domingo, 5 de janeiro de 2025

NOTÍCIA: SOB O OLHAR DO TWITTER - (FRAGMENTO) - MARTINS, I; LEAL, R. ÉPOCA - COM GABARITO

 Notícia: Sob o olhar do Twitter – Fragmento

        Vivemos a era da exposição e do compartilhamento. Público e privado começam a se confundir. A ideia de privacidade vai mudar ou desaparecer.

        O trecho acima tem 140 caracteres exatos. É uma mensagem curta que tenta encapsular uma ideia complexa. Não é fácil esse tipo de síntese, mas dezenas de milhões de pessoas o praticam diariamente. No mundo todo, são disparados 2,4 trilhões de SMS por mês, e neles cabem 140 toques, ou pouco mais. Também é comum enviar e-mails, deixar recados no Orkut, falar com as pessoas pelo MSN, tagarelar no celular, receber chamados em qualquer parte, a qualquer hora. Estamos conectados. Superconectados, na verdade, de várias formas.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiD1jx-a-WoaBFVDCUdXqm8btjxjg9V3A9ijZeAlgalDgMa8WUgm1uaF_-nQ0YEmJ1bLvoqGSyDijLTr_rEyBncTScRdOSAA0D2O6RD4vM6MnpHPcVM5BZu-1dd0XRLTbhIrzYm19PHRC7xLzgERfQVIttTM8c55nop48-npyPIp-dDAvOxxX8lf-x0OZg/s320/TWITTER.jpeg


        [...] O mais recente exemplo de demanda por total conexão e de uma nova sintaxe social é o Twitter, o novo serviço de troca de mensagens pela internet. O Twitter pode ser entendido como uma mistura de blog e celular. As mensagens são de 140 toques, como os torpedos dos celulares, mas circulam pela internet, como os textos de blogs. Em vez de seguir para apenas uma pessoa, como no celular ou no MSN, a mensagem do Twitter vai para todos os “seguidores” – gente que acompanha o emissor. Podem ser 30, 300 ou 409 mil seguidores.

MARTINS, I.; LEAL, R. Época. 16 mar. 2009 (fragmento adaptado).

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 121.

Entendendo a notícia:

01 – Qual a principal ideia transmitida pelo fragmento?

      A principal ideia é que vivemos em uma era marcada pela exposição constante e pelo compartilhamento de informações, onde a linha entre o público e o privado se torna cada vez mais tênue. As redes sociais, como o Twitter, aceleram esse processo, exigindo que as pessoas sintetizem suas ideias em mensagens curtas e as compartilhem com um grande número de pessoas.

02 – Como o Twitter é caracterizado no texto?

      O Twitter é descrito como uma mistura de blog e celular, permitindo que os usuários compartilhem mensagens curtas e instantâneas com um grande número de seguidores. Essa característica o torna um exemplo emblemático da nova forma de comunicação, marcada pela rapidez e pela busca por conexão constante.

03 – Qual a relação entre a quantidade de caracteres em uma mensagem de Twitter e a ideia de síntese?

      A limitação de 140 caracteres nas mensagens do Twitter obriga os usuários a sintetizarem suas ideias de forma concisa e objetiva. Essa necessidade de síntese reflete a dinâmica da comunicação nas redes sociais, onde a atenção do público é disputada a cada segundo.

04 – Como o fragmento aborda a questão da privacidade?

      O fragmento sugere que a ideia de privacidade está em constante transformação, com a crescente exposição da vida pessoal nas redes sociais. A facilidade com que informações podem ser compartilhadas e disseminadas na internet desafia a noção tradicional de privacidade, levando muitos a questionar até que ponto desejam compartilhar aspectos de suas vidas.

05 – Qual a importância do Twitter como exemplo nesse contexto?

      O Twitter é utilizado como exemplo para ilustrar a nova dinâmica da comunicação e a crescente importância das redes sociais na vida das pessoas. Sua popularidade e as características únicas de sua plataforma o tornam um caso emblemático das mudanças que estão ocorrendo na forma como nos comunicamos e interagimos com o mundo.

 

NOTÍCIA: A FLEXIBILIDADE IDEOLÓGICA - FRAGMENTO - JOÃO JONAS VEIGA SOBRAL - COM GABARITO

 Notícia: A FLEXIBILIDADE IDEOLÓGICA – Fragmento

             João Jonas Veiga Sobral

        [...]

