segunda-feira, 29 de junho de 2026

FÁBULA: AS CHAMAS - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: As Chamas

        As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

        Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjvAfsoYsC4AM_6MVhu4OMGcIw1fauEuKVucAwjk7on6GKXh6I4hym1jzkh8783V2DpiIxHdxgIP-gIIdOVRw7xOocGzNEgD6gtSdKp0SzyHhckyss-m6vGsB81CNJ_FnjQ6ESOzYwDldfrhp73g9sSJyIN_99Ky2YiDjFgYDT73wY9nrenPB2FXxtjpOA/s320/DancingFlames.jpg 


        Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

        Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

        Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

        A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.

        Moral: A ganância, o egoísmo e a busca por prazeres imediatos destroem aquilo que cobiçam e isolam o indivíduo de sua fonte de segurança.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – Onde as chamas viviam inicialmente e há quanto tempo estavam lá?

      As chamas viviam e brilhavam há mais de um mês na fornalha de um soprador de vidro, local onde eram fabricados vidros e garrafas.

02 – O que despertou o desejo ardente de uma das chamas e a fez sair da fornalha?

      O desejo foi despertado quando as chamas viram aproximar-se uma linda vela colocada em um castiçal fino e brilhante. Atraída por ela, uma das chamas saltou de sua brasa alimentadora e escapou por uma pequena fresta para alcançá-la.

03 – O que aconteceu logo após a chama rebelde pular em cima da vela?

      A ávida chama devorou a vela sofregamente e, por ser um combustível limitado, acabou consumindo-a por completo rapidamente.

04 – Por que a chama não conseguiu retornar para a segurança da fornalha?

      Porque ela ficou presa na cera amolecida da vela que havia acabado de derreter. Sem conseguir desprender-se e sem combustível para se manter viva, ela não pôde retornar.

05 – Qual foi o destino final da chama rebelde em comparação ao de suas irmãs?

      A chama rebelde apagou-se, transformando-se em uma fumaça sufocante e escura. Enquanto isso, suas irmãs permaneceram unidas na fornalha, resplandecentes e seguras, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.

 

 

FÁBULA: A NAVALHA - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Navalha

 

        Era uma vez uma navalha de excelente qualidade, que morava numa barbearia. Um dia em que a loja estava vazia ela resolveu dar uma voltinha. Soltou-se do cabo e saiu para apreciar o lindo dia de primavera.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjdsYOUb4CjdMVGO7U6jiGD17ASgtwy4EG8eVMnugg8Y0QGv1zzFrQ1IxrQiAi9vAAv8Umuv_4e-T43HfDY6Wgc5wDZCvLUJvc3fKmsIszm0hIYedrd0rUM9m5XKrO6UcJTU4AYWYPGQw1fhCb2T4t1u760_WFwlc8vMZgQgXie3cONudtzdfZRebBPpYo/s320/91nzV5BbErL._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg


        Quando a navalha viu o reflexo do Sol em si mesma, ficou surpresa e encantada. A lâmina de aço lançava uma luz tão brilhante que, subitamente, com excessivo orgulho, a navalha disse a si mesma:

        -- E eu vou voltar para aquela loja de onde acabei de fugir? É claro que não! Os deuses não podem querer que uma beleza tal como a minha seja desonrada desta maneira. Seria loucura ficar aqui cortando as barbas ensaboadas daqueles camponeses, repetindo sem cessar a mesma tarefa mecânica! Será que minha beleza foi realmente feita para um trabalho desses? Certamente não! Vou esconder-me num local secreto e passar o resto da vida em paz.

        E em seguida foi procura um esconderijo onde ninguém a visse.

        Passaram-se meses. Um dia a navalha teve vontade de respirar ar fresco. Saiu cautelosamente de seu refúgio e olhou para si mesma.  Ai, que acontecera? A lâmina estava horrorosa, parecendo uma serra enferrujada, e não refletia mais a luz do Sol.

        A navalha ficou muito arrependida pelo que havia feito, e lamentou amargamente a irreparável perda, dizendo:

        -- Oh, como teria sido melhor se eu tivesse conservado em forma a minha linda lâmina, cortando barbas ensaboadas! Minha superfície teria permanecido brilhante e minha borda afiada! Agora aqui estou eu, toda corroída e coberta de uma horrível ferrugem! E não há nada a fazer!

        Moral: O triste fim da navalha é o mesmo que sucede às pessoas inteligentes que preferem ser preguiçosas a usar seus talentos. Essas pessoas, assim como a navalha, perdem o brilho e a parta afiada de seu intelecto, sendo logo corroídas pela ferrugem da ignorância.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – O que motivou a navalha a fugir da barbearia e abandonar o seu trabalho cotidiano?

      A navalha foi motivada pelo excessivo orgulho e pela vaidade. Ao ver o reflexo do Sol em sua lâmina de aço e notar como ela brilhava, ela se julgou bela e superior demais para realizar o trabalho mecânico e repetitivo de cortar as barbas dos camponeses. Ela considerou que aquela função desonrava a sua beleza e preferiu se esconder para viver em paz.

02 – De que maneira a passagem do tempo no esconderijo afetou a integridade física da navalha? Descreva o que ela encontrou ao sair do refúgio.

      O tempo passado no ócio e no isolamento destruiu as qualidades físicas da navalha. Ao sair do refúgio para respirar ar fresco após meses escondida, ela percebeu que sua lâmina estava horrorosa, parecida com uma serra enferrujada, e que já não refletia mais a luz do Sol, perdendo completamente o seu brilho e o seu corte original.

03 – Após perceber o seu novo estado, qual foi o arrependimento manifestado pela navalha? O que ela concluiu sobre a sua antiga rotina de trabalho?

      A navalha lamentou amargamente ter fugido e percebeu que o trabalho na barbearia, embora repetitivo, era justamente o que a mantinha em boa forma. Ela concluiu que se tivesse continuado a cortar as barbas ensaboadas, sua superfície teria permanecido brilhante e sua borda afiada, em vez de terminar totalmente corroída pela ferrugem.

04 – A moral do texto estabelece uma analogia (comparação). Como essa relação é feita entre os elementos da história e as características humanas?

      A fábula associa as qualidades físicas da navalha (o brilho e o corte afiado) à inteligência e aos talentos humanos. Da mesma forma, a "ferrugem" que corrói o metal é comparada à ignorância que consome a mente das pessoas que escolhem a preguiça e o ócio em vez de exercitarem e utilizarem suas capacidades no dia a dia. 

05 – A partir da leitura da fábula, qual é a principal lição que o autor deseja transmitir sobre a utilidade e a prática do nosso intelecto e talentos?

      A principal lição é a de que o talento e a inteligência não têm valor se forem mantidos isolados ou inativos; eles precisam ser praticados constantemente. Assim como o ferro precisa do trabalho para não enferrujar, as habilidades humanas exigem esforço e utilidade contínua, caso contrário, definham e são destruídas pelo comodismo e pela falta de uso.

 

 

FÁBULA: A NOZ E O CAMPANÁRIO - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Noz e o Campanário

         Um corvo pegou uma noz e levou-a para o topo de um alto campanário. Segurando a noz com as patas começou a bicá-la para abri-la. Porém subitamente a noz rolou para baixo e desapareceu numa fresta do muro.

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        -- Muro, meu bom muro – suplicou a noz, percebendo que estava livre do bico do corvo – pelo amor de Deus, que foi tão bom para você, fazendo-o alto e forte, e enriquecendo-o com esses belos sinos de tão belo som, salve-me, tenha pena de mim! Meu destino era cair entre os velhos ramos de meu pai – prosseguiu a noz – permanecer no rico solo coberto de folhas amarelas. Por favor, não me abandone! Quando eu estava sendo atacada pelo terrível bico daquele corvo feroz, fiz um voto. Prometi que, se Deus me permitisse escapar, eu passaria o resto de minha vida dentro de uma frestinha.

        Os sinos, num doce murmúrio, avisaram o campanário que tomasse cuidado porque a noz podia ser perigosa. Porém o muro, teve compaixão e decidiu abrigá-la, deixando-a ficar onde havia caído.

        Porém dentro em breve a noz começou a abrir e a estender raízes nas frestas da pedra. Em seguida as raízes forçaram caminho por entre os blocos de pedra e surgiram galhos que saíam pela fresta. Os galhos cresceram, tornaram-se mais fortes e estenderam-se para o alto, acima do topo da torre. E as raízes, grossas e enroscadas, começaram a fazer buracos nos muros, empurrando para fora todas as velhas pedras.

        O muro percebeu, tarde demais, que a humildade da noz e seu voto de ficar escondida numa fresta não eram sinceros. E arrependeu-se de não ter dado ouvido aos sinos.

        A nogueira continuou a crescer e o muro, o pobre muro, desmoronou e ruiu.

        Moral: Cuidado com a falsa humildade daqueles que se fazem de vítimas apenas para conseguir um espaço.

 

   Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – Como a noz foi parar na fresta do muro do campanário?

      A noz foi levada até o topo do campanário por um corvo, que pretendia comê-la. Enquanto o corvo tentava abri-la com o bico, a noz escorregou de suas patas, rolou para baixo e acabou caindo e desaparecendo dentro de uma fresta do muro.

02 – Qual foi a promessa (ou voto) que a noz fez ao muro para convencê-lo a lhe dar abrigo?

