terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: CARTA A UM JOVEM QUE FOI ASSALTADO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 CRÔNICA: CARTA A UM JOVEM QUE FOI ASSALTADO

                    Moacyr Scliar

 

        “Foste assaltado. Bem, a primeira coisa a dizer é que isso não chega a ser um fato excepcional. Excepcional é ganhar um bom salário, acertar a loto: mas ser assaltado é uma experiência que faz parte do cotidiano de qualquer cidadão brasileiro. Os assaltantes são democráticos: não discriminam idade, nem sexo, nem cor, nem mesmo classe social – grande parte das vítimas é das vilas populares.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLssXh84qXLeZK8RDWMDxDlVptrcNnWyzz8KaH37mjZeo3L7d3jUhRvV7vlcaYylXQHCYVz_GQ0sTatbl3nNwH2aXAcPPjzY3IB_M01U5dncqgO0QRSU04h78ic3DEuuGQx1n4V9BycyOtPwk-eZ_ioSM2Ela9lBFx9WGOn_6FgPSTbMKjZE9HPKT5_Vk/s1600/images.jpg


        É claro que na hora não pensaste nisso. Ficaste chocado com a fria brutalidade com que o delinquente te ordenou que lhe entregasse a bicicleta (podia ser o tênis, a mochila, qualquer coisa).

        Entregaste e fizeste bem: outros pagaram com a vida a impaciência, a coragem ou até mesmo o medo – não poucos foram baleados pelas costas.

        Indignação foi o sentimento que te assaltou depois. Afinal, era o fruto do trabalho que o homem estava levando. Não fruto do teu trabalho – até poderia ser – mas o fruto do trabalho do teu pai, o que talvez te doeu mais.

        Ficaste imaginando o homem passando a bicicleta para o receptador, os dois satisfeitos com o bom negócio realizado. É possível que o assaltante tenha tido, nunca ganhei dinheiro tão fácil.

        E, pensando nisso, a amargura te invade o coração. Onde está o exército?  Por que não prendem essa gente?

        Deixa-me dizer-te, antes de mais nada, que a tua indignação é absolutamente justa. Não há nada que justifique o crime, nem mesmo a pobreza.

        Há muito pobre que trabalha, que luta por salários maiores, que faz o que pode para melhorar a sua vida e a vida de sua família – sem recorrer ao roubo ou ao assalto. Mas tudo que eles levam, os ladrões e os assaltantes, são coisas materiais. E enquanto estiverem levando coisas materiais, o prejuízo, ainda que grande, será só material.

        Mas não deves deixar que te levem o mais importante. E o mais importante é a tua capacidade de pensar, de entender, de raciocinar.

        Sim, é preciso se proteger contra os criminosos, mas não é preciso viver sob a égide do medo.

        Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente. Deve-se repudiar o que fazem os bandidos, mas deve-se evitar o banditismo.

        Eles te roubaram. É muito ruim, isso. Mas que te roubem só aquilo que podes substituir. Que não te roubem o coração.” 

 

SCLIAR, Moacyr. Moacyr Scliar (seleção e prefácio de Luís Augusto Fischer). São Paulo: Global, 2004. p. 267-268 (Coleção Melhores Crônicas).

 

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o primeiro parágrafo da crônica, qual é a perspectiva do autor sobre a ocorrência de assaltos no cotidiano brasileiro?

a) É um fenômeno recente que afeta apenas quem anda com objetos de grande valor.

b) É um acontecimento raro que atinge principalmente a população de alto poder aquisitivo.

c) É um fato comum que afeta pessoas de diferentes classes e idades.

d) É uma situação inevitável que decorre exclusivamente do desemprego entre os jovens.

02 – Por que o autor afirma que o jovem 'fez bem' em entregar a bicicleta ao assaltante?

a) Porque a polícia recupera com facilidade bens roubados como bicicletas.

b) Porque o valor econômico do bem roubado era insignificante para a família.

c) Porque o jovem já pretendia comprar outro transporte mais moderno.

d) Porque a reação física poderia ter resultado na perda da própria vida.

03 – Qual é o posicionamento do narrador em relação ao sentimento de indignação do jovem assaltado?

a) Acha-a preconceituosa, por associar diretamente a pobreza à criminalidade.

b) Julga-a exagerada, visto que o jovem não sofreu agressões físicas graves.

c) Entende-a como ingênua, já que o jovem deveria estar acostumado com a violência.

d) Considera-a legítima, pois a pobreza não serve de justificativa para o crime.

04 – No trecho 'Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente', qual reflexão o autor propõe?

a) As medidas de segurança residencial são ineficazes se o cidadão continuar com medo na rua.

b) Deve-se adotar precauções físicas sem permitir que o medo paralise a capacidade crítica e a sensibilidade.

c) O trauma do assalto é superado apenas com investimentos em tecnologia de vigilância.

d) A solução para a violência depende do isolamento total das pessoas em suas residências.

05 – Ao concluir a crônica recomendando 'Que não te roubem o coração', o autor expressa o desejo de que o jovem:

a) Preserve sua humanidade e não se torne ressentido ou violento como os assaltantes.

b) Esqueça completamente o bem material roubado e compre um novo imediatamente.

c) Evite frequentar locais públicos para não passar novamente pela mesma experiência.

d) Busque justiça com as próprias mãos para recuperar a paz interior.

 

 

 

 

 

 

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