terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: O QUE É ENTÃO? - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O que é Então?

             Lima Barreto

 

        Conheço de nome, o senhor Múcio da Paixão, há muitos anos. Não há revista de teatro, daqui e dos Estados, onde não se encontre sempre alguma coisa dele...

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7d4VC8tiKbNG2_W1vAkEmvesfMM97vrfJ0UAZyH27bwTnQlRkCeYJ7HoPITgBDRM_bY8mAPDvkX-OFPgfPgwQr1DpPzT6GuI2p1jRsRJCQzvEZJH4pNcJeiNdOOxeFouQHoCR4UvE6BYMLhVB6Cpy2y_30DFUoMIZJyAgwVddF02vwd0EzviUtCXciCw/s320/images.jpg 


        Habituei-me a estimá-lo por esse profundo e constante amor as coisas da ribalta. Gosto dos homens de uma única paixão. Não é pois, de estranhar que tivesse lido, há dias na Gazeta do Povo, de Campos, com todo o interesse um artigo seu sobre uma troupe sertaneja que andou por aqui, estando na ocasião naquela cidade. Li-o com tanto interesse quanto a leitura de um outro jornal da rainha da Paraíba me havia deixado uma desagradável impressão. É o caso que A Notícia de lá anunciava o furto de 1:500$000 feito a uma quitandeira espanhola, com o título – “Um grande roubo”. Imaginei logo a bela cidade do açúcar dos ministeriais Meireles Zamiths & Cia, muito pobre a ponto de classificar tão pomposamente um modestíssimo ataque a propriedade alheia. Abandonando a “A Notícia”, e encontrando no então jornal cam­pista, o artigo do senhor Múcio, apressei-me em lê-lo para esquecer o julgamento desfavorável que fizera antes.

        O senhor Múcio gabara muito a troupe, tinha palavras carinhosas para os sertanejos de todas as partes do Brasil, mesmo para aqueles da turma em espetáculos na cidade, que tocavam nas violas a Cavalaria Rusticana e a Carmen. Só ao tratar da cidade do Rio de Janeiro, é que o senhor Múcio foi áspero. Classificou-a de – a menos brasileira das nossas cidades. Eu quisera bem que o escritor campista me dissesse as razões de tal julgamento. Será pela população? Creio que não...

        O último recenseamento desta cidade, feita pelo Prefeito Passos, em 1890, acusava para ela a população total de 811.443 habitantes, dos quais 600.928 eram brasileiros e os restantes 210.515, estrangeiros. Não se pode, creio eu, dizer que uma cidade não é brasileira quando mais de dois terços de sua população o são. Convém ainda reparar que, no número dos estrangeiros, estão incluídos 133.393 portugueses, mais da metade do total de forasteiros, fato de notar, pois os lusitanos muito pouco influem para a modificação dos costumes e da língua.

        Se não é na população que o senhor Múcio foi buscar base para a sua asserção, onde foi então? Nos costumes? Mas que costumes queria o senhor Múcio que o Rio de Ja­neiro tivesse? Os de Campos? Os da Bahia? Os de São Ga­briel?

        Julgo que o confrade das margens do Paraíba tem bastante bom senso para ver que o Rio de Janeiro só pode ter os costumes do Rio de Janeiro.

        E sou levado a pensar assim porque, nesse mesmo artigo seu, o ilustre colega afirma que cada terra cria a sua poesia popular, etc., etc.

        O meu Rio a tem também e, se o estimado publicista lembrar-se dos trabalhos dos estudiosos dessas coisas de folclore, como os senhores João Ribeiro e Sílvio Romero, por exemplo, verão que eles têm registrado muitos cantos, muitas quadras populares próprias ao Rio de Janeiro.

        Poucas informações tenho do esforçado escritor campista, mas imagino que ele conhece muito mal o Rio de Janeiro. Quando vem por aqui adivinho, anda pela Rua do Ouvidor, Avenida, Praia de Botafogo, por todos esses lugares que as grandes cidades possuem para gáudio dos seus visitantes; mas o que constitui a alma, a substância da cidade, o senhor Múcio não conhece e dá provas disso em sua afirmação.

        O Rio de Janeiro é brasileiro a seu modo, como Campos é, como São Paulo é, como Manaus é, etc. Nesta região, preponderaram tais elementos; naquela, houve uma influência predominante, naquela outra, apagaram-se certas tradições e avivaram-se outras; e assim por diante. Mas, um brasileiro de condição média quando vai daqui para ali, compreende perfeitamente tais usanças locais, sejam as do Rio Grande do Sul para as do Pará ou vice-versa. O nosso fundo comum é milagrosamente inalterável e basta para nos entendermos uns aos outros.

        Se o Brasil não é o Rio de Janeiro, meu caro Senhor Múcio da Paixão, o Rio de Janeiro também não é a Rua do Ouvidor. Não se deve, portanto, julgá-lo pela sua tradicional via pública.

