terça-feira, 23 de junho de 2026

POEMA: ERRANTE - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Errante

            Florbela Espanca

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwzQCf7iPP0k30_Z5FYfLsS_ulSJcTRLFqTG5q7pfm89zFG0DUYzzoBzY22jA_LHr5_ncnT7onlhhOSIMYAl8cElwtwnaTlU8WgwCtHXiqKusRH7R-nYyikIZPE-ICd8pkV-mp2D1AQRB5QXIQPH3nw89PrfVAHaj4MPlesprzFKN577ztBz56JFoGrEk/s320/png-transparent-heart-font-burgundy-heart-s-love-burgundy-heart-cliparts-organ-thumbnail.png



Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – Que imagem do "coração" é construída no primeiro quarteto e o que o título "Errante" sugere sobre ele?

      O coração é descrito como "a cor dos rubros vinhos", sugerindo paixão, intensidade e dor profunda. Ele "rasga a mortalha" do peito, o que indica um ímpeto violento de libertação de um corpo sufocado. O título "Errante" e os versos finais da estrofe revelam que esse coração se move sem rumo fixo, andando "tonto" e "a perder-se nas brumas", simbolizando uma busca cega e desorientada.

02 – No segundo quarteto, quais títulos ou identidades o eu lírico atribui ao seu próprio coração?

      O eu lírico personifica o coração atribuindo-lhe três identidades distintas e elevadas:

      "O místico profeta": Aquele que enxerga além, ligado à espiritualidade e ao destino.

      "O paladino audaz da desventura": Um guerreiro corajoso, mas cuja sina ou missão é o sofrimento (a desventura).

      Aquele que "sonha ser um santo e um poeta": Uma busca pela pureza espiritual máxima combinada com a expressão artística ideal.

03 – O que representa o "Paço da Ventura" que o coração do eu lírico decide procurar?

      O "Paço da Ventura" (sendo paço um palácio e ventura sinônimo de felicidade ou boa sorte) funciona como uma metáfora para a plenitude, a felicidade idealizada e a realização dos sonhos. É o destino utópico onde o coração acredita que encontrará o alívio para as suas dores e a coroação dos seus desejos.

04 – No primeiro terceto, qual é a constatação do eu lírico a respeito da busca empreendida pelo coração?

      O eu lírico assume uma postura de absoluto ceticismo e desilusão, decretando o fracasso da jornada: "Meu coração não chega lá decerto...". A justificativa para essa certeza é o total desconhecimento do caminho e a própria natureza intangível desse destino, classificado como um "sítio incerto" do qual não se tem memória real, restando apenas o isolamento.

05 – Como a imagem da mãe e do filho no último terceto coroa o sentimento de perda definitiva do poema?

      A comparação com "essa mãe que viu partir o filho" e com o "filho que não voltou mais" constrói uma das imagens mais dolorosas da poesia florbeliana. Ela simboliza a separação eterna e irreversível entre o desejo e a realidade. Assim como a mãe fica presa à dolorosa tarefa de tecer "sonhos irreais" sobre alguém que jamais retornará, o eu lírico conforma-se em viver de ilusões sobre uma felicidade que ele sabe que seu coração errante nunca alcançará.

 




BIOGRAFIA: GREGÓRIO DE MATOS E SUAS OBRAS - "BOCA DO INFERNO" - COM GABARITO

 Biografia: Gregório de Matos e suas obras – “Boca do Inferno”

“Eu sou aquele, que passados anos

cantei na minha lira maldizente

torpezas do Brasil, vícios e enganos”


        Esse era Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”. Com seu espírito crítico, satirizava políticos, comerciantes, clero, colonizadores e até mesmo o povo. Para isso, usava palavrões e um vocabulário bem baixo em suas obras.

        Nasceu supostamente em 7 de abril de 1633 na Bahia e morreu em Recife em 1696. Veio de uma família rica que possuía dois engenhos de cana-de-açúcar e 130 escravos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgKaDTEr5_-nQ6-cWW1Ass4_QIa4stTTg9CfXTYPD4PrqACOFALkp3rgJ7K2XNWfMRYu1bP5xh4fec94nXD_qOcQy4dqgEwZ1Bj6kMBAWlwYBj9PZrKpVp5Py9GykU4Dcg1Hz8pT2dzWWrGfApI3FI_mrBUzYMJDPDeOaVZR5Z98cNzB8HMn_MHWfUesg/s320/hqdefault.jpg


        Educou-se em casa e no colégio jesuíta. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e lá exerceu a profissão sendo, inclusive, juiz de órfãos.

        Em 1681, quando voltou para o Brasil, foi vigário-geral e tesoureiro-mor, porém, durante este período recusou-se a usar a batina e denunciou injustiças da Ordem em que servia. Por causa disso, o Bispo ordenou seu afastamento.

        Escreveu poesia lírica, satírica e religiosa. Suas poesias satíricas possuem um ótimo material do ponto de vista sociológico e linguístico (já que o autor usava um vocabulário bem popular). Nelas o escritor narra episódios da vida popular, cotidiana e política. Através delas podemos conhecer melhor a sociedade da época (período colonial).

        A poesia lírica de Gregório de Matos também é muito boa e pode ser dividida em:

-- Poesia lírico-amorosa.

-- Poesia lírico-filosófica.

-- Poesia lírico-religiosa.


POESIA LÍRICO-AMOROSA

Características:
-- O amor é retratado como fonte de prazer e sofrimento.

-- A mulher é retratada como um anjo e fonte de perdição (pois desperta o desejo carnal).


TEXTO
        Rompe o Poeta com a Primeira Impaciência Querendo Declarar-se e Temendo Perder Por Ousado

 

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, se não em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

 

Vocabulário:
Uniformar: tornar uniforme, com uma só forma
Galharda: elegante.


POESIA LÍRICO-RELIGIOSA

Características:
-- O autor está dividido entre pecado e virtude (sente culpa por pecar e busca a salvação).

-- O autor vê o pecado como um erro humano, mas também, como a única forma de Deus cometer o ato do perdão.

-- O eu-lírico, muitas vezes, se comporta como advogado que faz a própria defesa diante de Deus (para tal, usava, até mesmo, trechos da Bíblia).


TEXTO
Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião

Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória

Vocabulário:
Despido: despeço.
Sobeja: sobra.
Cobrada: recuperada.

 

Entendendo a biografia:

 

01 – Por que Gregório de Matos recebeu o apelido de “Boca do Inferno” e quais recursos utilizava em suas obras satíricas?

      Ele recebeu esse apelido devido ao seu forte espírito crítico. O poeta utilizava suas obras para satirizar diversas camadas da sociedade colonial, incluindo políticos, comerciantes, o clero, colonizadores e até o próprio povo. Para alcançar esse efeito crítico e provocador, ele fazia uso de palavrões e de um vocabulário de baixo calão.

 

02 – Como foi a trajetória acadêmica e profissional de Gregório de Matos antes de retornar ao Brasil em 1681?

      Gregório de Matos educou-se inicialmente em casa e em um colégio jesuíta no Brasil. Mais tarde, viajou para Portugal, onde se formou em Direito pela Universidade de Coimbra. Naquele país, ele exerceu a profissão jurídica, chegando a ocupar o cargo de juiz de órfãos.

 

03 – Qual foi o motivo do afastamento de Gregório de Matos de suas funções eclesiásticas quando voltou ao Brasil?

      Ao retornar ao Brasil, ele assumiu os cargos de vigário-geral e tesoureiro-mor. No entanto, durante esse período, ele recusou-se a usar a batina e denunciou abertamente as injustiças cometidas pela Ordem religiosa em que servia. Por causa dessas atitudes e denúncias, o Bispo ordenou o seu afastamento.

 

04 – Sob as perspectivas sociológica e linguística, qual é a importância da poesia satírica de Gregório de Matos?

      Do ponto de vista linguístico, sua poesia satírica é rica porque o autor adotava um vocabulário popular e cotidiano da época. Do ponto de vista sociológico, ela funciona como um excelente registro histórico do período colonial, pois narra episódios da vida popular, da política e do cotidiano, permitindo conhecer a fundo a sociedade daquele tempo.

 

05 – No soneto lírico-amoroso "Anjo no nome, Angélica na cara", como o eu-lírico expressa a dualidade e o paradoxo da figura feminina?

      O eu-lírico joga com o nome da mulher (Angélica) para compará-la a um anjo e a uma flor, expressando o desejo de adorá-la e "cortá-la". Contudo, o poema termina revelando um paradoxo: embora os anjos não devessem causar sofrimento, ela é descrita como um "Anjo que tenta, e não guarda", ou seja, uma figura que, em vez de protegê-lo dos azares, desperta o desejo carnal e a tentação.

 

06 – Quais são as principais características da poesia lírico-religiosa de Gregório de Matos apresentadas no texto?

      Suas principais características são o sentimento de culpa e a divisão do autor entre o pecado e a virtude. Além disso, o eu-lírico enxerga o pecado humano como uma oportunidade necessária para que Deus exerça o seu perdão. Muitas vezes, o poeta adota a postura de um advogado, usando argumentos lógicos e trechos da Bíblia (Sacra História) para fazer sua própria defesa perante o Criador.

 

07 – De que maneira o eu-lírico utiliza a parábola bíblica no poema "Pequei Senhor: mas não porque hei pecado" para garantir o perdão divino?

      O eu-lírico recorre à parábola da ovelha perdida (citada como "Sacra História") para argumentar com Deus. Ele se autodeclara a "ovelha desgarrada" e argumenta que, se recuperar uma única ovelha traz tanta glória e alegria ao Pastor Divino, Deus não deveria deixar de salvá-lo, pois, se o fizesse, o próprio Deus perderia a oportunidade de manifestar a Sua glória através do ato de perdoar.

 

 

 

ROMANCE: AS HORAS NUAS - ANÁLISE DO ROMANCE - LÍGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Romance: As horas nuas – Análise do romance

               Lígia Fagundes Telles

 

        O romance ficcional “As horas nuas”, de Lígia Fagundes Telles, é uma narrativa moderna que focaliza atitude e postura do homem comum. Apresenta um enredo fragmentado, retratando ações, comportamentos e costumes dos indivíduos e da sociedade na qual ele está inserido. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-j_c2Xl4Ogy1kdMa_ZUITFLIINE0K0bEG8InxE-NOuP7h3M4ndgUVlo5ztHk0CJCNlzv9_AfCU3-XpCos8IWDTHHDv_-8xz2UuWWzIts6xlWADoUGAKqyIt0G3cWEkbgU8y9JAwrn8cTBLGOY6PMf49wAX864a_TTDnCdIro9PBn0cJcGaiOVSC1CWb0/s320/Analise-comportamental.jpg 


        A autora da ênfase ao comportamento das personagens em interação com a sociedade, retratando de forma subjetiva dilemas e contradições da alma humana, que se move entre valores, apelos do mundo social materialista e massificante. Assim ela vai projetando a realidade e enfatizando o seu reflexo na vida do indivíduo. 

        No romance em estudo, o narrador busca adequar a linguagem ao vai e vem das ações avançando e retrocedendo, confirmando a vitalidade do tempo. Assim o leitor vai sendo introduzido na trama, conhecendo e penetrando de forma sutil na complexidade, que e calcada nos conflitos existenciais das personagens e que se reflete nos problemas atuais da sociedade. 

