quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

CRÔNICA: DESCULPA ESFARRAPADA - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

Crônica: Desculpa Esfarrapada

                Walcyr Carrasco

 

SEMPRE FUI UM DORMINHOCO. Adoro acordar tarde. É o tipo de coisa malvista por possíveis empregadores. Em época de vacas magras eu instruía o pessoal de casa a dizer, todas as vezes que alguém ligasse: "Ele está no banho".

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvHdHHzzXjNQRXWx0gzT4pDI0ZhYh6_aEIIYp2ppltomdXBr8EICJkxiw1hSAMDsBXuAqppI3HZzW9hWICrnt-UAzCTb8foedi7ku692ozIKCXm_atAADLDn-ZU2BD61Szmi7YDrGsDMCAwJEbvOY0zxX5izuh7HLJb7rhQmoonLFV4G42Qqxk9MrZ5vE/s320/SONHO.jpg


Nada mais prático. Quem está no banho, não atende telefone. O problema é que às vezes a pessoa ligava várias vezes, hora após hora. A resposta, invariável. No banho.

— Será que ele não se afogou embaixo do chuveiro? — vinha a pergunta irônica.

Ou batiam o telefone. 

— Se ele não quer me atender, por que não diz de uma vez?

Ganhei a fama de ser o homem mais limpo da cidade. O Sabonetinho, como diziam! Chegaram a me citar uma crônica do Nelson Rodrigues sobre o tema. Ou seja: acabou a desculpa. Mas, nessa era de celulares, de comunicação, rápida; como se safar? Faço terapia todas as sextas-feiras. Quando estou esperando alguma ligação importante, deixo o celular ligado. Às vezes não reconheço o número no visor. Em dúvida, atendo. Já tentei mil vezes explicar:

— Estou no meio de uma consulta e...

Que adianta? A pessoa continua falando, falando! Agora uso o estratagema do túnel, — Ih! Olha, estou no meio do trânsito... ih! Estou entrando em um túnel, se a ligação cair... ih! Não estou ouvindo mais nada, alô, alô. Ih!, ih!

   Desligo, enquanto o interlocutor se esgoela do outro lado. Muita gente usa a estratégia, de tão boa. Já está ficando velha. Antes da revolução das comunicações o interurbano funcionava como desculpa. Bastava mandar dizer.

— Ele está em um interurbano.

Falar com outra cidade era complicado. Todo mundo compreendia. Nesta era de DDD e DDI facilitados, é uma desculpa esfarrapadíssima! Mas a do chefe ainda funciona.

— Sinto muito, ele está em reunião com o diretor.

Dá certo e confere status. Reunião privada com o diretor não é para qualquer um. Podem ligar vinte vezes no dia. Quanto mais longa parecer a reunião, mais importante será o cargo. A não ser que venha um rugido do outro lado:

— Invente outra. Quem está falando sou eu, o diretor.

Afinal, onde é que ele está?

Há outra que está entrando em moda.

— Liguei o dia todo e você não atendeu.

— Mas eu estava em casa. Houve um problema nas linhas telefônicas de todo o bairro. Ficamos incomunicáveis.

A estratégia costuma provocar um gesto de solidariedade. Raios, trovões, ventanias. Tudo mexe com as linhas. Bateria do celular que pifa também é outra. A pessoa está doida para se livrar. Então começa:

— Oh! A bateria está pifando... olha, se a ligação cair, depois eu ligo.

E bate o telefone na cara do outro, a salvo!

Excesso de trabalho também funciona. O problema é quando uma desculpa óbvia se contrapõe a outra mais óbvia ainda. Como quando o casal se encontra, depois de um cano.

— Desculpa ter deixado você esperando ontem à noite, querida. Surgiu um projeto super urgente, fiquei até tarde trabalhando. Nem me aguento em pé — diz ele, aproveitando para disfarçar as olheiras e os sinais de ressaca. .    .

— Ah, meu amor, eu até fiquei preocupada! Houve um problema nas linhas do bairro. Para cúmulo, a bateria do celular pifou. Então... se você tentou ligar... — responde ela, inocentemente.

