Crônica: Brasileiro não gosta de ler?
Lya Luft
Não é a primeira vez que falo
nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil.
Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro,
precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim,
alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem
assina um documento que conseguiu ler e... entender. A imensa maioria dos ditos
meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um
dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor
interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é
informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser
gente.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiePwzsLyGSXY2ghv8dzeM2dPXAb03DT1avJM6y0pWrAnCrlSZ5hrwbe8iWsfwa3Vmd1Yq8NBs6uL2illWmqiBRCLicSPS7j6Gj2XyCFIgrNPeyq8IzLN9CVLKcS5sXkHIYFM18TQdcYsIiVhWxp8FHLET4o1rFleiBlgG3JHXNg6azHsIk5BuNY2jq62k/s320/images.jpg Sempre
fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto
cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando
não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em
prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender
o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei
minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro
Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.
E
a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras.
Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente
colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para
o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo
da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas,
mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos
brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer
da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e
outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim
esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura
estudantes ainda imaturos.
Como
ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma
coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida:
percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar,
distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no
Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como
Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de
ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os
clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes,
explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação,
seja o que for.
O
que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça
exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem
sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado
no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro,
alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros
anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a
base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em
relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida
afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever,
deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente
severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas,
naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a
língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a
eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi
aberta.
Fonte: Educar pra
Crescer.
Entendendo a crônica:
01 – O que significa
ser verdadeiramente alfabetizado segundo a autora?
Para Lya Luft, ser alfabetizado não é apenas conseguir assinar o próprio nome, mas sim ter a capacidade de ler um documento e compreender completamente o seu conteúdo.
02 – Qual é a
crítica feita aos programas educacionais em relação à escolha das leituras
escolares?
A autora critica a obrigatoriedade de impor a leitura de clássicos da literatura brasileira (como Macedo e Alencar) a adolescentes imaturos. Para ela, apresentar obras complexas antes de despertar o prazer de ler assusta e afasta os estudantes dos livros.
03 – Que estratégia
a autora propõe para atrair e seduzir os jovens leitores?
Ela sugere iniciar a formação do leitor com textos mais acessíveis e dinâmicos, como as crônicas, além de permitir que cada pessoa escolha temas de seu próprio interesse (como esportes, artes, história, ciências ou revistas e jornais), mostrando que a leitura pode ser divertida e prazerosa.
04 – De acordo com o
texto, qual é o papel do hábito de ler no desenvolvimento do indivíduo?
A leitura exercita o cérebro, permite o aprendizado contínuo e torna a pessoa mais crítica, curiosa e integrada ao mundo. Além disso, ao informar o cidadão, a leitura o fortalece como indivíduo e possibilita escolhas mais lúcidas e conscientes, inclusive no momento do voto.
05 – Por que a
autora considera os primeiros anos de escolarização cruciais para a formação do
leitor?
Porque é na
infância que se constrói a base do aprendizado e a atitude em relação ao
conhecimento. Se a porta da leitura não for aberta de forma estimulante e
eficiente nos primeiros anos, o aluno dificilmente usará a língua com
naturalidade, tornando injusto cobrar dele o hábito de ler no futuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário