domingo, 23 de agosto de 2026

POEMA: NEVOEIRO - FRAGMENTO - FERNANDO PESSOA - COM GABARITO

 Poema: NEVOEIRO – Fragmento

           Fernando Pessoa

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer —

Brilho sem luz e sem arder

Como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJaTKL7eQf4eqhgDFwfabw-TsZNgkggfC8BMliCty9F4kv0Rkc-MgByqyHsZdCsEyAH0Ep9bfkNyCgN76MToUDYOKcc8LygqhXunqvYXcN4EIYf_KQL6MP_SsdUBaptUTg9mEeDvOalk0I2nTm3RZj9c-rrNDsZudDDhRKc-LrPoqsoKYDq0DItXufT-k/s320/images.jpg 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

 

É a hora! [...].

Fernando Pessoa. In: Obra poética (com atualização ortográfica). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 89.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 94.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema "Nevoeiro" e qual é o estado de Portugal descrito pelo poeta?

      O tema central é a decadência, a indefinição e a perda de identidade da nação portuguesa em seu presente histórico. O poeta descreve Portugal como um país num estado de torpor, incerteza e estagnação, simbolizado pela imagem do "nevoeiro" — uma atmosfera em que "tudo é disperso" e "nada é inteiro".

02 – O que significa a metáfora do "fogo-fátuo" na primeira estrofe?

      O "fogo-fátuo" é um brilho ilusório, sem luz real e sem calor para aquecer ou transformar ("brilho sem luz e sem arder"). A metáfora reflete a situação de Portugal, que vive de glórias do passado, mas na atualidade apresenta apenas um brilho falso e sem força vital, representando o "fulgor baço da terra".

03 – Como os anáforas e as negações ("Nem...", "Ninguém...", "Tudo...") contribuem para o sentido da segunda estrofe?

      O uso repetido de termos negativos e generalizantes reforça a ideia de indefinição, ignorância e crise moral que assola o povo. Ao dizer que "ninguém sabe", "ninguém conhece" e que "tudo é incerto", Pessoa enfatiza o extravio da alma coletiva portuguesa e o desorteio espiritual e político da nação.

04 – Qual é o significado simbólico do verso final "É a hora!" dentro do contexto da obra Mensagem?

      O verso "É a hora!" representa o chamado para o despertar e para a regeneração espiritual da nação. Apesar do cenário desolador do "nevoeiro", a expressão marca o ápice do Sebastianismo: o momento de superação da estagnação para a construção de um novo império espiritual (o Quinto Império).

05 – Em qual das três partes da obra Mensagem o poema "Nevoeiro" está localizado e qual a sua importância estrutural?

      "Nevoeiro" é o poema que encerra a terceira e última parte do livro Mensagem, intitulada "O Encoberto". Sua importância estrutural reside no fato de fechar o ciclo de glorificação do passado e constatação da decadência presente, deixando a porta aberta, na última linha, para o futuro redentor de Portugal.

 

CRÔNICA: HOJE EU ESTOU MEIO ROMÂNTICO - FRAGMENTO - MÁRIO PRATA - COM GABARITO

 Crônica: HOJE EU ESTOU MEIO ROMÂNTICO – Fragmento

             Mário Prata

        Foi numa grande festa na pequena cidade que o fato se deu.

        O grande homem, olhando a pequena mulher, pensou:

        -- Que pequena.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhAsnE2r9ORwFnvVoLkUl2pkbhVg8SwV1eYshCSzBYHLYdlEl0LcicLD7pUhaow8ec3tAOENDQLg88RwVv8iwLWVxkW1-I9SaN-yb1Nil_nt5xTU7rRjPfB9EpRMLPUdYGJzXAON6-SXSzcvrZF7Rp9lav53OfJq9lxJKMQldaEYBvv7KQ0QIlwbwmtt1M/s320/images.jpg


        A pequena mulher, sentindo os grandes fluidos em sua cabeça, pensou:

        -- Grande.

        Pequenas piscadas, grandes sorrisos, uma só cumplicidade.

        E foi assim que eles foram.

        Ele pegou nas pequenas mãos da mulher com sua grande mão.

        Com seus grandes olhos, procurou os pequenos dela, grande ternura, pequena timidez.

        Com o grande dedo da grande mão direita passou, levemente, uma pequena alegria para os pequenos lábios do pequeno sorriso.

        Ele sorriu, mostrando dois grandes dentes e deu um beliscão no pequeno nariz que ficou vermelho como o pequeno coração que disparou dentro do seu pequeno corpo.

        [...].

Mário Prata. Hoje eu estou meio romântico. In: 100 crônicas. São Paulo: Cartaz Editorial,1997. p. 23.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 43.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o recurso estilístico (figura de linguagem) predominantemente explorado no texto para descrever os personagens e suas ações?

      O texto utiliza predominantemente a antítese e a oposição semântica entre as palavras "grande" e "pequena/pequeno". O autor contrapõe constantemente as dimensões físicas e as sensações do "grande homem" e da "pequena mulher" para criar ritmo e expressividade na crônica.

02 – Onde e em qual contexto ocorreu o encontro entre os dois personagens principais?

      O encontro aconteceu durante uma grande festa realizada em uma pequena cidade.

03 – Como os personagens reagem ao se olharem pela primeira vez?

      A reação inicial ocorre no plano do pensamento e da atração mútua: o homem olha para a mulher e pensa "Que pequena", enquanto a mulher, sentindo os sentimentos/fluidos dele, pensa "Grande". A partir disso, trocam "pequenas piscadas" e "grandes sorrisos", estabelecendo uma cumplicidade imediata.

04 – De que forma o autor descreve o gesto de carinho e afeto feito pelo homem nos lábios da mulher?

      O autor descreve que o homem, com o grande dedo de sua grande mão direita, passou levemente uma pequena alegria para os pequenos lábios do pequeno sorriso dela.

05 – O que provoca a alteração física na mulher no final do trecho (o nariz vermelho e o coração disparado)?

      A alteração ocorre quando o homem sorri (mostrando dois grandes dentes) e dá um beliscão no pequeno nariz da mulher. Isso faz com que o nariz fique vermelho e o coração dela dispare de emoção/timidez dentro do seu pequeno corpo.

 

 

CONTO: HOMENAGEM AO PAPAGAIO VERDE - FRAGMENTO - JORGE DE SENA - COM GABARITO

 Conto: Homenagem ao papagaio verde – Fragmento

          Jorge de Sena

        Era verde e velho. Pelo menos, antigo. E ocupa na minha memória – junto com uma galeria indistinta e confusa de gatos tigrados e «preparados» pelo amola-tesouras-e-navalhas (mais tarde, esse primeiro mistério da minha infância passou a ser celebrado na Escola de Medicina Veterinária, já com os requintes da assepsia), e todos chamados «Mimosos» tão onomasticamente como os papas são Pios – o mais arcaico lugar reservado a uma personalidade animal. Digo personalidade, e bem, porque ele a tinha, e porque foi mesmo, para lá das surpresas contraditórias das «pessoas grandes», tão caprichosas e volúveis, tão imprevisíveis, tão ilógicas, tão hipocritamente cruéis, a revelação de um carácter. Não tinha nome: era o Papagaio, e parecia-me, porque falava, um ser maravilhoso. Depois, e a chegada desse outro eu recordo, meu pai trouxe das Áfricas um papagaio cinzento. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQu02YNIHjvbWLz5aAwxuUe31UYqTG2rZs3iP-ELIP4iC6FlWRYKvv6wIOGMXGsQTOSdw9xFIV5zeqHygfplwvMsf7FkTBUzs9F_BuO0zdwGZqZAaJMiJfoZK6B_ovrVsx2V3f-vminGldNTt91lJDOdpE0CDukH3yGka6V9pFRqxOUvb1qmM3GvEaL1U/s320/images.jpg


O papagaio por excelência passou a chamar-se o Papagaio Verde, e vivia de gaiola pendurada numa das varandas em que, por um tapume de madeira, estava dividida a varanda das traseiras da minha casa, cabendo uma parte à cozinha e outra à sala de jantar. Uma das reivindicações políticas da minha infância foi a troca de uma situação injusta que confinava o Papagaio Verde à «varanda da cozinha». Na da sala de jantar, a que era mais próxima da rua, vivia o Papagaio Cinzento. Este, menos esplendoroso e menos corpulento, menos vaidoso também das suas cores baças, morreu depois do Verde, ave grande, vistosa, transbordante de presunção e dignidade; e, apesar de ter tido muito mais do que o Verde o dom da palavra (usando-o, todavia, com menos humor involuntário), não o recordo tão distintamente como a imagem do outro, à qual a sua viera sobrepor-se à maneira de um negativo, uma sombra, um apagado duplo, na imprecisão focal da memória a desfocar-se por ele. De resto, o Cinzento era sujeito retraído e friorento, que ficava encolhido a resmonear o reportório variado, sem manifestar por alguém qualquer predileção afetiva; tinha apenas de simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão muito dócil do resignado e acorrentado escravo. O Verde, pelo contrário, era exuberante, de amizades apaixonadas e de ódios vesgos, sem continuidade nem obstinação. Minto: essas amizades e ódios, não continuados nem firmes, faziam parte do seu carácter expansivo e espetacular. Mas, com o andar do tempo, começaram a refinar numa aversão coletiva, azeda e ruidosa, ou concretizada num bico de respeito, que, traiçoeiramente, na frente de uma adejada revoada verde, se apoderava cerce de um dedo, uma canela, uma madeixa de cabelo. A contrapartida deste crescente pessimismo em relação ao género humano (no qual ele incluía, com um desprezo que raiava o absurdo, o Cinzento) foi uma dedicada e veemente amizade por mim. No mundo hostil dos adultos que me cercavam de solicitude e clausura, o Papagaio Verde, afinal, não me revelou apenas o que era carácter: ensinou-me também o que a amizade é.