Os dois se olham, imperturbáveis. E agora?

A sorte foi que não deram de cara um com o outro na farra!

Os tempos mudam. A tecnologia dos pretextos evolui. A desculpa ganha roupa nova. Mas dificilmente muda a aparência. Desculpa que é desculpa, sempre tem jeito de esfarrapada!

Entendendo o texto

01. O autor menciona que, em época de vacas magras, instruía o pessoal de casa a dizer que ele estava:

a) Fazendo exercícios.

 b) No trabalho.

 c) No banho.

 d) Cozinhando.

02. Por que o autor ganhou a fama de ser o homem mais limpo da cidade?

        a) Por tomar banho constantemente.

        b) Por estar sempre no banho quando ligavam.

        c) Por sua reputação como um grande chef.

        d) Por seu interesse em produtos de limpeza.

03. Qual estratagema o autor utiliza para evitar ligações durante suas consultas de terapia?

        a) Estar no trânsito.

        b) Estar em um túnel.

        c) Estar no cinema.

        d) Estar em uma reunião.

04. Antes da revolução das comunicações, qual era uma desculpa comum para evitar ligações?

        a) Estar em outra cidade.

        b) Estar no trabalho.

        c) Estar no banho.

        d) Estar em um interurbano.

05. Segundo o autor, qual desculpa ainda funciona e confere status?

         a) Problemas nas linhas telefônicas.

         b) Bateria do celular pifada.

         c) Reunião com o diretor.

         d) Excesso de trabalho.

06. Qual estratégia o autor menciona como entrando em moda para evitar ligações?

         a) Problema nas linhas telefônicas.

         b) Bateria do celular pifada.

         c) Excesso de trabalho.

         d) Linhas do bairro incomunicáveis.

07. O que o autor menciona como estratégia quando a bateria do celular pifa?

         a) Pedir para ligar depois.

         b) Encerrar a ligação imediatamente.

         c) Continuar a conversa mesmo sem bateria.

         d) Trocar de celular.

08. Segundo o autor, o que costuma acontecer quando uma desculpa óbvia se contrapõe a outra mais óbvia ainda?

        a) A pessoa se irrita.

         b) Ambas são aceitas sem questionamento.

         c) A verdade é revelada.

         d) Um impasse surge.

09. O que o autor menciona como motivo para o casal se desculpar mutuamente após um cano?

         a) Projeto super urgente.

         b) Problema nas linhas do bairro.

         c) Bateria do celular pifada.

         d) Excesso de trabalho.

10. Qual é a conclusão do autor sobre as desculpas?

        a) Elas sempre têm uma aparência esfarrapada.

        b) Elas evoluem com a tecnologia.

        c) Elas mudam conforme os tempos.

        d) Elas são sempre inquestionáveis.

 

CRÔNICA: CULINÁRIA AFETIVA - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Culinária Afetiva

                 Walcyr Carrasco

 CERTOS PRATOS SÃO TÃO IMPORTANTES quanto um abraço de amor. Nunca esquecerei do pudim de queijo de minha avó. Era uma grande cozinheira essa avó. Seu pudim de leite era massudo, com queijo parmesão, com um delicioso contraste entre doce e salgado. 

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPMAn7lioLhNukVa-yh8h_cHbdT-OPOMKu1sw5HdYT3OemZGQotv3As-Dy8c3Viu73o6SC8Ur1q7QZbCoA4BuDzsyjYLHam1LmET7bFut5w1h1YskfonIq5DJhAB5ORZ9QSOL6I8rkjD2Js3P0VMoit97B1ZD_vvICn0v5SxMMNxoTLfue8Lb1MCisvSs/s320/PUDIM.jpg


Até hoje, quando me oferecem pudim, eu aceito, na esperança de recuperar o mesmo sabor. Nenhum neto esqueceu essa avó, que nas épocas festivas enchia a mesa com cabrito assado, leitão, frangos recheados com farofa, doces de todo tipo. 