        O romance apresenta uma linguagem plurissignificativa fincada nos constantes uso de estrangeirismos “Hasta siempre”, “illustration”. “Formes et couleurs”, nas figuras de linguagem: 

Metáforas, “fecho meus olhos e vejo minha filha boiando no rio do supérfluo”; 

        Personificação presente na figura do gato; 

        Eufemismo “idade da madureza”; 

        E na intertextualidade que aparece no saudosismo da infância de Rosa, onde esta lembra do clássico “João e Maria”, nas cirandas “O cravo e a rosa”, nas lembranças da “antiga Praça da República transformada pelo crescimento desordenado da cidade”, em trechos retirados dos mandamentos bíblicos “não julgueis e não sereis julgados” e na literatura de ficção policial “É elementar meu caro wattson”. 

        A narrativa traz como personagens redondas: Rosa Ambrósio, Rahul (o gato), Ananta Medrado e Diogo. 

      ROSA AMBRÓSIO: protagonista da narrativa, é uma atriz que vive remoendo lembranças de uma infância e adolescência infeliz. Rememora o auge da decadente carreira de atriz e na ânsia para fugir da realidade afoga-se no alcoolismo. 

        Oscila entre momento de delírios, luxúria e lucidez. A atriz foi uma pessoa muito machucada pela vida. Ferida e desconfiada, foi abandonada pelo pai logo cedo e perde o primeiro e grande amor da sua vida, o primo Miguel. A partir de então, busca consolo no ombro amigo de um até então desconhecido, Gregório, que logo viria se tornar pai da sua única filha. 

        Mãe relapsa, Rosa Ambósio mantém um relacionamento meio conturbado e preconceituoso com a filha, da qual sente ciúmes. Ela inveja a juventude e o bom relacionamento da filha com o pai. 

        Só e infeliz procura consolo nos braços do secretário e amante, Diogo. Passa então a arcar com as extravagâncias deste e aturar suas loucuras, assumindo assim uma postura masoquista. Temendo a velhice que prefere chamar de “idade da madureza”, ela procura refúgio também nas sessões de análise e na solidariedade da governanta Dionísia. 

        A atriz apresenta um comportamento ambíguo: apesar de viver de modo desregrado, crítica as futilidades da humanidade, chegando a ponto de pôr em cheques valores éticos e morais, os modismos imposto pela mídia e sua repercussão no modo de vida da sociedade. 

        A personagem não foi sempre rica; muda de vida quando recebe uma herança da tia. 

        RAHUL (o gato): também protagonista, é uma personagem personificada. Ele pensa, age, e se comporta quase como humano contando reminiscências, fazendo reflexões sobre o que acontece. Tem uma relação estranha com a atriz Rosa Medrado, a que ele chama de Rosona. Demonstra verdadeira adoração por Gregório, falecido marido de Rosa e desprezo por Diogo, o amante. Parece viver na esperança de que o falecido volte. Tanto é que consegue vê-lo passeando pela casa. Raul vive momentos de lembranças fugazes, nos quais ele acredita ter vivido outras vidas. 

        ANTAGONISTA:  É a crise existencial vivida pela atriz Rosa Ambrósio. 

        ANANTA:  Personagem de comportamento estranho, demonstra obsessão por um “homem” que ela diz morar no andar superior. É uma analista e dedica-se também ao trabalho social numa Delegacia de Proteção a Mulher. Ananta demonstra tendência para o mistério. Solitária, a analista mantém um círculo restrito de amizades (a governanta, os moradores do prédio, e a amiga Flávia), Desaparece misteriosamente sem deixar pistas. 

        DIOGO:  Era secretário de Rosa, e veio se tornar seu amante. Por ser jovem e bonito age como um gigolô, aproveitando-se das fraquezas da atriz para explorá-la, chantageando-a com suas idas e vindas. Viaja e não volta mais. 

 

        Personagens Planas 

        CORDÉLIA:  Filha de Rosa e de Gregório, a moça demonstra uma personalidade independente e atrevida. Vive a manter relacionamentos amorosos com homens mais velhos, o que choca a mãe. É adepta a modismos e indiferente a crise existencial da mãe, pois se identificava mais com o pai. 

        GREGÓRIO: Marido de Rosa e pai de Cordélia. Moço educado e professor. Conhece a esposa no dia em que está perde seu grande amor. Gregório a amava a sua maneira, mesmo assim foi traído por Rosa. Ele sabia o que se passava mais fingia ignorar. Tinha um espírito calmo tanto é que morreu quieto para não incomodar ninguém. Só demonstrava luta para defender os menos favorecidos. Foi exilado e torturado. Antecipa a morte. Sofria de mal de Parkison. 

        DIONÍSIA:  É mais que uma simples empregada. É também confidente e amiga. É aquela que busca conforto na fé, para aturar as insanidades de Rosa. 

        MIGUEL: Primo de Rosa, foi o primeiro e grande amor da vida da atriz. Ela jamais conseguiu esquecê-lo. Garoto mimado e acostumado à boa vida dos endinheirados, entra no mundo das drogas e morre de overdose. 

        RENATO MEDRADO: Aparece quase no final da trama como primo da analista. É uma personagem suspeita no caso do desaparecimento de Ananta. É através da sua visão que o leitor pode ter noção sobre a infância desta. Mostra-se bastante interessado em resgatar a amizade da prima, a qual ele demonstrou indiferença até então. Esse seu interesse levanta suspeita. Qual será o real interesse de Renato? Será que ele deseja realmente encontrar a prima Ananta? Ou o seu interesse é pelos bens que ela deixou? 