        Cecília Meireles comenta a discussão sobre gênero no poema "motivo". Impõem a si a condição de "poeta" é questionada a designação "poetista", Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa / não sou alegre nem sou triste: / sou poeta". A sugestão é significativa, uma vez que em língua defende se que não há marca de masculino nos substantivos, mais de neutralidade pois o que se convencionou masculino é a ausência de marcar feminina. isso posto é possível afirmar que aquele que "poetiza" é poeta. assim, Cecília não é uma mulher que escrever poemas, é um escritor ou escritora que expressa sua veia poética em versos (Vale apena comparar a postura de Cecília à da presidente Dilma Rousseff em relação às flexões poética e a presidente ambas adotam flexões destinta para marcar proposta semelhantes: a valorização da mulher e, principalmente a fermizacão da língua como questionamentos de práticas sociais) os exemplos servem como base para análise sobre marcas internacionalidade no discurso. É importante ressaltar que as escolhas das flexões poetisa e "presidente". dependendo do contexto ou da intenção do enunciador, não desmerecem a condição feminina nem são necessariamente pejorativas. As sutilezas de sentidos são apreendidas com compreensão do contexto em que as flexões estejam enseridas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg6-nk4zZPwlsJm4MT7PEXFirvNkCZo20Bba3x4PRsvqLsTjpXWiHRUwTHM1CrTil0FKoopLGBEnn-fwRg_aldd9k4D86OWJVafgNPILWJJD2NcaOMqkTnEPZf97kVA_f9G13wJMrcQrW8JgWahT61O7KL-SkHc303hSlbJoY6_6voayC50_V9aKwT-GUc/s320/cecilia-meireles-obras-e-melhores-poemas-da-jornalista-brasileira.jpg


        [...]

João Jonas Veiga Sobral. Disponível em: http://revistalingua.com.br/textos/99/artigo304245-1.asp. Acesso em: 25/11/2015.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 36-37.

Entendendo a notícia:

01 – Qual a principal tese defendida pelo autor ao analisar a postura de Cecília Meireles em relação à flexão de gênero no termo "poeta"?

      O autor defende que a escolha de Cecília Meireles por usar a flexão neutra "poeta" é uma forma de questionar a imposição de gênero na linguagem e de valorizar a mulher como sujeito ativo da criação poética.

02 – Como o autor compara a postura de Cecília Meireles com a da presidente Dilma Rousseff em relação às flexões de gênero?

      O autor estabelece um paralelo entre as duas figuras, destacando que ambas utilizam flexões de gênero distintas para marcar propostas semelhantes: a valorização da mulher e a questionamento de práticas sociais que impõem uma única forma de expressão.

03 – Qual a importância de analisar as escolhas de flexões de gênero como "poetisa" e "presidente" em diferentes contextos?

      A análise dessas escolhas permite compreender como a linguagem é utilizada para construir identidades e como as flexões de gênero podem carregar diferentes significados dependendo do contexto e da intenção do enunciador.

04 – O que o autor quer dizer ao afirmar que as sutilezas de sentidos são apreendidas com a compreensão do contexto em que as flexões estão inseridas?

      O autor ressalta que o significado das palavras e das flexões não é fixo, mas varia de acordo com o contexto em que são utilizadas. É fundamental considerar o momento histórico, a situação comunicativa e as intenções do falante para interpretar corretamente o sentido de uma expressão.

05 – Qual a relação entre a flexibilidade ideológica e as escolhas de flexões de gênero na linguagem?

      A flexibilidade ideológica se manifesta na linguagem através da possibilidade de questionar e reconfigurar as normas gramaticais e as convenções sociais. As escolhas de flexões de gênero são um exemplo dessa flexibilidade, pois permitem desafiar as imposições de gênero e construir novas formas de expressão.

 

FÁBULA: A ANDORINHA E OS PÁSSAROS - ESOPO - COM GABARITO

 Fábula: A andorinha e os pássaros

             Esopo

        Nos primeiros dias da estação de caça, a andorinha sentiu o perigo que rondava seus irmãos. Convocou então os pássaros para uma assembleia e aconselhou-as a arrancar dos carvalhos as parasitas viscosas. E acrescentou:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxmGDQ8KtAes7NCrJ0cdCU2UC2uwjQOskTchJKVmHRhk046KLmsSOALrtEc-Y8HHqDO9FNNE7RP4jiGa5T2Oze4yxSUtoHBLwlevg1r4ufWUUo7E02I63U8KnlDyV3skc7xJ_tK0BEBhlI2ybYlY_60P7UOJAIPx8shSVnCbtOLY-lYpo5mPiYta1HTDI/s320/andorinhas-na-biblia.jpg


        -- Se vocês não conseguirem fazer isso, vão até os homens e peçam-lhes para não recorrer ao visco para nos pegar.

        Os pássaros riram, achando que a andorinha não estava bem do juízo. Ela, por seu lado, foi até os homens e pediu-lhes clemência. Eles a acolheram por vê-la tão inteligente e deram-lhe abrigo. A andorinha encontrou refúgio e proteção entre eles; já os outros pássaros foram pegos e serviram de alimento para os homens.

        Quem sabe prever os perigos consegue se safar melhor.

ESOPO. Fábulas de Esopo. Porto Alegre: L&PM, 1997.p. 81.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 202.

Entendendo a fábula:

01 – Qual a principal lição que a fábula "A Andorinha e os Pássaros" nos ensina?