Entretanto, os filhos e noras —- meus pais e meus tios —- temiam a cozinheira. Inexplicavelmente, certa vez minha avó confundiu parte da farinha com veneno em pó e quase matou a família inteira com uma fornada de rosquinhas. Salvaram-se as crianças pôr serem muito pequenas. Só comiam papinha. Desde então os adultos viviam ressabiados cada vez que ganhavam uma lata de biscoitos de anis. Eu, nunca! Basta comer um bom pudim para sentir o calor dos beijos e abraços de minha avó.

Minha mãe fazia pão. Se ficava nervosa, ia para a cozinha surrar a massa. Eram pães gordinhos como pés. Bons para comer quentinhos, com manteiga e café. E uma receita difícil de encontrar. Ainda bem. Seria incômodo começar a fungar diante de cada pãozinho francês que me aparecesse pela frente. A filha de uma amiga adora gatos. Compartilha a ração dos felinos. Garante que tem um agradável sabor de peixe. Amo meus cães. Mas ainda não sou capaz de roer um osso. Quem sabe com terapia eu consiga vencer essa última resistência.

Inesquecível a primeira vez em que vi a empregada da vizinha fazer bala de coco. A massa branca rolando de um braço para o outro. Juro. Não há coisa mais linda. Uma empregada da minha infância fazia um ovo frito perfeito. A clara branca e a gema rosada no meio. Dá fome só de lembrar. Também não vou esquecer da primeira vez em que cozinhei para os amigos. O objetivo: frango ao molho roquefort. Diretamente do livro de receitas. Por engano, comprei um galo. Parecia um frango gigante. Achei bom. Observando melhor, concluí que era um galo. Em pleno domingo de manhã, saí caçando um frango. Consegui segundos antes de os convidados chegarem. Cortei e temperei às pressas. Acendi o fogo. Segundos depois, acabou o gás. Ah, os botijões! São incontroláveis! Não tinha reserva. Saímos todos batendo nos vizinhos, pedindo gás emprestado. Nada! Lembrei de um fogãozinho de acampamento que eu tinha. Lá ficou o frango horas e horas. Os convidados rugindo de fome. Ao chegar ao ponto, atiraram-se na panela como lobos. Até hoje não sei se era bom ou ruim. Foi, sim, um começo primoroso! Convidados famintos sempre elogiam o cardápio, haja o que houver.

Entre todos os pratos, jamais esquecerei de uma torta que comi em uma viagem. Era um grupo de jovens hospedado em um antigo internato japonês. Todos os dias tomávamos banho de furo, em grupo. Um dia os rapazes iam primeiro, no outro as garotas. Certa vez elas demoraram tanto que as esperamos do lado de fora, com toalhas molhadas. Foi uma perseguição, com todas correndo, gritando, segurando as próprias toalhas, e os rapazes gritando e assustando. No jantar do dia seguinte, uma torta verde, deliciosa. Comi vários pedaços, guloso. Ao final, a revelação.

— A torta é de capim! 

Riram, vingadas!

Essa torta de capim ficou para sempre, com esses dias gloriosos no campo. Em culinária, o afeto e os bons momentos são sempre um tempero sem igual.

Comida boa é a que fica no coração.

Entendendo o texto

01. O autor associa certos pratos a:

a) Abraços de amor.

b)Cheiros agradáveis.

c) Viagens emocionantes.

d) Lembranças tristes.

02. Qual o contraste destacado no pudim de leite da avó?

         a) Doce e amargo.

         b) Doce e salgado.

         c) Amargo e salgado.

         d) Doce e picante.

03.Por que os filhos e noras temiam a avó cozinheira?

         a) Por suas habilidades culinárias.

         b) Por seu temperamento explosivo.

         c) Por sua aversão a biscoitos de anis.

         d) Por ter confundido farinha com veneno em pó.

04. O que a mãe do autor fazia quando ficava nervosa?

         a) Ia ao cinema.

         b) Limpava a casa.

         c) Surrava a massa do pão.

         d) Pedia comida pronta.

05. Qual é a resistência mencionada pelo autor em relação aos ossos?

         a) Roer um osso.

         b) Partir um osso.

         c) Cozinhar ossos.

         d) Enterrar ossos.

06. O que o autor achou lindo na primeira vez que viu a empregada da vizinha fazer?

         a) Um bolo de chocolate.

         b) Um pudim de leite.

         c) Uma bala de coco.

         d) Uma torta de capim.

07. Qual receita o autor tentou fazer para os amigos, por engano comprou um galo e teve problemas com o gás?

         a) Lasanha.

         b) Frango ao molho roquefort.

         c) Risoto de cogumelos.

         d) Sopa de legumes.

08. Como os convidados reagiram ao frango ao molho roquefort?

        a) Elogiaram e pediram a receita.

        b) Rejeitaram e saíram para comer fora.

        c) Riram e se divertiram com a situação.

        d) Ficaram irritados e foram embora.

09. O que revelou a torta que o autor comeu em uma viagem?

        a) Ser feita por um chef renomado.

        b) Ser de um ingrediente inusitado.

        c) Ser uma receita antiga da avó.

        d) Ser a especialidade do lugar.

10. O que o autor destaca como tempero sem igual na culinária?

        a) Sal e pimenta.

        b) Afeto e bons momentos.

        c) Ervas aromáticas.

        d) Molhos especiais.

 

 

 

CRÔNICA: O PINHEIRO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: O Pinheiro

                                 Walcyr Carrasco

HÁ MUITOS ANOS TIVE um Natal especialmente feliz. Eu e um grupo de amigos nos reunimos para fazer uma ceia em minha chácara. Cada um ficou encarregado de um detalhe. Uma semana antes dei pela falta:

—- E a árvore?

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpkYxB8awXwnvJL-_DT15uL8FgsV8jnRrHNRBkZhn5uyNWcK1R8QEwnNrGTwk-c1eW3bXFRNQaAXsF89d4FJUrHZJ3nGOXHf6kW4jVQHP5Y8nGyB-mOw7MyTj54EDohaHfS_2Yk0PZ3to1ZEUbShTTDZ4QCNScBSD9nni219gyFI95JNbZdzSMQ3lbJ8U/s320/PINHEIRO.jpg 


O bando de gulosos, de tão entusiasmado em discutir cardápio, achar receitas, comprar bebida, nem se preocupara com um detalhe tão prosaico e ao mesmo tempo tão natalino. Houve quem dissesse que árvore não precisava ter.

Insisti:

— Natal sem árvore não dá.

Sou meio romântico, apegado a certas deliciosas, tradições. Quando eu era criança, meus pais tinham uma árvore de penas verdes (acreditem), precursora das de plástico. As bolas coloridas, capazes de quebrar ao menor toque, ficavam guardadas o ano todo, envoltas em papel de seda. Em cima colocava-se um ponteiro brilhante, e em torno dos galhos, festões prateados cobertos com discutíveis pedaços de algodão branco. Uma vizinha fazia um presépio famoso no bairro. As figurinhas de cerâmica, pintadas. Um espelho fazia as vezes de rio. E grama, grama de verdade, colocada sobre uma tênue camada de terra, deixando o presépio cheio de vida. Eu, por mim, continuaria acreditando até em Papai Noel. Seria ótimo bater o pé, anunciar o presente desejado e ficar fazendo caras e bocas até ganhar. Entretanto, a verdade me foi revelada lá pelos sete anos, quando insisti em ganhar um cavalo de corrida. Tanto chorei quando o cavalo não veio que minha mãe não teve alternativa a não ser revelar a triste realidade. O Papai Noel que cabia no orçamento familiar não abarcava cavalos. Mas da árvore eu nunca quis abrir mão.

Um amigo saiu em busca de um pinheiro verdejante. Demorou horas.

Voltou com uma árvore raquítica e torta.

— Mas que pinheiro pavoroso! — reclamei.

— Bati em vários lugares, ninguém mais tinha. Achei este.

Pelo menos o homem deu desconto.

