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quinta-feira, 19 de março de 2026

ENTREVISTA: "LUGAR DE NEGRO É EM TODO LUGAR" - FRAGMENTO - VANDA MENEZES - COM GABARITO

 Entrevista: “Lugar de negro é em todo lugar” Fragmento

                 Entrevista com Vanda Menezes

        Ecos da resistência negra na Serra da Barriga, em Alagoas, terra de Zumbi dos Palmares, correm nas veias de Vanda Menezes, militante negra e feminista há 30 anos. Psicóloga e perita criminal da Polícia Civil de Alagoas, Vanda já foi Secretária de Estado da Mulher e, hoje, integra a Rede Mulher e Democracia.

        [...]

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHQPTYepIq3aiOofsXDEMVTXlKT7Sxig4P4ja1-4sJhPf6MO72vFilDYi4JlmqLDcXawknt1GjQAwd2-GlbhrAE-7dQPlBXRYwE5ppG2N7p7j30OvwI_AEF0Xl4UXHE5IpFH3OonGyItURvRbvpSMXlw3rtV7kNwEnitJKpwrxYTus1tDGhJV_iSR9tHo/s320/NEGROS.jpg


        Como você avalia as conquistas do movimento negro e, mais especificamente, do movimento de mulheres negras, nos últimos vinte anos no Brasil?

        Para o movimento negro, a conquista foi ter levado o país a refletir sobre o racismo, e questionar o mito da democracia racial brasileira. Ter transformado o dia 20 de novembro em uma data cívica para debater essa questão, a questão do preconceito, da discriminação racial e do racismo. Para o movimento de mulheres negras, [a conquista] foi constituir-se em um segmento organizado da sociedade civil brasileira e levar o movimento de mulheres e o movimento feminista a considerar os efeitos do racismo e da discriminação racial sobre a agenda de direitos das mulheres brasileiras – na saúde, na educação, no trabalho, nos meios de comunicação, entre outros assuntos.

         [...]

        De que formas o racismo à brasileira se mostra mais efetivo e difícil de ser combatido?

        O racismo no Brasil se mostra mais difícil de combater porque existe uma incrível resistência de assumi-lo como um problema social, moral e ético contra as pessoas que descendem daquelas que tiveram a experiência da escravidão. Em minha opinião, esse é um dos mais importantes pontos de partida para compreender a resistência do racismo no Brasil. A população negra – escrava e liberta – foi intencionalmente excluída do projeto de nação que a República desenhou para o país com o fim das relações escravistas de produção e organização social. É por isso, também, que o 20 de novembro, relembrando a saga do Quilombo dos Palmares, é tão importante para a organização social e política da população negra.

        [...]

Fonte: “Lugar de negro é em todo lugar” - Entrevista com Vanda Menezes. Observatório Brasil da igualdade de gênero, [s.d.]. Disponível em: http://www.observatoriodegenero.gov.br/menu/noticias/201clugar-de-negro-e-em-todo-lugar201d-entrevista-com-vanda-menezes. Acesso em: 21 set. 2020.

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 26.

Entendendo a entrevista:

01 – Quem é Vanda Menezes e qual a sua ligação histórica mencionada no texto?

      Vanda Menezes é psicóloga, perita criminal, militante negra e feminista há 30 anos, tendo sido Secretária de Estado da Mulher em Alagoas. O texto destaca que nela correm os "ecos da resistência negra na Serra da Barriga", terra de Zumbi dos Palmares, reforçando sua ancestralidade e ligação com a luta quilombola.

02 – Segundo a entrevistada, qual foi a principal conquista do movimento negro no Brasil nas últimas duas décadas?

      A principal conquista foi levar o país a refletir sobre o racismo e questionar o "mito da democracia racial". Além disso, destaca-se a transformação do dia 20 de novembro em uma data cívica para debater o preconceito e a discriminação.

03 – Como Vanda Menezes descreve a contribuição específica do movimento de mulheres negras para o feminismo brasileiro?

      O movimento de mulheres negras conseguiu se organizar como um segmento da sociedade civil e forçou o movimento feminista geral a considerar como o racismo e a discriminação racial afetam a agenda de direitos das mulheres (saúde, educação, trabalho, etc.), trazendo uma perspectiva interseccional.

04 – Por que, na visão da psicóloga, o racismo no Brasil é tão difícil de ser combatido?

      Porque existe uma resistência muito grande da sociedade em assumir o racismo como um problema social, moral e ético. Ela aponta que a dificuldade reside no fato de a população negra ter sido intencionalmente excluída do projeto de nação desenhado pela República após o fim da escravidão.

05 – Qual a importância simbólica do Quilombo dos Palmares e do dia 20 de novembro citada no fragmento?

      O 20 de novembro, ao relembrar a saga do Quilombo dos Palmares, funciona como um marco de resistência. É uma data fundamental para a organização social e política da população negra, servindo como contraponto à exclusão histórica e como momento de debate sobre a igualdade.

 

 

domingo, 25 de agosto de 2024

ANÁLISE: "A NOVA CALIFÓRNIA", (PC) É UMA BREVE E DIFERENTE FORMA DE SE CONTAR HISTÓRIA (FRAGMENTO) - COM GABARITO

 Análise: A Nova Califórnia”, (PC) é uma breve e diferente forma de se contar história – Fragmento

        O jogo brasileiro desenvolvido pela Game e Arte é uma experiência curta, mas adapta com criatividade um conto literário para os games.

Por Gilson Peres em 06/12/2017

        [...]

