Artigo: Força estranha – Fragmento
Ricardo B. de Araújo
[...]
A torcida possui a propriedade de
reunir, “na mesma massa”, pessoas situadas em posições sociais diversas,
homogeneizando, em torno de clubes, as suas diferenças. Nesse processo, um
mecanismo extremamente importante é o uniforme de cada clube: ao mesmo tempo em
que separa e distingue cada uma das torcidas, ele “despe” cada torcedor da sua
identidade civil, e o integra em um novo contexto, profundamente indiferenciado.

Nesse contexto de massa que é a
torcida, inexistem desigualdades, pelo menos em princípio. Todos estão ali
reunidos pela paixão, para torcer por um dos clubes e, portanto, cada torcedor
tem, nesse momento, os mesmos direitos que qualquer outro.
Este último ponto é de grande
importância, pois nos leva, de certa forma, da igualdade à liberdade. Com
efeito, se todos os torcedores são considerados moralmente iguais, abre-se,
então, a possibilidade para que cada um deles possa, com toda a legitimidade,
ter uma visão inteiramente pessoal do andamento da partida, da escalação dos
times, enfim, de qualquer aspecto relacionado ao mundo do futebol.
Qualquer torcedor pode, inclusive,
discordar das “autoridades” em futebol, os técnicos, dirigentes ou
comentaristas, sem que sua interpretação seja considerada insolente ou
descabida. Este é um contexto em que, de alguma forma, todo mundo tem opinião,
e todos têm o direito de exprimi-la, ou seja, são livres para explicitá-la sem
sofrer qualquer constrangimento. É exatamente por isso que as discussões sobre
o futebol são consideradas “intermináveis”. Na verdade, esta impressão é
causada pela própria dificuldade de se chegar a algum consenso num ambiente tão
pluralista e democrático.
Existe,
portanto, no futebol, uma área de decisão privada, na qual cada torcedor tem
liberdade para julgar e escolher segundo suas próprias inclinações, sem ter que
sofrer qualquer interferência. Lembremo-nos de que a própria opção por se
torcer por determinado clube, de trocá-lo por outro, ou mesmo de se
desinteressar do futebol, são resoluções de “foro íntimo”, que não interessam a
ninguém, e que devem, assim, ser tomadas com toda a independência.
Araújo, R.B. Força
Estranha. Ciência Hoje, ano I, v.1, jul./ago. 1982.
Fonte: Lições de texto.
Leitura e redação. José Luiz Fiorin / Francisco Platão Savioli. Editora Ática –
4ª edição – 3ª impressão – 2001 – São Paulo. p. 260-261.
Entendendo o artigo:
01
– Qual o papel do uniforme na homogeneização da torcida?
O uniforme, ao
mesmo tempo em que distingue as torcidas, "despe" os torcedores de
suas identidades civis, integrando-os em um contexto comum e indiferenciado.
02
– Como a paixão pelo clube iguala os torcedores?
A paixão pelo
clube cria um contexto de massa onde as desigualdades sociais são minimizadas,
dando a todos os torcedores os mesmos direitos e voz.
03
– Qual a relação entre igualdade e liberdade na torcida?
A igualdade moral
entre os torcedores abre espaço para que cada um expresse sua visão pessoal
sobre o futebol, exercendo sua liberdade de opinião.
04
– Por que as discussões sobre futebol são consideradas
"intermináveis"?
As discussões são
intermináveis devido à pluralidade de opiniões e à dificuldade de se chegar a
um consenso em um ambiente democrático.
05
– Qual a "área de decisão privada" no contexto do futebol?
A área de decisão privada
refere-se à liberdade de cada torcedor julgar e escolher suas preferências
futebolísticas, sem interferências externas.
06
– Como o autor descreve a liberdade de opinião do torcedor?
O autor enfatiza que o
torcedor tem a liberdade de expressar suas opiniões sobre o futebol,
discordando até mesmo de autoridades, sem ser considerado insolente.
07
– Qual a importância da escolha do clube para o torcedor, segundo o autor?
A escolha do
clube é uma decisão de "foro íntimo" e pessoal, que deve ser tomada
com independência, sem interferência de terceiros.
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