quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

RELATO PESSOAL: INVENTANDO MODA - ANA PAULA XONGANI - COM GABARITO

 Relato pessoal: Inventando moda

                         Ana Paula Xongani

        Meu nome é Ana Paula Mendonça Costa Pedro Ferro, mas o nome que eu uso é Ana Paula Xongani. Toda a minha família é negra. Das vezes que eu fui pra Moçambique, as pessoas perguntavam se eu era angolana. Eu me reconheço nas características das angolanas, mas não tenho certeza. Meu pai e minha mãe moravam na zona Leste de São Paulo, e eles se conheceram no ônibus. Minha mãe sempre pegava o mesmo ônibus pra ir pra escola e um primo do meu pai pegava o mesmo ônibus. Ele se encantou com a minha mãe e comentou com o meu pai. Meu pai quis ver de perto e eles se apaixonaram.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj01waVODbRcHcBg3N28PIthimwYCrUDZqLWT1BkjJCUlWXQ-65Z6wYEOMAbiDBYtDMn5MFDR8-NHJqNdWEdUf15rkGJc64zm3K19W-XMIjpesiZWIX0L-F-4SAyPh8j1gQ6gMZDTWVaMhCBLq_FcTZy06JKWvlaaniHBF9k32aykThfPFo0RlciA7Xfr0/s320/casal.png


        [...]

        Eu fui muito cuidada por toda a minha família, minha mãe, meu pai e meu irmão. Lembro muito das brincadeiras que o meu irmão fazia comigo, ele interpretava vários personagens. Lembro também de brincar muito com os meus amigos do prédio. Tinha algumas famílias negras no nosso condomínio e os pais criaram um elo, onde todo mundo era padrinho e madrinha de alguém. Então as crianças cresceram juntas, como primos. Nessa época, minha mãe começou o processo de militância negra, e lembro que meus amigos eram filhos de militantes. E eu ia com ela nos encontros e ficava bagunçando com os meus amigos. E era um lugar onde eu me fortalecia enquanto menina negra, era um lugar onde eu era bonita, todos eram iguais.

        [...]

        Minha escola foi bem difícil, passei por muitas experiências de racismo, e eu também era disléxica, tinha muita dificuldade de aprendizado. Foi um momento difícil de isolamento, eu era a única menina negra da classe, não podia falar o que eu queria, ser o que eu queria. Mas fora da escola eu me sentia bem, participava de um coral infantojuvenil de música afro-brasileiras, fazia artes plásticas, dança, teatro, jazz, natação, participava dos projetos sociais junto com a minha mãe. Era legal porque a minha família era muito unida, aonde um ia, todo mundo ia.

        Eu fiz faculdade [...], e lá eu sofri o pior racismo da minha vida. Eu era invisível, os professores nem liam meus trabalhos, me davam respostas rasas pra tudo que eu perguntava. [...]

        Nenhum professor quis me orientar, mas meu companheiro e nossos amigos fizemos tudo juntos, eles me orientaram, me ajudaram com a organização, com a apresentação. No dia da apresentação, eu fui preparada. Não teve como eu ser invisível ali, todo mundo tinha que assistir. No fim da minha apresentação, eu fiz um discurso enorme contando tudo o que eu passei, chorei tanto que lavei minha alma, dei nome para todos os bois. [...]

        Depois disso eu casei e fui pra Moçambique, e lá pude me conectar com muitas coisas, resgatar minha ancestralidade. Lá eu descobri que eu podia ter dread, uma referência que eu não tinha em lugar nenhum. Lá também eu descobri os tecidos africanos, e a partir daí tudo mudou. Levei vários tecidos de lá pra São Paulo, e eu e minha mãe começamos a fazer roupas com eles. Assim nasceu [...] a nossa marca de produtos para as mulheres pretas, pensando no corpo delas, coisa que marca nenhuma fazia. Eu mesma tive que parar de fazer natação na minha infância porque não existia uma touca em que coubesse o meu cabelo. Eu e minha mãe paramos de andar de moto porque não tem um capacete em que caibam os nossos cabelos. Então quando a gente começou a perceber que a gente podia cuidar desse corpo, dessa mulher negra, e que a moda podia comunicar e consolidar essa luta do negro no Brasil, a gente teve certeza de que era isso que tínhamos que fazer, e fazemos até hoje.

