sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ROMANCE: A HORA DA ESTRELA - FRAGMENTO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Romance: A hora da estrela – Fragmento

                Clarice Lispector

Trecho I

        Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...]

        Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhk5eE4nVXM9SVD2xwnEOVXKJsZeBPsS6-zUMyIZV_wyszsW8YJmJLAUZn3hXr2ilgLjhtM2V1KODQK2OYc8nxIYrGifSxiTBmrH8rv52ZcRJ1lnz2ANq23yJOl0eVp0ecDq9TR0sNVutqjVZuXlL2HgcOUXfGIMH08BgLGJr4zrnW5mcCkKjTp6JSzQH4/s320/images.jpg


        Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. [...].

        O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...]

        Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “que sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “que sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20.

Trecho II

        Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...]

        Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com o ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...]

        Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...]

        Talvez a nordestina já tivesse chagado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 234.

Entendendo o romance:

01 – No Trecho I, o narrador expressa um sentimento de dever em relação à história da moça nordestina. Qual é a principal motivação apresentada por ele para escrever essa narrativa?

a) A necessidade de resgatar memórias autobiográficas de sua infância no Nordeste.

b) A intenção de criar uma obra de ficção complexa e repleta de mistérios insolúveis.

c) O desejo de demonstrar sua alta habilidade e virtuosismo técnico na arte literária.

d) O compromisso ético e a obrigação de dar visibilidade à vida da moça.

02 – De acordo com as reflexões do narrador no Trecho I, por que a pergunta 'que sou eu?' seria perigosa para a protagonista?

a) Porque a questionamento gera uma necessidade de sentido que a personagem não saberia como satisfazer.

b) Porque essa pergunta a faria perceber que era mais inteligente do que as pessoas ao seu redor.

c) Porque o autoconhecimento a levaria a abandonar imediatamente sua vida no Rio de Janeiro.

d) Porque o ato de se questionar exigiria dela o aprendizado de teorias filosóficas complexas.

03 – No Trecho II, a expressão metafórica 'ela era café frio' é utilizada para descrever a moça. O que essa metáfora sugere sobre a percepção social da personagem?

a) A sua total insignificância e invisibilidade aos olhos das pessoas que passavam por ela.

b) O seu temperamento calmo e controlado diante das adversidades do cotidiano.

c) O seu ressentimento silencioso contra as injustiças da grande cidade.

d) A sua constante busca por momentos de descanso e pausa durante o trabalho.

04 – A analogia entre a moça e um cachorro ('assim como um cachorro não sabe que é cachorro'), apresentada no Trecho II, tem como finalidade explicitar:

a) O desprezo e a agressividade com que ela costumava tratar as pessoas ao seu redor.

b) A ausência de autoconsciência da personagem, o que a preservava de se sentir infeliz.

c) A incapacidade biológica da moça de se comunicar com outros seres humanos.

d) A fidelidade incondicional da personagem em relação aos seus patrões e colegas.

05 – Qual opção sintetiza adequadamente o modo de existência da moça descrito ao longo do Trecho II?

a) Uma trajetória marcada pela busca constante de ascensão social e realizações pessoais.

b) Uma postura de confronto aberto e revolta permanente diante da exclusão social.

c) Uma vida dominada por angústias filosóficas profundas e dor existencial diária.

d) Uma vivência puramente biológica e alienada, pautada no simples ato de vegetar ou respirar.

 

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