domingo, 22 de maio de 2022

CONTO: PRA DAR NO PÉ - PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA - COM GABARITO

 Conto: Pra dar no pé

            Pedro Antônio de Oliveira

        Da varanda lá de casa, eu a avistava: linda, exuberante e charmosa. Nela moravam: bem-te-vi, pintassilgo, pombo, juriti, marimbondo e formiga alpinista, Papagaio de seda também! Desses do mês de julho que, em vez de ficar requebrando no céu, decidem embaraçar a rabiola nos galhos mais altos e ficar por ali mesmo. Teve um que gostou tanto de morar na árvore que nunca mais foi embora.

        No meio do ano, começavam a aparecer pequenas flores naquele pé de manga. Os frutos só chegaram em meados de dezembro. As chuvas do fim de tarde, muitas vezes, aprontavam: jogavam no chão as suculentas frutas. Umas se esborrachavam feio na lama. A dona Tina, na manhã seguinte, distribuía tudo entre a vizinhança. Era bom.

        Um dia, surgiu uma notícia que não agradou a molecada, Iriam derrubar o pé de manga. E, no lugar, construir uma casa. Achei um absurdo! Será? Os bichos ficariam sem lar, o ar sem oxigênio e eu sem minhas mangas! Ora, onde já se viu um negócio desses?!

        Corri como foguete pra chamar a turma. Fomos pra debaixo da mangueira. Criamos grito de guerra e tudo, só pra tentar salvar a árvore. Improvisamos cartazes e fizemos o maior auê.

        Logo conseguimos mais adeptos para a manifestação. A rua inteira ficou tomada de gente. Vieram tevê, rádio, jornal... Eu não parava de dar entrevistas. Fiz discurso inflamando, precisava ver, com direito a lágrimas e voz rouca pra causar emoção. O pior foi quando me empolguei. Estava agradando tanto, que comecei a dirigir adjetivos pouco delicados à dona Tina. Ela que não deixasse cortar a árvore!

        Mas o tiro saiu pela culatra. Nós nunca mais chupamos mangas daquela mangueira. Nunca mais mesmo! Dona Tina ficou irritada com as coisas que eu disse a respeito dela durante o protesto. Berrou para a vizinhança toda ouvir que se arrependeu amargamente de ter plantado a mangueira e falou ainda que, se pudesse, plantaria era a mão na minha orelha!

        A notícia boa é que o pé de manga não foi derrubado. Os bichos não ficaram sem lar, o ar não perdeu oxigênio... A ruim é que tudo não passou de boato. Ninguém jamais quis destruir a árvore. Dá pra acreditar? Veja que mico. Ah, por falar nisso, tem mesmo um mico morando lá nas alturas. O danado vive bem. Chupa manga que só vendo! Quem sabe não pinta uma amizade e ele arremessa de lá umas frutinhas pra gente?! Porque manga, de agora em diante, só assim.

        Descobri que espírito ecológico não combina com fofoca.

                         Pedro Antônio de Oliveira. Uma história, uma lorota... e fiquei de boca torta! Belo Horizonte: Editora Formato, 2008.

Fonte: livro – Língua portuguesa – Buriti mais português – 4° ano – ensino fundamental – Anos iniciais – 1ª edição, São Paulo, 2017. Moderna. p. 38-42.

Entendendo o conto:

01 – Após a leitura do texto, responda as questões abaixo, se preciso for procure no dicionário.

a)   O que quer dizer papagaio de seda? E rabiola?

Papagaio de seda: papagaio (pipa) feito com papel de seda. Rabiola: rabo ou cauda de papagaio de papel.

b)   Você conhece o significado de boato? Se não conhece, é possível descobrir o que a palavra significa pela leitura do conto?

Mexerico.

c)   Encontre no texto outra palavra que tenha o mesmo significado de boato.

Fofoca.

02 – Converse com os colegas.

a)   Quem é o narrador do conto? Justifique sua resposta.

O narrador parece ser um menino. Ele conta que a notícia não agradou a “molecada” e que foi chamar a “turma”.

b)   Que acontecimento faz o narrador organizar uma manifestação?

A notícia da derrubada do pé de manga.

c)   O que você acha que o narrador deveria ter feito antes de tomar essa atitude?

Resposta pessoal do aluno. Sugestão: ele deveria ter conversado com a principal pessoa envolvida, dona Tina, para conhecer as razões dela.

d)   Existe, na região onde você mora, um elemento da natureza que você gostaria de ver sempre preservado? Qual?

Resposta pessoal do aluno.

e)   Você conhece alguém que já ficou em situação complicada por causa de fofoca?

Resposta pessoal do aluno.

03 – Assinale o trecho que mostra que o narrador, além de contar a história, também é personagem.

(   ) No meio do ano, começavam a aparecer pequenas flores naquele pé de manga. Os frutos só chegaram em meados de dezembro. As chuvas do fim de tarde, muitas vezes, aprontavam: jogavam no chão as suculentas frutas. Umas se esborrachavam feio na lama.

(X) Achei um absurdo! Será? Os bichos ficariam sem lar, o ar sem oxigênio e eu sem minhas mangas! Ora, onde já se viu um negócio desses?!

(   ) Mas o tiro saiu pela culatra.

04 – Explique como você descobriu a resposta da questão anterior.

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: as palavras eu e minha deixam claro que é a personagem que está contando a história.

05 – Quais são as outras personagens do conto?

      Dona Tina e a turma de amigos do narrador.

06 – Dona Tina era uma pessoa generosa ou egoísta em relação aos vizinhos? Explique.

      Era generosa. No início do conto, o narrador informa que ela distribuía mangas pela vizinhança.

07 – O narrador apresenta três razões contra a derrubada do pé de manga. Quais são elas?

      Os bichos ficariam sem lar; o ar, sem oxigênio; e ele, sem as mangas.

08 – Por que Dona Tina acabou ficando irritada com o narrador?

      Porque, além de mobilizar muita gente contra ela, ele a criticou sem se preocupar em verificar o que, de fato, ela pensava fazer.

09 – Escreva o significado que estas expressões têm no texto.

a)   Veja que mico.

Veja que vexame.

b)   O tiro saiu pela culatra.

O ato prejudicou a quem o praticou.

c)   Fazer o maior auê.

Fazer uma grande confusão.

d)   Plantar a mão na orelha.

Dar um tapa na orelha.

e)   Onde já se viu um negócio desses?

Onde já se viu acontecer algo parecido? / Como é possível isso acontecer?

10 – O uso dessas expressões torna o texto:

(X) Divertido.

(   ) Sério.

(   ) Formal.

(X) Informal.

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