        [...].

        Foi por essa altura que a nossa amizade se estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta e janela fechada em pleno sol e de passos leves das criadas, durante a vigência da qual eu – esquecido, ou mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando saía lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me chamava muito – eu ficava mais livre, entretidas as criadas numa escuta maliciosa ou no «far niente» das tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e logo, quase sem transição, passavam à violência do temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos, frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha mãe, até que, num repente, a porta abria-se para as criadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito pálida, soltava leves ais de mão no coração. Eu esgueirava-me pelo meio do tumulto, sem que ninguém reparasse em mim, e era em geral minha mãe, abrindo os olhos, quem me enxergava, suspirava mais soluçadamente, e estendia para mim mãos trémulas e dramáticas que solicitavam a minha conivência, a minha aliança, e das quais eu recuava tonto, com repugnância. E era meu pai quem me empurrava para elas, como uma espécie de plenipotenciário, encarregado de negociar a paz de uma guerra cujas causas eu não entendia, mas de que me sentia, sem o saber, o campónio que vê os exércitos inimigos devastarem-lhe a seara, uma pequena horta, um pobre jardim. Aliás, por isso, a situação de plenipotenciário tinha, pela jogada impotência e pela passividade disputada, muito mais de um refém que de um embaixador. Ninguém me perguntava ou me ensinava a perguntar o que eu queria ou o que eu pensava; e ambos, como os aliados, e os pacificadores, as terceiras forças de «cruz vermelha» e neutralismo, que às vezes eram invocadas (quando não eram arrastadas nos acontecimentos), afinal me ignoravam. E, tão depressa quanto era empurrado para os braços trémulos, era retirado deles e posto de lado, fora da porta, como a bandeira branca que, depois de brandida e de surtir efeito, fica no chão, entre os cadáveres, as cápsulas, o lixo das guerras modestas e localizadas.

        Eu ia para a varanda conversar com o Papagaio Verde, não para lhe contar desditas que claramente não entrevia, mas para comungar numa idêntica solidão acorrentada. Eu saía muito pouco, a rua era-me proibida, primos meus vinham às vezes brincar comigo. As brincadeiras, porém, constantemente interrompidas por minha mãe, a quem era preciso pedir licença para ir buscar ao «quarto escuro» o caixote dos brinquedos (o «quarto escuro» era, também, o misterioso reduto-alcova das criadas, cuja intimidade constituía outro mistério estranho), não tinham graça nem entusiasmo, e degeneravam sempre em brigas sem motivo, em que se opunham o meu anseio de brincar tudo ao mesmo tempo, e a absorção com que meus primos se dedicavam exclusivamente a algum instrumento de brincar, que eles não possuíssem e os seduzisse mais. Quando essas brigas estalavam, minha mãe mandava-os embora, e eu ficava dias e dias remoendo uma autoritária cólera insatisfeita, e esperando (de ideia fixa e numa insistência cuidadosa, para que minha mãe logo a não contrariasse) que eles voltassem. Fui, por extensão, pouco a pouco, sem cálculo nem método, conquistando o Papagaio Verde, e, ao mesmo tempo, o respeito já lendário que ele impusera à sua volta. Sem largar o poleiro, e olhando ironicamente para o meu dedo, ele dava-me o pé; cantava comigo, aceitava da minha mão alguma das coisas, como um talo de couve, que ele apreciava. Fui descobrindo que, na verdade, ele não apreciava muito esses talos que, solícito, eu lhe metia no pé. Mais por delicadeza que por gosto, mais para aproveitar a oportunidade de despedaçar metodicamente um objeto (que a gaiola com poleiro de folha, e a distância a que era posto de quanto fosse roível, não lhe consentiam), é que ele aceitava essas dádivas. Não as comia; com bicadas certeiras e calmas, que intercalava de laterais olhadelas para mim, partia tudo em bocadinhos que tombavam na gaiola ou no chão. Terminada a cerimónia, descia do poleiro, e continuava na borda da gaiola uma segunda fase que era escolher dos caídos pedaços, aqueles que ainda podiam ser, sem muito esforço, reduzidos a tamanho menor. Contemplava, então, de olho grave e atento, a extensão da devastação que fizera. Então, abrindo as asas e esticando o pescoço, sacudia-se de penas eriçadas, catava no alto da poupa azul um piolhinho (para o que erguia, à cabeça baixa, um dedo cuja unha coçava suavemente por entre as penas), sacudia-se de novo, subia para o poleiro, assentava-se nele, assentava nos ombros a cabeça, e fechava os olhos. Era o sinal de que eu me retirasse, de que a minha visita acabara. Com a ponta da vassoura, após esperar que a respiração dele fosse pausada e funda no peito verde, eu tocava-lhe. Ele fazia de conta que não dava por isso, era preciso tocar-lhe vezes seguidas, enfiar-lhe o cabo da vassoura por baixo das asas. Até que tudo isto se repetia como uma cena previamente ensaiada entre nós. Fingindo-se ele distraído e indiferente, retraído e alheio, eu teimava com o cabo da vassoura; e ele, subitamente, disparava um voo circular na ponta da corrente, pousava de esguelha no pau empinado, com as asas semiabertas numa imitação de procurado equilíbrio, e cantava, gargalhando e dando estalinhos com a língua.

