sexta-feira, 4 de setembro de 2026

BIOGRAFIA: SE A MEMÓRIA NÃO ME FALHA - A HERANÇA - FRAGMENTO - CLAUDIA ORTHOF PEREIRA LIMA - COM GABARITO

 Biografia: Se a memória não me falha – A herança – Fragmento

        Mamãe nasceu no Rio, no Hospital dos Estrangeiros, em 03 de setembro de 1932, filha de um casal de judeus austríacos, que tinham deixado Viena entre as duas guerras, em busca de paz e trabalho. Seu pai, Vovô Geraldo (Gerhard Orthof), era de uma família de artistas, ele próprio pintor. Seu tio materno foi o músico Arnold Schoenberg, e a mãe, Malvine, era casada com um letrista de operetas vienenses. Esta avó, Vovó Malva, como mamãe dizia, influenciou muito a adolescente Sylvia, com sua irreverência e liberdade. A mãe de Mamãe, Vovó Trude (Gertrud Alice Goldberg, depois Orthof), foi pintora e ceramista. Era de uma família burguesa e rica de Viena, que perdeu tudo na guerra e veio para o Brasil, fugindo do nazismo. Sua mãe, a Vovó Clara de Mamãe, tocava piano e cantava... e chorava a perda de sua terra natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQb5iLvf8FuRlmwc0kxi1f8xahggJU9FfXpfjlc86lYGuW1ZGIq73W2YqNPRF9VMvGv6_JUWf97XztHQ7BXCs6SN9egLAJ7QqG6Lf4aR0UifgpO7cDW32fAhQZvMnwQackPhSe-EXwRQ-RY7ceZ7HqX7N079o2e1N61jY8cpizQA1KOoslUQduJM7CBZA/s320/images.jpg


        Mamãe teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque e errado até a idade escolar. Filha única, numa família de imigrantes pobres, que recebia seus avós e tios, chegados da Áustria em guerra. Além de tudo, quando tinha sete anos, seus pais se separaram, numa época em que isto era muito incomum. Meu avô se casou e a sua segunda esposa tinha uma filha da idade de Mamãe. Ela ficou vivendo com Vovó Trude. Não falavam para a menina Sylvia que ela era judia, por temer o preconceito, não falavam alemão na rua para não serem confundidos com nazistas, num Brasil então em guerra, lutando com os aliados. Na escola, as meninas faziam Primeira Comunhão e Mamãe também quis... e fez, sendo batizada por uma família não religiosa.

        Adolescente, conheceu o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, e aos quinze anos foi a “Julieta” de Shakespeare. Tio Paschoal, como nós o chamávamos, foi uma figura paterna para Mamãe, e para nós um avô louco e divertido, que telefonava sempre com um apelido diferente, geralmente impublicável. Quando crianças, saíamos do Planalto Central, em Brasília, onde moramos, para fazer as visitas montanhosas aos avós: Vovô Geraldo, pai de Mamãe, em Petrópolis, Vovó Trude, mãe de Mamãe, em Teresópolis, Vovó Adalgisa, mãe de Papai, em Petrópolis, e Paschoal em Santa Tereza.

        Aos 18 anos foi estudar teatro em Paris, onde estreitou os laços com a única irmã de Vovó Trude, a famosa Tia Hedy, que havia fugido para a França durante a guerra. Tia Hedy, depois da morte de vovó, ficou sendo a mãe de Mamãe, e hoje ainda vive em Paris, aos 95 anos, e me falou ontem, por telefone, que estaria agora reunida a nós, em pensamento. Seu filho, Harry, hoje vivendo em Milão, foi o irmão que a Mamãe não teve. Um primo que a ajudou muito pela vida afora, inclusive nos últimos tempos da doença.

        Um ano depois voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo (o TBC), e no Rio com os grandes nomes do teatro e da TV, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinsky, Sérgio Britto, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso e muito mais.

        Aos 25 anos, falava com Cacilda, no camarim, que estava cansada daquela vida de teatro de noite, ensaio de madrugada, dormir de manhã, televisão (ao vivo – sem videoteipe) à tarde. Queria casar e ter filhos. Papai, Sávio Pereira Lima, estava na plateia. Era um médico amigo de artistas, e Cacilda os apesentou. Pouco depois, Mamãe deixou o teatro e, apaixonada, acompanhou meu pai para uma aldeia de pescadores, Marobá, hoje Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde viveu seus primeiros anos de casada, e eu meu primeiro ano de vida. Papai tinha 40 anos, tinha ficado viúvo muito jovem, com um filho pequeno, tinha se casado, tido outro filho e se separado. Com esta vida atribulada, desgostoso com seu destino, se refugiou em Nova Viçosa, onde trabalhava como médico de uma empresa madeireira, único médico da região. [...]