      A principal lição da fábula é a importância da previdência. A andorinha, ao prever o perigo que as parasitas viscosas representavam para os pássaros, agiu de forma proativa para evitar a captura. Essa atitude a salvou e a colocou em uma posição privilegiada em relação aos outros pássaros.

02 – Qual a atitude dos outros pássaros diante do conselho da andorinha?

      Os outros pássaros zombaram da andorinha e não levaram a sério seu aviso. Eles subestimaram o perigo e acabaram sendo capturados pelos homens. Essa atitude demonstra a importância de ouvir os conselhos e de não subestimar as informações que recebemos.

03 – Qual a importância da ação da andorinha em procurar os homens?

      A atitude da andorinha em procurar os homens demonstra sua inteligência e sua capacidade de adaptação. Ao buscar a proteção dos homens, ela não apenas garantiu sua própria segurança, como também estabeleceu uma relação de confiança com eles.

04 – Qual o papel das parasitas viscosas na história?

      As parasitas viscosas representam o perigo iminente que ameaça os pássaros. Elas simbolizam as dificuldades e os obstáculos que podem surgir em nossas vidas e que devemos estar preparados para enfrentar.

05 – Qual a relevância da fábula "A Andorinha e os Pássaros" para os dias atuais?

      A fábula "A Andorinha e os Pássaros" continua relevante nos dias atuais, pois nos ensina a importância da antecipação de problemas, da tomada de decisões conscientes e da busca por soluções proativas. A história nos mostra que aqueles que se preparam para o futuro têm mais chances de sucesso e de evitar situações de perigo.

 

POESIA: AGOSTO 1964 - FERREIRA GULLAR - COM GABARITO

 Poesia: Agosto 1964

            Ferreira Gullar 

Entre lojas de flores
e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo num ônibus
Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho,
a noite em meio,
fatigado de mentiras.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbnqOqF4KohuLysuIlEoHXiMnjhRK3rX41ks-TL_jnU35L_Jhx1i4IKgUV6vNrqWERph77ud-wicBi1wGhEU_IAtQ_G3T2AI4CpKguUGQUIZuOpM66d7bboCG3B7WdBUPmn09HuczA7FdOsX8BUVdwmdOCnHz33Vw55JMgYoutYEzgfBajRtuU_LKq01M/s320/FERRO.jpg

O ônibus sacoleja.
Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases,
concretismo,
neoconcretismo,
ficções da juventude,
adeus, que a vida
eu compro à vista
aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos,
o verso sufoca,
a poesia agora
responde a inquérito
policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo.
Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação,
da tortura, do horror,
retiramos algo e com ele
construímos um artefato
um poema
uma bandeira.

Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001. p. 170.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, 3 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. – Ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 365.

Entendendo a poesia:

01 – Qual a principal temática abordada no poema?

      A principal temática do poema é a relação entre o indivíduo e o contexto histórico-social, mais especificamente, a vivência do poeta diante do golpe militar de 1964. Gullar retrata o cotidiano, a rotina de trabalho, a desilusão política e a busca por resistência e expressão artística em meio à repressão.

02 – Como o poeta descreve a realidade do Brasil após o golpe militar?

      Gullar descreve uma realidade marcada pela repressão, pela censura e pela perda de liberdade. Os versos "a poesia agora responde a inquérito policial-militar" e "digo adeus à ilusão" evidenciam a dificuldade de produzir arte e pensamento crítico em um contexto autoritário. A imagem do ônibus sacolejando simboliza a instabilidade e a insegurança da época.

03 – Qual o papel da poesia diante do contexto histórico retratado no poema?

      A poesia, para Gullar, é uma forma de resistência e afirmação da identidade. Mesmo diante da repressão, o poeta busca na arte um espaço para expressar seus sentimentos e pensamentos. A poesia se torna uma forma de luta contra a opressão, um refúgio e um meio de dar voz àqueles que foram silenciados.

04 – Quais as referências culturais presentes no poema?

      O poema faz referência a diversos elementos da cultura, como a literatura (Rimbaud), as vanguardas artísticas (concretismo, neoconcretismo) e a política. Essas referências demonstram a formação intelectual do poeta e a sua busca por uma linguagem poética que dialogue com o seu tempo.

05 – Qual a mensagem principal do poema?

      A mensagem principal do poema é a necessidade de resistir e manter viva a esperança, mesmo diante da adversidade. Apesar da repressão e da desilusão, o poeta afirma a importância da vida, da arte e da luta por um mundo mais justo e livre. O verso "Mas não à vida, meu reduto e meu reino" sintetiza essa ideia de resistência e afirmação da individualidade.