Ana Paula Xangani. Em: Museu da Pessoa. Disponível em: https://acervo.museudapessoa.org/pt/conteudo/historia/inventando-moda-120966/colecao/115736. Publicado em: 27 dez. 2016. Acesso em: 17 maio 2021. Fragmento.

Fonte: Coleção Desafio Língua Portuguesa – 5° ano – Anos Iniciais do Ensino Fundamental – Roberta Vaiano – 1ª edição – São Paulo, 2021 – Moderna – p. MP148-152.

Entendendo o relato pessoal:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

·        Moçambique: país localizado no Sudeste da África.

·        Angolana: pessoa nascida em Angola, país no Sul da África.

·        Militância negra: atividade de quem é militante, pessoa que atua em defesa de uma causa; no caso, a luta contra o racismo em suas diversas formas.

·        Disléxica: pessoa que sofre de um distúrbio de aprendizagem caracterizado pela dificuldade de leitura.

·        Ancestralidade: características e história que vêm dos antepassados.

·        Dread: penteado na forma de mechas emaranhadas.

02 – Quem é o autor do relato?

      Ana Paula Mendonça Costa Pedro Ferro.

a)   Qual é o nome que ela usa?

Ana Paula Xongani.

b)   Na língua changana, falada em Moçambique, o nome Xongani tem um significado similar a “se enfeitem”, “fiquem bonitas(os)”. Na sua opinião, por que a autora do texto usa Xongani como sobrenome?

Ao usar esse nome junto ao seu, a autora do texto demonstra o afeto que tem por sua própria identidade e por Moçambique.

03 – Logo no primeiro parágrafo, a autora menciona características da família e dela também. Que características são essas?

      Ela menciona que toda a sua família é negra e que ela tem traços de pessoas angolanas.

04 – Escolha a alternativa que explica por que ela apresentou essas características logo no início do relato.

(  ) Ela não tinha qualquer intenção especial ao apresentar essas características.

(X) Para ela, ser negra e reconhecer que sua história está ligada à história de seus ascendentes africanos é importante por ter uma influência marcante em sua vida.

(  ) Ela apresentou essas características logo no início por considerar que eram menos importantes do que o resto de sua história.

05 – No segundo parágrafo, ela afirma:

        “E era um lugar onde eu me fortalecia enquanto menina negra, era um lugar onde eu era bonita, todos eram iguais”.

·        Por que ela se sentia dessa forma nos encontros de militância de que participava com a mãe? Escolha a alternativa correta.

(X) Como esses encontros tratavam do combate ao preconceito, era natural que ela se sentisse valorizada e em um ambiente de harmonia.

(  ) Porque ela podia brincar com os amigos.

(  ) Porque ela também tinha o desejo de ser militante.

06 – No terceiro parágrafo, Ana Paula conta como se sentia na escola. Releia a frase a seguir.

        “Foi um momento difícil de isolamento, eu era a única menina negra da classe, não podia falar o que eu queria, ser o que eu queria”.

a)   Por que ela se sentia dessa forma?

Porque sofria muitas experiências de racismo e por ter dificuldades de aprendizagem.

b)   E fora da escola, como ela se sentia? Por quê?

Ela se sentia bem, acolhida pela família e pela comunidade em que vivia, e realizava muitas atividades.

c)   E você, como se sente dentro e fora da escola? Por quê?

Resposta pessoal do aluno.

07 – Ana Paula afirma que sofreu racismo na faculdade. Releia:

        “Eu era invisível, os professores nem liam meus trabalhos, me davam respostas rasas pra tudo que eu perguntava”.

a)   Como você entende a afirmação “Eu era invisível”?

Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Ela era ignorada pelos professores.

b)   Você já se sentiu invisível em alguma situação? Se sim, o que aconteceu?

Resposta pessoal do aluno.

08 – Ao viajar para Moçambique, Ana Paula fez descobertas. Assinale a alternativa correta.

(X) Em Moçambique, Ana Paula aprendeu a valorizar a cultura de seus ancestrais africanos e hábitos atuais, como usar dread, que no Brasil podiam ser considerados incomuns.

(  ) Em Moçambique, Ana Paula resgatou ancestrais e aprendeu a usar dread e tecidos africanos.

09 – Ana Paula trouxe tecidos africanos para São Paulo. O que ela e a mãe fizeram com esses tecidos?

        Criaram uma marca de roupas adequadas ao corpo das mulheres negras.

·        Ana Paula afirma que nenhuma marca fazia o que ela e sua mãe se dispuseram a fazer. Qual seria a causa disso?

Provavelmente, era por causa do preconceito e do racismo.

10 – Releia o trecho a seguir:

        “[...] No fim da minha apresentação, eu fiz um discurso enorme contando tudo o que eu passei, chorei tanto que lavei minha alma, dei nome para todos os bois. [...]”.

a)   Os trechos destacados devem ser entendidos em sentido literal ou figurado? Explique sua resposta com base no boxe abaixo.

·        Sentido literal: sentido próprio das palavras, registrado em dicionário.

·        Sentido figurado: novo sentido que as palavras ganham em um contexto.

Os trechos em destaque devem ser entendidos em sentido figurado, pois Ana Paula não lavou a própria alma ou nomeou bois.

b)   Reescreva o trecho citado, substituindo as partes em destaque por outras equivalentes.

Resposta pessoal do aluno. Sugestão: No fim [...] chorei tanto que desabafei, indiquei/nomeei cada pessoa responsável pelo racismo que sofri.

 

 

 

 

 

RELATO PESSOAL: FÉRIAS NA ANTÁRTICA - LAURA, TAMARA E MARININHA KLINK - COM GABARITO

 Relato pessoal: Férias na Antártica 

                         Laura, Tamara e Marininha Klink 

 

        Nascemos numa família que gosta de viajar de barco, e muito. Crescemos enquanto nosso pai construía um novo veleiro, o Paratii 2. Pessoas que nunca tinham visto um barco antes também participaram da sua construção, que aconteceu devagar, longe do mar e com muito esforço. Quando ficou pronto, tornou-se famoso pelas viagens que fez e por ser um dos barcos mais modernos do mundo. Nossa mãe sabia que o barco era seguro e que poderia levar toda a nossa família. Então pediu para irmos todos juntos numa próxima vez e nosso pai concordou! Ficamos felizes porque, finalmente, não ficaríamos na areia da praia dando tchau. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGjWt1XB5crZaG2ATlaU50VNjihWNSy1wIWjrY4yzuc5gA1MrfJbT-tz3iG-JhrXgHFPpFm1Mzk3VfL9MM7d05oAN3xpALI3hWXr8xf7eqLOIqBdgY6duKSkPEuDU0aYCdA5Qj03zivczNxYjo5dL8SZkaNR3xSennOEodIx3iVmUFZJvl730b2xQOH4k/s320/barco_paratii_2_6.jpg


        Partimos para uma longa viagem e deixamos nossos avós com saudades. Viajamos para um lugar que muitas pessoas nem imaginam como é.

        Para chegarmos lá, balançamos para cima e para baixo, para um lado e para o outro, com movimentos nem um pouco agradáveis, nada parecidos com os que experimentamos em terra firme. 

        Fomos para um continente que não tem dono, bandeira ou hino, onde sentimos temperaturas abaixo de zero. Dizem que ali é tudo branco e só tem gelo, mas enquanto viajávamos fomos descobrindo muitas cores e diferentes tons de branco. 

        Sempre nos perguntam: "O que vocês fazem lá?" "Tudo!" é a nossa resposta. É um lugar muito especial chamado Antártica. E por que é tão especial assim? 