        DELEGADO: Também quer saber o que aconteceu com Ananta Medrado. 

        FLÁVIA:  Parece ser a única amiga de Ananta, mas nem ela sabe o seu paradeiro. 

 

        Outras Personagens que Aparecem no Texto:

 

        TIO ANDRÉ – Marido da tia Lucinda. 

        TIA LUCINDA – Era a mãe de Miguel. Gostava de prestar serviço à comunidade. 

        TIA ANA – Deixou a herança para Rosa. 

        LILI – de personalidade extrovertida, aparece de vez em quando na casa de Rosa. 

 

        ENREDO – O romance possui uma multiplicidade de narradores, que conta a trama de forma não ordenada. A ação começa em um capítulo, é fragmentada e só após outros capítulos ela vai ser retomada. Os desvios do enredo, embora pareçam romper o ritmo da ação, pelo contrário fazem evoluir a trama, eles são essenciais na trama. 

        A autora usa uma adequação do elemento linguagem ao vai e vem da trama, avançando e retrocedendo no entrecruzamento dos episódios, para firmar a realidade do tempo. 

        O enredo é voltado para a problemática da realidade moderna. Os conflitos são vivenciados subjetivamente, mas aparecem objetivamente como indícios da realidade caótica, atuando no desenvolvimento e equilíbrio do ser. 

        Expresso por uma linguagem plurissignificativa ele revela profunda inquietação existencial da espécie humana. As personagens vão se formando num processo fluído e de metamorfose. 

        A narrativa é centrada em momentos de vivência interior das personagens, privilegiando a subjetividade. Estas vivem em constante dilema entre o EU e aceitação da sociedade. A linguagem usada pela autora é de fundamental importância para a constituição do enredo. Este se transforma na própria vivência das personagens. É um reflexo dos seus dilemas interiores, onde se encontra uma forte desconexão entre o indivíduo e a sociedade. 

 

        TEMPO E ESPAÇO – O tempo e o espaço fundem-se na narrativa moderna. Em “As horas nuas”, o tempo é psicológico e subjetivo acompanhando o viver das personagens, por isso, “onde está o tempo está o drama”. São as vivências das personagens que vão fornecendo ao leitor, um quadro verdadeiro do ser, retratando sua fisionomia interior por meio de um fluxo constante e duradouro da consciência. O tempo e o espaço são construídos de forma dissimulada na própria vivência dos personagens 

 

        FOCO NARRATIVO – No romance em estudo, a narrativa apresenta um discurso polifônico. 

        Logo no início há a presença de um narrador em 1ª pessoa, a personagem Rosa Ambrósio. Num monólogo interior esta mergulha e descreve seu passado de dores e glórias. Ela vive uma crise existencial em busca de sua identidade, negando valores sociais vigentes e não aceitando a velhice e o fim da carreira como atriz. 

        Entro no quarto, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio e desabo em cima dessa coisa ah! Meu Pai. 

        “Licença Diu, não leve a mal, mas vou ficar um pouco por aqui mesmo...”. 

 

        Traz também há a presença de um segundo narrador, o narrador personagem, personificado na figura do gato (Rahul), Ele tece comentários a respeito das personagens, mas seu foco é sobre a figura de Rosa Ambrósio e Gregório, o qual ele demonstra verdadeira adoração ou fixação. A descrição que Rahul faz das personagens é de forma quase doentia. Ele descreve minuciosamente atos peculiares e até mesmo lê o íntimo delas. Ele chega às vezes a dar-lhes voz no discurso indireto livre, revestindo-se assim em um narrador onisciente. 

        “Falsas, pensei. Rosona veio com seu robe d’interieur e seu espelho de aumento que odiava mas não podia ficar sem ele.” 

        Começavam sempre mais ou menos assim as discussões entre os dois E que podiam evoluir rapidamente para os palavrões entremeado a de empurrões. Tapas. Ou ter o desfecho na cama. 

        Abriu as pernas bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis. 

        Os caminhos eram tortos, mas seguidos por eles Rosona acabou por acertar. Gregório escolheu sua morte antes de ser escolhido. Anteviu o que podia vi, futurou e essa futuração deve ter ido além do seu poder de suportar. 

        No quinto capítulo surge um novo narrador em 3ª pessoa. Este de fora passa a apresentar e descrever minuciosamente a personagem Ananta Medrado, uma analista misteriosa, metódica e de personalidade calma e reservada. 

        “O consultório de Ananta era de uma profissional sem vaidade”. Disciplinada... A flanela estava dobrada no canto da gaveta. Passou-a nos poucos objetos e nenhum supérfluo. 

        -- Tenho um Vizinho... Agora não quero pensar no professor com seus teoremas. Era a vez do Vizinho. 

        Ananta foi até a janela e afastou a cortina para ver o céu... Depois da sessão poderia ir (andando) até a delegacia da mulher. Dessa mulher pela qual pode fazer tão pouco. Tão especialmente pela mocinha com os seios furados. 

        No decorrer da trama, outros capítulos são narrados em 3ª pessoa, há mais ações e diálogos. É feita a descrição de ambientes enquanto as cenas se desenrolam. O narrador conta o desaparecimento de Ananta Medrado, a viagem de Diogo, o aparecimento do primo da analista e o internamento de Rosa em uma clínica de recuperação. 

        Subo na poltrona. O quarto esta escuro, mas vejo Rosa Ambrósia... no coração das três mulheres. 

        Mãe querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia. 

        Hoje não acordei brilhante. A Diu leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros que é um horror. 

        “O delegado da delegacia de pessoas desaparecidas estava tomando café” Renato Medrado parou... 