 

CONTO: AS CEREJAS - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: As cerejas

            Lygia Fagundes Telles

        Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de crochê com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, “vocês não viram onde deixei meus óculos?” A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, “esta receita é nova...” Tia Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, “fico exausta no calor...” Marcelo muito louro – porque não me lembro da voz dele? – agarrado à crina do cavalo, agarrado à cabeleira de tia Olívia, os dois tombando lividamente azuis sobre o divã. “Você levou as velas à tia Olívia?”, perguntou Madrinha lá embaixo. O relâmpago apagou-se. E no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencando no chão.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjgxvdYnmwNHpLRbLf6M2LMVPyTp5ZKFIcbzutFclcpkw4Jjten1Oss3qaBiq1L_9QTiyRZOTSnnDwgl20qlOc3HqVcs20GIfuvXgDts8Gt82TPAdPNmccuWqkh2FCfXKN1v7pvBbmTU1c5y2S_BEX7v0wc_9yNuPHyjtZhhZAELVDy14InauUGEkYQL0A/s320/CEREJAS.jpg

        A casa em meio do arvoredo, o rio, as tardes como que suspensas na poeira do ar – desapareceu tudo sem deixar vestígios. Ficaram as cerejas, só elas resistiram com sua vermelhidão de loucura. Basta abrir a gaveta: algumas foram roídas por alguma barata e nessas o algodão estoura, empelotado, não, tia Olívia, não eram de cera, eram de algodão suas cerejas vermelhas.

        Ela chegou inesperadamente. Um cavaleiro trouxe o recado do chefe da estação pedindo a charrete para a visita que acabara de desembarcar.

        -- É Olívia! – exclamou Madrinha. – É a prima! Alberto escreveu dizendo que ela viria, mas não disse quando, ficou de avisar. Eu ia mudar as cortinas, bordar umas fronhas e agora!...Justo Olívia. Vocês não podem fazer ideia, ela é de tanto luxo e a casa aqui é tão simples, não estou preparada, meus céus! O que é que eu faço, Dionísia, me diga agora o que é que eu faço!

        Dionísia folheava tranquilamente um livro de receitas. Tirou um lápis da carapinha tosada e marcou a página com uma cruz.

        -- Como se já não bastasse esse menino que também chegou sem aviso...

        O menino era Marcelo. Tinha apenas dois anos mais do que eu, mas era tão alto e parecia tão adulto com suas belas roupas de montaria, que tive vontade de entrar debaixo do armário quando o vi pela primeira vez.

        -- Um calor na viagem! – gemeu tia Olívia em meio de uma onda de perfumes e malas. – E quem é este rapazinho?

        -- Pois este é o Marcelo, filho do Romeu – disse Madrinha. – Você não se lembra do Romeu? Primo-irmão do Alberto...

        Tia Olívia desprendeu do chapeuzinho preto dois grandes alfinetes de pérola em formado de pera. O galho de cerejas estremeceu no vértice do decote da blusa transparente. Desabotoou o casaco.

        -- Ah, minha querida, Alberto tem tantos parentes, uma família enorme! Imagine se vou me lembrar de todos com esta minha memória. Ele veio passar as férias aqui?

        Por um breve instante Marcelo deteve em tia Olívia o olhar frio. Chegou a esboçar um sorriso, aquele mesmo sorriso que tivera quando Madrinha, na sua ingênua excitação, nos apresentou a ambos, “pronto, Marcelo, aí está sua priminha, agora vocês poderão brincar juntos”. Ele então apertou um pouco os olhos. E sorriu.

        -- Não estranhe, Olívia, que ele é por demais arisco – segredou Madrinha ao ver que Marcelo saía abruptamente da sala. – Se trocou comigo meia dúzia de palavras, foi muito. Aliás, toda a gente de Romeu é assim mesmo, são todos muito esquisitos. Esquisitíssimos!

        Tia Olívia ajeitou com as mãos em concha o farto coque preso na nuca. Umedeceu os lábios com a ponta da língua.

        -- Tem charme...

        Aproximei-me fascinada. Nunca tinha visto ninguém como tia Olívia, ninguém com aqueles olhos pintados de verde e com aquele decote assim fundo.

        -- É de cera? – perguntei tocando-lhe uma das cerejas.

        Ela acariciou-me a cabeça com um gesto distraído. Senti bem de perto seu perfume.

        -- Acho que sim, querida. Por quê? Você nunca viu cerejas?

        -- Só na folhinha.

        Ela teve um risinho cascateante. No rosto muito branco a boca parecia um largo talho aberto, com o mesmo brilho das cerejas.

        -- Na Europa são tão carnudas, tão frescas.

        Marcelo também tinha estado na Europa com o avô. Seria isso? Seria isso que os fazia infinitamente superiores a nós? Pareciam feitos de outra carne e pertencer a um outro mundo tão acima do nosso, ah! como éramos pobres e feios. Diante de Marcelo e tia Olívia, só diante dos dois é que eu pude avaliar como éramos pequenos: eu, de unhas roídas e vestidos feitos por Dionísia, vestidos que pareciam as camisolas das bonecas de jornal que Simão recortava com a tesoura do jardim. Madrinha, completamente estrábica e tonta em meio das suas rendas e crochês. Dionísia, tão preta quanto enfatuada com as tais receitas secretas.

        -- Não quero é dar trabalho – murmurou tia Olívia dirigindo-se ao quarto. Falava devagar, andava devagar. Sua voz foi se afastando com a mansidão de um gato subindo a escada. – Cansei-me muito, querida. Preciso apenas de um pouco de sossego...