      A noz implorou por piedade e afirmou ter feito um voto de que, se Deus a salvasse do bico do corvo, ela passaria o resto de sua vida escondida e quietinha dentro daquela frestinha, sem causar problemas. 

03 – Quem tentou alertar o campanário sobre o perigo de abrigar a noz?

      Foram os sinos. Num doce murmúrio, eles avisaram o campanário para que tomasse cuidado, pois a noz poderia ser perigosa. No entanto, o muro sentiu compaixão e ignorou o aviso.

04 – O que aconteceu quando a noz começou a crescer dentro da fresta do muro?

      A noz se abriu e começou a fincar raízes e a soltar galhos. Com o tempo, as raízes grossas forçaram caminho entre os blocos de pedra, abrindo buracos e empurrando as velhas pedras para fora, enquanto os galhos cresceram tanto que ultrapassaram o topo da torre.

05 – Qual foi o destino final do muro por ter abrigado a noz?

      O muro percebeu tarde demais que a noz havia mentido sobre sua suposta humildade. A nogueira continuou crescendo com tanta força que o pobre muro não resistiu à pressão das raízes, acabou desmoronando e ruiu completamente.

 

FÁBULA: A PULGA E O CARNEIRO - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Pulga e o Carneiro

        Certo dia, uma pulga que morava no pelo macio de um cachorro, sentiu um agradável cheiro de lã.

        -- Que será isso?

        Deu um salto e viu que o cachorro adormecera encostado à pele de um carneiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0n58U05DcoCIg5Vg40CRlBAg_XimPyluqTW1SnsGCRs8V2vi_oWsC3Vb8k_-V0MJ1D4S4pSlWKu37v5oWU5tft-7dolliZRKYj14c8ho8No6J865GZbcgYj1aFaTZtwALzMa4KhkGfZLsHdAGkJwHCqI7tvrCxAK88FigeInzRq_Ie3NRrknQtKmcRYo/s320/ovelhas-carneiro-cordeiro-saiba-quais-sao-as-diferencas%20(1).jpg


        -- Esta pele é exatamente o que preciso – disse a pulga – é mais espessa e mais macia, e principalmente mais segura. Não corro o risco de ser encontrada pelas patas e pelos dentes do cachorro, que a toda hora me procuram. E a pele do carneiro deve ser, certamente, mais agradável.

        Então, sem mais pensar, a pulga mudou-se de casa, saltando das costas do cachorro para a pele do carneiro. Porém a lã era espessa, tão espessa que era difícil atravessá-la para chegar até a pele. Tentou e tornou a tentar, separando pacientemente os fios, procurando laboriosamente um caminho. Finalmente atingiu as raízes dos pelos, mas eles eram tão juntos que ficavam praticamente encostados uns nos outros. A pulga não encontrou sequer um furinho através do qual pudesse atingir a pele do animal.

        Cansada, banhada em suor e profundamente desapontada, a pulga resignou-se a voltar para o cachorro. Porém o cachorro não estava mais lá.

        Pobre pulga! Chorou dias a fio de arrependimento por seu erro.

        Moral: Não abandone o que é seguro e garantido por uma ilusão de maior facilidade ou conforto sem antes conhecer a realidade.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 Entendendo a fábula:

01 – O que despertou o interesse da pulga em mudar de lugar no início da história?

      A pulga sentiu um cheiro agradável de lã e, ao dar um salto, percebeu que o cachorro em que morava estava dormindo encostado em um carneiro. Ela achou que a pele do carneiro seria mais espessa, macia, segura e agradável do que a do cachorro.

02 – Quais eram as desvantagens de morar no cachorro, segundo o ponto de vista da pulga?

      O cachorro estava constantemente tentando pegá-la com as patas e com os dentes, o que fazia com que a pulga corresse o risco frequente de ser encontrada e destruída. 

03 – Que dificuldades a pulga encontrou ao tentar se estabelecer na pele do carneiro?

      A lã do carneiro era tão espessa e os pelos eram tão juntos e encostados uns nos outros que a pulga teve imensa dificuldade para atravessá-los. Ela não conseguiu encontrar sequer um pequeno espaço ou furo para alcançar a pele do animal e se alimentar.

04 – O que a pulga decidiu fazer após fracassar na tentativa de alcançar a pele do carneiro?

      Cansada, suada e profundamente desapontada com a realidade da lã do carneiro, ela resolveu desistir e voltar para o pelo do cachorro, onde já estava acostumada a viver.

05 – Por que a história termina de forma triste para a pulga?

      Porque quando a pulga decidiu voltar, o cachorro já havia ido embora e não estava mais lá. Ela acabou ficando sem nenhuma das duas opções, restando-lhe apenas o choro e o arrependimento por seu erro impulsivo.