        [...] 

       Kit de sobrevivência

        Todo o lugar é especial e interessante para se começar uma história. Esta começa no nosso quarto. É lá que fica o armário onde fazemos nossas primeiras “escavações” para achar tudo o que precisamos levar [...]: luvas, gorros, capas, toucas grossas, roupas de tecido que grudam no corpo (segunda pele), botas, óculos escuros, protetor solar... Nada pode ser esquecido, porque na Antártica não tem nenhuma lojinha [...].

        Aprendemos com a nossa mãe que não existe tempo ruim; existe roupa inadequada. Ela nos contou que em uma de suas viagens para lugares frios, encontrou uma moça com seu bebê na rua. Acostumada a ver crianças passearem em dias ensolarados tipicamente tropicais, ela ficou impressionada ao ver um pequeno bebê passeando tranquilamente em seu carrinho pela rua coberta de neve, que mais parecia uma imensa “geladeira” [...]. Mas não havia com o que se preocupar, pois o bebê estava com a roupa certa para aquele inverno rigoroso.

        A preparação dessa viagem exige atenção com a segurança o tempo todo. Estar seguro na Antártica é diferente de estar seguro na cidade. [...] Na Antártica, ganhamos liberdade. Mas sempre temos que ter o cuidado de nos proteger do frio e da fome. Para enfrentar o que vem pela frente temos que estar sempre bem preparados.

Laura, Tamara, Marininha Klink. Férias na Antártica.2 ed. São Paulo: Peirópolis, 2014. (Fragmento adaptado).

Fonte: Coleção Desafio Língua Portuguesa – 5° ano – Anos Iniciais do Ensino Fundamental – Roberta Vaiano – 1ª edição – São Paulo, 2021 – Moderna – p. MP325-327.

Entendendo o relato pessoal:

01 – Do que a família das irmãs Klink gosta?

a)   Ela gosta de bandeiras.

b)   Ela gosta de construções.

c)   Ela gosta de viajar de barco.

02 – Enquanto as irmãs Klink cresciam, o que o pai delas construía?

a)   Um navio.

b)   Um veleiro.

c)   Uma jangada.

03 – Quem acompanhou Amyr Klink em uma de suas viagens?

a)   Toda a família.

b)   Ninguém.

c)   Apenas a mãe.

04 – Para onde eles viajaram?

a)   Para a América Central.

b)   Para a Antártica.

c)   Para a Europa.

05 – Como esse lugar foi descrito pelas autoras do texto?

a)   Um lugar com lojas e grande circulação de pessoas.

b)   Um lugar sem pessoas, onde só havia gelo.

c)   Um continente que não tem dono, bandeira ou hino, com temperaturas abaixo de zero.

06 – Releia o trecho a seguir.

        “Todo o lugar é especial e interessante para se começar uma história. Esta começa no nosso quarto. É lá que fica o armário onde fazemos nossas primeiras “escavações” para achar tudo o que precisamos levar.”

a)   Onde começa a história das irmãs? Por quê?

Começa no quarto, porque é onde está tudo o que precisavam levar na viagem.

b)   O que elas pegaram no quarto para irem a esse lugar especial?

Luvas, gorros, capas, toucas grossas, roupas de tecido que grudam no corpo (segunda pele), botas, óculos escuros, protetor solar.

c)   Por que pegaram todas essas coisas?

Porque nada poderia faltar, já que não teriam onde comprar qualquer coisa.

d)   Que parte do texto comprova a sua resposta ao item c?

“Nada pode ser esquecido, porque na Antártica não tem nenhuma lojinha [...].”

07 – Releia o trecho a seguir.

        “Nascemos numa família que gosta de viajar de barco, e muito. Crescemos enquanto nosso pai construía um novo veleiro, o Paratii 2.”

·        Nesse trecho, duas palavras podem ser usadas como sinônimas uma da outra. Que palavras são essas?

Barco e veleiro.

08 – Leia o trecho abaixo com atenção às palavras destacadas.

