Música (Atividades): Tributo
Eu queria que você soubesse
Que pra mim não existe diferença de cor
Tudo que ainda trago no peito engasgado
Sobre preconceito e raça
superior
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh43zqrVrOr56G7upkhc7YG2fzJdK3-O9O2QdGyW0LViiS8p-FjOsl4rX5zP8Eg8yAtC5L2SgQ6887meJ7u-Gehff0gArXC9v2LiXHVtICtzM5X4iszAWBjd_Z52NHajUlei6i0992NY_TUt-qIm_B9cyBAn0ERb8wcCywuhzX_DMhrn6cgxVsW_Mw85Tw/s320/images.jpgDesde pequeno, eu escutava
calado
As façanhas do mito ariano opressor
Homens na sala, meu tio
Depositando as armas na estante
Me enchendo de pavor
As inocentes piada infames
De negros, judeus, muçulmanos, orientais
Índios e latinos, como se não fossemos Também genes misturados
Como se não fossemos
Também discriminados
Mesmo sem saber
Mesmo sem querer, nem saber
Mesmo inconscientemente
Vivendo numa redoma de ilusão
Me feria ver um mundo
Apartado em guetos
Algo me dizia que eu não via
futuro
Favelas, distritos, conflito
O bairro dos ricos
O ovo da serpente e a semente do mal
Culto ao fascismo, fascínio do
nazismo Hitler, Stalin, Mussolini, Franco e Salazar
E todos os tiranos de qualquer lugar
Fizeram a história aprendida na escola
E quase que passou em branco
O Quilombo de Palmares, saga de Zumbi
Aprendemos mais a Guerra do Paraguai
Chacina, assassinato, nódoa que não sai
Enquanto isso, Repórter Esso
Martin Luther King e o rei Classius Clay
Eu vi as lutas todas, round por round
Nocaute por nocaute
Muhammad Ali
Por aqui, era enrustido,
hipocrisia pura
A lenda do povo cordial
Ainda bem que tudo mudou
E tinha que mudar
Meu país, o último da fila da abolição
O primeiro da classe em miscigenação
Hoje eu consigo entender
Porque estrangeiros me fazem
Sempre, estranhas perguntas
Where are you from, are you na Afghan
Are you from Pakistan?
E sinto na pele o que querem dizer
Deve ser a minha herança
indígena
No sangue, na cara, na pele vermelha
Dourada de sol, o sol do Brasil
Onde as mulheres são lindas
E tardam a envelhecer
Eu preciso fazer um tributo a
você
A todos os amigos de todas as cores
Que me quiserem bem
Que me fizerem ser o que sou
E desprezar a discriminação
Ídolos da minha mocidade
Foram, são e serão, Ray Charles
Chuck Berry, Little Richards, Otis Reding Jimmy Hendrix, Bob Marley, Stevie
Wonder
Marvin Gaye, Sly & the Family Stone
Kool and the Gang e por aqui, também
Jorge Ben, ou melhor, Benjor
Milton, Tim Maia, Baden e Gil.
Composição: Guilherme Arantes. ARANTES, Guilherme. Tributo (Cena de Cinema). in Lótus: Som Livre/Coaxo
de Sapo: SP/BA, 2007.
Entendendo a música:
01 – Na primeira estrofe da
música, o eu lírico relata memórias da infância relacionadas à convivência
familiar: "Desde pequeno, eu escutava calado / As façanhas do mito ariano
opressor / Homens na sala, meu tio / Depositando as armas na estante / Me
enchendo de pavor / As inocentes piada infames...". Analise
de que maneira a música aborda o processo de normalização e perpetuação do
preconceito no ambiente doméstico e cotidiano.
A música mostra
que o preconceito e o racismo muitas vezes são aprendidos de forma sutil e
naturalizada dentro do próprio lar, através de conversas casuais,
comportamentos opressores ("mito ariano") e "piadas
infames" disfarçadas de inocentes. O eu lírico ressalta o pavor e o
incômodo gerados por essa violência velada e reproduzida culturalmente entre
gerações.
02 – O eu lírico menciona
criticamente o ensino de História que recebeu durante o período escolar:
"Fizeram a história aprendida na escola / E quase que passou em branco / O
Quilombo de Palmares, saga de Zumbi / Aprendemos mais a Guerra do Paraguai /
Chacina, assassinato, nódoa que não sai". Com base no trecho, explique
qual é a crítica feita à historiografia tradicional e à forma como a história
da população negra e periférica costuma ser retratada no ensino formal.
O eu lírico
critica o eurocentrismo e o foco militar/militarista do ensino de História
tradicional, que priorizava guerras e conflitos oficiais (como a Guerra do
Paraguai), enquanto invisibilizava e silenciava a resistência negra e as lutas
sociais do país (como o Quilombo dos Palmares e a liderança de Zumbi). A
crítica aponta para a necessidade de valorizar a história e a identidade
afro-brasileira nas escolas.
03 – Em determinado trecho, a
canção utiliza a expressão "A lenda do povo cordial" para
caracterizar a sociedade brasileira em relação às questões raciais. Explique o
significado dessa expressão no contexto da música e como ela se contrapõe à
ideia de que o Brasil viveu uma "democracia racial".
A expressão se
refere ao mito do "povo cordial" (ou da democracia racial), a falsa
ideia de que o brasileiro é naturalmente pacífico e isento de preconceito
racial. A música desmascara esse mito ao qualificá-lo como "hipocrisia
pura" e "enrustido", demonstrando que o preconceito existia e
atua de maneira velada e dissimulada na estrutura social do país.
04 – No trecho "Meu país,
o último da fila da abolição / O primeiro da classe em miscigenação", o
autor estabelece um contraste entre dois fatos históricos e sociais marcantes
do Brasil. Interprete o significado desse contraste e explique como a
miscigenação é abordada na música (inclusive na experiência pessoal do eu
lírico no exterior).
O contraste
evidencia o atraso histórico do Brasil no combate à escravidão (sendo o último
país das Américas a aboli-la em 1888) em contrapartida ao intenso processo de
miscigenação étnica da população. Na música, essa miscigenação faz com que o eu
lírico, ao viajar para o exterior, seja confundido com pessoas de diversas
nacionalidades (como afegãos ou paquistaneses) devido à sua forte herança
indígena e miscigenada refletida na pele e nos traços.
05 – A parte final da música é
dedicada a um tributo expresso através do reconhecimento de diversos nomes da
música negra nacional e internacional. De que modo essa lista de ídolos reforça
a mensagem central da canção e atua como uma forma de reparação e exaltação
cultural?
A citação de
grandes artistas negros nacionais (como Jorge Ben, Milton Nascimento, Tim Maia,
Gilberto Gil) e internacionais (como Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Marley,
Stevie Wonder) reforça que a formação cultural, moral e afetiva do eu lírico
foi profundamente impactada pela contribuição intelectual e artística da
cultura negra. É um ato de tributo, gratidão e combate à discriminação,
reconhecendo a centralidade desses ídolos na história da música mundial.
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