quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CONTO: DIA DOS NAMORADOS - MARÇAL AQUINO - COM GABARITO

 Conto: Dia dos namorados

         Marçal Aquino

 

        O rapaz e a moça entraram na pousada e, de um jeito tímido, ele perguntou o preço da diária. O velho Lilico informou e o rapaz e a moça trocaram um olhar em que faiscaram joias de diversos tamanhos. A maior delas era a cumplicidade.

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiN9pwkEeaHSEbrnLoFDeVG2q-dYNY8GSTZT1VZlXjoZhwSrY-FHgRzjBgWDb_RfynY4EbIAYQPmbJj4_C2NMSn39fPQnzxtEhE-B94qvLeXLLWSbCjjaS8s-hvvT0HbuVa_kmq4psVnY7dlGphah22Szr01zIYdkBtjkELh1kLba_hDb1PxC-0ehhQvk/s320/images.jpg


        Enquanto o rapaz preenchia a ficha de entrada, a moça se afastou um pouco para examinar melhor o quadro na parede — e pude vê-la por inteiro.

        Era muito bonita. Tinha os cabelos e a pele claros. Alta, magra, ossos salientes nos ombros. Estava no mundo há pouco mais de uma década e meia e, com certeza, alguém que recusara já havia escrito poemas desesperados pensando nela. Ou cortado os pulsos — o que é quase a mesma coisa.

        Embora não merecesse, o quadro recebeu toda sua atenção por alguns instantes. Era uma pintura ordinária. Eu já tivera a oportunidade de analisá-la durante as longas tardes em que a chuva me impedia de sair para caminhar pela cidade. Uma cidade habitada, fora da temporada turística, por velhos, aposentados e hippies extemporâneos. Gente que tentava, de um jeito ou de outro, ser esquecida.
        O quadro: penso que o artista havia experimentado um momento de genuína felicidade ao contemplar, em algum canto do país, aquelas montanhas, aquele prado, aqueles cavalos. E, generoso, decidira compartilhar esse momento com o resto da humanidade.

        Mas a verdade é que fracassara. A arte não é feita de boas intenções.

        O olhar com que a moça se despediu — para sempre — daquela obra continha um pouco de piedade. E, com isso, ela me conquistou em definitivo.

        O velho Lilico entregou a chave ao rapaz, que se voltou e sorriu para a moça. Seu ar era de alguém vitorioso. Mas sou capaz de apostar que a mão que ele juntou à dela, antes de subirem a escada de madeira, tinha a palma molhada de suor. Havia um princípio de rubor no rosto dela. Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois.

        Lilico deixou o balcão da recepção e foi até a copa, onde falou alguma coisa para Jair, um de seus empregados. Em seguida veio até a mesa que eu ocupava.

        "Gosto de gente que chega para hospedar-se sem nenhuma bagagem", ele comentou.

        "E a felicidade que eles carregam, não conta?", eu perguntei.

        Ele examinou o tabuleiro, como se estivesse tentando rememorar a jogada que pretendia fazer antes de ser interrompido pela chegada do casal.

        "Mandei o Jair levar uma garrafa de champanhe para eles. Cortesia da casa”.

        "Fez bem", eu disse.

        "Gozado, sabe quem essa moça me lembrou?"

        Eu disse: "Sei".

        "Acho que foram os olhos dela", ele falou. "Muito parecidos."

        Retomamos o jogo e não falamos mais do casal. Eu, porém, continuei pensando neles. Num dia como aquele, anos antes, uma mulher, que entrava comigo num hotel bem diferente daquela pousada, me dissera: "Hoje eu vou te dar um presente muito especial".

        Um pouco depois da meia-noite interrompemos o jogo e o velho Lilico recolheu as peças e guardou o tabuleiro. E eu já estava no meio da escada, a caminho do meu quarto, quando ele perguntou:

        "Você ainda pensa nela?"

        "De vez em quando eu penso."

        "E por que você não vai atrás dela? Vocês dois ainda têm alguns anos pela frente."

        "A mágica não acontece duas vezes", eu disse.

        O velho Lilico balançou a cabeça.

        "Você sabe que só em filme francês antigo o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, escrevendo livros que nunca irá publicar”.

        Eu me limitei a sorrir. Então ele me desejou "boa noite" e voltou para a recepção.

        Eu subi a escada e, ao chegar ao corredor, parei diante da porta do quarto que o casal ocupava e tentei ouvir alguma coisa. Mas tudo estava silencioso. Entrei nó meu quarto e, enquanto me despia, pensei no velho Lilico. Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história.

Conto reproduzido do site: http://www.releituras.com/

Entendendo o conto:

01 – Qual é o papel da voz narrativa no conto e de que forma o narrador se posiciona diante da chegada do jovem casal à pousada?

      O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem observador que se encontra hospedado na pousada. Ao observar a chegada do jovem casal, o narrador adota uma postura melancólica, contemplativa e analítica. Ele projeta na juventude e na cumplicidade dos jovens a sua própria nostalgia e as memórias do seu passado amoroso. A voz narrativa funciona como uma ponte entre o entusiasmo da mocidade (representada pelos recém-chegados) e o desencanto da maturidade (representado pelo próprio narrador e pelo ambiente da cidade).

 

02 – Como o narrador descreve a cidade e os seus habitantes? Qual é a relação entre essa ambientação e o seu próprio estado de espírito?

      A cidade é retratada como um lugar calmo, fora da temporada turística, habitado por velhos, aposentados e "hippies extemporâneos" — pessoas que buscam, de uma forma ou de outra, ser esquecidas. Essa ambientação decadente e estática reflete diretamente o estado de espírito do narrador, que se encontra isolado e estagnado em suas próprias memórias. O ambiente espacial espelha a sua própria tentativa de se afastar do mundo e aceitar a solidão.

 

03 – No texto, a moça observa um quadro na parede da recepção. Qual é a crítica feita pelo narrador a essa obra de arte e o que a reação da moça revela sobre o seu caráter aos olhos dele?

      O narrador considera o quadro uma "pintura ordinária", afirmando que o artista fracassara na tentativa de transmitir a sua felicidade genuína ao espectador, pois "a arte não é feita de boas intenções". Quando a moça se despede do quadro com um olhar que contém "um pouco de piedade", o narrador percebe nela uma sensibilidade estética e uma maturidade refinada, o que o faz sentir-se definitivamente conquistado e atraído pela figura dela.

 

04 – Analise a afirmação do narrador: "Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois." O que esse trecho revela sobre a percepção do tempo e da juventude no conto?

      O trecho destaca a efemeridade e o valor inconsciente da juventude. Para o narrador, os momentos mais intensos e felizes da vida são muitas vezes vivenciados sem a plena consciência da sua dimensão temporal. Apenas com o passar do tempo, com o amadurecimento e com o distanciamento da velhice ou da perda, é que se compreende o valor daqueles instantes de cumplicidade e felicidade.

 

05 – Qual é o significado da interação entre o narrador e o velho Lilico a respeito de ter "bagagem" e de lembrar de uma mulher do passado?

      Quando Lilico comenta que gosta de hóspedes sem bagagem, o narrador questiona o valor da "felicidade que eles carregam", sugerindo que as bagagens emocionais são mais significativas que as físicas. Em seguida, a semelhança da jovem com uma mulher do passado do narrador desencadeia um momento de memória compartilhada com Lilico. Essa conversa evidencia que tanto o narrador quanto Lilico carregam marcas do passado e que a presença do casal atua como um espelho de saudades que ambos tentam lidar.

 

06 – Como o narrador justifica a sua recusa em ir atrás da mulher do seu passado quando confrontado pelo velho Lilico?

      O narrador justifica sua recusa com a frase "A mágica não acontece duas vezes". Ele demonstra a crença de que tentar reviver uma paixão ou uma época de felicidade idealizada no passado seria inútil, pois as circunstâncias e os sentimentos que tornaram aquele momento único já não podem ser replicados. Ele prefere manter a lembrança intacta a arriscar uma nova decepção.

 

07 – Explicite o significado da frase final do conto: "Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história."

      A frase encerra o conto com um profundo tom de desilusão e desamparo existencial. Saber que "ainda restavam alguns anos pela frente" não é visto como uma oportunidade de recomeço, mas sim como um fardo longo e doloroso. O narrador compreende que terá de viver o restante de seus dias na solidão, consciente de que a intensidade, a "mágica" e a felicidade genuína de sua vida já ficaram definitivamente no passado.

 

 

 

 

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