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh_FajL3dDN6Mu0DRD13HvRw5xWs6Q-2ubNIT7kjCe0UFm4q41Il62_FIgfbhaGDuvlJiZeWNTaMPuzTL4jooL4JEP61n6V8Jd8hjtQhvgDkf29TB5RpVvcDbDYHhI_ZDsFmnW_X4q2U6tU-nin9Kys4sZsrMOElp1Uwg7-XICM325AUmDgwYvdzSSUTNk/s320/GAME.png


 Enredo digno da literatura brasileira

        Basicamente o enredo de “A Nova Califórnia” já existe desde 1910. Originalmente este é um conto de Lima Barreto, [...]. A história acompanha vários personagens habitantes da cidade que dá o nome à trama quando a chegada de um novo morador cria um desconforto geral com suas práticas estranhas e origem desconhecida. Dentro deste núcleo, temos o Boticário da cidade, que ouve uma ideia mirabolante e questionável deste novo morador de como fazer dinheiro fácil. A trama toda gira em torno de mensagens como as de ganância, preconceito e ética.

        No jogo, toda essa aura do conto de Barreto foi devidamente respeitada e adaptada com maestria. Mecânicas de jogo diferenciadas fazem com que os textos e diálogos tornem-se essenciais para o avanço da aventura, o que torna a apreensão da história em seus mínimos detalhes divertida e obrigatória na jogatina. Entretanto, transformar um conto de duas páginas de 1910 em um jogo independente em 2017 tem seu preço: “A Nova Califórnia” é extremamente curto. Isso não atrapalha em nada a diversão que o título proporciona, mas os amantes das várias horas gastas em um único título podem se frustrar com essa simplicidade.

        Um dos pontos mais interessantes das histórias apresentadas ao longo da jogatina é o extenso conteúdo depositado em cada um dos simples e rápidos personagens. Com diálogos curtos e resoluções simples, o game mostra posicionamentos e situações próprias para serem debatidas em sala de aula ou em rodas de conversa, o que é uma experiência muito bacana em um jogo, pois aqui a experiência de jogar é livremente completada pelo jogador, que pode interpretar a história passada de vários modos e com opiniões diferentes.

        Visual simples com ambientação divertida

        Um aspecto curioso de “A Nova Califórnia” é o fato dele ter sido feito totalmente no RPG Maker. Além disso possibilitar que o jogo seja acessível para praticamente qualquer configuração de computador atual e até vários mais antigos, o jogo agrada por uma ambientação com poucos recursos, mas ótimos detalhes. Elementos como as casas, cidades e até túmulos que aparecem durante o jogo são bastante fiéis àqueles que existiam na época em que o enredo do jogo se passa. A técnica de pixel art combinada com efeitos caricatos para os personagens torna tudo mais leve e engraçado, mesmo que a temática da história seja um tanto macabra.

        O interessante de não se apoiar tanto no aspecto visual em alta definição para a ambientação foi a abertura para outras formas de adaptar a história, como através das músicas e dos textos do jogo. As falas fora da norma culta do português quando os escravos interagem com os personagens, a cantiga do “marcha soldado” que é cantarolada pelos policiais quando eles estão marchando pela cidade e outros detalhes deste nível fazem com que o conteúdo artístico do game se torne ainda mais interessante.

        [...]

        Mecânicas de jogo diferenciadas

        “A Nova Califórnia” é um game basicamente de aventura, mas é bem difícil enquadrá-lo nas fórmulas tradicionais do gênero. Ao contrário da maioria, este é um game com alguns aspectos de stealth mesclados à aventura, além do já citado foco em diálogos como parte da resolução de puzzles dentro das fases do jogo. Existem fases que basicamente o jogador precisa conversar com as pessoas na cidade e isso acaba se tornando bastante interessante, pois é a partir daí que a história é de fato contada e você consegue conhecer melhor os personagens. 

        Além disso, existem fases nas quais o protagonista precisa roubar e arrombar túmulos, fugindo dos moradores, policiais e outros elementos. Estes são os ápices de ação do jogo e o torna ainda mais divertido. Entretanto, existe um problema aqui: como ele possui um único nível de dificuldade, os ávidos por desafios podem se frustrar bastante, pois o game é demasiadamente fácil de se superar. Claro que o foco é o “contar uma história’, mas um nível de desafio maior nas missões de arrombar túmulos seria bem-vinda para a jogatina.

        [...]

        Prós

·        História bem adaptada;

·        Cenários bem feitos, mesmo que com pouca iluminação;

·        Trilha sonora boa;

·        Missões criativas e adaptadas ao conto original;

·        Mecânicas de jogo diferenciadas;

·        Visual caricato agrada;

·        Indicado para aplicação em escolas;

·        Controles simples o tornam bastante acessível.

Contras

·        Nível de dificuldade baixo demais;

·        Navegação pelo mapa confusa em alguns momentos;

·        Menu simplista pode desagradar alguns.

“A Nova Califórnia” — PC — Nota: 8.0

PERES, Gilson. Análise: “A Nova Califórnia” (PC) é uma breve e diferente forma de se contar história. Disponível em: https://www.gameblast.com.br/2017/12/analise-nova-california.html. Acesso em: 23 abr. 2020.

Fonte: Linguagens em Interação – Língua Portuguesa – Ensino Médio – Volume Único – Juliana Vegas Chinaglia – 1ª edição, São Paulo, 2020 – IBEP – p. 53-55.

Entendendo a análise:

01 – Qual é a origem do enredo do jogo "A Nova Califórnia"?

      O enredo de "A Nova Califórnia" é baseado em um conto homônimo de Lima Barreto, escrito em 1910. O jogo adapta essa história para o formato de jogo digital, mantendo temas como ganância, preconceito e ética.

02 – Como o jogo "A Nova Califórnia" se destaca em termos de mecânicas de jogo?

      O jogo se destaca por suas mecânicas diferenciadas, mesclando elementos de stealth com aventura e focando em diálogos como parte essencial da resolução de puzzles. Essas mecânicas tornam o jogo único dentro de seu gênero.

03 – Quais são as principais críticas negativas mencionadas na análise sobre o jogo?