Era uma tristeza enfeitar aquele pinheiro tortinho. Compramos umas bolas, inventamos uns laços de fitas, botamos umas luzinhas. Minha mãe veio, e na véspera, quando todos estavam cozinhando, ela dedicou-se a conferir quantas cervejas cada um bebia.

— Se você continuar bebendo vai deixar o pernil queimar! — anunciava.

O pudim de uma amiga desandou. Inventei uma salada estranhíssima, que todo mundo experimentou por educação, de nariz torcido. Eu mesmo comi para disfarçar. Mas o pernil e a farofa estavam excelentes. Bebemos, comemos e trocamos presentes, e rimos muito!. Para minha surpresa, as pessoas não ficaram o tempo todo correndo de um lado para o outro. Sim, porque na maioria das vezes a ceia de Natal é parecida com uma estação de metrô, com uma porção de gente entrando e saindo. Há quem chegue atrasado porque precisou dar uma "passadinha" na casa de não sei quem. E quem saia voando, sem comer direito, rir ou desfrutar, para ir a outra casa, onde alguém pode ficar "chateado".

No dia seguinte um grupo ainda se encontrou para desfrutar as sobras.

Dias depois o pinheiro continuava lá, com as fitas já meio caídas. Pensei

em jogar no lixo. Hesitei. Afinal estava vivo, não estava?           

Achei que plantar uma árvore era um bom sinal para o Ano-Novo. Decidi. Peguei a enxada. Abri uma cova em frente da casa e botei o pinheiro, cortando o fundo da lata. As raízes quebraram, achei que não fosse para a frente. Para minha surpresa, continuou crescendo bem devagarinho, ano após ano. Certa vez, uma visita comentou:

— Meu avô, dizia que, quando o pinheiro ultrapassa o telhado, o dono da casa morre.

Sou supersticioso. Quase peguei o machado para cortar. Resisti, suspirando:

— Deixo nas mãos do destino!

O pinheiro já está bem mais alto que o telhado e eu continuo aqui. Minha mãe se foi. Muitos daqueles amigos tomaram outros rumos, e o nosso Natal em comum é uma vaga lembrança. Estranhamente o pinheiro cresceu de um jeito torto, com o tronco fazendo uma curva pendendo para um lado. Mesmo assim, encontrou um equilíbrio — como talvez todos nós, em situações de dificuldade. Ficou enorme e majestoso. Ao olhá-lo, sinto sempre um calor no peito. Não só pela lembrança, mas também pelo sentimento de continuidade. Em datas especiais, como Natal e Ano-Novo, é essa a grande sensação. A alegria de enfeitar uma árvore. Os amigos que se foram e os que estão chegando. Os laços. A troca. A felicidade de estar ao lado de quem a gente gosta. E a vida, que se renova.

Entendendo o texto

01. Qual foi o detalhe esquecido pelos amigos na preparação do Natal na chácara?

a) Comprar bebidas.

b) Escolher presentes.

c) Decorar a árvore.

d) Planejar o cardápio.

02. Como o autor descreve a árvore de Natal de sua infância?

      a) De plástico.

      b) De penas verdes.

      c) Feita de algodão.

      d) Com bolas de cerâmica.

03. Por que o amigo teve dificuldades em encontrar um pinheiro para a chácara?

       a) Todos estavam muito caros.

       b) Estava fora de temporada.

       c) Já estavam esgotados.

       d) Ninguém mais tinha em estoque.

04. Como o autor descreveu o pinheiro que o amigo trouxe?

       a) Grande e frondoso.

       b) Raquítico e torto.

       c) Majestoso e retilíneo.

       d) Pequeno e robusto.

05. O que a mãe do autor fez na véspera do Natal enquanto todos estavam cozinhando?

       a) Decorou a árvore.

       b) Preparou presentes.

       c) Conferiu a quantidade de cervejas de cada um.

       d) Fez uma salada estranha.

06. O que aconteceu com o pinheiro depois do Natal?

       a) Foi vendido.

       b) Ficou na chácara.

       c) Foi jogado no lixo.

       d) Foi plantado.