 

 

FÁBULA: A RAPOSA E A PEGA - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Raposa e a Pega

 

        Certo dia uma raposa esfomeada viu-se debaixo de uma árvore sobre a qual estava pousado um bando de barulhentas pegas.

        Escondendo-se para não ser vista, a raposa pôs-se a observar. Notou que os pássaros mantinham-se constantemente em busca de alimento e não temiam sequer pousar sobre cadáveres de animais a fim de bicá-los.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgdCTPCDMtGQ6dc5x_AXNiyQj6nBvR39xOh_7AtcXEIhlslKBZhRKt5HfuxyOfOrY4d2DMsLSgVI5VSdVynjy30ZiqiJ6a0XD1hHjIExGW47__XA05iuOic2zay4YfpoPX4KJABcZzx0GZgD_j9fzhpdieThCnEpXWhhmuT9iS3t6AHNtQuoiGv9SpdO_I/s1600/PEGA.jpg


        -- Vou fazer uma experiência – disse a raposa para si mesma.

        Cautelosamente, no maior silêncio, deitou-se no chão e permaneceu imóvel, de boca aberta, como se estivesse morta.

        Breve uma pega a viu e imediatamente voou para o chão.

        Aproximou-se da raposa e, pensando que ela estava morta, pôs-se a bicar-lhe a língua.

        Porém a pega deveria ter sido mais prudente, pois a raposa a apanhou.

        Moral: A falta de cuidado e a audácia excessiva diante do perigo podem ser fatais.

 

         Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – O que a raposa observou no comportamento das pegas enquanto estava escondida sob a árvore?

      A raposa notou que as pegas faziam muito barulho, estavam constantemente em busca de comida e eram tão destemidas que não hesitavam em pousar e bicar o cadáver de animais mortos para se alimentar.

02 – Qual foi o plano ("experiência") elaborado pela raposa para conseguir capturar uma das aves?

      Sabendo que as pegas se alimentavam de animais mortos, a raposa deitou-se no chão com cautela, em completo silêncio, e permaneceu imóvel de boca aberta, fingindo estar morta para atrair os pássaros.

03 – O que a primeira pega fez ao avistar a raposa imóvel no chão?

      Pensando que a raposa realmente estivesse morta, a pega voou imediatamente para o chão, aproximou-se sem medo e começou a bicar a língua da raposa.

04 – Qual foi o erro crucial da pega que causou a sua captura?

      O erro da pega foi a total falta de prudência. Ela confiou na aparência de morte da raposa e aproximou-se demais de sua boca (uma zona de extremo perigo), abaixando totalmente a guarda.

05 – Como a história termina para a pega e o que isso demonstra sobre a raposa?

      A história termina com a raposa capturando a pega no momento em que esta bicava sua língua. Isso demonstra a grande astúcia, paciência e capacidade de encenação da raposa, que soube usar o próprio hábito de sua presa como uma armadilha perfeita.

 

 

FÁBULA: A SERPENTE E OS PÁSSAROS - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Serpente e os Pássaros

 

        Não havia mais tantos pássaros no bando quanto anteriormente. Cada dia um deles desaparecia misteriosamente, sem ninguém notar como. O líder do bando não conseguia encontrar explicação alguma.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZKfJUNXagfqX9SAw2fiM6RqTjQJwZbpTDlDdyyG_eQKwVhZEmV3-U9hk4ALWgYGx4LOGKcy4LNJcH3toQ26Cd5Y_IbToFw2QvtV7qE0ZZpe0sVKqME-WYY6ure6bn8KTjIxKMRBc4itatSXLd6jk75v1rSjl562-WwFSzjMkR2RNb9y1NJ5pAQWDYD2Q/s1600/images.jpg


        Certa manhã, em vez de voar na frente, colocou-se em último lugar, a fim de poder vigiar seus companheiros.

        Voaram, como sempre, em direção a uma floresta distante. Ao passarem por cima de uma colina o líder notou que o ordenado bando separou-se, como se atingido por um forte vento. A maioria dos pássaros tornou a formar uma fila ordenada. Porém dois dos mais jovens prosseguiram numa rota diferente, como se atraídos por alguma força invisível.

        E subitamente o líder viu a serpente. Era muito comprida e tinha diversos anéis.

        Todas as manhãs ficava escondida na grama, à espera da passagem do bando. Então abria a boca e aspirava com força, sugando os pássaros para dentro de sua boca.

        Tendo descoberto o perigo, o sábio líder, desse dia em diante, conduziu o bando por outra rota e a serpente nunca mais apanhou nenhum deles.

        Moral: O verdadeiro líder protege seu grupo através da observação atenta e da prudência.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – Qual era o mistério que intrigava o líder do bando de pássaros no início da história?