        E, se quiser ver, como isto é verdade, venha no mês que vem, assistir o carnaval. Não só o senhor verá que o Rio tem muita coisa de seu, má ou boa como também espontaneamente soube resumir as tradições e cantares plebeus do Brasil todo – o que se vê durante os dias consagrados a Momo.

        Um observador como o senhor é, não há de admitir que só sejam brasileiros a sua “mana-chica”, e o seu “carabas” de Campos e não seja o “cateretê” de São Paulo, se é esse o nome que ali é dado aos saraus de sua gente pobre e rús­tica.

        O Rio de Janeiro é cidade bem brasileira, senão, o que é então? Diga-me, o senhor Múcio da Paixão.

Lanterna, Rio, 22-1-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador demonstra conhecer o escritor Múcio da Paixão e qual é o sentimento que ele nutre por esse colega de profissão?

      O narrador afirma conhecer Múcio da Paixão de nome há muitos anos, acompanhando sua presença constante em revistas de teatro de diversas regiões do país. Ele revela que adquiriu o hábito de estimá-lo devido ao seu "profundo e constante amor às coisas da ribalta", declarando uma admiração sincera por homens movidos por uma única paixão.

 

02 – O que motivou o narrador a ler o artigo de Múcio da Paixão publicado na Gazeta do Povo e qual contraste o levou a buscar essa leitura?

      O narrador foi motivado pelo interesse em acompanhar o trabalho de Múcio sobre uma troupe sertaneja. Esse interesse surgiu como um alívio e um contraste após ter tido uma impressão desagradável com uma notícia de um jornal da Paraíba (A Notícia), que classificou pomposamente o furto modesto de uma quitandeira espanhola como um "grande roubo", demonstrando o empobrecimento editorial local.

 

03 – Qual foi a crítica específica feita por Múcio da Paixão ao Rio de Janeiro que causou o inconformismo do narrador da crônica?

      A crítica que desagradou o narrador foi a afirmação de Múcio de que o Rio de Janeiro seria "a menos brasileira das nossas cidades". Lima Barreto se incomodou com esse julgamento pejorativo e passou a questionar as bases em que o escritor campista se sustentou para fazer tal afirmação, decidindo refutá-la com dados e argumentos socioculturais.

 

04 – De acordo com os dados apresentados por Lima Barreto com base no recenseamento, como ele desqualifica o argumento demográfico contra a brasilidade do Rio de Janeiro?

      Lima Barreto utiliza o censo de 1890 (atribuído ao Prefeito Passos) que indicava uma população total de mais de 811 mil habitantes, sendo mais de 600 mil brasileiros — ou seja, mais de dois terços da população. Ele argumenta que uma cidade com essa proporção não pode ser considerada "não brasileira", destacando ainda que, entre os estrangeiros, a maioria absoluta era de portugueses, cuja influência sobre a língua e os costumes locais era mínima.

 

05 – O que o narrador quer dizer ao afirmar que "Se o Brasil não é o Rio de Janeiro... o Rio de Janeiro também não é a Rua do Ouvidor"?

      Com essa frase, Lima Barreto aponta um erro comum de perspectiva cometido por visitantes e observadores superficiais. Ele explica que Múcio da Paixão mal conhece o Rio de Janeiro real, pois restringe sua vivência aos cartões-postais e locais de agito burguês (como a Rua do Ouvidor, a Avenida e a Praia de Botafogo). Para o cronista, a verdadeira alma e a substância da cidade residem longe dessas vias tradicionais de exibição turística.

 

06 – Como o carnaval carioca é utilizado por Lima Barreto como prova da autenticidade e da brasilidade do Rio de Janeiro?

      O narrador convida Múcio a assistir ao carnaval do mês seguinte para comprovar que a cidade possui uma identidade própria marcante. Segundo o cronista, durante os dias de Momo, o Rio de Janeiro não apenas exibe suas próprias manifestações, mas também consegue resumir espontaneamente as tradições e os cantares populares de todo o Brasil, integrando a cultura plebeia nacional.

 

07 – Qual é o significado e o propósito da pergunta que dá título à crônica ("O que é Então?") no encerramento do texto?

        O título e a pergunta final funcionam como um desafio retórico e provocativo direcionado diretamente a Múcio da Paixão. Após desconstruir os argumentos infundados sobre a suposta falta de brasilidade da capital, Lima Barreto conclui a crônica exigindo que o colega apresente uma justificativa coerente. Se o Rio de Janeiro — com sua população majoritariamente nacional, sua folclorística própria e sua capacidade de sintetizar a cultura do país — não for considerado uma cidade genuinamente brasileira, o cronista ironicamente pergunta o que ele seria, afinal.

 

 

 

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