Texto: Raízes do Brasil – Fragmento
Sérgio Buarque de Holanda
[...]
Nas formas de vida coletiva podem
assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as
atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do
aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedades rudimentares manifestam-se
eles, segundo sua predominância, na distinção fundamental entre os povos
caçadores ou coletores e os povos lavradores. Para uns, o objeto final, a mira
de todo esforço, o ponto de chegada, assume relevância tão capital, que chega a
dispensar, por secundários, quase supérfluos, todos os processos
intermediários. Seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore.

Esse tipo humano ignora as fronteiras.
No mundo tudo se apresenta a ele em generosa amplitude e, onde quer que se
erija um obstáculo a seus propósitos ambiciosos, sabe transformar esse
obstáculo em trampolim. Vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos
horizontes distantes.
O trabalhador, ao contrário, é aquele
que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O
esforço lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as
possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo proveito do insignificante,
tem sentido bem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A
parte maior do que o todo.
Existe uma ética do trabalho, como
existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só
atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar, e,
inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do
aventureiro — audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,
vagabundagem – tudo, enfim, quanto de relacione com a concepção espaçosa do
mundo, característica desse tipo.
Por outro lado, as energias e esforços
que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as
energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem
perspectiva de rápido proveito material passam, ao contrário, por viciosos e
desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o
ideal do trabalhador.
[...]
Sérgio Buarque de
Holanda. Raízes do Brasil. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. p. 13.
Fonte: Lições de texto.
Leitura e redação. José Luiz Fiorin / Francisco Platão Savioli. Editora Ática –
4ª edição – 3ª impressão – 2001 – São Paulo. p. 256-257.
Entendendo o texto:
01
– Quais são os dois princípios que regulam as atividades humanas, segundo o
autor?
Os dois
princípios são o do aventureiro e o do trabalhador, que representam diferentes
formas de encarar a vida e o trabalho.
02
– Como o aventureiro encara o trabalho e os objetivos?
O aventureiro
foca no objetivo final, buscando resultados imediatos e desprezando os
processos intermediários. Ele valoriza a amplitude, a liberdade e a superação
de obstáculos.
03
– Qual a visão do trabalhador sobre o trabalho e os objetivos?
O trabalhador
valoriza o esforço lento e persistente, a atenção aos detalhes e o
aproveitamento máximo dos recursos. Ele se preocupa mais com as dificuldades a
serem superadas do que com o triunfo final.
04
– Como a ética do trabalho e a ética da aventura se contrapõem?
O trabalhador valoriza a
moralidade nas ações, enquanto o aventureiro exalta a busca por recompensas
imediatas. O que é considerado positivo por um é visto como negativo pelo
outro.
05
– Quais características são atribuídas ao aventureiro?
O aventureiro é caracterizado por sua audácia, imprevidência,
irresponsabilidade, instabilidade e busca por resultados rápidos.
06
– Quais características são atribuídas ao trabalhador?
O trabalhador é
caracterizado pela persistência, atenção aos detalhes, valorização do esforço e
busca por estabilidade.
07
– Qual a crítica presente no fragmento em relação aos dois tipos de indivíduos?
O fragmento
apresenta uma análise crítica das duas mentalidades, mostrando como elas
influenciam as formas de vida coletiva e as relações sociais. O autor não toma
partido de nenhum dos dois modelos, apenas os contrapõe.
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