      O mistério era o desaparecimento diário e inexplicável de vários pássaros do bando. A cada dia, um deles sumia sem que ninguém notasse como ou por quê.

02 – Que estratégia o líder utilizou para descobrir o que estava acontecendo com seus companheiros?

      Em vez de voar na frente liderando a fila como de costume, ele decidiu colocar-se na última posição do bando naquela manhã, o que lhe permitiu vigiar todos os companheiros de trás e observar qualquer irregularidade.

03 – O que o líder notou de estranho quando o bando sobrevoou uma colina?

      Ele notou que o bando se desordenou momentaneamente, como se tivesse sido atingido por um vento forte. Em seguida, viu que dois dos pássaros mais jovens saíram da rota correta e foram desviados, como se estivessem sendo atraídos por uma força invisível.

04 – Como a serpente conseguia capturar os pássaros que voavam alto?

      A serpente se escondia na grama da colina todas as manhãs esperando o bando passar. Quando eles ficavam exatamente em cima dela, ela abria a boca e aspirava o ar com tanta força que acabava sugando os pássaros diretamente para dentro de sua garganta.

05 – Qual foi a atitude tomada pelo líder após descobrir o segredo da serpente e qual foi o resultado?

      Sendo um líder sábio, ele mudou definitivamente o trajeto do bando a partir daquele dia, conduzindo os pássaros por uma rota alternativa e segura. Como resultado, a serpente nunca mais conseguiu capturar nenhum membro do bando.

 

 

 

FÁBULA: A TOUPEIRA - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Toupeira

        Uma toupeira estava passeando em baixo da terra ao longo das longas galerias subterrâneas que sua família havia escavado durante muitos anos de trabalho.

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        Andou para a frente e para trás, subiu ao último andar e desceu até o porão como se enxergasse perfeitamente bem. Na realidade, assim como todas as toupeiras, ela tinha olhos muito pequeninos e não via quase nada.

        Finalmente chegou a um caminho que não conhecia e prosseguiu adiante!

        -- Pare! – gritou uma voz vinda do andar inferior – essa galeria conduz ao exterior e é perigosa!

        Porém a toupeira continuou a subir até chegar a um monte de terra.

        Levantou o focinho e emergiu. Porém a brilhante luz do Sol cegou-lhe os olhos e ela correu de volta para a escuridão de seu abrigo.

        Moral: A teimosia e o orgulho de ignorar os avisos de perigo nos levam a sofrer as consequências de nossas próprias limitações.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

01 – Como a toupeira conseguia se locomover tão bem pelas galerias subterrâneas de sua família?

      Ela andava perfeitamente bem para a frente, para trás, subindo e descendo os andares porque aquelas eram as longas galerias que sua família havia escavado durante muitos anos de trabalho, tornando o ambiente familiar para ela, apesar de sua quase total cegueira.

02 – Qual é a característica física das toupeiras mencionada no texto que limita a visão delas?

      O texto menciona que, assim como todas as toupeiras, ela tinha olhos muito pequeninos e não conseguia enxergar quase nada.

03 – Que aviso a toupeira recebeu ao entrar em um caminho desconhecido?

      Uma voz vinda do andar inferior gritou para que ela parasse, alertando que aquela nova galeria conduzia ao exterior e que aquilo era perigoso.

04 – Como a toupeira reagiu ao aviso recebido do andar inferior?

      Ela ignorou o aviso por completo. Movida pela curiosidade ou pela teimosia, continuou a subir a galeria até alcançar um monte de terra na superfície.

05 – O que aconteceu com a toupeira ao emergir na superfície e qual foi sua reação imediata?

      Ao levantar o focinho e emergir na superfície, a brilhante luz do Sol cegou completamente os seus olhos sensíveis. Assustada e machucada pela claridade, ela correu imediatamente de volta para a escuridão protetora de seu abrigo subterrâneo.

 

 

CONTO: SE EU FOSSE SHERLOCK HOLMES - FRAGMENTO - MEDEIROS E ALBUQUERQUE - COM GABARITO

 Conto: SE EU FOSSE SHERLOCK HOLMES – Fragmento

 

        [...]

        Retiradas as capas, o zunzum das conversas continuava. Ninguém tinha entrado no quarto fatídico. Todos o diziam e repetiam.

