Crônica: As Teixeiras e o futebol – Fragmento
Rubem Braga
Com os Andradas tínhamos feito uma
espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um
pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em
compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía
lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como
eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não
apreciavam o futebol.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv1aLKEt_cLMG0A6WVl56iGdKxbOpbD0GDmbq7cCIfJjR1Qv06Hun01jlHBfKPcjw6P2zK9a8OQvb1WDCbxxJt2bsU4NdvXQhsRTD7ArZ4wrKlNf5Z6HxsBB0SJ-8FqQsPm66YrImK2fQIUCcxwD5KGRa0ZD2ClFxWuC_f_LKElXHCbe17974S51aJYA8/s320/images.jpg Quando a gritaria na rua era maior, uma
das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora.
O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele
saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a
gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam
nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” –
gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.
Uma das Teixeiras era mais cordial,
chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de
gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma
vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com
absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir
novas observações.
Um dia ela nos propôs jogar mais para
baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a
Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.
“Então
por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e
falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah,
não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e
portanto irrespondível.
“Eu vou falar com papai! Quando ele
chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas.
Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou,
ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí,
é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e
entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato.
Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem
direito, e superior, e continuamos a nossa partida.
As queixas que algumas Teixeiras faziam
em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses
meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas
queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse
sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram
muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão
antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”.
Mamãe era a favor de nosso time; mamãe,
no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita
certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me
comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor
do nosso time!
[...]
Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de
Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C.
Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição –
São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 31.
Entendendo a crônica:
01 – De que forma a atitude dos
pais do narrador contrasta com o discurso público que a mãe adotava diante das
vizinhas (as Teixeiras)?
A mãe adotava uma
postura formalmente compreensiva diante das vizinhas, fingindo dar-lhes razão e
concordando que os meninos estavam "impossíveis" para manter a boa
convivência na vizinhança. No entanto, internamente, o narrador percebe que
essa atitude era apenas superficial ("sem convicção"), pois em casa a
mãe criticava as irmãs mais antipáticas e defendia os filhos. No fim, o
narrador conclui emotivamente que tanto a mãe quanto o pai sempre foram, no
fundo, a favor do time dos meninos.
02 – Como os meninos rebatiam
as sugestões da vizinha Teixeira mais cordial para mudar o local da partida de
futebol, e quais foram os argumentos utilizados por eles?
Os meninos
rebatem as propostas usando desculpas estratégicas e sinceras. Quando a vizinha
sugere jogar mais para baixo, o Juquinha inventa que lá mora a "Dona
Constança doente", apelando para uma justificativa moral e de compaixão.
Quando a vizinha sugere jogar mais para cima, eles recorrem a um argumento
técnico: "lá o campo não presta". Com isso, conseguem desarmar as
tentativas da vizinha de retirá-los dali.
03 – Qual foi a reação do pai
das Teixeiras (o "coronel de bigodes brancos") ao ouvir as queixas da
filha sobre a bagunça dos meninos, e de que forma os garotos interpretaram essa
conduta?
O coronel ouviu
as reclamações da filha em silêncio e entrou em casa calado, sem olhar para os
meninos ou dar qualquer importância à reclamação. Os garotos interpretaram o
silêncio do velho como um gesto de autoridade, superioridade e moderação,
passando a vê-lo como uma "pessoa realmente importante e um homem
direito", o que lhes deu validação para continuar a partida.
04 – No texto, há uma transição
de tom narrativo no último parágrafo. Explique qual é essa mudança e o efeito
emocional produzido no leitor/narrador.
O texto transita
do tom cômico, nostálgico e bem-humorado da infância para um tom lírico e
melancólico no trecho entre parênteses do último parágrafo. Ao lembrar que
tanto o time de futebol quanto seus pais já faleceram ("hoje, que o time e
eles dois morreram"), a memória da infância ganha um peso emocional
profundo, provocando no narrador adulto um "ardor de lágrimas nos olhos"
diante da saudade e do afeto familiar relembrado.
05 – O uso das palavras
"meninos desobedientes" e "moleques" gera reações
diferentes nos garotos. O que a palavra "moleque" representava para
eles e como reagiram a essa ofensa?
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