        “Fomos para um continente que não tem dono, bandeira ou hino, onde sentimos temperaturas abaixo de zero.”

·        No trecho, o que significa a expressão “não tem dono”?

Significa que o continente não pertence a nenhum país.

09 – Reescreva o trecho a seguir no caderno substituindo “inverno rigoroso” por uma expressão do quadro abaixo com o mesmo sentido.

Inverno cheio de regras – inverno medroso – inverno rígido.

        “Mas não havia com o que se preocupar, pois o bebê estava com a roupa certa para aquele inverno rigoroso.”

      Inverno rígido.

10 – Copie as palavras abaixo no caderno, completando-as com s, ss, ç, sc, z, x.

Felizes – rigoroso – esforço – nascemos – grossas – existe – crescemos – balançamos – famoso – fazemos – interessante – exige.

 

 

 

 

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

HISTÓRIA: DA ARARA MISTERIOSA - SHENIPABU MIYUI - COM GABARITO

 História: Da Arara Misteriosa

        Vou contar para vocês como surgiu Shãwã Bake, a arara nova misteriosa.

        Um dia, o homem foi fazer tocaia. Fez comida de uricuri para esperar alguns bichos embaixo da terra alta, onde tinha mata limpa de jarinas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhwNxCRfdIz6wt28kXOurMSaShRjhB5z4P2VObMaqli4cwUFDa6GbA6bUbhizcJkPUKZkGC1NugR9YSpxQ_HhumP0if_YVAO8MJm9Dy3ev0GMFU_MmuGndEZ227h1OfofHsYQFcVsOkYL5fH8odQavMzSldFprR0uB9fTqQQiu0b8oVdSbq3G5w2t7zR2A/s320/ARARA.jpg


        Então, o homem viu que tinha arara nova no pau do mulateiro. Pensou que viria buscar no dia seguinte.

        Quando chegou em casa, contou para sua mulher que desejou a arara nova. Ela não tinha filhos e queria criar a arara nova.

        No dia seguinte, foram os dois. E quando chegaram na tocaia, ele matou um nambu para a mulher comer. Chegaram no mulateiro e viram que não precisavam derribar o pau. Podiam subir em um outro pau, chegar na forquilha do mulateiro e pegar a arara nova.

        O homem tirou então envira para amarrar o galho de pau no outro pau do mulateiro. Nesse dia, ele fez somente armar a envira para trepar. Deixou para vir buscar a arara no dia seguinte. Porque a arara misteriosa dominava o dia para ficar curto. E tudo escurecia ligeiro.

        Dia seguinte, chegaram onde estava a arara. Ela já cortara toda a envira que o homem tinha amarrado na véspera. Então, ele amarrou novamente. Como já estava escurecendo, deixou para vir buscar no dia seguinte.

        Quando o dia amanheceu, foram de novo. E a arara já tinha feito a mesma coisa. O homem teve que ajeitar mais uma vez o que já tinha feito.

        Então, subiu com a peira nas costas, deixando a mulher embaixo. Quando chegou na forquilha do pau, viu dentro do oco do pau um filho de gente, cheio de colares de presas de animais no pescoço.

        Falou para a mulher:

        ─ Não é arara nova. E um filho de gente. E está cheio de colares.

        A mulher ficou muito contente. Pediu logo que o marido pegasse a arara nova, filhote de gente para criar.

        O homem pegou o menino e colocou na peira. Quando vinha descendo, teve muito vento e muita chuva, para ver se ele conseguia chegar com o menino sem derribar no chão.

        Quando ele desceu já quase escurecendo, a mulher pegou o menino toda contente. Enrolou com a roupa dela. Veio a noite com muito vento e chuva. Mesmo assim chegaram na casa deles. E não disseram nada para ninguém. Ficaram escondidos.

        Amanheceu o dia seguinte e o menino já sabia chupar a mãe. A mulher contou então para o povo dela que tinha um filho de arara misteriosa. O povo quis tomar o menino. E ela sovinou.

