CRÔNICA: CARTA A UM JOVEM QUE FOI ASSALTADO
Moacyr Scliar
“Foste assaltado. Bem, a primeira coisa
a dizer é que isso não chega a ser um fato excepcional. Excepcional é ganhar um
bom salário, acertar a loto: mas ser assaltado é uma experiência que faz parte
do cotidiano de qualquer cidadão brasileiro. Os assaltantes são democráticos:
não discriminam idade, nem sexo, nem cor, nem mesmo classe social – grande
parte das vítimas é das vilas populares.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLssXh84qXLeZK8RDWMDxDlVptrcNnWyzz8KaH37mjZeo3L7d3jUhRvV7vlcaYylXQHCYVz_GQ0sTatbl3nNwH2aXAcPPjzY3IB_M01U5dncqgO0QRSU04h78ic3DEuuGQx1n4V9BycyOtPwk-eZ_ioSM2Ela9lBFx9WGOn_6FgPSTbMKjZE9HPKT5_Vk/s1600/images.jpg É claro que na hora não pensaste nisso.
Ficaste chocado com a fria brutalidade com que o delinquente te ordenou que lhe
entregasse a bicicleta (podia ser o tênis, a mochila, qualquer coisa).
Entregaste e fizeste bem: outros
pagaram com a vida a impaciência, a coragem ou até mesmo o medo – não poucos
foram baleados pelas costas.
Indignação foi o sentimento que te
assaltou depois. Afinal, era o fruto do trabalho que o homem estava levando.
Não fruto do teu trabalho – até poderia ser – mas o fruto do trabalho do teu
pai, o que talvez te doeu mais.
Ficaste imaginando o homem passando a
bicicleta para o receptador, os dois satisfeitos com o bom negócio realizado. É
possível que o assaltante tenha tido, nunca ganhei dinheiro tão fácil.
E, pensando nisso, a amargura te invade
o coração. Onde está o exército? Por que não prendem essa gente?
Deixa-me dizer-te, antes de mais nada,
que a tua indignação é absolutamente justa. Não há nada que justifique o crime,
nem mesmo a pobreza.
Há muito pobre que trabalha, que luta
por salários maiores, que faz o que pode para melhorar a sua vida e a vida de
sua família – sem recorrer ao roubo ou ao assalto. Mas tudo que eles levam, os
ladrões e os assaltantes, são coisas materiais. E enquanto estiverem levando
coisas materiais, o prejuízo, ainda que grande, será só material.
Mas não deves deixar que te levem o
mais importante. E o mais importante é a tua capacidade de pensar, de entender,
de raciocinar.
Sim, é preciso se proteger contra os
criminosos, mas não é preciso viver sob a égide do medo.
Deve-se botar trancas e alarmes nas
portas, não em nossa mente. Deve-se repudiar o que fazem os bandidos, mas
deve-se evitar o banditismo.
Eles te roubaram. É muito ruim, isso.
Mas que te roubem só aquilo que podes substituir. Que não te roubem o
coração.”
SCLIAR,
Moacyr. Moacyr Scliar (seleção e prefácio de Luís Augusto Fischer).
São Paulo: Global, 2004. p. 267-268 (Coleção Melhores Crônicas).
Entendendo a
crônica:
01 – De acordo com o
primeiro parágrafo da crônica, qual é a perspectiva do autor sobre a ocorrência
de assaltos no cotidiano brasileiro?
a) É um fenômeno
recente que afeta apenas quem anda com objetos de grande valor.
b) É um
acontecimento raro que atinge principalmente a população de alto poder aquisitivo.
c) É um
fato comum que afeta pessoas de diferentes classes e idades.
d) É uma situação inevitável que decorre exclusivamente do desemprego entre os jovens.
02 – Por que o autor
afirma que o jovem 'fez bem' em entregar a bicicleta ao assaltante?
a) Porque a polícia
recupera com facilidade bens roubados como bicicletas.
b) Porque o valor
econômico do bem roubado era insignificante para a família.
c) Porque o jovem já
pretendia comprar outro transporte mais moderno.
d) Porque a reação física poderia ter resultado na perda da própria vida.
03 – Qual é o
posicionamento do narrador em relação ao sentimento de indignação do jovem
assaltado?
a) Acha-a
preconceituosa, por associar diretamente a pobreza à criminalidade.
b) Julga-a
exagerada, visto que o jovem não sofreu agressões físicas graves.
c) Entende-a como
ingênua, já que o jovem deveria estar acostumado com a violência.
d) Considera-a legítima, pois a pobreza não serve de justificativa para o crime.
04 – No trecho
'Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente', qual reflexão
o autor propõe?
a) As medidas de
segurança residencial são ineficazes se o cidadão continuar com medo na rua.
b) Deve-se
adotar precauções físicas sem permitir que o medo paralise a capacidade crítica
e a sensibilidade.
c) O trauma do
assalto é superado apenas com investimentos em tecnologia de vigilância.
d) A solução para a violência depende do isolamento total das pessoas em suas residências.
05 – Ao concluir a
crônica recomendando 'Que não te roubem o coração', o autor expressa o desejo
de que o jovem:
a) Preserve
sua humanidade e não se torne ressentido ou violento como os assaltantes.
b) Esqueça
completamente o bem material roubado e compre um novo imediatamente.
c) Evite frequentar
locais públicos para não passar novamente pela mesma experiência.
d) Busque justiça
com as próprias mãos para recuperar a paz interior.
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