      As principais críticas são relacionadas ao baixo nível de dificuldade, que pode frustrar jogadores que buscam desafios, e à navegação confusa pelo mapa. Além disso, o menu simplista pode desagradar alguns jogadores.

04 – Por que "A Nova Califórnia" é considerado um jogo curto, e como isso impacta a experiência?

      "A Nova Califórnia" é considerado curto porque adapta um conto literário de apenas duas páginas, resultando em uma experiência de jogo breve. Apesar disso, a análise aponta que essa curta duração não compromete a diversão, mas pode frustrar jogadores que preferem títulos mais longos.

05 – Como o jogo "A Nova Califórnia" aborda a ambientação e o visual?

      O jogo utiliza pixel art e foi desenvolvido no RPG Maker, resultando em um visual simples, mas detalhado, que recria de forma fiel os cenários da época em que a história se passa. A combinação de efeitos caricatos com uma temática macabra cria uma atmosfera leve e divertida.

06 – De que forma o jogo "A Nova Califórnia" pode ser utilizado em ambientes educacionais?

      O jogo é indicado para aplicação em escolas devido ao seu conteúdo rico e à forma como ele promove discussões sobre os temas abordados. A interação com os personagens e a interpretação livre da história tornam-no uma ferramenta educativa valiosa.

07 – Quais aspectos artísticos do jogo "A Nova Califórnia" são destacados na análise?

      A análise destaca a trilha sonora, os diálogos autênticos e a ambientação como aspectos artísticos notáveis. Detalhes como as falas fora da norma culta do português e a cantiga “marcha soldado” cantada pelos policiais enriquecem a experiência artística do jogo.

 

 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

CRÔNICA: MÁS INTENÇÕES - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Más Intenções

                Walcyr Carrasco

ENTRA ANO, SAI ANO, é sempre a mesma coisa. Começo a delirar com as boas intenções para 1996. Não adianta refletir que se trata de uma data simbólica e que a vida não vira de cabeça para baixo de uma noite para outra. A passagem do ano mexe com a gente. Vejo meus amigos em torno, repletos de resoluções. Lembro do ano passado e tento me acalmar. Um deles me garantiu, na noite do 31, que até o final do ano (este que termina) faria seu primeiro milhão de dólares vendendo ações. Quando o ouvi, fiquei com os neurônios verdes de inveja e pensei: "Por que nunca aprendi a vender ações para também ganhar meu milhãozinho?".

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEirY9_4sJMZ4tqc-XDqHyr4DTdGBFKF_j_yNxuv6fBwIoJPx_s6Vpltr-qOujw80XGuUopMOv-No6CbJPOLNLVYyVbgN0ETseARKSfencC7cxHthCvHfql2BFGU_gVwHX3-A79vCbz2jksTuOWnt3LcNuB2KlTPcrwnxooqsFE88xyYVDTNsNh4qUdGwvQ/s1600/ANO%20NOVO.jpg


Meu amigo está, realmente, próximo dessa quantia. Em saldo negativo no banco. Não passou para a frente uma ação sequer e economiza até nas bitucas de cigarro. Outra amiga, atriz iniciante, falava comigo animada, em fevereiro:

— Li meu mapa astral. Este será o meu ano. Vou ter grande projeção na tevê. Tenho a intuição de que vou virar estrela de novela.

De fato, apareceu na tevê. Como vítima de um assalto, chorando histérica e dando declarações aos gritos. Ganhou, é verdade, seus cinco segundos de fama. Tem crises de nervos cada vez que ouve falar em mapa astral. Há pessoas mais modestas. O sonho de uma amiga é tão simples quanto irrealizável: emagrecer. Já a encontrei, neste final de ano, com um copo de cerveja na mão e um prato repleto de lombo de porco com molho de ameixa. Espantei-me:

— Na semana passada você estava de regime estrito!

— E só desta vez. O ano está acabando mesmo. Fica para o próximo.

Aguarde!

Aguardo, sim! Aguardo o dia em que, em vez de andar, ela vai sair rolando. (Regimes quebrados nas festas são um capítulo à parte. As pessoas nunca se enganam tanto como nesta época.) O aspecto mais trágico dessas resoluções é a despedida. A pessoa resolve deixar de fumar a partir de janeiro e manda ver em dez maços cotidianos até o réveillon, para dar o adeus definitivo. Fica à beira de um ataque e volta a fumar no dia 2. Outra promete nunca mais usar o cheque especial, a partir do Ano-Novo. Corre aos shoppings e torra o que pode, com um fantástico sentimento de autoconfiança. Afinal, aquela fase da vida está terminando e nunca mais ela gastará tanto. Quase é presa por calote. E, logo depois do réveillon, lembra-se de que esquecera de comprar só mais uma coisinha.

Certo ano despenquei numa loja prestes a fechar, batalhei com o gerente e consegui levar um despertador digital. Tudo porque estava decidido a acordar às 6 da manhã para correr no Ibirapuera. Era importante iniciar o ano com o pé direito. Ou melhor, com o relógio certo, começando a correr na exata manha do dia l.. Já me vi atlético e bronzeado, veloz como um puro-sangue, vencendo a próxima São Silvestre. Saí do réveillon de madrugada, preocupado, com a camisa branca marcada de vinho. Senti que não estava na melhor forma para cumprir a resolução. Recorri a um estratagema. Adiantei o relógio quatro horas: "Quando ele tocar, pensarei que são 10. Na verdade, serão 6. Levanto e saio correndo sem tomar café, para não atrasar".

Despertei com o barulho horrendo. Vi que eram 10, mas lembrei que talvez fossem 6. Fiquei em dúvida. Desliguei o relógio com um argumento: "Se já são 10, significa que não cumpri a promessa. Sou um crápula comigo mesmo. Assim nunca serei atlético". Suspirei, virei para o lado e ronquei docemente.