        Dois anos depois fomos morar em Petrópolis, onde nasceu meu irmão Geraldo, e onde conheceu os amigos Pola e Tato Gostkorzewicz e Zilah e Luís Tranin, amigos da vida inteira.

        Em 1959, Juscelino anunciava a construção de Brasília e a mudança da capital. O espírito aventureiro de Papai fez com que nos mudássemos para lá, o início de 60, onde vivemos a vida dos candangos pioneiros de Brasília. Lá nasceu meu irmão Pedro. Papai era médico pediatra da Câmara dos Deputados, foi secretário de Saúde do Distrito Federal, e nossa vida se estabilizou, dentro do que era possível para aquela família ser estável. Mamãe tinha 32 anos, três filhos, dois enteados, um marido respeitado profissionalmente e uma enorme insatisfação profissional.

        Começou a usar sua criatividade na TV Brasília com um programa infantil de fantoches, o Teatro do Candanguinho. Contava histórias infantis na Rádio MEC, era júri do concurso de Miss Brasília e desenhava fantasias para o cabeleireiro Augusto, nos bailes carnavalescos, onde ele ganhava todos os prêmios da categoria “originalidade”. Foi professora na UnB, sem nunca ter sido universitária, e criou um grupo de teatro amador com operários, no SESI, onde encenou “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, numa montagem com atores operários que entusiasmou Paulo Autran, que viajava com a mesma peça numa turnê nacional. [...].

        Nas férias, íamos para o Festival de Inverno de Ouro Preto, onde Mamãe dava cursos de teatro, ou para Festival de Arcozêlo, com Paschoal Carlos Magno e suas inacreditáveis irmãs italianas, tia Aurora, tia Orlanda e a terceira? “Se a memória não me falha...” Era divertido, mas não era fácil. Conciliar o inconciliável... Ser filho de Sylvia Orthof era mais divertido para quem via de fora. De dentro, tivemos tempos difíceis. A liberdade cerceada, a censura dificultava o trabalho de Mamãe. A pressão aumentava e em 1966, aos 34 anos, ela fugiu para Paris, com Vovó Trude, Geraldo e eu, para os braços da Tia Hedy. Mamãe “deu um tempo”, como se diz hoje em dia. Pedro, com 2 anos, e Papai ficaram em Brasília. [...]

        Depois de 4 meses, Papai foi nos buscar. Voltamos à vida familiar em Brasília. Prosperamos junto com a “corrente pra frente, Brasil”, mudamos para uma casa no Lago, mas o cerceamento da liberdade, o cerco militar, a censura e a tortura não deixavam nossa família ser feliz. [...]

        Mais tempos duros vieram. Papai descobriu que estava com câncer e resolveu devolver Mamãe e os filhos ao velho Orthof. Mudamos em 1971 para Petrópolis. Nossa casa em Brasília foi vendida e o dinheiro aplicado na Bolsa, que ruiu naquele ano. Retomamos o convívio familiar com as famílias Orthof e Pereira Lima, e os velhos amigos de Petrópolis. Por pouco tempo, pois alguns meses depois Tato perdia sua mulher e as duas noras num trágico acidente de automóvel. Mais alguns meses e nós voltávamos à Brasília para tentar atender às necessidades da doença de Papai. Mamãe ficou viúva aos 40 anos. Voltamos à Petrópolis, e então os dois amigos viúvos, Mamãe e Tato, se encontraram e se casaram.

        Começou aí a segunda etapa da vida de Mamãe. Recém-casada com Tato, voltou ao Rio e retornou sua vida profissional. Escreveu e dirigiu no MAM (Museu de Arte Moderna), do Rio, a premiada peça infantil “A Viagem do Barquinho”, em que toda a família trabalhava. Do teatro passou à literatura infantil e começou a sua carreira de sucesso como escritora. O casamento fez com que Tato, aposentado como arquiteto, e também ele um artista, retomasse a pintura e o desenho, passando a ilustrador da maioria dos livros de Mamãe. Alguns foram ilustrados por ela própria, outros por meu irmão Gê, e outros por vários desenhistas. [...]

        Mamãe tinha a vida cada vez mais voltada para a literatura, sendo reconhecida como escritora. Pedro cresceu, Mamãe e Tato mudaram para Petrópolis e produziram mais de cem livros. [...]

        Mamãe teve uma vida plena e rica, e neste inevitável inventário, é bom ver que ela fez a sua parte, o seu melhor possível. Foi casada por 15 anos com Papai, e por 24 com Tato. Fez o melhor que pôde o papel de madrasta dos dois filhos de cada marido. Foi sincera e tentou superar as dificuldades. Teve nós três, seus filhos, seus quatro netos e mais todos os outros emprestados, filhos dos enteados, do genro, da nora. Foi generosa. Criou, trabalhou, usou seu potencial, não desperdiçou seu talento, foi coerente com sua ideologia de liberdade e de paz.

