terça-feira, 15 de setembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS MENINOS DO BRASIL - CLÓVIS ROSSI - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Os meninos do Brasil

         Clóvis Rossi

 

        SÃO PAULO – Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhx-jUCykB2LfiYYHoM-4SwUUQ_VclhwwqompXW0uK8oPy6qejAoc1a14XpYRe7hbwU1ypKe4B3Yo3bF8SCABk_hyzJKzDjyp9_yOesYtyLcqRBIo6A9dWX14qaCRtAMhxqxcywlXbFiLB0Q3yg2px7zDao3gSKMi6o8i5VK3g76AA497B-MpfPpNz8m8Q/s320/images.jpg


        Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

        É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

        O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

        Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

        Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  

Folha de S. Paulo, 30/10/92.

Entendendo o artigo:

01 – O autor cita eventos em praias do Rio, Fortaleza, Belém, São Paulo e Londrina. Qual a intenção do autor ao mapear essa sequência de acontecimentos?

      Demonstrar que os "arrastões" e a violência praticada por jovens marginalizados deixaram de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros urbanos e se espalharam pelo país, atingindo até mesmo cidades médias conhecidas pela boa qualidade de vida.

 

02 – Segundo Clóvis Rossi, qual é o papel da mídia e da televisão na expansão dos "arrastões"?

      A mídia atua como um difusor de comportamentos (um "modismo"). Ao divulgar exaustivamente os episódios ocorridos nas grandes metrópoles, estimula a cópia da ação por grupos de jovens em outras regiões do país.

 

03 – O que o autor quer dizer com a metáfora "a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados" e qual sua relação com a estagnação econômica?

      A metáfora indica que a desigualdade, a má distribuição de renda e a crise econômica geram continuamente uma massa de pessoas na extrema pobreza. A falta de oportunidades (marginalização) aproxima esses jovens da criminalidade (marginalidade) e da violência.

 

04 – Qual é a crítica que o jornalista faz em relação aos discursos e às tentativas tradicionais de solução para o problema social da infância desamparada?

      O autor critica a "fábrica de produzir retórica", afirmando que os discursos políticos e teóricos tornaram-se inúteis e vazios. Além disso, aponta que o problema não será resolvido apenas pela ação isolada do poder público ou pela filantropia pontual de poucos.

 

05 – Por que o autor afirma no final do texto que "todo o país é vítima" dessa situação, mesmo quando há poucas vítimas físicas nos episódios?

      Porque o avanço da violência e da desigualdade corrói o tecido social, gerando um ambiente de medo e ruptura moral em que a elite (os "bacanas") passa a cultivar o ódio e o preconceito contra os jovens pobres (os "meninos do Brasil").

 

 

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