Um fato é inegável: resoluções de Ano-Novo são mais frustrantes do que panetone sem passas. Desta vez, tirei a máscara.

Decidi não virar o ano garantindo que serei tão afável quanto um poodle. Confesso: meu coração pulsa repleto de deliciosas más intenções para 1996. É que as boas intenções de Ano-Novo só servem para provar uma coisa: que ninguém é de ferro. Felizmente. Se todo mundo cumprisse as promessas torturantes desta época, o planeta seria tão chato quanto um réveillon com menu dietético. 

 Entendendo o texto

01.Qual é o tema central abordado na crônica "Más Intenções" de Walcyr Carrasco?

     a) As boas intenções de Ano-Novo.
     b) As resoluções frustrantes.
     c) A importância do réveillon.
     d) O hábito de fumar.

02. Quem narra a crônica "Más Intenções"?

     a) Um observador externo.
     b) O autor, Walcyr Carrasco.
     c) Um personagem fictício.
     d) Um amigo do autor.

03. O que o autor destaca como o aspecto mais trágico das resoluções de Ano-Novo?

     a) A despedida.
     b) A volta ao cheque especial.
     c) A quebra dos regimes nas festas.
     d) A promessa de deixar de fumar.

04. Qual é a resolução da amiga atriz mencionada na crônica?

     a) Deixar de fumar.
     b) Emagrecer.
     c) Aprender a vender ações.
     d) Não usar mais o cheque especial.

05. Como o autor descreve a reação das pessoas em relação aos regimes quebrados nas festas?

     a) As pessoas se enganam mais nesta época.
     b) É um capítulo à parte das festividades.
     c) Todos conseguem manter o regime.
     d) As festas não afetam os regimes.

06. Qual foi a estratégia adotada pelo autor para cumprir a resolução de correr no Ibirapuera?

     a) Comprar um despertador digital.
     b) Adiantar o relógio quatro horas.
     c) Correr sem tomar café.
     d) Deixar de beber vinho no réveillon.

07. O que aconteceu quando o autor despertou na manhã do dia 1º?

      a) Ele correu no Ibirapuera.
      b) Admitiu que não cumpriu a promessa.
      c) Sentiu-se atlético e bronzeado.
      d) Tomou um café reforçado.

08. Como o autor descreve as resoluções de Ano-Novo em relação ao réveillon com menu dietético?

      a) Frustrantes.
      b) Divertidas.
      c) Motivacionais.
      d) Sem graça.

09. O que o autor confessa sobre suas intenções para o próximo ano?

      a) Ter boas intenções.
      b) Cumprir suas promessas.
      c) Ter más intenções.
      d) Mudar radicalmente de estilo de vida.

10. Como o autor caracteriza o planeta se todo mundo cumprisse as promessas de Ano-Novo?

      a) Chato como um réveillon com menu dietético.
      b) Animado como uma festa de carnaval.
      c) Feliz como uma tarde de domingo.
      d) Interessante como uma viagem ao exterior.

 

 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

CRÔNICA: POR ÁGUA ABAIXO... WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Por Água Abaixo...

                Walcyr Carrasco

HÁ ALGUNS MESES eu corria na esteira quando aconteceu uma coisa surpreendente. Um amigo observou o marcador do ritmo cardíaco e comentou.

— O seu ritmo está diminuindo, em vez de aumentar! Devia ser o

contrário! . 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyYGTQ0o8cWIZ-TUmjVQY8_i5qpMVYGcMGZyYtsy-U4pjUJAM1A1WHI2KdLqazgaEG7Z7AAL-pUENQLthma-oNhqWaeYsIpUyNJrp-O2vSYK3byU4ULTZaYqHGFBfgGvNvhYMkv2g8hOdCXoRY4BsqqX4hrlBlH1Jmi-8X6udrjqK7PcVT5GU6jrSAVWI/s320/BARRIGUDO.jpg


Respondi, já me sentindo um superesportista:

— Sou um alienígena.

-—Só se guardar a nave na barriga!

Cautelosamente, abaixei os olhos para minha cintura roliça. Pela milésima vez, fiz o voto:

Vou emagrecer!

Bem, o fim de ano se aproximava. Transformei a decisão na minha principal promessa, além das usuais: ser bom, me apaixonar e escrever um grande livro. Entretanto, há uma grande contradição entre as promessas de Ano-Novo e o advento do próprio. Falando claramente: quem faz regime na ceia de Natal, por exemplo?

Fui para a casa de meu irmão, em Campinas. Quando nos encontramos, notei que o próprio estava com uns quilinhos a mais do que da última vez. Mau sinal. Eu estava decidido a me comportar frugalmente. Foi só deixar a valise no quarto de hóspedes para minha cunhada anunciar.

— A fogazza está pronta!

Deliciosa fogazza, feita em casa. Meu irmão acendia o forno a lenha. Abandonamos seu filho embaixo da árvore de Natal e corremos para a mesa. Eram sete horas. Só saímos à meia-noite, depois de devorarmos a. fogazza, um vidro de conserva de pimentões, quatro pratos de gaspacho cada um (para quem não conhece, uma sopa fria de tomate, espanhola), três de risoto de escarola e umas oitenta fatias de pernil de cordeiro assado, completados por pratos de frutas secas, uma torta de maçã, um bolo de pistache e outro de damasco. O pobre garoto tentou nos interromper algumas vezes para mostrar os presentes e falar sobre Papai Noel.

Nós o calávamos enfiando pedaços de pão em sua boca.

         Voltei no dia seguinte, com. o coração sereno.         

— Foi uma exceção... porque a partir do Ano-Novo tudo vai mudar!

Na estrada, parei para comprar três quilos de linguiça, três salames e dois queijos. Evitei o doce de leite, que engorda muito.

Bem, o fato é que não podia deixar as compras estragarem. Passei os dias seguintes chafurdando em linguiça frita, fazendo sanduichinhos rápidos de salame etc. Quando a noite de ano se aproximou; prometi:

— Agora começo o regime!