07. Por que o autor hesitou em jogar o pinheiro no lixo?

       a) Porque estava morto.

        b) Porque estava torto.

        c) Porque estava vivo.

        d) Porque estava sem enfeites.

08. Qual a superstição mencionada por uma visita em relação ao pinheiro?

        a) Quando ultrapassa o telhado, traz boa sorte.

        b) Quando ultrapassa o telhado, o dono da casa morre.

        c) Quando ultrapassa o telhado, é sinal de prosperidade.

        d) Quando ultrapassa o telhado, é preciso cortá-lo.

09. O que o autor decidiu fazer quando o pinheiro ultrapassou o telhado?

        a) Cortar o pinheiro.

        b) Ignorar a superstição.

        c) Consultar um adivinho.

        d) Fazer uma cerimônia de proteção.

10. Qual é a sensação que o autor tem ao olhar para o pinheiro nos dias especiais?

        a) Tristeza pela perda dos amigos.

        b) Calor no peito pela lembrança e continuidade.

        c) Arrependimento por não ter cortado o pinheiro.

        d) Alegria apenas pela decoração.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: VOCAÇÃO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

  CRÔNICA: Vocação

                                   Walcyr Carrasco

 UMA DAS ATIVIDADES QUE mais deliciam os adultos é perguntar aos pimpolhos:

— O que você vai ser quando crescer?

Entre meus amigos de infância, a resposta padrão era médico ou advogado.

Algum, mais aventureiro, respondia:

— Vou dirigir caminhão!        

Minha resposta era a mais esquisita:

— Escritor.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSmFYwmAeWbcPFJ5P4ww7m2f69jDPtbwcE6EZ0N8ktu_ZPCOjRq4Ret3Z6K-yEdBZpfXD_NnDjCS1eUsqNCYr1AtLnDW5ByoWk6xMy9SAczmA-iPgDwxDApSHryVzJL-GT0Ie3QEQ4RfGA5EJWOl3CaPiIcIE89KYhW4BKRLJdMLOEv7hiRojLcj8wm5Q/s320/ESCRITOR.jpg


Tinha me apaixonado pela ideia de ser escritor, embora não soubesse bem do que se tratava.

— O que faz um escritor? — perguntava minha mãe.

— Escreve! — eu respondia, cheio de razão.

Ao longo da adolescência, a crise explodia nos almoços de domingo:

— Vou prestar bioquímica — avisava meu irmão mais velho.

Mamãe não sabia exatamente do que se tratava, mas parecia respeitável.

Chegava minha vez:

— Quero ser escritor.

— Do que vai viver?

Essa era a questão.

. Segundo todas as informações, artistas em geral passavam fome.

— O certo é você ter uma profissão e escrever nas horas vagas — aconselhava papai.

 Eu teimava, dizendo que o dinheiro não era importante. Mas a satisfação.

— Quero ver a satisfação quando não tiver com que pagar o aluguel!

O almoço se tornava um caos. Mamãe perguntava:

— Onde você estuda para ser escritor?

Eu me calava. Médicos, advogados, engenheiros, estudam em faculdades. Agora... escritores? Como alguém se tornava um?

Tentava seguir o conselho de Monteiro Lobato: ler bastante. Para escrever bem, é preciso ler muito. Eu me afundava nos livros.

Um amigo de escola me aconselhou:

— Só com bastante experiência de vida. Como você vai falar sobre a vida dos outros se não passar por tudo?

Sou do tipo tímido. Seria obrigado a passar noites bebendo, até rolar pela sarjeta? Namorar uma daquelas moças muito maquiadas, de saias bem curtas e botinhas de cano longo que nos meus tempos passeava pela avenida São João? Sem dúvida, elas deviam ter experiência de vida!

Talvez fosse melhor fazer artesanato com couro. Deixei-crescer os cabelos, comprei couro, cola, tesouras. A bolsa ficou pavorosa. Desisti.

Lá pelos vinte anos escrevi minhas primeiras peças. Mostrei a um intelectual.

