca mais voltem a acontecer.

 

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