Mas existe um menu das boas-entradas. Itens essenciais no cardápio, sem o qual o ano pode se tornar um desastre. Lentilha, por exemplo. Fica deliciosa quando preparada com pedaços de carne de porco. Doces são essenciais, para que o ano seja ameno. Uvas. Champanhe, e quanto mais taças, melhor! Ou seja. Já estava quebrando a promessa na própria virada do ano. Não durou um mísero segundo!

Há um fator psicológico importante nos dias que se seguem ao Ano-Novo. Muitas das compras estão lá, intatas. Panetones. Bolos. Doces. Bebidas. Também há quem nos presenteie com mais... panetones, bolos, doces... bebidas! Começar o ano desperdiçando, nem pensar!

Dediquei as últimas duas semanas a aproveitar! Sempre decidido a começar o regime no dia seguinte. Porque, afinal, promessa de Ano-Novo é sagrada! Além do mais, minha vaidade também conta. Havia prometido a mim mesmo estar esbelto para ir à praia. Realmente, há algo de irreconciliável entre fazer bonito no verão e se divertir nas festas!

Suspiro. O carnaval está aí. Carnaval sem cerveja não dá. Cerveja sem batata frita, não dá. Batata frita sem linguiça fritinha no prato para acompanhar... E para que começar agora, se é para quebrar daqui a pouco?

Adiei minha promessa de Ano-Novo para depois do carnaval. Dizem que o país só funciona depois da passagem das escolas de samba. Farei o mesmo com todas as minhas promessas. Incluindo o tal grande livro, que nem comecei a escrever. Depois de tal orgia gastronômica... só aguento dar um cochilo!

Enquanto isso, minha barriga... Se antes abrigava uma nave alienígena, agora é capaz de guardar um aeroporto inteiro! 

Entendendo o texto

01. Qual é o assunto central da crônica "Por Água Abaixo..." de Walcyr Carrasco?

a) Exercícios físicos.
b) Festas de fim de ano.
c) Promessas de Ano-Novo.
d) Dieta e regime.

02. Quem é o narrador na crônica?

        a) Primeira pessoa.
        b) Segunda pessoa.
        c) Terceira pessoa.
        d) Narrador onisciente.

03. Onde o narrador se encontrava quando seu amigo observou o marcador do ritmo cardíaco?

        a) No restaurante.
        b) Na esteira.
        c) Na academia.
        d) Na festa de Ano-Novo.

04. O que o narrador promete fazer no fim de ano, além de emagrecer?

       a) Ser bom.
       b) Se apaixonar.
       c) Escrever um grande livro.
       d) Todas as opções acima.

05. Onde o narrador passa o fim de ano na crônica?

      a) Em sua casa.
      b) Na casa do irmão em Campinas.
      c) Na praia.
      d) No restaurante.

06. Qual é o cardápio descrito na ceia de Natal na casa do irmão do narrador?

       a) Churrasco e quindins.
       b) Gaspacho, risoto de escarola, pernil de cordeiro, frutas secas e sobremesas diversas.
       c) Linguiça, salame, queijo e doce de leite.
       d) Lentilhas e champanhe.

07. O que o narrador decide fazer na virada do ano?

       a) Começar o regime.
       b) Quebrar a promessa.
       c) Fazer exercícios físicos.
       d) Abandonar as promessas.

08. O que o narrador destaca como essencial no menu das boas-entradas?

        a) Linguiça.
        b) Lentilhas.
        c) Doces e bebidas.
        d) Todas as opções acima.

09. O que o narrador decide adiar para depois do carnaval?

        a) Promessa de emagrecer.
        b) Começar o regime.
        c) Escrever um grande livro.
        d) Todas as promessas.

10. Como o narrador descreve o estado de sua barriga no final da crônica?

        a) Abriga uma nave alienígena.
        b) Capaz de guardar um aeroporto inteiro.
        c) Firme e tonificada.
        d) Magra e esbelta.

sábado, 13 de janeiro de 2024

CRÔNICA: ADEUS AO FOGÃO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Adeus ao Fogão

                Walcyr Carrasco

SENTO À MESA COM o estômago dançando rumba, de tanta fome. Há quarenta minutos, eu, minha cunhada e as duas sobrinhas esperamos a feijoada descongelar. A carne-seca, o toucinho e o paio imersos no caldo negro são, finalmente, apresentados. Encho o prato, degusto a primeira garfada. Puro sabor de asfalto. As duas sobrinhas quase desmaiam de enjoo, enquanto minha cunhada dá o veredicto:

— Queimou.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgl0lNwM5AKnnmj83SWHcXVpERy4pGUnNQYm-1yssEwLdK3vKtqXShsW3mod8vs9YbTuI6fbvhzAEKjpgpUDKt9rSWZr-vaSZi6195DkoBFBjTCeWCZgcy5dd2lNJAWhb5E_ZguTopbgxo0XEMVPmK-AR5lYbckKhqJ0WfuBgg52e9HipILVdkpMI2JT7w/s320/CADERNO.jpg 


Um sentimento de tragédia paira no ar. Como é sábado, o expediente da doméstica já acabou. As três sabidonas mal sabem fritar um ovo. Proponho fugir para um restaurante. Concordam, entusiasmadas. Apenas uma ressalva, da mãe:

— Só que estou sem talão de cheques...

Submeto-me. Saímos em direção ao mais próximo. Na porta, o namorado da sobrinha mais velha incorpora-se ao cortejo. Chegou

tarde, mas em jejum! Pouco depois, com as cabeças enfiadas em tigelas de feijão preto, conversamos. Estou surpreso: não sabem cozinhar nem para emergência?

— Uma vez eu fiz uma sopa num acampamento em Maresias — conta uma. — Mas de pacotinho!

É uma constatação: as mulheres andam cora orgulho de ficar longe das panelas. As conquistas femininas implicam quebrar os grilhões que as prendiam ao forno e fogão. Fico impressionado com o número de mães executivas que criam seus rebentos à base de salsicha e hambúrguer.

Essa geração acha vantagem confundir berinjela com abobrinha. As que cozinham melhor são especializadas num único prato. Conheço uma garota que adora fazer frango no azeite. Afoga peitos e coxas numa fôrma repleta de óleo e deixa no forno até secar. Se algum convidado tiver colesterol alto, morre no jantar. Outra se sente o máximo quando coloca um macarrão com consistência de chiclete na minha frente. Dou uma garfada e meus dentes ficam presos no prato.

— Gosto assim, bem molinho — explica a gourmet.

Não é à toa que um número crescente de homens descubra talentos culinários. Engano imaginar que é vocação. Trata-se de pura sobrevivência. Afinal, a maior parte dos mancebos da mesma geração foi criada por mães esplendorosas, capazes de passar uma tarde inteira enrolando brigadeiros para a festinha de aniversário. Quando se casam, enfrentam os sinais do avanço da luta entre os sexos. Um amigo recém-casado geme: 

— Ela só sabe fazer estrogonofe. Nos finais de semana, dá-lhe estrogonofe. Cada vez que vejo os pedacinhos de carne boiando no molho tenho vontade de chamar minha mãe. Outro dia pedi para ela fazer um bolo. Saiu um pedaço de cimento.

Reclamei, chamou-me de machista!

— Sua mulher trabalha?

— Ainda não... Pensamos em ter um filho. Morro de medo de ter de passar as noites esquentando mamadeira. Ela é incompetente até para fazer café!

Algumas, mais cruéis, vivem fazendo regime e submetem o marido a ele. Um rapaz começou a afinar. Quando estava quase despencando, revelou:

— No jantar, só salada de alface e cenoura ralada. Ela emagreceu, eu sumi. O pior é que me faz ralar as cenouras, para não quebrar as unhas. Às vezes acordo no meio da noite sonhando com um filé mignon!

Sei que muitas mulheres ficam "bravésimas" com esse tipo de crítica. 

— Não temos nenhuma obrigação de saber cozinhar! — insiste qualquer garota pós-moderna.

Em termos de avanço social, seria fundamental transformar o arroz em mingau e o bife em sola de sapato? Hoje em dia, a figura da doméstica de forno e fogão, escravizada no emprego, tornou-se cada vez mais rara. Digam o que disserem as feministas de última hora, dietas à base de pizza com gosto de papel não são uma forma de felicidade.

No último Natal, quis agir com sutileza. Minha prima se descabelava porque perdera a empregada de muitos anos. Ofereci-lhe um livro de receitas. Meses depois me convidou para jantar. O menu: comida chinesa, entregue em casa.

Surpreendi-me:

 —E o livro?

— Estou lendo! — respondeu alegremente.

— Não é um romance para ler! É para fazer! — rugi.

Ela me encarou, magoada. Mesmo assim, pretendo continuar com a estratégia. Quando alguma amiga executiva faz aniversário, presenteio com Dona Benta, A Maravilhosa Cozinha de Ofélia e outras preciosidades do gênero. Pode ser até que não dê certo. Mas adoro ver a expressão de susto quando abrem o pacote!

Entendendo o texto

01. Qual é a situação inicial da crônica "Adeus ao Fogão" de Walcyr Carrasco?

a) Um jantar em família.

b) Uma festa de aniversário.

c) Uma refeição descongelada.

d) Um acampamento em Maresias.

02. O que acontece com a feijoada preparada pela narradora e sua cunhada?

a) Fica deliciosa.

b) Queima.

c) É elogiada por todos.

d) É esquecida no fogão.

03. Por que as mulheres da crônica decidem ir a um restaurante?

a) Porque estão cansadas de cozinhar.

b) Porque a feijoada queimou.

c) Porque não têm talão de cheques.

d) Porque querem experimentar novos pratos.

04. Qual é a crítica do autor em relação às conquistas femininas na cozinha?

a) As mulheres deveriam cozinhar mais.

b) As mulheres estão perdendo suas habilidades culinárias.

c) As mulheres estão cada vez melhores na cozinha.

d) As mulheres devem se libertar do fardo da culinária.

05. O que as mulheres da crônica alegam em relação à culinária?

a) Cozinham apenas para emergências.

b) Não têm obrigação de saber cozinhar.

c) São especialistas em diversos pratos.

d) Preferem comida chinesa.

06. O que acontece com o amigo recém-casado quando sua esposa faz estrogonofe?

a) Ele adora.

b) Ele chama a mãe.

c) Ele pede para ela fazer um bolo.

d) Ele se queixa dos pedaços de carne boiando no molho.

07. Por que alguns homens da geração mencionada na crônica desenvolvem talentos culinários?

a) Por vocação.

b) Por pura sobrevivência.

c) Porque suas mães eram chefs.

d) Porque gostam de cozinhar.

08. Como o autor caracteriza as mulheres que fazem regime na crônica?

a) Cruéis.

b) Saudáveis.

c) Incompetentes.

d) Gourmet.

09. O que a prima da narradora faz após receber um livro de receitas como presente?

a) Começa a cozinhar imediatamente.

b) Lê o livro como se fosse um romance.

c) Convida a narradora para jantar.

d) Contrata uma nova empregada.

10. Qual é a estratégia adotada pelo autor para incentivar suas amigas executivas a cozinharem?

a) Presenteia com livros de receitas.

b) Convida para jantar em sua casa.

c) Contrata uma chef particular.

d) Critica publicamente a falta de habilidade culinária.