        Foi no meio dessas conversas que Sherlock Holmes cresceu dentro de mim. Anunciei:

        -- Já sei quem roubou o anel.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0fUNbT73GrtJCw72kaQQnS1LN2zYycSTTkugyXYe8dvZKvLIFpMCLJ0ol-JA3yT1B-FG0mPQPzlYoAWpvK9gnPaCCz_WycSFTe52pvdCXPO6dS0GL4HhVHEAzfjYz2i4LVs7gHyXOpy45o9u8QOuenDz7uSv6h9Vsca08DiJ-G4spFnnCMPj3S9ZuUSI/s320/sherlock-holmes-complete-illustrated-novels.jpg

 

    De todos os lados surgiam exclamações. Algumas pessoas se limitavam a interjeições: “Ah!”, “Oh!”. Outras perguntavam quem tinha sido.

        Sherlock Holmes disse o que ia fazer, indicando um gabinete próximo:

        -- Eu vou para aquele gabinete. Cada uma das senhoras aqui presentes fecha-se ali em minha companhia por cinco minutos.

        -- Por cinco minutos? – indagou o Dr. Caldas.

        -- Porque eu quero estar o mesmo tempo com cada uma, para não poder se concluir da maior demora com qualquer uma delas que essa é a culpada. Serão para cada uma cinco minutos cronométricos.

        O Dr. Caldas gracejando:

        -- Mas veja o que você faz. Não procure namorar minha mulher, senão eu lhe dou um tiro.

        Houve uma hesitação. Algumas diziam estar acima de qualquer suspeita, outras que não se submetiam a nenhum inquérito policial. Venceu, porém, o partido das que diziam “quem não deve não teme”. Eu esperava, paciente. Por fim, quando vi que todas estavam resolvidas, lembrei que seria melhor quem fosse saindo, despedir-se e partir.

        E a cerimônia começou. Cada uma das senhoras esteve trancada comigo justamente os cinco minutos que eu marcara.

        Quando a última partiu, saiu do gabinete, achei à porta, ansiosa, Madame Guimarães:

        -- Venha comigo – disse-lhe eu.

        Aproximei-me do telefone, chamei o Alves Calado e disse-lhe que não precisava mais tomar providência alguma, porque o anel fora achado.

        Voltando-me para Madame Guimarães entreguei-o então. Ela estava tão nervosa que me abraçou e beijou freneticamente. Quando, porém, quis saber quem fora a ladra, não me arrancou nem uma palavra.

        No quarto, ao ver sinhazinha Ramos entrar, tínhamos tido mais ou menos, a seguinte conversa:

        -- Eu não vou deitar verdes para colher maduros, não vou armar cilada alguma. Sei que foi a senhora que tirou a joia de sua tia.

        Ela ficou lívida. Podia ser medo. Podia se cólera. Mas respondeu firmemente:

        -- Insolente! É assim que o senhor está fazendo com todas, para descobrir a culpada?

        -- Está enganada. Com as outras eu apenas converso. Com a senhora, não; exijo que me entregue o anel.

        Mostrei-lhe o relógio para que visse que o tempo estava passando.

        -- Note – disse eu – que tenho uma prova, posso fazer ver a todos.

        Ela se traiu, pedindo:

        -- Dê sua palavra de honra que tem essa prova!

        Dei. Mas o meu sorriso lhe mostrou que ela, sem dar por isso, confessara indiretamente o fato.

        -- E já agora – acrescentei – dou-lhe também a minha palavra de honra que ninguém saberá por mim o que fez.

        Ela tremia toda.

        -- Veja que falta um minuto. Não chore. Lembre-se que precisa sair daqui com uma fisionomia jovial. Diga que estivemos falando de moda.

        Ela tirou a joia do seio, deu-me e perguntou:

        -- Qual é a prova?

        -- Esta – disse-lhe eu apontando para uma esplêndida rosa-chá que ela trazia. – É a única pessoa, esta noite, que tem aqui uma rosa amarela. Quando foi ao quarto de sua tia, teve a infelicidade de deixar cair duas pétalas dela. Estão junto da mesa-de-cabeceira.

        Abri a porta. Sinhazinha compôs magicamente, imediatamente, o mais encantador, o mais natural dos sorrisos e saiu dizendo:

        -- Se este Sherlock fez com todas o que fez comigo, vai ser um fiasco absoluto.

        Não foi fiasco, mas foi pior.

        Quando Sinhazinha chegara, subira logo. Graças à intimidade que tinha na casa, onde vivera até a data do casamento, podia fazer isso naturalmente. Ia só para deixar a sua capa dentro do armário. Mas, à procura de um alfinete, abriu a mesinha-de-cabeceira, viu o anel, sentiu a tentação de roubá-lo e assim o fez. Lembrou-se de que tinha de ir para a Europa daí um mês. Lá venderia a joia. Desceu então novamente com a capa e mandou pô-la no automóvel. E como ninguém a tinha visto subir, pôde afirmar que não fora ao andar superior.

        Eu estraguei tudo.