        Agora só se ouvia a voz de Madrinha que tagarelava sem parar: a chácara era modesta, modestíssima, mas ela haveria de gostar, por que não? O clima era uma maravilha e o pomar nessa época do ano estava coalhado de mangas. Ela não gostava de mangas? Não?...Tinha também bons cavalos se quisesse montar, Marcelo poderia acompanhá-la, era um ótimo cavaleiro, vivia galopando dia e noite. Ah, o médico proibira? Bem, os passeios a pé também eram lindos, havia no fim do caminho dos bambus um lugar ideal para piqueniques, ela não achava graça num piquenique?

        Fui para a varanda e fiquei vendo as estrelas por entre a folhagem da paineira. Tia Olívia devia estar sorrindo, a umedecer com a ponta da língua os lábios brilhantes. Na Europa eram tão carnudas... Na Europa.

        Abri a caixa de sabonete escondida sob o tufo de samambaia. O escorpião foi saindo penosamente de dentro. Deixei-o caminhar um bom pedaço e só quando ele atingiu o centro da varanda é que me decidi a despejar a gasolina. Acendi o fósforo. As chamas azuis subiram num círculo fechado. O escorpião rodou sobre si mesmo, erguendo-se nas patas traseiras, procurando uma saída. A cauda contraiu-se desesperadamente. Encolheu-se. Investiu e recuou em meio das chamas que se apertavam mais.

        -- Será que você não se envergonha de fazer uma maldade dessas? Voltei-me. Marcelo cravou em mim o olhar feroz. Em seguida, avançando para o fogo, esmagou o escorpião no tacão da bota.

        -- Diz que ele se suicida, Marcelo...

        -- Era capaz mesmo quando descobrisse que o mundo está cheio de gente como você.

        Tive vontade de atirar-lhe a gasolina na cara. Tapei o vidro.

        -- E não adianta ficar furiosa, vamos, olhe para mim! Sua boba. Pare de chorar e prometa que não vai mais judiar dos bichos.

         Encarei-o. Através das lágrimas ele pareceu-me naquele instante tão belo quanto um deus, um deus de cabelos dourados e botas, todo banhado de luar. Fechei os olhos. Já não me envergonhava das lágrimas, já não me envergonhava de mais nada. Um dia ele iria embora do mesmo modo imprevisto como chegara, um dia ele sairia sem se despedir e desapareceria para sempre. Mas isso também já não tinha importância. Marcelo, Marcelo! chamei. E só meu coração ouviu.

        Quando ele me tomou pelo braço e entrou comigo na sala, parecia completamente esquecido do escorpião e do meu pranto. Voltou-lhe o sorriso.

        -- Então é essa a famosa tia Olívia? Ah, ah, ah.

        Enxuguei depressa os olhos na barra da saia.

        -- Ela é bonita, não?

        Ele bocejou.

        -- Usa um perfume muito forte. E aquele galho de cerejas dependurado no peito. Tão vulgar.

        -- Vulgar?

        Fiquei chocada. E contestei, mas em meio da paixão com que a defendi, senti uma obscura alegria ao perceber que estava sendo derrotada.

        -- E, além do mais, não é meu tipo – concluiu ele voltando o olhar indiferente para o trabalho de crochê que Madrinha deixara desdobrado na cadeira. Apontou para o anjinho esvoaçando entre grinaldas. - Um anjinho cego.

        -- Por que cego? – protestou Madrinha descendo a escada. Foi nessa noite que perdeu os óculos. – Cada ideia, Marcelo!

        Ele debruçara-se na janela e parecia agora pensar em outra coisa.

        -- Tem dois buracos em lugar dos olhos.

        -- Mas crochê é assim mesmo, menino! No lugar de cada olho deve ficar uma casa vazia – esclareceu ela sem muita convicção. Examinou o trabalho. E voltou-se nervosamente para mim. – Por que não vai buscar o dominó para vocês jogarem uma partida? E vê se encontra meus óculos que deixei por aí.

        Quando voltei com o dominó, Marcelo já não estava na sala. Fiz um castelo com as pedras. E soprei-o com força. Perdia-o sempre, sempre. Passava as manhãs galopando como louco. Almoçava rapidamente e mal terminava o almoço, fechava-se no quarto e só reaparecia no lanche, pronto para sair outra vez. Restava-me correr ao alpendre para vê-lo seguir em direção à estrada, cavalo e cavaleiro tão colados um ao outro que pareciam formar um corpo só.

        Como um só corpo os dois tombaram no divã, tão rápido o relâmpago e tão longa a imagem, ele tão grande, tão poderoso, com aquela mesma expressão com que galopava como que agarrado à crina do cavalo, arfando doloridamente na reta final.

