Artigo pessoal: Velho Canivete – Fragmento
Já ganhei vários presentes. [...]
Mas
acho que, se alguém me forçasse a escolher o melhor presente que já recebi, eu
ficaria mesmo com o canivete suíço que meu pai me deu 11 anos atrás. Não é um
canivete qualquer: é daqueles gordos, com dezenas de ganchinhos, serrinhas,
lâminas. Com caneta, pinça, lupa, tesoura, alicate. Ele ainda veio num estojo
de couro, com lápis, pedra de amolar, band-aid, kit de costura, lixa. E um
espelhinho acompanhado de um papel com o código morse – sim, para eu me
comunicar refletindo a luz do sol em caso de naufrágio, ou terremoto, ou
tsunami, sei lá.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbUV1qCrZfOYdHtiyQh4oakw2pgDzDN6Z-TpPaVJJSwXznRNF4rGNMT5-5qrHdc0vLFE0xWS8YeL3c4_ddGVdjdnZ5cqLhLazpA7MnYiglcjCEIA2VmsSNNo2_97ulwLuNjLjZTs-bJRLeLBjMlOZWTag7Qz7Vn8wDJOgh2-nelQkxqmg8VDyfcRlQqzM/s320/images.jpg O
canivete já me salvou de várias [...]. Ele já passou por boas, e isso fica
claro quando se mexe nele. As articulações já não são tão suaves, as molas
endureceram, muitas peças estão tortas e não encaixam direito. A caneta sumiu,
os band-aids suíços acabaram, as agulhas de costura estão com as pontas pretas
de tanto serem colocados na chama para esterilizar antes de serem usadas para
extrair espinhos. Apesar de ser de aço inox, há marcas de ferrugem por toda parte.
Enfim, tudo nele dizia “está na hora de comprar um canivete novo”.
Pois
é, hoje em dia existem canivetes espetaculares, até com recursos eletrônicos
(lanternas, pen drives e sei lá mais o quê). Aí comecei a lembrar a origem
daquelas marquinhas – e cada uma delas me transportou para um lugar diferente.
Cada uma era prova de que aquele canivete viveu. De que ele abriu latas, serrou
cabos de aço, lixou unhas quebradas, aparou minha barba, arrombou portas,
consertou bicicletas, tapou buracos de botas, ajustou óculos. De que ele esteve
em todos os cantos do mundo e tomou banho de mar, de óleo de peixe em conserva,
de molho de tomate, de vinho vagabundo. E me lembrei de quando ganhei o
canivete de presente: eu estava de saída para a minha primeira longa temporada
fora de casa – nove meses na estrada de mochila nas costas – e, como meu pai
não podia ir comigo, aquele foi o melhor jeito que ele teve de me dizer “quer
uma força?”
Fui
buscar uma escova de dentes velha e uma lata de querosene e comecei a limpar as
entranhas dele. Foram umas duas horas de trabalho, esfregando, desentortando,
enxugando. Não dá para dizer que o canivete ficou novo – as marcas continuam
lá, e vão continuar sempre. Mas acho que ele está pronto para a próxima.
Denis Russo
Burgierman. Vida Simples, nº 56. Editora Abril.
Entendendo o artigo:
01 – Qual é a
importância afetiva e simbólica do canivete suíço para o narrador em comparação
com os outros presentes que ele já ganhou?
O narrador
destaca que, embora tenha ganho vários presentes ao longo da vida, o canivete
suíço dado por seu pai há 11 anos é o seu favorito. O valor do objeto vai muito
além de sua utilidade material; ele carrega um significado simbólico profundo.
O canivete representou o apoio e a presença paterna no momento em que o
narrador se preparava para a sua primeira longa temporada fora de casa (nove
meses na estrada de mochila). Sendo um presente enviado por um pai que não
podia acompanhá-lo fisicamente, o canivete funcionou como uma forma tangível de
dizer: "quer uma força?".
02 – De que maneira
o estado físico do canivete reflete as experiências vividas pelo narrador ao
longo dos anos?
O desgaste físico
do canivete (com articulações rígidas, peças tortas, marcas de ferrugem,
agulhas com pontas pretas e a ausência de alguns acessórios originais) serve
como um registro material da história de vida do narrador. Cada marca, arranhão
ou defeito é o testemunho de uma situação real vivida: as aventuras pelo mundo,
os consertos de bicicletas, o arrombamento de portas, a extração de espinhos e
o contato com os mais diversos elementos (mar, óleo de peixe, molho de tomate,
vinho). Em vez de defeitos descartáveis, os desgastes transformam-se em
memórias visíveis de que o objeto "viveu".
03 – Por que o
narrador reflete sobre a possibilidade de comprar um canivete novo e o que o
faz mudar de ideia?
O narrador
considera comprar um canivete novo porque o objeto atual aparenta estar
desgastado e obsoleto — especialmente diante de modelos modernos e tecnológicos
disponíveis no mercado (com lanternas e pen drives). No entanto, ele muda de
ideia ao olhar para as marcas de uso e lembrar a origem de cada uma delas. Ao
perceber que cada imperfeição carrega uma lembrança e prova a utilidade e a
parceria do objeto em todas as suas jornadas, o narrador ressignifica o
desgaste: o que parecia sinal de descarte torna-se a identidade e a história do
canivete.
04 – Qual é o
significado da ação final do narrador (limpar e restaurar o canivete com
querosene e uma escova de dentes) para o desfecho do texto?
A ação de limpar
o canivete simboliza um ato de cuidado, respeito e renovação de laços com o
passado. Ao dedicar duas horas a esfregar, desentortar e enxugar o objeto, o
narrador demonstra que não busca a perfeição ou a aparência de um item novo de
fábrica, mas sim a preservação da essência e da história que o canivete
carrega. O desfecho ("Mas acho que ele está pronto para a próxima")
reforça a cumplicidade entre o dono e o objeto, mostrando que ambos continuam
preparados para enfrentar novas jornadas.
05 – O texto
apresenta características típicas de um artigo pessoal (ou crônica de memória).
Como a escolha do tom e da linguagem contribui para envolver o leitor?
O texto utiliza
um tom confessional, intimista e coloquial, criando uma sensação de proximidade
com o leitor. O uso de expressões cotidianas e reflexões pessoais (como
"sei lá", "Pois é" e a descrição bem-humorada de itens como
o kit de sobrevivência com código morse) humaniza o narrador. Essa linguagem
descontraída, aliada a descrições sensoriais detalhadas (o cheiro, o tato, as
marcas visuais), transforma um objeto banal do dia a dia em uma metáfora
emocionante sobre o tempo, a memória e as marcas que a vida deixa em nós.
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