        Agora, no início do ano passado, quando descobrimos o câncer que a levou, imaginávamos que teria poucos meses de vida. Ainda viveu um ano e meio e nesse tempo escreveu vários livros, enfrentando a quimioterapia, os exames, duas cirurgias e três internações hospitalares. Foi pena ter ido agora, com tanto ainda por fazer. [...]

Trechos da biografia lida por Claudia Orthof Pereira Lima, filha de Sylvia Orthof, na  Missa de 7º dia da mãe, realizada na igreja de São Conrado, no Rio de Janeiro, em 31 de julho de 1997. Fonte: www.docedeletra.com.br

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 11-15.

Entendendo a biografia:

01 – Justifique o título da biografia de Claudia Orthof.

      A autora é filha de Sylvia Orthof e está narrando fatos que lhe foram contados pela mãe e outros que ela mesma vivenciou. “Se a memória não me falha” porque foram muitos os momentos importantes e marcantes vividos pela família e talvez ela pudesse se esquecer de citar algum fato, algum nome de pessoa... “A herança” porque para ela todas as experiências vividas ao lado da mãe e o modelo positivo deixado por ela foram o melhor legado que Claudia, como filha, pode receber.

02 – Por que Claudia Orthof usa as iniciais maiúsculas nos nomes Mamãe, Papai, Vovô, Vovó e Tia?

      Porque estão no lugar dos nomes próprios e foram pessoas importantes na vida de Claudia.

03 – Aos 25 anos Sylvia Orthof conheceu Sávio Pereira Lima no Rio de Janeiro. Os dois se uniram e foram morar em Nova Viçosa. Sobre esse fato responda:

a) Em que ano isso aconteceu?

      Em 1957.

b) A partir dessa data, quantas mudanças de cidade aconteceram na vida de Sylvia? Faça um pequeno esquema das mudanças para comprovar sua resposta. Comece assim: Nova Viçosa – 

      Foram 10 mudanças: Nova Viçosa – Petrópolis – Brasília – Paris – Brasília – Petrópolis – Brasília- Petrópolis – Rio – Petrópolis.

04 – Quais figuras importantes do meio artístico e cultural foram fundamentais na formação de Sylvia Orthof durante a sua adolescência?

      Sylvia foi muito influenciada por Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante, que funcionou como uma figura paterna para ela (aos 15 anos, ela atuou como "Julieta"). Além disso, aos 18 anos, ao estudar teatro em Paris, estreitou laços com sua Tia Hedy, outra referência marcante em sua vida.

05 – Quais fatores tornavam o ambiente familiar de Sylvia bastante atípico e desafiador durante a sua infância?

      Ela era filha única de imigrantes austríacos pobres fugidos do nazismo, que não falavam alemão na rua por medo de preconceito e escondiam a origem judaica. Além disso, enfrentava barreira idiomática (falava português errado até entrar na escola) e lidava com a separação dos pais aos sete anos, algo muito incomum para a época.

06 – Como Sylvia Orthof conseguiu canalizar a sua criatividade e insatisfação profissional no período em que viveu como pioneira em Brasília?

      Sylvia criou o programa infantil de fantoches "Teatro do Candanguinho" na TV Brasília, contava histórias infantis na Rádio MEC, desenhava fantasias carnavalescas premiadas, foi professora na UnB sem curso superior e dirigiu um grupo de teatro amador com operários no SESI.

07 – O que motivou a fuga de Sylvia Orthof com seus dois filhos e sua mãe para Paris no ano de 1966?

      A fuga ocorreu devido à forte pressão do regime militar instaurado no Brasil, que resultou na perda de liberdade, no cerceamento de suas atividades e na censura que dificultava seu trabalho artístico.

08 – De que maneira se deu o surgimento da carreira de Sylvia Orthof como escritora de literatura infantil?

      Após ficar viúva aos 40 anos e se casar com Tato Gostkorzewicz, Sylvia voltou ao Rio de Janeiro e escreveu/dirigiu a premiada peça infantil "A Viagem do Barquinho" no MAM. O sucesso nos palcos serviu de transição para que ela começasse a escrever e publicar literatura infantil.

09 – Qual foi o papel de Tato, segundo marido de Sylvia, na produção literária da autora?

      Tato, que era arquiteto aposentado e artista, passou a ilustrar a grande maioria dos livros infantis escritos por Sylvia durante a fase em que moravam em Petrópolis.

10 – Como a autora do texto descreve a postura de sua mãe durante o último ano e meio de vida, após o diagnóstico do câncer?

      A autora destaca que Sylvia viveu de forma plena e produtiva até o fim. Mesmo enfrentando o tratamento do câncer — incluindo quimioterapia, cirurgias e internações —, Sylvia manteve o ritmo e escreveu vários livros nesse período.

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