        -- Não usava joias, se tem alguma deve estar no cofre... Dólar? Não sei dizer. O carro... 

 

Bibliografia: LOBO, Luiza. A ficção impressionista e o fluxo de Consciência (Joyce, V. Woolf, Proust). In: VASSALO, Ligia (Org.). A narrativa ontem e hoje. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

Entendendo o romance:

 

01 – Como se caracteriza a estrutura do enredo e a representação do tempo e do espaço na obra?

      O romance apresenta um enredo fragmentado e não ordenado, que se desenvolve por meio de múltiplos narradores. As ações começam em um capítulo, são interrompidas e retomadas posteriormente. Na narrativa moderna da autora, o tempo é psicológico e subjetivo, fundindo-se com o espaço através do fluxo de consciência das personagens. As descontinuidades e os desvios temporais (avanços e retrocessos) servem para refletir os dilemas e conflitos interiores das personagens em sua relação caótica com a sociedade.

 

02 – Quem é Rosa Ambrósio e quais são os principais conflitos existenciais que ela enfrenta?

      Rosa Ambrósio é a protagonista da obra, uma atriz decadente que vive atormentada pelas lembranças de uma infância infeliz e marcada por perdas, como o abandono do pai e a morte por overdose de seu primeiro amor, o primo Miguel. Seus principais conflitos incluem a recusa em aceitar a velhice (que chama pelo eufemismo de "idade da madureza"), o fim de sua carreira artística, o alcoolismo no qual se afoga para fugir da realidade e um relacionamento amoroso masoquista e de exploração com seu jovem secretário, Diogo.

 

03 – Qual é o papel de Rahul na narrativa e como se justifica sua classificação como uma "personagem personificada"?

      Rahul é um gato e um dos protagonistas do romance. Ele é uma personagem personificada porque pensa, age, se comporta e reflete quase como um ser humano. Ele tece comentários minuciosos sobre os moradores da casa, lê o íntimo das pessoas e chega a manifestar uma onisciência por meio do discurso indireto livre. Rahul idolatra o falecido marido de Rosa, Gregório (a ponto de ver seu fantasma passeando pela casa), despreza o amante Diogo e acredita ter vivido outras encarnações em vidas passadas.

 

04 – Como é descrita a relação entre Rosa Ambrósio e sua filha Cordélia?

      É um relacionamento conturbado, relapso e marcado pelo preconceito e pelo ciúme. Rosa inveja a juventude de Cordélia e o forte vínculo que a filha mantinha com o pai, Gregório. Além disso, Cordélia possui uma personalidade independente e atrevida que choca a mãe, especialmente por manter relacionamentos com homens mais velhos e demonstrar total indiferença em relação à crise existencial e emocional vivida por Rosa.

 

05 – Quem é Ananta Medrado e qual mistério envolve sua trajetória no romance?

      Ananta Medrado é uma analista de comportamento estranho, metódica, disciplinada e solitária, que também realiza trabalho social em uma Delegacia de Proteção à Mulher. Ela demonstra uma tendência para o mistério e possui uma obsessão por um homem que afirma morar no andar superior de seu edifício (o "Vizinho"). O grande mistério em torno de sua trajetória é o seu desaparecimento repentino, que ocorre sem deixar pistas, mobilizando um delegado e levantando suspeitas sobre o real interesse de seu primo, Renato Medrado, em encontrá-la ou herdar seus bens.

 

06 – De que forma o discurso polifônico se manifesta através dos diferentes focos narrativos da obra?

      A polifonia se constrói pela alternância de três tipos de focos narrativos ao longo do texto:

      Narrador em 1ª pessoa (Rosa Ambrósio): Expressa-se por meio de monólogos interiores no início do livro, revirando seu passado de dores e glórias.

      Narrador-personagem personificado (Rahul, o gato): Narra de forma quase doentia e minuciosa a intimidade de Rosa e seu amante, alternando momentos de testemunha com os de narrador onisciente.

      Narrador em 3ª pessoa: Introduzido a partir do quinto capítulo para descrever o consultório e a rotina de Ananta Medrado, além de conduzir as investigações sobre o sumiço da analista, o internamento de Rosa e a partida de Diogo.

 

07 – O texto menciona que o romance possui uma linguagem "plurissignificativa". Quais figuras de linguagem e elementos de intertextualidade exemplificam essa característica?

      A linguagem plurissignificativa se manifesta através de:

      Estrangeirismos: Termos como "Hasta siempre", "illustration" e "Formes et couleurs".

      Figuras de Linguagem: Metáforas (como Rosa ver a filha "boiando no rio do supérfluo"), personificação (atribuída às ações do gato Rahul) e eufemismo (a expressão "idade da madureza" para evitar a palavra velhice).

      Intertextualidade: Referências ao conto infantil "João e Maria", às cantigas de roda ("O cravo e a rosa"), a trechos bíblicos ("não julgueis e não sereis julgados"), à transformação urbana da Praça da República e à clássica frase da literatura policial "É elementar, meu caro Watson".

 

 



POEMA: FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Falo de Ti às Pedras das Estradas

           Florbela Espanca

 

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

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Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço! 

 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – A quem o eu lírico se dirige para falar sobre a pessoa amada e qual é o efeito dessa escolha no poema?

      O eu lírico dirige seu desabafo amoroso aos elementos da natureza e do cenário ao seu redor: as pedras das estradas, o sol, o rio, as gaivotas, os mastros dos navios e o luar. O efeito dessa escolha é mostrar a grandiosidade e o transbordamento do sentimento. O amor é tão intenso que o eu lírico não consegue guardá-lo para si, projetando a figura da pessoa amada em absolutamente tudo o que vê, transformando o mundo inteiro em testemunha de sua paixão.