        [...]

        Certa manhã, quando me levantei, havia na cozinha um movimento desusado, gritos, uma atmosfera de pânico. Provavelmente, essa atmosfera despertara-me. Fui ver. O Papagaio Verde estava solto! Passeando para cá e para lá no chão, arrastando uma ponta de corrente, o Papagaio proibia que a porta da varanda se abrisse, e esvoaçava ameaçador contra a greta que nas portadas as criadas tentassem. Eu queria passar para fora, minha mãe que acudira ao tumulto segurava-me, o Papagaio berrava. As criadas repetiam que ele fugira, fugira! Eu achava que, se tivesse fugido, teria voado para as árvores do quintal subjacente. E desmenti. E, lutando esgatanhadamente contra todas, abri as vidraças da varanda. Afugentando para o corredor a minha mãe e as criadas, que pela porta entreaberta da cozinha observavam o terrível incidente de que eu sairia mortalmente ferido («com um olho vazado», clamava minha mãe em ânsias), o Papagaio entrou, dando ao corpo nos requebros de avançar, mal espalmados no chão os dedos, a passos largos, direito a mim, que, contagiado levemente pelo pânico daquelas galinhas, recuara. E veio até aos meus pés, e fez contra um meu sapato, com doçura e ternura, aquele gesto de afiar lateralmente o bico, que fazia às vezes na borda da gaiola. Abaixei-me para lhe pegar. Ele deixou que o agarrasse, instalou-se num meu dedo, e pesava.

        [...]

        Uma tarde, à mesa, estalou a discussão entre meu pai e minha mãe, precisamente num jantar de chegada, a que, como de costume, meus tios assistiam. Eu declarei categoricamente que os detestava a todos, e, atirando com a cadeira por imitação de violência, levantei-me para a varanda, perseguido por um bofetão de meu tio. Lutei contra ele que me agarrava, e contra meu pai que o agarrava a ele, e contra minha mãe que agarrava meu pai, e contra a minha tia que os agarrava a todos; e vendo, num relance enublado, aquele cacho humano a disputar-se a primazia de castigar-me, a voz embargou-se-me em gritos de choro desatado: — Ninguém é meu amigo, ninguém é meu amigo... Só o Papagaio Verde é meu amigo.

        A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal, o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e displicente, raivosa e cheia de carácter, a proclamar, num grande voo de asas verdes, o juízo final que murmurara ao morrer. Não eram. Em verdade, não eram sequer isso, cujo sentido eu não sabia então claramente. A vida, desde então, não me esclareceu muito; mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

Jorge de Sena. Homenagem ao papagaio verde. In: Os Grão-Capitães. www.ficcoes.org/biblioteca_conto/bichos-senahtm. Acesso em: 3/3/2008.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 125.

Entendendo o conto:

01 – Como o narrador estabelece a comparação entre o Papagaio Verde e o Papagaio Cinzento, e qual deles ocupa o lugar de maior destaque em sua memória?

      O narrador contrapõe os dois animais em termos de aparência, temperamento e presença. O Papagaio Cinzento é descrito como menor, retraído, friorento, dócil e nostálgico, parecendo um "negativo" ou sombra na memória. Já o Papagaio Verde é exuberante, vistoso, presunçoso e dotado de um caráter expansivo, de amizades e ódios intensos. Apesar de o Cinzento ter um dom da palavra superior, o Papagaio Verde é o que permanece vivo e pulsante na memória do narrador devido à sua forte personalidade e ao laço afetivo construído entre eles.