 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

CRÔNICA: SINAL VERMELHO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 CRÔNICA: Sinal Vermelho

                   Walcyr Carrasco

 

QUANDO PERGUNTEI SE TINHA dinheiro trocado, minha amiga abriu a bolsa e tirou a carteira. Verificou. Insuficiente. Imediatamente, tirou uma segunda carteira do bolso do casaco, essa repleta de notas. Espantei-me:

— Duas carteiras?

— Uma é para os assaltantes — explicou.

Farta de ter sido roubada várias vezes ao parar no semáforo, ela optou pelo estratagema.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjajfH8A7eafdlTNL09rOOLu2umC9fvbmbiX3hgDZQfiR96pzRxdJJ2TohU_7Imuifv9OoMazhabalarDKRy_T_61Bkgt1u6Vxdzt5W4EVafKPavMpm03RulmToqvZO4QGY_UtZ7A6OfmbtqDvjspqopX8Oe7XOYxRT3_8DnT3Nk6r4XXqweGsBAiuWsNM/s1600/VERMELHO.jpg


Houve época em que os assaltantes eram rápidos. Aproximavam-se, arrancavam um relógio e uma corrente de ouro e saíam correndo como ratos assustados. O assaltante do semáforo, hoje, é um profissional seguro, consciente de ter conquistado um espaço na sociedade. Em certo sentido, tem muito a ver com um dentista. Ambos sabem lidar com o nervosismo alheio. A única diferença é que, enquanto o dentista promete que não vai doer, o ladrão garante o oposto. Está distante de qualquer proposta feminista, pois prefere as mulheres desacompanhadas. Aproxima-se, explica que é um assalto e que quer todo o dinheiro da carteira. Generosamente, dispensa os documentos e as vítimas até agradecem.

— Tive a maior sorte — comentou uma conhecida.

— Ele deixou tudo, menos o dinheiro. Foi muito legal.   

Como se o ladrão fosse um amigo compreensivo!

Seu método, desenvolvido em centenas de semáforos, é o da pressão psicológica pura e simples. Na maior parte das vezes nem arma mostra. Já vi a atuação de um desses assaltantes. Eu estava parado num semáforo próximo à praça Roosevelt. Atrás de mim, em seu Fiat, a sábia amiga das duas carteiras. O profissional, acompanhado de um ajudante, aproximou-se de seu vidro. Vi, pelo meu retrovisor, que conversava com ela cortesmente. "Será um assalto?", refleti. Observei para ver se havia alguma arma. De jeito nenhum. Um bando de rapazes "mal-ajambrados" acompanhava a cena de longe. Já me vi descendo do carro e enfrentando todos a golpes de capoeira. O único problema é que não sei capoeira. Apenas pensei em aprender, duas ou três décadas atrás.

Prudentemente, decidi-me pela versão menos perigosa. "Deve estar pedindo esmola." Vi quando minha amiga ofereceu algumas notas. Achei a esmola grande, mas disfarcei. O sinal abriu, partimos. Mais tarde, no restaurante, onde havíamos combinado nos encontrar, ela revelou: fora um assalto! Gentilmente (e com alguma dor de consciência), fiz questão de pagar o jantar. Ou seja, o assaltado fui eu, porque o menu custou muito mais do que a quantia roubada.

Conheci uma garota que no último mês foi assaltada cinco vezes, em semáforos diferentes. Acha normal. Particularmente, acho que o mais grave é quando uma coisa dessas começa a ser "normal". E inútil revoltar-se. Uma jovem que trabalha na área de moda estava no semáforo do Trianon, na esquina da avenida Paulista, às 4 da tarde. O ladrão aproximou-se, pediu o relógio e o dinheiro. Ela rodopiou o pescoço em busca de ajuda. Foi-se o tempo dos cavaleiros andantes! Parecia ter-se tornado invisível. Nesse instante, farol verde! Os carros se moveram. Ela acelerou. O meliante agarrou seu rabo-de-cavalo. Pior que Rapunzel com suas tranças, ela ficou presa pelos cabelos, com um pé no acelerador, outro no breque e o pulso entregue ao ladrão. Liberou-se só depois de devidamente depenada.

Qualquer motorista sabe quais são os pontos mais perigosos. Então por que ninguém faz nada? Em regiões como a praça Roosevelt e o Trianon sucedem se os assaltos como se fossem terras de ninguém.

Estou começando a desenvolver a síndrome do pânico em cada sinal vermelho. Fecho os vidros, mesmo agora no verão. Fico parado, olhando cautelosamente em todas as direções enquanto o interior do veículo se transforma numa sauna. Logo eu, um tipo capaz de fazer piada de quase todas as coisas da vida. Mas a questão é séria. Seria cômica se não fosse trágica.

Perder peso e entrar em forma?

Para andar na moda já não basta usar esta ou aquela roupa. E preciso ter o corpo certo, com as medidas exatas de um halterofilista para eles, com o padrão de uma ginasta olímpica para elas. Uma tragédia para os barrigudinhos como eu. Tenho um amigo que passa três horas por dia na academia. Sai do trabalho e corre para os abdominais, para os alongamentos, para o levantamento de peso. Está com peito de pombo. Outro malhou tanto que os bíceps parecem dois pernis. A cabecinha fica enterrada nos ombros como uma coruja. Ambos sentem-se orgulhosos como gaviões. Uma conhecida passa os dias malhando. O corpo, enxuto, não combina com os vincos do rosto e com o nariz em forma de guarda-chuva. Às vezes dá a impressão de que fez um implante de cabeça.

Tenho inveja dos tempos em que alguém podia envelhecer tranquilamente. Fazer exercícios não é mau. O duro é que virou obsessão. Há uma amiga que passa as noites pedalando numa bicicleta ergométrica enquanto vê as novelas. Outra comprou uma esteira a prazo, que agora enfeita seu dormitório, com uma porção de roupas dependuradas. Virou cabide. O filho de outro amigo começou a se queixar de gordura. Entrou em pane, até convencer o pai a adquirir a bicicleta mais cara do pedaço. Uma maravilha, colocada no terraço do apartamento. Mal chegou, atirou-se sobre ela e pedalou quinze minutos, feliz. Nunca mais a usou. Está lá, no terraço, tomando chuva.