 

02 – No primeiro quarteto, que associações o eu lírico faz entre a pessoa amada e os elementos da natureza (o sol e o rio)?

      O eu lírico utiliza uma comparação e uma metáfora visual:

      O Sol: É descrito como "louro como o teu olhar", associando o brilho, o calor e a cor dourada do sol à beleza e à luz dos olhos da pessoa amada.

      O Rio: Suas águas, ao refletirem a luz e faiscarem, são metaforizadas como "vestidos de princesas e de fadas", conferindo uma atmosfera mágica, encantada e aristocrática ao cenário.

 

03 – Que sentimentos e sensações são sugeridos pelas imagens das gaivotas e dos mastros no segundo quarteto?

      O segundo quarteto introduz uma transição para sentimentos de saudade e solidão. As gaivotas de asas abertas lembram "lenços brancos a acenar", uma imagem poética tradicionalmente ligada à despedida, à distância e à espera. Logo em seguida, a forte imagem dos mastros que "apunhalam o luar" traz uma sensação de dor sutil ou de angústia que corta a calmaria, reforçada pelo verso final que fala explicitamente na "solidão das noites consteladas".

 

04 – Como o primeiro terceto expressa a elevação desse amor através da metáfora da "torre dos meus beijos"?

      O terceto mostra um amor que triunfa e se agiganta. Ao descrever a alma do ser amado como "tonta de vitória", o eu lírico indica o impacto arrebatador que essa paixão causa. A metáfora da "torre dos meus beijos" que se levanta ao céu simboliza uma construção monumental, vertical e sagrada. É a ideia de um amor que não é terreno ou mundano, mas que se eleva em direção ao infinito e ao divino.

 

05 – De que maneira o soneto é encerrado no último terceto e qual é o significado da metáfora cósmica final?

      O poema atinge seu ápice expandindo o sentimento para uma dimensão universal e celestial. Os "gritos de amor" do eu lírico são tão fortes que cruzam o espaço sideral e se transformam em "astros que me tombam do regaço" (estrelas que caem do seu colo). Essa metáfora cósmica traduz tanto a escala infinita e brilhante do amor quanto o cansaço ou o desabamento emocional do eu lírico, que gera mundos e estrelas através de sua própria dor e paixão, mas que vê essa imensidão desabar sobre si.

 

 

POEMA: PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Perdi os meus fantásticos castelos

             Florbela Espanca

 

Perdi meus fantásticos castelos 

Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

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Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas”.

 

Entendendo o poema:

 

01 – O que representam os "fantásticos castelos" e as "galeras" que o eu lírico afirma ter perdido?

      Os "fantásticos castelos" e as "galeras" funcionam como metáforas para os sonhos, idealizações, grandes ambições e projetos de vida do eu lírico. A perda desses elementos simboliza a destruição de suas ilusões e de suas expectativas de felicidade, que se desfizeram "como névoa distante" ou se afundaram em um "mar de bruma", restando apenas o vazio.

 

02 – No primeiro quarteto, como o eu lírico descreve a sua postura diante da perda de seus castelos?

      O eu lírico deixa claro que não aceitou a derrota passivamente de início. Ele expressa uma postura de resistência e combate através da repetição do verbo "querer" ("Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los"). No entanto, o esforço foi em vão e resultou em esgotamento absoluto, o que é simbolizado pelo verso: "Quebrei as minhas lanças uma a uma!".

 

03 – Qual é a justificativa apresentada no segundo quarteto para o naufrágio das "galeras entre os gelos"?

      O eu lírico justifica o naufrágio apontando a existência de obstáculos invisíveis ou imprevisíveis no caminho, expressando sua impotência por meio de uma pergunta retórica: "— Tantos escolhos! Quem podia vê-los? —". Os "escolhos" (rochedos ocultos na água) e a "bruma" (nevoeiro) representam as armadilhas e as dificuldades imprevistas da vida que tornaram a derrota inevitável.

 

04 – O primeiro terceto traz uma lista de objetos medievais (taça, anel, cota de aço, corcel, elmo de ouro). Qual é o efeito dessa enumeração no poema?

      Essa enumeração reforça a temática da destituição e do despojamento total. Ao listar a perda de itens de valor material e simbólico (como o elmo de ouro e as pedrarias) e de defesa (como a cota de aço), o eu lírico constrói a imagem de um guerreiro que foi completamente desarmado, destronado e despido de suas glórias e proteções.

 

05 – Como o soneto é concluído no último terceto e qual é o sentimento final do eu lírico?

      O poema é concluído com uma forte sensação de angústia física, desespero e desamparo. O eu lírico descreve uma dor sufocante ("Sobre o meu coração pesam montanhas") e uma necessidade quase irracional de socorro ("Sobem-me aos lábios súplicas estranhas"). O texto encerra-se com uma imagem de absoluto choque diante da realidade do próprio fracasso: "Olho assombrada as minhas mãos vazias...".

 

domingo, 21 de junho de 2026

CONTO: O CAPOTE III - PARTE 3 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE III – PARTE 3

          Nicolai Gogól

 

        Ao entrar na antecâmara, Acaqui Acaquievich viu uma fila de taças. Entre estas, a meio do compartimento, fervia um samovar, que espargia volutas de vapor. Pelas paredes estavam pendurados os vários capotes e agasalhos, alguns dos quais tinham golas de castor ou de veludo. Ouviam-se por detrás da parede ruídos e diálogos, que se tornaram mais próximos quando um criado abriu a porta e saiu com chávenas e taças vazias, uma compoteira e uma bandeja com pastéis. Concluía-se que os funcionários se encontravam reunidos já há algum tempo e que acabavam de tomar a primeira chávena de chá.