        Amanheceu o dia seguinte e o menino já queria levantar. Ele comia mingau de banana e caiçuma de milho. Ele crescia toda noite e virou um rapaz. Pedia então para seu pai para fazer flecha para ele. E matou calango, peixe. já estava todo bonito, pintado de jenipapo. Pediu ao pai para fazer flecha de matar caça. Caçou macaco, veado, anta, mutum e porco.

        Então, chegou uma irmã do marido e perguntou a sua cunhada se o rapaz podia ser genro dela. A mulher não aceitou, porque contou que o irmão dela pegara para eles no pau do mulateiro.

        O menino então teve ideia de perguntar a sua mãe se ele era realmente filho dela:

        ─ Mãe, eu sou seu filho mesmo?

        ─ Não, eu sou sua mãe de criação. Seu pai de criação encontrou uma arara nova no pau de mulateiro e deu comida. E no seguinte dia, nós fomos buscar. Mas, quando chegou na forquilha, ele viu que você não era arara nova. Você é um filho de gente. Eu fiquei muito contente, porque como eu não tive filho, você é um filho meu. Foi assim que você se criou.

        ─ Ah, assim? Agora eu entendi como vocês me criaram! Como aqui não tinha alimento, vocês caçaram para me alimentar. Agora eu vou também caçar para alimentar vocês.

        Ele caçava e trabalhava. E a própria mãe de criação começou a fazer amor com ele. Ele já tinha sido homem de outras mulheres. Andava bem longe, procurando a sua família até que achou. Caçava carne de caça com os parentes: macaco preto, macaco prego, macaco capelão.

        Começou a pensar em colocar roçado para poder alimentar os pais. Trabalhou com o pai de criação um dia inteiro marcando o terreno. No dia seguinte, ele perguntou ao pai se não precisava mais de seu serviço. Tinha encontrado sua família e podia deixar ele sozinho. Dois dias ele trabalhou seguido com a ajuda dos parentes. O pai de criação foi ver o roçado e achou ele muito trabalhador. A mãe de criação falou:

        ─ O nosso filho é bom! Colocou um roçado para nós. Plantou roçado todo só com os parentes dele.

        Tomaram caiçuma de milho verde e a mãe de criação pintou ele de jenipapo. Então, o filho convidou os pais para irem juntos no buraco dele lá perto do roçado.

        A mãe pediu para ele esperar que ela ia pintar o pai de jenipapo também. O rapaz não quis. Queria viajar no mesmo dia. Se eles não pudessem, ia antes. Seguia na frente e esperava por eles no dia seguinte.

        O jovem seguiu na mesma noite. Quando acordou do primeiro sono, ouviu o barulho de buzina de flauta e todo tipo de instrumentos dos índios, vindo do outro lado do igarapé onde ficava a aldeia. O roçado ficava na outra margem, em outra terra, onde o jovem tinha ido trabalhar. O som dos instrumentos ficava muito lindo no rumo dele. E assim acontecia.

        A mãe começou a perguntar ao pai de criação por que estava ouvindo tanto som.

        ─ Será que nosso filho já encontrou com a família dele? Nós devemos ir hoje à noite ao seu encontro.

        A música ficou tocando a noite toda inteira. já de manhãzinha, eles seguiram na carreira. Quando chegaram lá, só encontraram os restos da farra do mariri: todos tipos de instrumentos que tinham tocado à noite e muitas penas de arara na biqueira da casa. Eles tinham limpado o roçado e deixado bem varrido, a estrada bem aberta e limpa. A mulher ficou admirada com a quantidade de coisas que eles tinham feito e ficou chorando. O homem correu pela estrada atrás do filho. E ia encontrando, em todas as passagens de igarapé, as pontes que iam construindo pelo caminho. Andava, andava, andava... E ia pensando:

        ─ Eu vou encontrar com ele, nem que seja aonde for.

        Assim o pai de criação do rapaz seguiu viagem pela estrada.

