sexta-feira, 4 de setembro de 2026

MÚSICA(ATIVIDADES): TRIBUTO - GUILHERME ARANTES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Tributo

          Guilherme Arantes

Eu queria que você soubesse
Que pra mim não existe diferença de cor
Tudo que ainda trago no peito engasgado

Sobre preconceito e raça superior

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh43zqrVrOr56G7upkhc7YG2fzJdK3-O9O2QdGyW0LViiS8p-FjOsl4rX5zP8Eg8yAtC5L2SgQ6887meJ7u-Gehff0gArXC9v2LiXHVtICtzM5X4iszAWBjd_Z52NHajUlei6i0992NY_TUt-qIm_B9cyBAn0ERb8wcCywuhzX_DMhrn6cgxVsW_Mw85Tw/s320/images.jpg


Desde pequeno, eu escutava calado
As façanhas do mito ariano opressor
Homens na sala, meu tio
Depositando as armas na estante
Me enchendo de pavor

As inocentes piada infames
De negros, judeus, muçulmanos, orientais
Índios e latinos, como se não fossemos Também genes misturados
Como se não fossemos
Também discriminados

Mesmo sem saber
Mesmo sem querer, nem saber
Mesmo inconscientemente
Vivendo numa redoma de ilusão
Me feria ver um mundo
Apartado em guetos

Algo me dizia que eu não via futuro
Favelas, distritos, conflito
O bairro dos ricos
O ovo da serpente e a semente do mal

Culto ao fascismo, fascínio do nazismo Hitler, Stalin, Mussolini, Franco e Salazar
E todos os tiranos de qualquer lugar
Fizeram a história aprendida na escola

E quase que passou em branco
O Quilombo de Palmares, saga de Zumbi
Aprendemos mais a Guerra do Paraguai
Chacina, assassinato, nódoa que não sai

Enquanto isso, Repórter Esso
Martin Luther King e o rei Classius Clay
Eu vi as lutas todas, round por round
Nocaute por nocaute
Muhammad Ali

Por aqui, era enrustido, hipocrisia pura
A lenda do povo cordial
Ainda bem que tudo mudou
E tinha que mudar
Meu país, o último da fila da abolição
O primeiro da classe em miscigenação

Hoje eu consigo entender
Porque estrangeiros me fazem
Sempre, estranhas perguntas
Where are you from, are you na Afghan
Are you from Pakistan?
E sinto na pele o que querem dizer

Deve ser a minha herança indígena
No sangue, na cara, na pele vermelha
Dourada de sol, o sol do Brasil
Onde as mulheres são lindas
E tardam a envelhecer

Eu preciso fazer um tributo a você
A todos os amigos de todas as cores
Que me quiserem bem
Que me fizerem ser o que sou
E desprezar a discriminação

Ídolos da minha mocidade
Foram, são e serão, Ray Charles
Chuck Berry, Little Richards, Otis Reding Jimmy Hendrix, Bob Marley, Stevie Wonder
Marvin Gaye, Sly & the Family Stone
Kool and the Gang e por aqui, também
Jorge Ben, ou melhor, Benjor
Milton, Tim Maia, Baden e Gil.

Composição: Guilherme Arantes. ARANTES, Guilherme. Tributo (Cena de Cinema). in Lótus: Som Livre/Coaxo de Sapo: SP/BA, 2007.

Entendendo a música:

01 – Na primeira estrofe da música, o eu lírico relata memórias da infância relacionadas à convivência familiar: "Desde pequeno, eu escutava calado / As façanhas do mito ariano opressor / Homens na sala, meu tio / Depositando as armas na estante / Me enchendo de pavor / As inocentes piada infames...". Analise de que maneira a música aborda o processo de normalização e perpetuação do preconceito no ambiente doméstico e cotidiano.

      A música mostra que o preconceito e o racismo muitas vezes são aprendidos de forma sutil e naturalizada dentro do próprio lar, através de conversas casuais, comportamentos opressores ("mito ariano") e "piadas infames" disfarçadas de inocentes. O eu lírico ressalta o pavor e o incômodo gerados por essa violência velada e reproduzida culturalmente entre gerações.

02 – O eu lírico menciona criticamente o ensino de História que recebeu durante o período escolar: "Fizeram a história aprendida na escola / E quase que passou em branco / O Quilombo de Palmares, saga de Zumbi / Aprendemos mais a Guerra do Paraguai / Chacina, assassinato, nódoa que não sai". Com base no trecho, explique qual é a crítica feita à historiografia tradicional e à forma como a história da população negra e periférica costuma ser retratada no ensino formal.

      O eu lírico critica o eurocentrismo e o foco militar/militarista do ensino de História tradicional, que priorizava guerras e conflitos oficiais (como a Guerra do Paraguai), enquanto invisibilizava e silenciava a resistência negra e as lutas sociais do país (como o Quilombo dos Palmares e a liderança de Zumbi). A crítica aponta para a necessidade de valorizar a história e a identidade afro-brasileira nas escolas.

03 – Em determinado trecho, a canção utiliza a expressão "A lenda do povo cordial" para caracterizar a sociedade brasileira em relação às questões raciais. Explique o significado dessa expressão no contexto da música e como ela se contrapõe à ideia de que o Brasil viveu uma "democracia racial".

      A expressão se refere ao mito do "povo cordial" (ou da democracia racial), a falsa ideia de que o brasileiro é naturalmente pacífico e isento de preconceito racial. A música desmascara esse mito ao qualificá-lo como "hipocrisia pura" e "enrustido", demonstrando que o preconceito existia e atua de maneira velada e dissimulada na estrutura social do país.

04 – No trecho "Meu país, o último da fila da abolição / O primeiro da classe em miscigenação", o autor estabelece um contraste entre dois fatos históricos e sociais marcantes do Brasil. Interprete o significado desse contraste e explique como a miscigenação é abordada na música (inclusive na experiência pessoal do eu lírico no exterior).

      O contraste evidencia o atraso histórico do Brasil no combate à escravidão (sendo o último país das Américas a aboli-la em 1888) em contrapartida ao intenso processo de miscigenação étnica da população. Na música, essa miscigenação faz com que o eu lírico, ao viajar para o exterior, seja confundido com pessoas de diversas nacionalidades (como afegãos ou paquistaneses) devido à sua forte herança indígena e miscigenada refletida na pele e nos traços.

05 – A parte final da música é dedicada a um tributo expresso através do reconhecimento de diversos nomes da música negra nacional e internacional. De que modo essa lista de ídolos reforça a mensagem central da canção e atua como uma forma de reparação e exaltação cultural?

      A citação de grandes artistas negros nacionais (como Jorge Ben, Milton Nascimento, Tim Maia, Gilberto Gil) e internacionais (como Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Marley, Stevie Wonder) reforça que a formação cultural, moral e afetiva do eu lírico foi profundamente impactada pela contribuição intelectual e artística da cultura negra. É um ato de tributo, gratidão e combate à discriminação, reconhecendo a centralidade desses ídolos na história da música mundial.

 

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