O pior é que qualquer rapaz bombado, qualquer pantera malhada age como se fosse um ser oriundo das estrelas. Vão às festas de camiseta, com jeans e roupas colantes. Se eu apareço com um paletó folgado para disfarçar o abdome, observam-me, fiscalizando. Eu me sinto como se fosse uma bolsa Chanel na vitrine de uma sex shop. Confesso: resolvi fazer ginástica, recentemente. Tentei o personal trainer. Ou seja, um professor de ginástica particular, até que eu pegasse o ritmo. Mal começamos, ele me deitou numa espécie de cadeira de dentista forrada de preto e me deu uma barra com pesos nas extremidades, a ser erguida vinte vezes.

Ergui uma, foi fácil. Duas, mais ou menos. Na terceira, o coração batia no nariz.

— Estou velho, já não posso mais! — reclamei.

—- Continue erguendo, ou a barra cai no seu queixo — ele avisou, didaticamente.

Nos abdominais foi pior. Eu contava, e logo chegava aos trinta. Quase mordi o joelho, de tanto nervosismo. Depois o instrutor me pendurou num aparelho de alongamento. Fiquei de pernas abertas, barriga para a frente e mãos agarrando uma barra de madeira, logo atrás.

— Esse exercício tira barriga — explicou.

— Você não pode me algemar aqui, até amanhã? — implorei. 

Com um sorriso de desprezo, o crápula terminou a aula.

— Se amanhã você conseguir se mexer, faça alguns exercícios —

despediu-se.

Desde a primeira aula, bastava olhar no espelho para me sentir um atleta. Assim, continuei com o sofrimento. Aulas depois ele começou a colocar pesos nos pés, que eu deveria erguer ritmadamente. Dava a impressão de que os dedos iam cair no chão. Meus amigos, só elogios:

— Agora você vai sentir mais vitalidade. 

Eu sentia sono só de ouvir a palavra vitalidade. Fui me pesar, esperançoso.

Dois quilos extras.

— E a massa muscular — disse o crápula.

Tanto esforço para engordar? Preferia ter devorado quilos de chantili. Mesmo assim, persisti no sacrifício.

Outro dia peguei uma revista de moda internacional. Até agora essas revistas eram pródigas em exibir manequins até quarentões, mas sempre com peitorais e bíceps expressivos. Surpresa! Em todas, modelos longilíneos, magros, cabelos compridos e ar romântico.

— O homem musculoso está saindo de moda! — pontificou uma amiga estilista. — O bonito agora é o tipo dândi, bem magro.

Pensei nos meus amigos nadando, jogando tênis, malhando. O que vão fazer agora? Trocar de corpo? E eu? Corri ao espelho. Examinei: meus braços estavam começando a ficar com aquele jeitinho de quem faz ginástica! Ih!

         É isso aí. Até quando entro em forma dou com os burros n'água.

          

Entendendo o texto

01.  Por que a amiga do narrador carrega duas carteiras?

a) Para se proteger de assaltantes.

b) Porque uma é para os documentos e outra para o dinheiro. c) Para despistar os ladrões.

d) Todas as alternativas estão corretas.

02. Como o assaltante do semáforo é descrito em comparação com os antigos assaltantes?

         a) Rápido e impulsivo.

         b) Profissional e consciente.

         c) Desorganizado e desesperado.

         d) Inofensivo e amigável.

03.Qual é o método mais comum desse tipo de assaltante?

        a) Mostrar a arma imediatamente.

        b) Usar a pressão psicológica.

        c) Roubar apenas documentos.

        d) Agir rapidamente e fugir.

04. O narrador presenciou um assalto próximo à praça Roosevelt. O que ele observou sobre o assaltante?

        a) Ele estava armado e agiu rapidamente.

        b) Ele pedia esmolas educadamente.

        c) Ele estava acompanhado por um grupo de malfeitores.

        d) Ele recusou o dinheiro oferecido pela amiga do narrador.

05. O que aconteceu durante o assalto vivido pela amiga do narrador?

        a) Ela ofereceu notas como esmola.

        b) O assaltante levou tudo, exceto o dinheiro.

        c) Ela conseguiu escapar ilesa.

        d) O narrador pagou o jantar depois de descobrir o assalto.

06. O narrador relata uma experiência no trânsito que o fez sentir como se estivesse numa sauna. O que ele faz para se proteger?

        a) Fecha os vidros do carro.

        b) Liga o ar condicionado.

        c) Desce do carro e enfrenta os ladrões.

        d) Grita por ajuda.

07. Qual é a reclamação do narrador em relação à pressão estética na sociedade?

       a) A obsessão por perder peso.

       b) A exigência de ter o corpo perfeito.

       c) A falta de moda para barrigudinhos.

       d) Todas as alternativas estão corretas.

08. O narrador tenta fazer ginástica com a ajuda de um personal trainer. Como ele se sente após a primeira aula?

       a) Energizado e motivado.

       b) Como um atleta.

       c) Cansado e dolorido.

       d) Deprimido e desencorajado.

09. Qual é a descoberta surpreendente sobre a moda masculina mencionada na crônica?

       a) Homens musculosos estão fora de moda.

       b) Homens magros são os mais desejados.

       c) Modelos masculinos agora usam cabelos compridos.

       d) Homens devem trocar de corpo para se adequar à moda.

10. Como o narrador se sente em relação aos seus esforços para entrar em forma no final da crônica?

      a) Satisfeito e realizado.

      b) Frustrado e desanimado.

      c) Animado para continuar se exercitando.

      d) Surpreso com os resultados positivos.