        Foram dias de calor atroz os que antecederam à tempestade. A ansiedade estava no ar. Dionísia ficou mais casmurra. Madrinha ficou mais falante, procurando disfarçadamente os óculos nas latas de biscoitos ou nos potes de folhagens, esgotada a busca em gavetas e armários. Marcelo pareceu-me mais esquivo, mais crispado. Só tia Olívia continuava igual, sonolenta e lânguida no seu negligê branco. Estendia-se na rede. Desatava a cabeleira. E com um movimento brando ia se abanando com a ventarola. Às vezes vinha com as cerejas que se esparramavam no colo polvilhado de talco. Uma ou outra cereja resvalava por entre o rego dos seios e era então engolida pelo decote.

        -- Sofro tanto com o calor...

        Madrinha tentava animá-la.

        -- Chovendo, Olívia, chovendo você verá como vai refrescar.

        Ela sorria umedecendo os lábios com a ponta da língua.

        -- Você acha que vai chover?

        -- Mas claro, as nuvens estão baixando, a chuva já está aí. E vai ser um temporal daqueles, só tenho medo é que apanhe esse menino lá fora. Você já viu menino mais esquisito, Olívia? Tão fechado não? E sempre com aquele arzinho de desprezo.

        -- É da idade, querida. É da idade.

        -- Parecido com o pai. Romeu também tinha essa mesma mania com cavalo.

        -- Ele monta tão bem. Tão elegante.

        Defendia-o sempre enquanto ele a atacava, mordaz, implacável: “É afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco”. Eu contestava, mas de tal forma que o incitava a prosseguir atacando.

        Lembro-me de que as primeiras gotas de chuva caíram ao entardecer, mas a tempestade continuava ainda em suspenso, fazendo com que o jantar se desenrolasse numa atmosfera abafada. Densa. Pretextando dor de cabeça, tia Olívia recolheu-se mais cedo. Marcelo, silencioso como de costume, comeu de cabeça baixa. Duas vezes deixou cair o garfo.

        -- Vou ler um pouco – despediu-se assim que nos levantamos.

        Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente às escuras enquanto a tempestade desabava.

        -- Queimou o fusível! – gemeu Madrinha. – Vai, filha, vai depressa buscar o maço de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Olívia. E fósforos, não esqueça os fósforos!

        Subi a escada. A escuridão era tão viscosa, que se eu estendesse a mão poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do relâmpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enlaçados no divã.

        Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e lívida com os dois corpos rolando na ventania.

        -- Levou as velas para a tia Olívia? - perguntou Madrinha.

        Desabei num canto, fugindo da luz do castiçal aceso em cima da mesa.

        -- Ninguém respondeu, ela deve estar dormindo.

        -- E Marcelo?

        -- Não sei, deve estar dormindo também.

        Madrinha aproximou-se com o castiçal.

        -- Mas que é que você tem, menina? Está doente? Não está com febre? Hem?! Sua testa está queimando... Dionísia, traga uma aspirina, esta menina está com um febrão, olha aí!

        Até hoje não sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão.

        -- Foi um sarampo tão forte – disse Madrinha ao entrar certa manhã no quarto. – E como você chorava, dava pena ver como você chorava! Nunca vi um sarampo doer tanto assim.

        Sentei-me na cama e fiquei olhando uma borboleta branca pousada no pote de avencas da janela. Voltei-me em seguida para o céu limpo. Havia um passarinho cantando na paineira. Madrinha então disse:

        -- Marcelo foi-se embora ontem à noite, quando vi, já estava de mala pronta, sabe como ele é. Veio até aqui se despedir, mas você estava dormindo tão profundamente.

        Dois dias depois, tia Olívia partia também. Trazia o costume preto e o chapeuzinho com os alfinetes de pérola espetados no feltro. Na blusa branca, bem no vértice do decote, o galho de cerejas.

        Sentou-se na beirada da minha cama.

        -- Que susto você nos deu, querida – começou com sua voz pesada. – Pensei que fosse alguma doença grave. Agora está boazinha, não está?

        Prendi a respiração para não sentir seu perfume.

        -- Estou.

        -- Ótimo! Não te beijo porque ainda não tive sarampo – disse ela calçando as luvas. Riu o risinho cascateante. – E tem graça eu pegar nesta altura doença de criança?

        Cravei o olhar nas cerejas que se entrechocavam sonoras, rindo também entre os seios. Ela desprendeu-as rapidamente.

        -- Já vi que você gosta, pronto, uma lembrança minha.

        -- Mas ficam tão lindas aí – lamentou Madrinha. – Ela nem vai poder usar, bobagem, Olívia, leve suas cerejas!

        -- Comprarei outras.

        Durante o dia seu perfume ainda pairou pelo quarto. Ao anoitecer, Dionísia abriu as janelas. E só ficou o perfume delicado da noite.

        -- Tão encantadora a Olívia – suspirou Madrinha sentando-se ao meu lado com sua cesta de costura. – Vou sentir falta dela, um encanto de criatura. O mesmo já não posso dizer daquele menino. Romeu também era assim mesmo, o filho saiu igual. E só às voltas com cavalos, montando em pelo, feito índio. Eu quase tinha um enfarte quando via ele galopar.