02 – De que forma o ambiente familiar do garoto é retratado no texto e como a criança se sente diante das brigas dos pais?

      O ambiente familiar é retratado como hostil, dramático e instável, marcado por oscilações entre curtos períodos de harmonia e violentos episódios de discussão. O garoto sente-se instrumentalizado pelos pais, descrevendo sua posição não como a de um embaixador, mas como a de um "refém" ou "plenipotenciário" usado para intermediar a paz. Ele se sente uma "bandeira branca" que, após ser agitada para conter os conflitos, é descartada no chão. A criança percebe a falsidade e a crueldade do mundo adulto, do qual se sente totalmente alienada e incompreendida.

03 – Qual é o significado da relação de amizade construída entre o narrador e o Papagaio Verde dentro da dinâmica narrativa?

      A amizade com o Papagaio Verde representa o único refúgio de afeto autêntico e de compreensão mútua para o menino em meio ao ambiente sufocante da casa. Ambos compartilham uma "idêntica solidão acorrentada" — o animal preso na gaiola e a criança confinada pelas proibições e conflitos dos adultos. Por meio do pássaro, o menino descobre o que é ter um caráter firme e aprende o verdadeiro sentido da amizade, pautada no respeito, na cumplicidade e no afeto sincero, em oposição às relações falsas dos adultos.

04 – Análise o ritual cotidiano entre o menino e o papagaio envolvendo os talos de couve e o cabo da vassoura. O que esse momento revela sobre a convivência de ambos?

      O ritual demonstra a delicadeza e a inteligência da cumplicidade entre os dois. O Papagaio Verde aceita os talos de couve oferecidos pelo menino não por ter fome, mas por "delicadeza", destruindo-os metodicamente para retribuir o gesto afetivo. Já a brincadeira com o cabo da vassoura funciona como uma encenação previamente ensaiada: o pássaro finge indiferença até subitamente dar um voo, cantar e dar estalinhos com a língua. Esse jogo demonstra a profunda sintonia, o respeito ao espaço do outro e o humor compartilhado entre o menino e o animal.

05 – No episódio em que o Papagaio Verde se solta, qual é a reação das mulheres da casa em contraste com a atitude do menino? O que o desfecho dessa cena comprova?

      As mulheres (a mãe e as criadas) reagem com pânico, gritos e alarmismo, trancando as portas e prevendo que o menino seria ferido ("com um olho vazado"). O menino, por sua vez, desafia o medo geral e abre a porta para encarar o amigo. O desfecho comprova a confiança cega e o vínculo exclusivo entre ambos: em vez de atacar, o Papagaio Verde caminha até o garoto e roça o bico com doçura em seu sapato, permitindo ser pego no colo e desmentindo o terror infundado dos adultos.

06 – Como a família reage quando o menino declara, durante o jantar, que "Só o Papagaio Verde é meu amigo"? Qual a relevância dessa cena para a crítica ao mundo adulto?

      A família reage com uma "gargalhada alvar" e debochada, ignorando a dor genuína e o pedido de socorro emocional da criança após ter sido agredida. Essa cena escancara a insensibilidade, a falta de empatia e a soberba dos adultos, que não conseguem enxergar a profundidade dos sentimentos do garoto e desdenham de sua única fonte de afeto real, evidenciando o abismo moral entre a infância e o mundo adulto.

07 – Como pode ser interpretada a metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" no último parágrafo do conto?

      A metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" simboliza a permanência da memória do papagaio como a única força protetora e consoladora na vida do narrador. Diferente dos anjos tradicionais e da falsa moralidade dos adultos, esse "anjo" é autêntico, irreverente e conhece "os mais rudes palavrões dos sete mares". A imagem sintetiza o conforto psicológico e a lealdade que a lembrança do animal continua a proporcionar ao narrador mesmo na vida adulta diante das amarguras do mundo.

 

 

NOTÍCIA: UMA CONDIÇÃO BÁSICA PARA UMA POLÍCIA EFICIENTE - FRAGMENTO -CONTARDO CALLIGARIS - COM GABARITO

 Notícia: Uma condição básica para uma polícia eficiente – Fragmento

        [...]

        É banal acusar a mídia, sobretudo a televisão e o cinema, de glamourizar a violência. Embora não haja pesquisas sérias que estabeleçam uma relação direta entre os mortos nas telas e os mortos na rua, pede-se uma censura ou autocensura, com a ideia de que narrativas ou notícias menos violentas inspirariam comportamentos menos belicosos (sobretudo aos jovens).