        A uma hora do dia, começou a ouvir conversas ao longe. Eram eles que estavam fazendo uma ponte no igarapé grande. O filho continuava mais atrás, esperando sempre por eles, pois sabia que o pai viria à sua procura. Quando encontrou com seu pai, disse:

        ─ O titio e meu irmão já vieram me buscar. Era para vocês terem vindo comigo naquele mesmo dia. Agora você volta, que o caminho que eles vêm fazendo vai cerrando tudo.

        Foi atrás de remédio da mata. Trouxe e esfregou no olho do pai, espremeu na coroa da cabeça e em todas as juntas dos ossos dele. Mandou o pai voltar rapidamente na carreira, porque o caminho já estava cerrando.

        O pai começou a voltar, mas o caminho já estava cerrado. A mata já tinha crescido e ele nem sabia mais o caminho por onde era.

        Seguiu na direção contrária de onde tinha vindo.

        Assim aconteceu a história da arara misteriosa de nosso povo antepassado.

Organização dos professores indígena do Acre. Shenipabu Miyui. História dos antigos.

Entendendo a história:

01 – Quem encontrou uma arara nova no pau do mulateiro?

      O homem que saiu para caçar que encontrou uma arara nova no pau do mulateiro.

02 – O que o homem e sua mulher planejaram fazer com a arara nova?

      Eles planejaram criar a arara nova, pois a mulher não tinha filhos.

03 – Como o homem conseguiu capturar a arara nova pela primeira vez?

      Ele tentou amarrar o galho do mulateiro com envira para alcançar a arara.

04 – O que eles encontraram quando queriam pegar uma arara nova?

      Descobriram que na verdade não era uma arara, mas sim um filho de gente dentro do oco do pau.

05 – Como o menino foi criado pelos pais adotivos?

      Ele foi alimentado e cuidado pelo homem e pela mulher que o encontrou no pau do mulateiro.

06 – Qual foi a ocupação do rapaz ao crescer?

      Ele se tornou um caçador habilidoso, caçando animais como macacos, veados, antas, mutuns e porcos.

07 – Por que o rapaz decidiu procurar sua família verdadeira?

      Ele queria encontrar sua família e passou a trabalhar para alimentar seus pais adotivos.

08 – O que o rapaz fez para ajudar os pais adotivos?

      Ele plantou um roçado para alimentá-los e declarou ser trabalhador e responsável.

09 – Como o rapaz encontrou sua família verdadeira?

      Ele foi andando para o local onde foi encontrado, e sua família o encontrou lá.

10 – Como o pai adotado tentou reencontrar o rapaz quando ele partiu novamente?

      Ele percorreu a estrada construída pelo rapaz, mas a mata cresceu e ele se perdeu no caminho de volta.

 

 

 

POESIA: RECEITA DE INVENTAR PRESENTES - ROSEANA MURRAY - COM GABARITO

 Poesia: Receita de inventar presentes

             Roseana Murray

Colher braçadas de flores

Bambus folhas e ventos

E as cores do arco-íris

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjPUnXB83Lm4d87MfAGMV3R2-xL3HbLg26K8_wpsfnB88CrJoTz6UK-Py2r8Vmn4DIsD38nyuwS-KCGjo-9GewR41anO5Gbn9AB5l6EogdaYrgEeWKofLBxfUpAwLilCd23xt4KhzhPAI7PapHmyO34nV5G5d1b9122TDs3lmfH9wB9mp24YUCel3vjfLM/s320/FLORES.jpg


Quando pousam no horizonte

Juntar tudo por um instante

Num caldeirão de magia

E então inventar um pássaro louco

Um novo passo de dança

Uma caixa de poesia.

Roseana Murray e Elvira Vigna. Receitas de olhar. São Paulo: FTD, 1997.

Fonte: Coleção Desafio Língua Portuguesa – 5° ano – Anos Iniciais do Ensino Fundamental – Roberta Vaiano – 1ª edição – São Paulo, 2021 – Moderna – p. MP244.

Entendendo a poesia:

01 – Que elementos da poesia sugerem que se trata de uma receita?