         Mas a mulherzinha se vingou: a todos insinuou que provavelmente o ladrão tinha sido eu mesmo. E, vendo o caso descoberto antes da minha retirada, armara aquela encenação para atribuir a outrem o meu crime.

        O que sei é que madame Guimarães, que sempre me convidava para as suas recepções, não me convidou para a de ontem... Terá talvez sido a primeira a acreditar na sobrinha.

                                          Medeiros e Albuquerque.

 

Entendendo o conto:

01 – Relacione as palavras destacadas a seus significados.

A - “Ninguém tinha entrado no quarto fatídico.”      (B) pálida

B - “Ela ficou lívida.”                                                (A) fatal, trágico

C - “– Insolente!”                                                     (D) alegre

D - “... precisa sair daqui ... fisionomia jovial.”        (C) atrevido.

02 – Qual é o significado da expressão: “_ Eu não vou deitar verdes para colher maduros...”.

      Significa que o narrador não iria blefar, fazer suposições ou tentar jogar verde para conseguir uma confissão. Ele estava afirmando que já tinha certeza absoluta do que havia acontecido e possuía fatos concretos, sem necessidade de rodeios.

03 – Quem é o narrador-personagem?

      É um dos convidados da festa que assume o papel de detetive amador (incorporando o espírito e a lógica de Sherlock Holmes) para desvendar o mistério do roubo. O texto não revela o seu nome próprio, apenas a sua persona de "Sherlock".

04 – Em torno de qual fato gira a história?

      A história gira em torno do roubo de um anel valioso pertencente a Madame Guimarães dentro de sua própria casa durante uma recepção.

05 – Qual o espaço da narrativa (onde acontece)?

      A narrativa acontece no interior de uma residência (provavelmente uma mansão ou casarão de festas), concentrando-se especificamente no andar superior (onde ficava o quarto), no salão principal e num gabinete privativo onde o inquérito foi realizado.

06 – Que decisão do narrador indica que uma mulher havia furtado o anel?

      A decisão de chamar para o gabinete privado apenas as senhoras presentes na festa para o inquérito de cinco minutos, excluindo os homens das suspeitas.

07 – Que sentimentos, dos abaixo relacionados, estão expressos nas falas das personagens?

A - honradez      

B - ofensa      

C - culpa              

D - autoridade

(B) (Sinhazinha Ramos) “– Insolente!”

(D) (Narrador) “Com a senhora, não, exijo que me entregue o anel.”

(C) (Sinhazinha Ramos) “– Dê sua palavra de honra que tem essa prova!”

(A) (Narrador) “... dou-lhe a minha palavra de honra que nunca ninguém saberá por mim o que fez.”

08 – Por que o narrador pediu à ladra que saísse do gabinete com fisionomia jovial?

      Para manter o pacto de segredo que ele havia feito com ela. Se Sinhazinha saísse chorando ou abatida, todos os convidados na porta saberiam imediatamente que ela era a culpada, quebrando o disfarce de que eles estavam apenas conversando sobre amenidades (como moda).

09 – Qual foi a prova do crime?

      A prova foram duas pétalas de uma rosa-chá amarela encontradas no chão do quarto, junto à mesa-de-cabeceira. Como Sinhazinha Ramos era a única pessoa na festa que usava aquela flor amarela específica, sua presença no quarto fatídico foi denunciada.

10 – Que estratégia a jovem usou para roubar o anel?

      Ela aproveitou sua intimidade com a casa (onde morou até se casar) para subir sozinha logo que chegou, sob o pretexto de guardar sua capa no armário. Ao abrir a mesinha procurando um alfinete, viu o anel, cedeu à tentação e o escondeu no seio. Logo em seguida, mandou guardarem sua capa no automóvel para que ninguém a associasse ao andar superior.

11 – Qual foi a vingança da ladra e qual foi a consequência disso no final da história?

      A vingança: Sinhazinha espalhou o boato maldoso de que o verdadeiro ladrão era o próprio narrador. Ela sugeriu que ele havia roubado a joia e, ao perceber que o caso seria descoberto, montou aquele falso teatro com as convidadas para culpar outra pessoa e sair como herói.

      A consequência: O narrador acabou socialmente prejudicado. A dona da joia, Madame Guimarães, aparentemente acreditou na versão da sobrinha e deixou de convidar o narrador para as suas famosas recepções.

 

 

 

 

CONTO: HISTÓRIA DE PASSARINHO - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: História de Passarinho

            Lygia Fagundes Telles


        Um ano depois, os moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que enlouqueceu e sumiu de casa.

        Ele era um santo, disse a mulher abrindo os braços. E as pessoas em redor não perguntaram nada e nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.

        Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o passarinho.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLsS4xuxVHU4_NDepxiE1YBT_gdQJxdazGDM2AvH0zQzI_YUZdXAQ5ts0jYv2b_u3qsRekLenPkRRTeMOdPIpy9JVW6tlnf5zAVUGdHF_pDfb10lzqtG7JZ6ZAR5g_XBp5HNhdvIWy6_0dgqS_BNfPl0JqDgjwKygwZHGbD4UF_wjoEqliH7tTZm6X6GQ/s1600/download.jpg


        Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô, Pai! caçoava o filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!

        O homem ruivo introduzia o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem de um amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.

        Não sei, filho, deve ter caído de algum ninho, peguei ele na rua, não sei que passarinho é esse.

        O menino mascava chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.

        Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele estava certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho cresceu, o homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele.

        Ai! o canto desse passarinho, queixava-se a mulher. Você quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os beiços, tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro que subia para o teto, Bicho mais chato, Pai, solta ele.

        Antes de sair para o trabalho, o homem ruivo costumava ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora pousando num pé ora noutro e cantando como se não pudesse parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era a despedida e o passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para a carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as grades, fugir, fugir. Algumas vezes, o homem assistiu a essas tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais.

        A mulher punha-se então a falar, e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas todas que quisera ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o trem prateado descendo pela noite até o mar. Esse mar que, se não fosse o pai (que Deus o tenha!), ela jamais teria conhecido, porque em negra hora se casara com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.

        Ele continuava com o livro aberto no peito, gostava muito de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava, exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa, Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade avançada eu fosse trabalhar tanto assim. O homem ia tomar o café.

        Numa dessas vezes, esqueceu de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão. 

        Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pelo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo quando o menino, que presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho burro! Fugiu e acabou aí, na boca do gato?

        Calmamente, sem a menor pressa, o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas, ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro!

        A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.

        Quando formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a contar isso tudo, mas não achou importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto, nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.

 

In: “Cadernos de Literatura Brasileira nº. 5”, editados pelo Instituto Moreira Salles, 1998.

 

Entendendo o conto:

01 – O que aconteceu com o homem de cabelo ruivo um ano antes do momento em que a história é contada?

      Um ano antes, o homem ruivo abandonou de repente tudo o que tinha — sua casa, seu emprego no cartório e seu único filho — e sumiu sem deixar rastros. Os moradores do bairro comentavam que ele havia enlouquecido.

02 – Como era o passarinho quando o homem ruivo o encontrou e o que o filho achava disso?

      O passarinho foi achado na rua, tendo provavelmente caído de um ninho. Ele era um filhote todo arrepiado, com pouca plumagem de cor amarelo-pálido e algumas peninhas cinza-claro. O filho caçoava do pai por ele não saber dizer se o bicho era um canário ou um pintassilgo, criticando-o por "não saber nada".

03 – Como o passarinho se comportava quando o homem ruivo se despedia dele para ir trabalhar?

      O passarinho cantava intensamente com as asas trêmulas e vinha receber o carinho do homem na grade da gaiola. Porém, assim que o homem se afastava, o animal se atirava desesperadamente contra as grades tentando fugir, a ponto de ficar exausto, com o peito palpitante e o bico ferido.

04 – Sobre o que a esposa do homem ruivo costumava reclamar durante "uns cinquenta minutos"?

      Ela reclamava de todas as coisas que gostaria de ter tido e que ele não havia lhe dado. Ela mencionava com frustração uma viagem para Pocinhos do Rio Verde e dizia que tinha se casado em "negra hora" com um homem que não prestava para nada. 

05 – Como o passarinho conseguiu escapar da gaiola e qual foi o seu trágico destino?

      O homem ruivo esqueceu a portinhola da gaiola aberta em uma noite. O passarinho fugiu, mas acabou sendo devorado pelo gato da vizinha. Na manhã seguinte, o gato apareceu sonolento e feliz, deixando escapar de seu pelo negro uma peninha amarelo-acinzentada.

06 – Qual foi a reação do filho e qual foi a reação do homem ruivo ao descobrirem que o gato havia comido o passarinho?

      O menino desatou a rir e chamou o pássaro de burro por ter fugido e acabado na boca do gato. Já o pai, calmamente e sem pressa, recolheu a peninha do chão, guardou-a no bolso do casaco e exibiu uma expressão tão estranha que parecia de contentamento, o que fez o menino parar de rir. 

07 – Que detalhes físicos e de comportamento sobre o pai o menino notou no momento da partida, mas decidiu esconder dos vizinhos?

      O menino percebeu, pela primeira vez, que o pai era um homem alto. Ele também estranhou o andar do pai, que agora era firme e reto, bem diferente de antes. Ao ir embora, o homem ruivo deixou o portão aberto e simplesmente não olhou para trás.