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        Acaqui Acaquievich despiu o capote sozinho e penetrou no salão; ante ele resplandeceram as velas, os funcionários, os cachimbos, as mesas de jogo, e surpreenderam-no confusamente os diversos ruídos; ouvia-se em todas as direções rumor de conversas e movimentos de cadeiras.

        Permaneceu atônito no centro do salão, pensando no que devia fazer. Mas já tinham reparado nele; rodearam-no, com alguns gritos, e levaram-no à antecâmara, para que lhes mostrasse o capote. Acaqui Acaquievich encontrava-se um tanto aflito, mas, como homem de bom coração, não pôde deixar de alegrar-se ao ver como todos elogiavam o seu capote. Depois, claro está, deixaram-no a ele e ao seu capote e voltaram para as mesas de jogo.

        Tudo aquilo – ruído, conversação, grande número de convivas – era para Acaqui Acaquievich como que um sonho. Não sabia verdadeiramente o que experimentava, nem onde havia de colocar as mãos, os pés, o seu próprio ser; por último, aproximou-se dos jogadores, olhou as cartas, contemplou ora um, ora outro, e pouco depois começou a bocejar, sentindo que se aborrecia, tanto mais que havia passado há muito a hora a que costumava deitar-se. Quis, por conseguinte, despedir-se do dono da casa, mas não lho consentiram, alegando que tinha de beber uma taça de champanhe em honra do novo elemento da sua indumentária.

        Uma hora mais tarde foi servida a ceia, composta de fiambre, vitela, empada, pastéis e champanhe. Acaqui Acaquievich teve de beber duas taças, sentindo que, depois delas, se tornava ainda mais alegre e ruidoso tudo quanto o cercava; entretanto, não se esqueceu de que dera já a meia-noite, e, portanto, muito tarde para estar fora de casa.

        A fim de que ninguém o obrigasse a permanecer ali, saiu silenciosamente do salão e procurou o seu capote, que, não sem íntimo desgosto, encontrou caído no chão; apanhou-o, sacudiu-o, limpou-o, pô-lo pelos ombros, desceu as escadas e encontrou-se ao ar livre.

        Na rua tudo estava iluminado. Algumas tabernas (que são os clubes dos porteiros e gente parecida) achavam-se ainda abertas; das outras, já fechadas, saiam longos feixes de luz por entre os interstícios das portas, mostrando que não estavam sem freguesia, criados certamente que se entretinham a falar e a dizer mal dos patrões.

        Acaqui Acaquievich caminhava com alegre disposição de ânimo e quase se sentiu capaz de correr atrás de uma dama que passou veloz por diante dele, dama cujo corpo se lhe afigurou extraordinariamente flexível. Dominou-se, no entanto, e prossegui muito lentamente, admirado de si próprio. 

        Em breve se estenderam ante ele as ruas desertas, onde de dia não se notava alegria alguma, quanto mais de noite. Apareciam-lhe agora mais profundas e isoladas, luziam os candeeiros cada vez menos, porque já o azeite se ia esgotando; começavam a surgir as casas de madeira dos bairros mais pobres; em parte alguma se via vivalma; a única luz era agora a que refletia a neve do chão; e sobre a neve recortavam-se lugubremente as sombras das baixas choupanas, de janelas cerradas. Aproximava-se do lugar em que a rua desembocava numa praça enorme, mal se podendo ver as casas do outro lado, como se se tratasse de um terrível deserto.

        Ao longe (só Deus sabe onde!) brilhava o fogo de alguma guarita, que parecia encontrar-se nos confins do mundo. A boa disposição de Acaqui Acaquievich passara já. Penetrou na praça, não sem certo terror, como se o seu coração pressentisse perigo. Olhou para trás de si e para o lado; em volta via-se apenas o espaço deserto. "É melhor não olhar", pensou.

        Continuou a avançar, de olhos fechados. Quando os abriu, para ver se estava já próximo do outro extremo da praça, observou que tinha diante de si gente de bigode. Mas nada mais pôde distinguir. Toldaram-se-lhe os olhos e recebeu uma pancada no peito. "Este capote é meu!", disse um dos homens, agarrando-lhe pela gola. Acaqui Acaquievich quis ainda gritar: "Ó da guarda!", mas o outro colocou-lhe a mão na boca e disse: "Desgraçado de ti se gritas!" O nosso herói só se deu conta de que lhe arrancavam o capote e de que lhe davam um violento pontapé. Caiu então de costas na neve e nada mais sentiu. 

        Voltou a si minutos depois, mas já não viu ninguém. Sentindo a frialdade do chão e a falta do capote, começou a gritar; parecia, entretanto, que a sua voz se perdia naquela praça enorme e não atingia o outro lado. 

        Desesperado, sem parar de gritar, pôs-se a correr em direção à guarita, atrás da qual estava um soldado apoiado à sua arma; parecia perguntar-se, com curiosidade, quem diabo era aquele que vinha assim a correr e a gritar com voz humana. 

        Acaqui Acaquievich chegou, ofegante, junto dele e começou, com voz aguda, a clamar que se tinha embriagado e que nada mais sabia senão que dois homens o tinham roubado. O soldado replicou nada ter visto; tinha observado apenas que dois homens o deixavam no meio da praça, mas supusera que eram seus amigos; acrescentou que, em vez de queixar-se ali, em vão, devia ir no dia seguinte à esquadra, onde por certo investigariam acerca de quem lhe roubara o capote.

        Acaqui Acaquievich dirigiu-se para casa num estado lamentável: os cabelos, que ainda lhe restavam, em pequenas quantidades, nas têmporas e na nuca, totalmente desgrenhados; o peito, as costas e as calças cobertos de neve. 

