terça-feira, 15 de setembro de 2026

ARTIGO PESSOAL: VELHO CANIVETE - FRAGMENTO - DENIS RUSSO BURGIERMAN - COM GABARITO

 Artigo pessoal: Velho Canivete – Fragmento


        Já ganhei vários presentes. [...]

        Mas acho que, se alguém me forçasse a escolher o melhor presente que já recebi, eu ficaria mesmo com o canivete suíço que meu pai me deu 11 anos atrás. Não é um canivete qualquer: é daqueles gordos, com dezenas de ganchinhos, serrinhas, lâminas. Com caneta, pinça, lupa, tesoura, alicate. Ele ainda veio num estojo de couro, com lápis, pedra de amolar, band-aid, kit de costura, lixa. E um espelhinho acompanhado de um papel com o código morse – sim, para eu me comunicar refletindo a luz do sol em caso de naufrágio, ou terremoto, ou tsunami, sei lá.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbUV1qCrZfOYdHtiyQh4oakw2pgDzDN6Z-TpPaVJJSwXznRNF4rGNMT5-5qrHdc0vLFE0xWS8YeL3c4_ddGVdjdnZ5cqLhLazpA7MnYiglcjCEIA2VmsSNNo2_97ulwLuNjLjZTs-bJRLeLBjMlOZWTag7Qz7Vn8wDJOgh2-nelQkxqmg8VDyfcRlQqzM/s320/images.jpg


        O canivete já me salvou de várias [...]. Ele já passou por boas, e isso fica claro quando se mexe nele. As articulações já não são tão suaves, as molas endureceram, muitas peças estão tortas e não encaixam direito. A caneta sumiu, os band-aids suíços acabaram, as agulhas de costura estão com as pontas pretas de tanto serem colocados na chama para esterilizar antes de serem usadas para extrair espinhos. Apesar de ser de aço inox, há marcas de ferrugem por toda parte. Enfim, tudo nele dizia “está na hora de comprar um canivete novo”.

        Pois é, hoje em dia existem canivetes espetaculares, até com recursos eletrônicos (lanternas, pen drives e sei lá mais o quê). Aí comecei a lembrar a origem daquelas marquinhas – e cada uma delas me transportou para um lugar diferente. Cada uma era prova de que aquele canivete viveu. De que ele abriu latas, serrou cabos de aço, lixou unhas quebradas, aparou minha barba, arrombou portas, consertou bicicletas, tapou buracos de botas, ajustou óculos. De que ele esteve em todos os cantos do mundo e tomou banho de mar, de óleo de peixe em conserva, de molho de tomate, de vinho vagabundo. E me lembrei de quando ganhei o canivete de presente: eu estava de saída para a minha primeira longa temporada fora de casa – nove meses na estrada de mochila nas costas – e, como meu pai não podia ir comigo, aquele foi o melhor jeito que ele teve de me dizer “quer uma força?”

        Fui buscar uma escova de dentes velha e uma lata de querosene e comecei a limpar as entranhas dele. Foram umas duas horas de trabalho, esfregando, desentortando, enxugando. Não dá para dizer que o canivete ficou novo – as marcas continuam lá, e vão continuar sempre. Mas acho que ele está pronto para a próxima.


Denis Russo Burgierman. Vida Simples, nº 56. Editora Abril.

Entendendo o artigo:

01 – Qual é a importância afetiva e simbólica do canivete suíço para o narrador em comparação com os outros presentes que ele já ganhou?

      O narrador destaca que, embora tenha ganho vários presentes ao longo da vida, o canivete suíço dado por seu pai há 11 anos é o seu favorito. O valor do objeto vai muito além de sua utilidade material; ele carrega um significado simbólico profundo. O canivete representou o apoio e a presença paterna no momento em que o narrador se preparava para a sua primeira longa temporada fora de casa (nove meses na estrada de mochila). Sendo um presente enviado por um pai que não podia acompanhá-lo fisicamente, o canivete funcionou como uma forma tangível de dizer: "quer uma força?".

 

02 – De que maneira o estado físico do canivete reflete as experiências vividas pelo narrador ao longo dos anos?

      O desgaste físico do canivete (com articulações rígidas, peças tortas, marcas de ferrugem, agulhas com pontas pretas e a ausência de alguns acessórios originais) serve como um registro material da história de vida do narrador. Cada marca, arranhão ou defeito é o testemunho de uma situação real vivida: as aventuras pelo mundo, os consertos de bicicletas, o arrombamento de portas, a extração de espinhos e o contato com os mais diversos elementos (mar, óleo de peixe, molho de tomate, vinho). Em vez de defeitos descartáveis, os desgastes transformam-se em memórias visíveis de que o objeto "viveu".

 

03 – Por que o narrador reflete sobre a possibilidade de comprar um canivete novo e o que o faz mudar de ideia?

      O narrador considera comprar um canivete novo porque o objeto atual aparenta estar desgastado e obsoleto — especialmente diante de modelos modernos e tecnológicos disponíveis no mercado (com lanternas e pen drives). No entanto, ele muda de ideia ao olhar para as marcas de uso e lembrar a origem de cada uma delas. Ao perceber que cada imperfeição carrega uma lembrança e prova a utilidade e a parceria do objeto em todas as suas jornadas, o narrador ressignifica o desgaste: o que parecia sinal de descarte torna-se a identidade e a história do canivete.

 

04 – Qual é o significado da ação final do narrador (limpar e restaurar o canivete com querosene e uma escova de dentes) para o desfecho do texto?

      A ação de limpar o canivete simboliza um ato de cuidado, respeito e renovação de laços com o passado. Ao dedicar duas horas a esfregar, desentortar e enxugar o objeto, o narrador demonstra que não busca a perfeição ou a aparência de um item novo de fábrica, mas sim a preservação da essência e da história que o canivete carrega. O desfecho ("Mas acho que ele está pronto para a próxima") reforça a cumplicidade entre o dono e o objeto, mostrando que ambos continuam preparados para enfrentar novas jornadas.

 

05 – O texto apresenta características típicas de um artigo pessoal (ou crônica de memória). Como a escolha do tom e da linguagem contribui para envolver o leitor?

      O texto utiliza um tom confessional, intimista e coloquial, criando uma sensação de proximidade com o leitor. O uso de expressões cotidianas e reflexões pessoais (como "sei lá", "Pois é" e a descrição bem-humorada de itens como o kit de sobrevivência com código morse) humaniza o narrador. Essa linguagem descontraída, aliada a descrições sensoriais detalhadas (o cheiro, o tato, as marcas visuais), transforma um objeto banal do dia a dia em uma metáfora emocionante sobre o tempo, a memória e as marcas que a vida deixa em nós.

 

 

 

 

 

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