— Está muito meloso.

Reli. Nada mais pavoroso.

Comprei um livro de culinária. Terminava a faculdade de jornalismo, mas precisava de algo para expressar minha criatividade. Poderia montar um restaurante, se aprendesse algumas receitas sofisticadas. Dediquei-me aos peixes com laranja, frangos com laranja, arroz com laranja... as visitas, que só comiam de vez em quando, adoravam. Eu não suportava mais olhar para uma laranja. Voltei para as omeletes, macarrão... e ao sonho de ser escritor. 

Meu primeiro livro saiu a fórceps. Foi um infantil, Quando Meu Irmãozinho Nasceu, que conta a história de um menino que acompanha a gravidez da mãe. Demorou mais ainda para ser editado. Montar a primeira peça foi bem mais difícil, por causa do dinheiro. Meu Terceiro Beijo acabou fazendo certo sucesso.

Acabei descobrindo que a velha máxima é correta. Para subir uma escada é preciso um degrau de cada vez. O mundo mudou. Agora existe um mercado para autores de livros, roteiristas de cinema e televisão. Às vezes vou dar palestras em escolas e me perguntam qual seria a carreira do futuro. Digo que não sei.

— Na minha juventude, se alguém falasse em trabalhar com computadores, ia ser tachado de maluco — explico.

Como será o mundo de amanhã? O grande negócio é escolher o que se gosta. Quando a gente gosta do que faz, pode ser até pavoroso. Mas insiste. Acaba aprendendo. Quando a gente gosta, tem mais chance de dar certo. Foi isso que aprendi na vida. Foi assim que me tornei escritor.

 Entendendo o texto

01. O que mais delicia os adultos, segundo o autor?

a) Perguntar sobre profissões.

b) Comer em almoços de domingo.

c) Ler livros.

d) Beber café.

02. Qual era a resposta padrão entre os amigos de infância do autor quando questionados sobre o que seriam quando crescessem?

          a) Escritor.

          b) Dentista.

          c) Médico ou advogado.

          d) Motorista de caminhão.

03. Como o autor definia a profissão de escritor quando criança?

          a) Alguém que lê muito.

          b) Alguém que escreve.

          c) Alguém que estuda em faculdades.

          d) Alguém que passa noites bebendo.

04. Qual era o conselho do pai do autor sobre a escolha da profissão de escritor?

          a) Dinheiro não é importante, apenas a satisfação.

          b) Ter uma profissão e escrever nas horas vagas.

          c) Estudar em faculdades renomadas.

          d) Viajar pelo mundo em busca de inspiração.

05. Como o autor tentou seguir o conselho de Monteiro Lobato para se tornar um bom escritor?

         a) Fazendo artesanato com couro.

         b) Estudando jornalismo.

         c) Lendo muito.

         d) Passando noites bebendo.

06. O que o amigo de escola aconselhou o autor sobre ser escritor?

         a) Beber muito e rolar pela sarjeta.

         b) Fazer artesanato com couro.

         c) Ter bastante experiência de vida.

         d) Montar um restaurante.

07. Qual foi a primeira crítica recebida pelo autor em relação às suas peças escritas na juventude?

         a) Estavam muito melosas.

         b) Eram muito realistas.

         c) Faltava criatividade.

         d) Eram muito curtas.

08. O que o autor tentou fazer para expressar sua criatividade antes de se dedicar à escrita?

         a) Montar um restaurante.

         b) Pintar quadros.

         c) Escrever poesias.

         d) Tocar música.

09. Qual foi o título do primeiro livro do autor?

         a) Meu Terceiro Beijo.

         b) Quando Meu Irmãozinho Nasceu.

         c) O Sonho de Ser Escritor.

         d) Peças da Adolescência.

10. Como o autor descreve o caminho para alcançar o sucesso na carreira escolhida?

         a) É preciso ter sorte desde o início.

         b) Subir uma escada de uma vez.

         c) Um degrau de cada vez.

         d) Depender apenas da paixão pelo trabalho.