        Exatamente um ano depois ela repetiria, num outro tom, esse mesmo comentário ao recebera carta onde Romeu comunicava que Marcelo tinha morrido de uma queda de cavalo.

        -- Anjinho cego, que ideia! – prosseguiu ela desdobrando o crochê nos joelhos. – Já estou com saudades de Olívia, mas dele?

        Sorriu alisando o crochê com as pontas dos dedos. Tinha encontrado os óculos.

As cerejas. São Paulo: Atual, 1992. p. 4-15.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 164-172.

Entendendo o conto:

01 – Qual o significado das cerejas no conto?

      As cerejas representam a sensualidade, a maturidade e a passagem para a vida adulta. Elas são um símbolo da beleza, do desejo e do proibido, contrastando com a inocência da infância representada pela narradora.

02 – Qual o papel de Tia Olívia na história?

      Tia Olívia é uma figura enigmática e sedutora, que representa a sensualidade e a experiência. Ela serve como catalisador para a despertar da sexualidade da narradora e para a descoberta de um mundo adulto e complexo.

03 – Qual o significado da tempestade no conto?

      A tempestade simboliza a perturbação interior da narradora, a descoberta da sexualidade e a desilusão com a figura de Marcelo. É um momento de transformação e de passagem para uma nova fase da vida.

04 – Qual o papel de Marcelo na história?

      Marcelo representa a figura do adolescente rebelde e misterioso, que desperta o interesse e a paixão da narradora. Ele é um símbolo da sexualidade masculina e da descoberta do corpo.

05 – Qual a importância do ambiente da chácara na narrativa?

      A chácara é o cenário da descoberta da sexualidade e da passagem da infância para a adolescência. É um lugar isolado e protegido, onde a narradora pode experimentar novas sensações e emoções.

06 – Qual o significado da cegueira do anjinho de crochê?

      A cegueira do anjinho simboliza a inocência perdida e a descoberta da realidade, que muitas vezes é cruel e dolorosa. É uma metáfora para a perda da ingenuidade infantil.

07 – Qual a importância da linguagem utilizada por Lygia Fagundes Telles no conto?

      A linguagem de Lygia Fagundes Telles é rica em simbolismo e sugestões, criando uma atmosfera sensível e poética. As descrições detalhadas dos personagens e do ambiente contribuem para a construção de um universo rico e complexo.

08 – Quais os temas abordados no conto "As Cerejas"?

      O conto aborda temas como a passagem da infância para a adolescência, a descoberta da sexualidade, a complexidade das relações humanas, a perda da inocência e a busca pela identidade.

09 – Qual a importância do final do conto?

      O final do conto é ambíguo e deixa margem para diversas interpretações. A narradora, agora adulta, relembra sua experiência com nostalgia e melancolia, revelando a marca que a adolescência deixou em sua vida.

10 – Qual a relevância de "As Cerejas" na obra de Lygia Fagundes Telles?

      "As Cerejas" é um conto representativo da obra de Lygia Fagundes Telles, que se destaca por sua sensibilidade na abordagem de temas como a sexualidade, a mulher e a passagem do tempo. O conto revela a habilidade da autora em criar personagens complexos e em construir narrativas ricas em simbolismo.

MÚSICA(ATIVIDADES): NO FUNDO - ARNALDO ANTUNES - COM GABARITO

 Música(ATIVIDADES): No Fundo

                                     Arnaldo Antunes

Em cima de cima assim e acima
sobre do alto e de alto a baixo debaixo
ao lado atrás e de lado a lado detrás e
sob acolá e além de ali depois pelo
centro entre de fora dentro na frente
e já de agora em frente e daqui
defronte através e rente

no fundo no fundo no fundo no fundo

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgCCZlrtS7Dq1Yid1rnnFb8rynLsGkBDtDcG7lZfkWlLpEn0MvfKYNsm3ea10iB46sNuEzrU-W-af9OpWuowrrqmZyFptBCoOncXPHsjOtr9_WCHs6Vu89R1a5ty1vdIdSFpQTWNPrbSxUmc2Pxt15A7bwLVYiWMwPmOhPenDbePsgDeR1KQXs8UhYBeeM/s1600/FUNDO.jpg


em pé de repente perto envolvido em
torno envolvendo em volta e de volta
já e também no meio na mosca no alvo
na hora fora daqui mas a poucos pés pouco
a pouco aos pés através atrás de viés
e em e ainda mais e ainda agora e a
cada vez de uma vez ainda

no fundo no fundo no fundo no fundo

ante e antes de então e então durante
e enquanto aqui por enquanto adiante
avante acerca e portanto ao largo ao
redor e lá e nos arredores nos cantos
cá de passagem logo tangente longe
distante hoje de ontem onde depois de
onde pra onde onde

no mundo no mundo no mundo no mundo.

Composição: Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 187.

Entendendo a música:

01 – Qual a principal característica da letra da música "No Fundo"?