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKOLj1yMTiIj5qxTOJbXshSiER8SvnIPQ9KTv8O2CvJm7972PrCoA1nynIBfQPxvZ-4cycaWOnGVauobNRudKcmGbV8Z0B5Y1I70Q6xMkJOIp0rUGV-aRm3rUFsU57lv2Ct2_k5JLRY7sJ-jLnnLflrYBetdTa3v_NUMYIwS6IrRu4bxezGzF9-zx57y4/s320/images%20(1).jpg


        Ora, não acredito que forma nenhuma de censura seja benéfica. Mas reconheço que os ideais sociais dependem muito de nossa cultura de massa. Então fazer o quê? Pois bem, o truque não é retirar, é acrescentar. Explico.

        Quando era criança (logo depois da Segunda Guerra Mundial), havia duas grandes brincadeiras para os meninos: alemães-americanos e polícia-ladrão. No primeiro caso, a gente queria ser americano; no segundo, queria ser polícia. Quando nos tocava ser alemão ou bandido, brincávamos com uma certa resignação, pois era implícito que, no fim, alemães e bandidos seriam derrotados, presos ou mortos.

        É provável que brincar de polícia-ladrão não esteja mais na moda. Mas, se nossos filhos quisessem brincar assim, com quem se identificariam? Do lado dos bandidos, não lhes seria difícil encontrar material: fugas mirabolantes, riquezas fáceis, jovens como eles exibindo suas armas e aterrorizando os adultos, destinos trágicos muito mais interessantes que a escola e as aulas de piano ou de inglês.

        E do lado da polícia? Se eles têm televisão a cabo, conhecem "Starsky e Hutch", "Maigret", "Law and Order", "The Shield" e por aí vai. Se gostam de ler, conhecem Mike Hammer, Sherlock Holmes, Hercule Poirot etc.

        Você reparou? Para um menino brasileiro que queira brincar de polícia-ladrão, os bandidos podem ser brasileiros, mas a polícia é americana, inglesa, francesa, alemã, enfim, tudo salvo brasileira.

        A cultura nacional propõe um vasto repertório de malfeitores. É normal: uma sociedade individualista idealiza a transgressão, por consequência, ela nunca deixa de ser fascinada por seus delinquentes. Nisso, a cultura brasileira não está sozinha. Mas é estranho que ela não proponha o contraponto: um repertório de guardiões da ordem (policiais ou detetives particulares) que excitem o imaginário da gente ao menos tanto quanto os malfeitores.

        Não se trata, portanto, de indignar-se porque, sei lá, "Cidade de Deus" transformaria delinquentes em protagonistas de uma história que pode seduzir o jovem espectador. Trata-se, isso sim, de estranhar que o mesmo espectador não tenha a chance de ser seduzido pelas histórias de quem combate o crime.

        [...].

        Pois isto é certo: teremos polícia no dia em que não será ridículo nem vergonhoso que um menino sonhe em ser policial brasileiro.

        Até agora, na cultura nacional, só conheço um exemplo de policial que dá vontade de ser policial. É o delegado Espinosa dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Rosa, os quais têm um único defeito: são poucos.

Contardo Calligaris. Reproduzido do Jornal Folha de São Paulo – Ilustrada, fornecida pela Folhapress.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 131-132.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é a posição do autor em relação à censura ou autocensura das produções de mídia que retratam a violência, e qual alternativa ele propõe para lidar com o problema?

      O autor declara ser abertamente contrário a qualquer forma de censura, argumentando que proibir narrativas violentas não é a solução. Em vez de retirar o conteúdo violento do ar, ele defende a estratégia de "acrescentar": a ideia de que a mídia e a cultura de massa devem oferecer um contraponto positivo, criando repertórios e histórias de heróis ou guardiões da ordem que possam competir com o fascínio exercido pelas figuras dos criminosos no imaginário social.

02 – Como o autor compara as brincadeiras de sua infância com a realidade imaginária das crianças brasileiras de hoje no que diz respeito à identificação com as figuras da polícia e do crime?

      O autor relembra que, na sua infância, ao brincar de "polícia e ladrão", a identificação imediata era com a polícia, enquanto ser o bandido era aceito com resignação, pois sabia-se que este seria derrotado. No entanto, na realidade atual do Brasil, se as crianças fossem brincar disso, o lado do crime ofereceria elementos atraentes de ostentação (armas, riquezas fáceis e destinos trágicos). Em contrapartida, os exemplos de policiais do bem no imaginário infantil vêm predominantemente de produções estrangeiras (americanas, francesas, inglesas), deixando uma ausência de referências policiais positivas que sejam brasileiras.

03 – Segundo o texto, por que uma sociedade individualista tende a idealizar e se fascinar pela figura do delinquente?

      De acordo com o autor, uma sociedade individualista tende a idealizar a transgressão porque valoriza a quebra de regras em nome do interesse próprio. Consequentemente, essa cultura se fascina pelos delinquentes e constrói um vasto repertório de malfeitores que seduzem o público. O autor ressalta que essa fascinação pelo crime não é exclusividade da cultura brasileira, mas sim um traço comum a sociedades com forte viés individualista.

04 – Qual é a crítica central do autor sobre a representação da polícia na cultura nacional brasileira em comparação com as referências estrangeiras?

      A crítica central do autor é que a cultura nacional brasileira oferece um amplo repertório de criminosos marcantes, mas falha em propor uma contrapartida de "guardiões da ordem" (policiais ou detetives nacionais) que excitem a imaginação do público. Para encontrar referências policiais admiráveis, o jovem brasileiro precisa recorrer a personagens da ficção internacional, pois no Brasil faltam histórias culturais em que o combate ao crime seja representado de forma atraente e inspiradora.

05 – Qual é a "condição básica" para se ter uma polícia eficiente no Brasil mencionada no texto, e qual único exemplo positivo da literatura nacional o autor cita para ilustrar isso?

      A condição básica defendida pelo autor é cultural e reputacional: teremos uma polícia eficiente no dia em que não for considerado "ridículo nem vergonhoso que um menino sonhe em ser policial brasileiro". Para ilustrar que isso é possível na ficção, o autor cita como único exemplo da cultura nacional o delegado Espinosa, personagem dos romances policiais do escritor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Rosa.

 

 

TEXTO: O SEGREDO DO VELHO DIÁRIO - COM GABARITO

 Texto: O segredo do velho diário

  Numa tarde de chuva, Lucas achou uma caixa velha no armário de seu avô. Dentro dela, havia um caderno com capa de couro marrom e páginas amareladas. Era um diário antigo. Na primeira página, o avô havia escrito: "Quem sabe olhar de verdade, nunca fica entediado". Lucas abriu a janela do quarto. O pátio estava molhado, mas ele viu um passarinho azul cantando num galho e formigas trabalhando em fila perto do muro. Ele entendeu que, prestando atenção, até um dia chuvoso tinha uma história bonita para contar.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2prQSPx2f_AGgw-ykSFCs3Os1ssmgaup1qKJw6Wb6ddL0Xzu9S8pIn2wYOPK8ZDUIa93LZUrOUAo8GFg9LOmwgVDFF2Wn7H4JK___H9-XRCYkIlMPQ-IDOk1UOphoYfQcDXQhxO7zf39KDwCvkBWAz0YCwE6PNZm6AIwAb1LnbfozquxZCAKJaQyaVXI/s320/images.jpg


Entendendo o texto

01. Quanto ao elemento da narrativa 'espaço', em qual ambiente interno da casa a ação principal da descoberta se inicia?

         a.   No pátio externo.

        b.   No quarto do protagonista.

       c.   Na sala de estar.

      d.   No sótão da casa.

 

02. Qual é a marcação do elemento 'tempo' que define o momento em que a história acontece?

a.   Um final de semana de inverno.

b.   Uma manhã ensolarada.

c.   Uma noite tempestuosa.

d.   Uma tarde chuvosa.

 03. Em relação à estrutura dos personagens no texto, como podemos classificar o avô de Lucas?

     a.   Antagonista da história.

     b.   Protagonista principal da narrativa.

    c.   Narrador em primeira pessoa.

    d.   Personagem ausente que conduz a transformação.

 

04. Qual é o tema central abordado pela narrativa?

a.   A beleza da observação atenta do cotidiano.

b.   A necessidade de sair em dias de chuva.

c.   A dificuldade de convivência familiar.

d.   O valor financeiro de objetos antigos.

 

05. Como se caracteriza o foco narrativo adotado no conto?

a.   Narrador que conversa diretamente com o leitor.

b.   Narrador observador em terceira pessoa.

c.   Narrativa em formato de diálogo dramático.

d.   Narrador personagem em primeira pessoa.

 

Questões de Interpretação

 

06. Qual é o objeto que Lucas encontra na caixa velha?

Um caderno com capa de couro (um diário antigo).

07. O que estava escrito na primeira página do diário?

          “Quem sabe olhar de verdade, nunca fica entediado.”

08. O que Lucas viu quando olhou pela janela do quarto?

Um passarinho azul cantando e formigas trabalhando perto do muro.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: AQUELE ESTRANHO ANIMAL - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

 CRÔNICA: AQUELE ESTRANHO ANIMAL

                   Mário Quintana

 Os de Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada: sou neutro.