        A velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir aquela, segurando pudicamente a camisa contra os seios; mal abriu, ao ver Acaqui Acaquievich, esqueceu o seu pudor. 

        Quando o hóspede contou o que lhe sucedera, ela cruzou as mãos de espanto e disse ser preciso recorrer sem demora ao capitão da polícia, "porque o tenente nada mais faz que ouvir, fazer muitas promessas e dar tempo ao tempo"; melhor era ir diretamente ao capitão, de quem ela tinha boas informações, pois Ana, que fora sua cozinheira estava agora de ama em casa dele. Acrescentou que o via muitas vezes, principalmente ao domingo, na igreja, onde rezava com muita devoção e, ao mesmo tempo, olhava amigavelmente para toda a gente, parecendo um homem bondoso.

        Depois de ouvir este conselho, Acaqui Acaquievich, amargurado, retirou-se para a sua habitação. Como ele passou a noite... compreendê-lo-á quem tenha capacidade de se imaginar na situação de uma outra pessoa.

        Na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se ao Comissariado, mas disseram-lhe que o capitão estava ainda a dormir; foi às dez e disseram-lhe outra vez: "Está a dormir"; foi às onze e responderam-lhe: "Não está"; à hora de comer... Mas os amanuenses não lhe consentiam de maneira nenhuma vê-lo, e queriam saber exatamente do que se tratava e o que acontecera; de maneira que Acaqui Acaquievich quis provar, uma vez na vida, que tinha energia e disse, com ar decidido, que precisava de falar ao inspetor, que contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.

        O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror.

        A conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste gênero: "Como se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. 

        Se tratava com iguais, era um homem correto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como consequência de tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o homem que se aborrece".

 

Nicolai Gogól. Parte 3. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

01 – Como foi a reação dos funcionários da repartição ao verem o novo capote de Acaqui Acaquievich na festa?

      Os funcionários rodearam Acaqui com gritos assim que ele chegou e o levaram até a antecâmara para que mostrasse a nova vestimenta. Eles elogiaram bastante o capote, o que deixou Acaqui aflito, mas intimamente alegre. Logo após os elogios, no entanto, eles perderam o interesse e voltaram rapidamente para as mesas de jogo.

 

02 – Por que Acaqui resolveu ir embora da festa antes dos demais convidados e o que ele notou de desagradável ao pegar o seu capote?

      Ele resolveu ir embora silenciosamente porque já passava da meia-noite, horário muito tardio para ele, e sentia-se aborrecido e com sono observando o jogo. Ao procurar seu capote, sofreu um íntimo desgosto ao encontrá-lo jogado no chão; ele precisou apanhá-lo, sacudi-lo e limpá-lo antes de vestir.

 

03 – Como o cenário urbano se transforma enquanto Acaqui caminha de volta para casa e como isso afeta o seu estado de espírito?

      Inicialmente, ele caminha por ruas iluminadas e animadas, mantendo uma alegre disposição. Gradualmente, ele entra em ruas desertas, escuras (pois o azeite dos candeeiros estava no fim) e com habitações miseráveis de madeira. A alegria desaparece e dá lugar ao terror ao chegar a uma praça enorme e vazia, que lhe parecia um "terrível deserto" onde mal se viam as casas do outro lado.

 

04 – Como ocorreu o assalto a Acaqui Acaquievich e qual foi a reação do soldado que vigiava a guarita próxima?

      No meio da praça deserta, dois homens de bigode o interceptaram. Um deles desferiu uma pancada no peito de Acaqui e o segurou pela gola dizendo: "Este capote é meu!". Quando Acaqui tentou gritar por socorro, taparam-lhe a boca, ameaçaram-no, arrancaram-lhe o capote e deram-lhe um violento pontapé, deixando-o desmaiado na neve. O soldado da guarita afirmou não ter visto o crime; ele apenas notou dois homens deixando Acaqui na praça, mas achou que eram amigos dele.

 

05 – Qual foi o conselho dado pela velha patroa de Acaqui ao saber do roubo e qual era a justificativa dela para evitar o tenente?

      Ela aconselhou Acaqui a ir diretamente falar com o capitão da polícia. A justificativa era que o tenente apenas ouvia, fazia promessas e "dava tempo ao tempo", sem resolver nada. Ela recomendou o capitão por saber, através de uma ex-cozinheira, que ele era um homem bondoso e devoto, que olhava amigavelmente para todos na igreja.

 

06 – Que dificuldades Acaqui enfrentou na manhã seguinte ao tentar relatar o roubo no Comissariado?

      Acaqui foi ao Comissariado várias vezes desde muito cedo, mas em todas as ocasiões os amanuenses davam desculpas: primeiro que o capitão estava dormindo, depois que não estava. Os funcionários recusavam-se a deixá-lo entrar e queriam saber todos os detalhes antes. Acaqui só conseguiu ser atendido quando, num raro momento de energia, ameaçou queixar-se deles diretamente ao inspetor.

 

07 – Como o narrador descreve o caráter da "alta personalidade" e de que maneira o cargo de general afetou o comportamento desse homem?

      O fundamento principal do sistema da "alta personalidade" era a palavra "disciplina", usada para aterrorizar os subordinados com arrogância e frases autoritárias. Apesar de ser um homem de bom coração com seus iguais, a patente de general fez com que ele perdesse o senso comum. Ele tornou-se hirto, artificialmente distante e silencioso com os inferiores por medo de que a familiaridade fizesse sua dignidade perigar, o que o tornou um homem eternamente isolado e conhecido como "o homem que se aborrece".