      A principal característica da letra é a repetição obsessiva de preposições e advérbios de lugar e tempo, criando um efeito hipnótico e explorando as diversas possibilidades de localização espacial e temporal. A música brinca com a linguagem, desconstruindo as noções convencionais de espaço e tempo.

02 – Qual a sensação que a repetição das palavras "no fundo" provoca no ouvinte?

      A repetição de "no fundo" cria uma sensação de profundidade, de algo oculto ou subjacente. Sugere uma busca incessante por um significado mais profundo, por uma verdade última que está além da superfície. Ao mesmo tempo, a repetição pode gerar uma sensação de vertigem e desorientação, levando o ouvinte a questionar sua própria percepção da realidade.

03 – Como a música explora as noções de espaço e tempo?

      A música explora as noções de espaço e tempo de forma não linear e fragmentada. As diversas preposições e advérbios criam um mosaico de localizações e momentos, que se sobrepõem e se entrelaçam. Essa fragmentação temporal e espacial reflete a complexidade da experiência humana e a dificuldade de apreender a totalidade da realidade.

04 – Qual o significado da frase "no mundo no mundo no mundo no mundo"?

      A repetição da frase "no mundo" enfatiza a sensação de estar imerso em um universo vasto e complexo. Ela evoca um sentimento de pequenez e insignificância diante da imensidão do mundo, ao mesmo tempo em que celebra a interconexão de todos os seres e coisas.

05 – Qual a sua interpretação geral da música "No Fundo"?

      A música "No Fundo" pode ser interpretada como uma reflexão sobre a natureza da existência, a busca por significado e a relação do indivíduo com o universo. A repetição obsessiva de palavras e a exploração das noções de espaço e tempo convidam o ouvinte a uma experiência sensorial e emocional intensa, desafiando as convenções da linguagem e da música. É uma obra que celebra a complexidade e a beleza da linguagem, convidando o ouvinte a uma profunda reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor.

 

POEMA: MARESIA - ANTÔNIO CÍCERO - COM GABARITO

 Poema: Maresia

             Antônio Cicero

O meu amor me deixou
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde a realidade.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaUEpkBJYrMMYQkHC0S_SqJyHNTOk2EBWYT7TVjQEB_ZOUZnJkCusWPlabWm-pvtYs8UOeYfP4Ygm6rzH5mxAmXk8cAxffksIQ_tqEbU6hhcLLYIXPPAqzSrwEp-Grrbu7NM14RETXDV3bOGTGenCNLDGQqi429ztDnAG_JCIxFgXuEd111MhKw8tCV7s/s320/Era-da-Solidao-Einstein.jpg



Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido

ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
sem peso e com poesia.

Ah, se eu fosse marinheiro
seria doce meu lar
não só o Rio de Janeiro
a imensidão e o mar

leste oeste norte sul
onde um homem se situa
quando o Sol sobre o azul
ou quando no mar a Lua

Não buscaria conforto
nem juntaria dinheiro
um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.

A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 62.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 213.

Entendendo o poema:

01 – Qual a principal emoção transmitida pelo poema?

      A principal emoção transmitida é a saudade e a perda. O eu lírico demonstra um profundo sentimento de vazio e desorientação após a partida do amor. A imagem do mar, com sua imensidão e movimento constante, reflete essa sensação de perda e a busca por um novo rumo.

02 – Qual a importância da metáfora do marinheiro para o poema?

      A metáfora do marinheiro representa a liberdade e a busca por novos horizontes. Ao se imaginar como marinheiro, o eu lírico expressa o desejo de escapar da dor da perda e encontrar um novo sentido para a vida. O mar simboliza a imensidão das possibilidades e a esperança de um novo começo.

03 – Como o poema explora a relação entre o eu lírico e o lugar?

      O poema explora a relação entre o eu lírico e o lugar de forma intensa e poética. O Rio de Janeiro, mencionado como "meu lar", é um espaço carregado de afeto e memórias. No entanto, a partida do amor faz com que o eu lírico se sinta deslocado e sem raízes. A imagem do mar, por sua vez, representa um lugar de refúgio e liberdade, onde o eu lírico pode se perder e se encontrar.

04 – Qual o papel da natureza (mar, sol, lua) no poema?

      A natureza, especialmente o mar, desempenha um papel fundamental no poema. O mar simboliza a imensidão, a força e a beleza da vida. Ele é um espaço de refúgio, onde o eu lírico pode se conectar com algo maior do que si mesmo e encontrar conforto em meio à dor. O sol e a lua representam o ciclo da vida e da morte, reforçando a ideia de mudança e transformação.

05 – Qual a mensagem principal do poema?

      A mensagem principal do poema é a busca por um sentido para a vida após uma grande perda. O eu lírico, através da metáfora do marinheiro, expressa o desejo de seguir em frente e encontrar um novo caminho. O poema nos convida a refletir sobre a importância do amor, da liberdade e da nossa conexão com a natureza.