Mas, pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei, e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades... Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgH1AJpc49clBnIW474JNvinWTtJ6P0-UaFLut-zFl197PefLv00_mwWe3KYuU0YiPyfyJWsuEQ-KKYAnr6ogODrBDef0dkmaapDtoHH8xazPbXWFBJhKvHmJyNcMXDlFq1IzF_OyDGkO0gqlIvNMYVpPON6PpmtjyFVQiwwlC94r5C89U2m6EImNrY-jg/s320/images.jpg


Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu - fufufupubum! fufufupubum chiiipum!

E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.

“Minha Nossa Senhora!”

O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.

 É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.

Chegado que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal-e-mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.

Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima de!e, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos a pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.

Até que enfim houve uma pausa para respiração.

O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto, porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando de seu ex-automóvel.

– A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

 

Mário Quintana, Almanaque do Correio do Povo,

Porto Alegre, 1971, p. 246.

Vocabulário

 Indiada – grupo de gaúchos  Às deveras – verdadeiramente

Filosofança – filosofia        Piazinho – menino pequeno

Petiço – cavalo pequeno     Capão – porção de mato isolado

Rilhar – ranger             Corcoveios – batimentos fortes – sobressaltado

Matungo – cavalo velho       Boleadeiras – aparelho usado pelos campeiros para laçar animais

A la pucha – expressão que denota surpresa      

Guasca – caipira do Rio Grande do Sul

Refoligar – tomar fôlego

 

Entendendo o texto

 

01.      A história narrada pelo Mario Quintana é realmente extraordinária. No primeiro parágrafo do texto ele:

        a. Questiona a autoria do acontecimento.

       b. Desmerece a importância da história.

       c.  Comprova a autenticidade dos fatos.

       d. Sugere a insignificância da origem do “causo”.                        

02.      O provérbio que se aplica ao primeiro parágrafo é:

       a.  “Quem conta um conto aumenta um ponto”

      b.  “Filho feio não tem pai”.

      c. “Nos menores frascos estão os melhores perfumes”

      d.  “Nem tudo o que reluz é ouro”.                                       

 03. No início do texto, o autor diz: "Eu não afirmo nada: sou neutro" e "a história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei...". Como podemos classificar o narrador desse texto?

     a. Um narrador-personagem que participou diretamente da briga com o automóvel.

     b. Um narrador-onisciente que sabe tudo o que os personagens estão pensando em segredo.

     c. Um narrador-observador que conta a história de fora, mas que assume aqui um tom brincalhão de quem ouviu um "causo".

     d. Um narrador impersonal que relata uma notícia de jornal com total seriedade científica.

 04.  Sobre o Tempo e o Espaço: A crônica de Mário Quintana se passa em um ambiente típico do interior gaúcho (citando Alegrete, Itaqui ou Uruguaiana) e em uma época em que o automóvel ainda era uma novidade absoluta para aquela gente. Marque a alternativa que aponta corretamente o espaço e o tempo implícitos na história:

     a. Uma grande metrópole moderna / O século XXI.

     b. Uma região campeira do Rio Grande do Sul / O tempo antigo da chegada dos primeiros carros.

    c. Uma praia isolada do litoral / O período das férias escolares.

    d. Uma pequena vila medieval / A época dos cavaleiros e reis.

 05.  Em uma narrativa, o clímax é o ponto de maior tensão ou o ápice do conflito. No texto, qual trecho representa o verdadeiro clímax da história?

    a. O momento em que o piazinho ouve o barulho na estrada e foge montado em seu petiço.

    b. A discussão inicial sobre onde exatamente o causo aconteceu (Alegrete ou Itaqui).

    c. A confissão do narrador de que a história tem "três metades".

    d. O ataque em massa da população da cidade — com porretes, garruchas e vassouras — contra o estranho "bicho" (o automóvel).

 

 Perguntas Dissertativas

 06. No final da história, o motorista sai do carro e um caipira (guasca) diz espantado: “O animal deu cria!” Explique, com suas palavras, por que o personagem teve essa reação e o que ele realmente estava vendo.

O guasca nunca tinha visto um carro na vida. Como o automóvel estava quebrado e as rodas pequenas caíram ou pararam por último, ele achou que o carro maior era um bicho e que as rodinhas eram os filhotes dele.

 07. Identifique quem são os personagens principais que iniciam a ação da história na estrada e descreva brevemente como um deles reage ao perigo.

Os personagens principais do início são o piazinho e o seu cavalo (o petiço). Ao ouvir o barulho do carro, o piazinho se assusta, dá meia-volta e foge numa disparada louca rumo à cidade, com muito medo.

 08. O texto tem um desfecho cômico e surpreendente. O que acontece com o "monstro" no final da narrativa?

O “monstro” é totalmente destruído pelos moradores com paus, pedras e vassouras, revelando-se no fim não ser um bicho, mas sim um automóvel que fica emborcado e escangalhado