domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: AS TEIXEIRAS E O FUTEBOL - FRAGMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: As Teixeiras e o futebol – Fragmento

            Rubem Braga

        Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv1aLKEt_cLMG0A6WVl56iGdKxbOpbD0GDmbq7cCIfJjR1Qv06Hun01jlHBfKPcjw6P2zK9a8OQvb1WDCbxxJt2bsU4NdvXQhsRTD7ArZ4wrKlNf5Z6HxsBB0SJ-8FqQsPm66YrImK2fQIUCcxwD5KGRa0ZD2ClFxWuC_f_LKElXHCbe17974S51aJYA8/s320/images.jpg


        Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

        Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir novas observações.

        Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.

        “Então por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.

        “Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos a nossa partida.

        As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”. 

        Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor do nosso time!

        [...]

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 31.

Entendendo a crônica:

01 – De que forma a atitude dos pais do narrador contrasta com o discurso público que a mãe adotava diante das vizinhas (as Teixeiras)?

      A mãe adotava uma postura formalmente compreensiva diante das vizinhas, fingindo dar-lhes razão e concordando que os meninos estavam "impossíveis" para manter a boa convivência na vizinhança. No entanto, internamente, o narrador percebe que essa atitude era apenas superficial ("sem convicção"), pois em casa a mãe criticava as irmãs mais antipáticas e defendia os filhos. No fim, o narrador conclui emotivamente que tanto a mãe quanto o pai sempre foram, no fundo, a favor do time dos meninos.

02 – Como os meninos rebatiam as sugestões da vizinha Teixeira mais cordial para mudar o local da partida de futebol, e quais foram os argumentos utilizados por eles?

      Os meninos rebatem as propostas usando desculpas estratégicas e sinceras. Quando a vizinha sugere jogar mais para baixo, o Juquinha inventa que lá mora a "Dona Constança doente", apelando para uma justificativa moral e de compaixão. Quando a vizinha sugere jogar mais para cima, eles recorrem a um argumento técnico: "lá o campo não presta". Com isso, conseguem desarmar as tentativas da vizinha de retirá-los dali.

03 – Qual foi a reação do pai das Teixeiras (o "coronel de bigodes brancos") ao ouvir as queixas da filha sobre a bagunça dos meninos, e de que forma os garotos interpretaram essa conduta?

      O coronel ouviu as reclamações da filha em silêncio e entrou em casa calado, sem olhar para os meninos ou dar qualquer importância à reclamação. Os garotos interpretaram o silêncio do velho como um gesto de autoridade, superioridade e moderação, passando a vê-lo como uma "pessoa realmente importante e um homem direito", o que lhes deu validação para continuar a partida.

04 – No texto, há uma transição de tom narrativo no último parágrafo. Explique qual é essa mudança e o efeito emocional produzido no leitor/narrador.

      O texto transita do tom cômico, nostálgico e bem-humorado da infância para um tom lírico e melancólico no trecho entre parênteses do último parágrafo. Ao lembrar que tanto o time de futebol quanto seus pais já faleceram ("hoje, que o time e eles dois morreram"), a memória da infância ganha um peso emocional profundo, provocando no narrador adulto um "ardor de lágrimas nos olhos" diante da saudade e do afeto familiar relembrado.

05 – O uso das palavras "meninos desobedientes" e "moleques" gera reações diferentes nos garotos. O que a palavra "moleque" representava para eles e como reagiram a essa ofensa?

      Enquanto "meninos desobedientes" era aceito como uma repreensão comum, a palavra "moleque" era vista pelos garotos como uma ofensa grave à sua classe ou conduta moral. A reação dos meninos foi de indignação e confronto direto, como demonstrado pelo personagem Chico ao rebater da janela: "Moleque é a senhora

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