Crônica: COMO BUDISTAS...
Lima Barreto
Tenho tanto que escrever, sobre coisas
tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo,
eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha
de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano,
deputado federal.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhT6M2J0XpLbNg85PoNjfuOwYnit5NTU42nzcT4UHyk9PMaKZf6c_1OrbcBcb31qNEs-KlygzhAgegaQzkM_Q0UIQYCcNVOcH3RglewnIdSLRxhuODhn_DuIn_qu84gcH4VGj-tyUEXGcT38a8D5vI5AQKHFXaYIvyRR_g1QIZx21y9KJRLBfoQSgLzqBk/s320/images.jpg Há tanta coisa tão interessante, num e
noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles,
mais tarde.
O que me absorve agora o pensamento é
este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que,
como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da
maneira mais infame que os charlatães a receitam.
Ela pensou que seu marido fosse um
homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.
Todos nós, inclusive eu, malgré
tout, estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não
estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.
O que há nisto tudo é a combinação do
nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença
universal do dinheiro.
Essa moça não se casaria com esse moço,
se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência
social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.
E ele não iria procurá-la, se não
estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.
Houve um mútuo engano. Ele procurou
enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela
procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enriquecem.
Mas, todos os dois se esqueceram que
entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.
Entre os dois só deve haver a máxima
lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa
vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da
mulher, escada para subir.
Nós temos direito de ter ambições. Eu
mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande
paixão – Desdêmona. O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso,
transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento
da sua ambição.
Todos esses entes são sagrados; para
todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.
Quando a gente se quer bater, tem
muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.
A vida, apesar de não poder ser uma
felicidade, deve ser uma coisa heroica.
E não há homem que tenha esse
sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.
A mulher não é instrumento de ambição;
a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas desgraças.
Já fui muitas vezes jurado; já sofri
muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de dona Julieta
Melilo, eu a absolveria.
Absolvia, minha senhora, porque não
gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles deviam
amor.
Como eu sou budista, o que eu quero é o
esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.
José Vieira
(1880-1948), jornalista, poeta, cronista e romancista paraibano.
A.B.C., Rio, 31-8-1918.
Entendendo a crônica:
01 – Como o cronista inicia o
texto, justificando seu arrependimento por ter escolhido comentar o caso
policial de São Paulo?
O cronista inicia
afirmando que tinha muitos assuntos interessantes para tratar, como o livro Sol
de Portugal, de José Vieira, e um extraordinário discurso do deputado federal
Ildefonso Albano. Ele confessa que se arrependeu de ter desviado sua atenção para
uma notícia policial, pois preferiria estar comentando as leituras
enriquecedoras que guardava para o futuro.
02 – Qual foi o fator
motivador central que levou a jovem mencionada na notícia a se envolver e se
casar com o homem que acabou matando?
O fator motivador
foi a ilusão social em torno de títulos acadêmicos e status financeiro. O
cronista aponta que a moça, carente de experiência de vida, foi seduzida pela
falsa ideia de valor associada ao "anel" de doutor e aos
"pergaminhos" alardeados pelos jornais, acreditando erroneamente que
o marido possuía o valor moral correspondente à sua suposta posição social.
03 – Como Lima Barreto
descreve a dinâmica do relacionamento e o "mútuo engano" que ocorreu
entre o marido e a esposa antes do desfecho trágico?
Lima Barreto
define a relação como um acordo pautado pela ambição e pela falsidade de
expectativas. O marido buscou enganar a mulher utilizando um título acadêmico
como fachada (um "caçador de dotes"), enquanto a esposa e sua família
tentaram usá-lo com base na riqueza material que ele supostamente representava,
esquecendo-se de que o matrimônio deveria ser fundado na lealdade e na boa-fé
mútua.
04 – Qual é a crítica central
que o autor faz em relação à forma como algumas pessoas utilizam os entes
queridos, especialmente as mulheres?
A crítica central
repousa na rejeição veemente à instrumentalização dos afetos. O autor argumenta
que um homem ambicioso não pode transformar sua mulher, sua filha ou seus
amigos mais íntimos em "escada para subir" ou em instrumentos para
saciar suas ambições pessoais, ressaltando que esses entes são sagrados e
merecem amor e proteção incondicionais, e não exploração egoísta.
05 – Qual é a visão de Lima
Barreto sobre o papel que a mulher deve ocupar na vida de um homem?
Para o cronista,
a mulher jamais deve ser tratada como um meio para atingir fins utilitaristas.
Ele defende que a mulher constitui um "consolo e um conforto" diante
das adversidades, dos vícios e das desgraças humanas. O autor espera encontrar
na mulher uma parceira dotada de heroísmo e dignidade, enxergando o
relacionamento como um refúgio de paz, e não como um campo de batalha
doméstico.
06 – Qual seria a decisão de
Lima Barreto caso fizesse parte do tribunal do júri responsável pelo julgamento
de dona Julieta Melilo, e qual justificativa ele apresenta?
O autor declara
categoricamente que, se fosse escolhido para compor o júri de dona Julieta
Melilo (a ré do caso policial), votaria por sua absolvição. Ele justifica essa
posição afirmando que não nutre simpatia por indivíduos prepotentes e repletos
de títulos falsos que não demonstram amor e respeito genuínos pelas esposas a
quem deviam zelar.
07 – O que o autor expressa
por meio da frase final "Como eu sou budista, o que eu quero é o
esquecimento da vida" em relação ao caso narrado?
Ao se
autodenominar "budista" e evocar o "esquecimento da vida",
o cronista expressa um profundo cansaço e desencanto diante das mesquinharias,
ambições cegas e tragédias cotidianas da sociedade humana. Essa frase funciona
como um fecho irônico e melancólico, indicando que ele prefere afastar-se
mentalmente de tanta sordidez e encerrar imediatamente suas reflexões sobre
aquele episódio doloroso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário