Poema: SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO
Mário Quintana
Uma procissão de espantalhos,
pela miséria colorida,
pelos atalhos
vinha:
pediam vida, queriam vida!
E as suas caras eram trágicas
Porque tinham todas a mesma expressão
-- que era o mesmo que não terem
E tão insuportável era aquela cara única
que a polícia atirou em cima deles bombas
de gás hilariante.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8RHFPiSXB2VlNnOjwQdhWBXYd9hYqKPQNwFATUR4SM2w5mPahid4db-byw-WfzseYuvAkIn4gGUj7infa4ZECtYTVQ_RQbOK-ZcB9_tfPagY7eOJ1-WZU5sT2UPHZTBKtDD0leZ8vlPsrruPkWcV6CPmAmWeP5-Ap7laUb939TkjrGSQqVPyblaqVvtM/s1600/images.jpgNenhum espantalho riu.
A procissão continuou,
a procissão está agora em plena Estrada Real
enquanto
pelos atalhos
por toda a parte
por cima dos gramados
por cima dos corpos atropelados
os automóveis fogem como baratas.
Mário
Quintana. Caderno H. São Paulo, Globo.
Entendendo o poema:
01 – Nesse texto, a
ideia da “procissão de espantalhos” ora é indicada por verbos e expressões no
singular, para marcar sua união; ora por verbos e expressões no plural, para
marcar a quantidade de espantalhos. Transcreva um exemplo de cada caso.
“Pelos atalhos
'vinha'”; "pediam 'vida' ", “‘queriam' vida".
02 – Esse emprego no
singular e plural é um desvio do padrão culto da língua, pois, optando-se por
uma concordância, seria de esperar que ela se mantivesse. Analise o poema com
atenção e explique se o desvio deve ser considerado um erro um ou recurso
expressivo.
Evidentemente,
trata-se de um desvio estilístico, é um recurso expressivo utilizado
INTENCIONALMENTE pelo autor, portanto não há indícios de erro gramatical, já
que o autor o fez para expressar melhor o sentido do poema.
03 – O que
representam a "procissão de espantalhos" e a sua "mesma
expressão" trágica no contexto social abordado pelo poema?
A "procissão
de espantalhos" simboliza as populações marginalizadas, invisíveis ou
empobrecidas da sociedade ("miséria colorida"). O uso da figura do
espantalho remete a algo feito de trapos, sem vida real, colocado apenas às
margens. A "mesma expressão" (ou ausência de expressão individual)
representa a perda da identidade e a desumanização causadas pela extrema
pobreza e pela exclusão social, transformando a massa de esquecidos em uma
figura única, trágica e uniforme.
04 – Qual é o
significado da reação da polícia ao atirar bombas de gás hilariante e do fato
de que "Nenhum espantalho riu"?
A atitude da
polícia representa a tentativa do Estado de alienar, conter ou mascarar a dor
social por meio de uma falsa leveza ou repressão ironicamente maquiada (o gás
hilariante em vez de uma solução real para a "falta de vida"). A
reação nula — "Nenhum espantalho riu" — demonstra a profundidade da
tragédia e da dor daquelas pessoas: a miséria e a desesperança são tão
absolutas que nem mesmo o efeito coercitivo ou ilusório do gás consegue forçar
um riso artificial.
05 – Como a metáfora
final dos "automóveis que fogem como baratas" dialoga com a diferença
entre as classes sociais no poema?
A metáfora
estabelece um forte contraste entre a elite/classe média motorizada e os
caminhantes marginalizados. Enquanto os "espantalhos" marcham a pé
pedindo vida, os automóveis trafegam velozes "por cima dos corpos
atropelados", demonstrando a indiferença e a crueldade do progresso
urbano. A comparação dos carros a "baratas" inverte a lógica do
status: o automóvel, símbolo de poder e modernidade, é reduzido a um inseto
repulsivo que foge de forma desordenada para ignorar a realidade social ao seu
redor.
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