      O título, os verbos no infinitivo e a própria intenção do texto: ele pretende ensinar um modo de inventar presentes.

02 – O que o poema tem de diferente de uma receita culinária?

      Os ingredientes e o produto final, além da estrutura do texto.

·        Quais seriam os ingredientes e o modo de fazer da receita.

Ingredientes: braçadas de flores, bambus, folhas, ventos e as cores do arco-íris.

O modo de fazer seria: colher ingredientes, juntar tudo por um instante num caldeirão de magia e inventar coisas diferentes.

03 – Circule no texto os presentes que podem resultar da receita.

      “Um pássaro louco / um novo passo de dança / uma caixa de poesia”.

04 – Afinal, esse texto é uma poesia ou uma receita? Explique.

      O texto subverte um gênero (a receita), utilizando elementos da estrutura desse gênero para compor uma poesia.

 

 

REPORTAGEM: 100 ANOS DE JAPÃO NO BRASIL - O QUE APRENDEMOS COM OS JAPONESES? FRAGMENTO -CAMILA MITYE - COM GABARITO

 Reportagem: 100 anos de Japão no Brasil – O que aprendemos com os japoneses? – Fragmento

        Você gosta de amendoim japonês? E de Miojo? Adora uma salada temperada com Shoyu ou um pastel quentinho da feira? Aprendeu matemática com o método Kumon e pratica Judô? Então você é só mais um dos milhares de brasileiros que já se acostumaram com muitas das pequenas coisas que os japoneses trouxeram para nossas vidas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJfGrTdUyQT5pXlsMFQxVgnDPvCUSEd1Om2CpzyXInzA0jgrfvNGRjIH1GpIEfbK9bmMd3ic8G8OBP2JmCqnjKzxJ_xgVPl-5UDJFxwTwnr4gwcD4j8CrGWzXncXp1aiV_umOoL5jAomVZQDAAC-C_tMxFBDwgnDGBhAkWDvm8G39SIoKMnuFTdHUqMbY/s320/amendoim-japones.jpg


        Desde que chegaram por aqui, em 1908, os japoneses se espalharam pelo país. Apesar de muitas famílias se aglomerarem em colônias (como em São Paulo e no Paraná), depois de 100 anos de imigração, há famílias japonesas vivendo do norte ao sul do país. Aos poucos eles foram se misturando aos brasileiros e, assim, formaram famílias nipo-brasileiras, que nos presentearam com milhares de nikkeis (cidadãos brasileiros com descendência japonesa).

        Durante essa centena de anos, os japoneses nos ensinaram a conviver com seus costumes. Palavras como shiatsu, tatame, karatê, karaokê e muitas outras foram incorporadas ao vocabulário brasileiro, mesmo que muitos nem saibam que a origem delas seja japonesa.

        Mais do que simplesmente adicionar novas palavras, os japoneses acrescentaram novos sabores na culinária brasileira, o que fez com que palavras como caqui, cabochá e tofu entrassem definitivamente nos dicionários, cardápios e cadernos de receita por aqui. Isso porque foram eles, os imigrantes, que trouxeram para o Brasil o caqui doce (por aqui só existia uma versão adstringente da fruta, do tipo que “amarra a boca”), a abóbora do tipo cabochá (aquela que usamos para fazer doces) e a maçã Fuji (o nome entrega né? Chegou aqui em 1971). A mexerica poncã é quase uma fruta “nikkei”: é o resultado do enxerto de um tipo de tangerina japonesa em um limoeiro do Brasil.

        Maçã Fuji: Fruta comum no Brasil que traz o Japão no nome.

        Além destas, o pepino do tipo Aodai e o rabanete foram outros alimentos que aprendemos a comer com o pessoal do Japão. Eles começaram a vender os legumes, como rabanetes e pepinos, que plantavam em seus quintais para consumo próprio. O broto de feijão, muito utilizado no Brasil em saladas, também é de origem nipônica, conhecido como “moyashi”.

        Uma curiosidade que muitos nem imaginam é que a plantação da soja no Brasil foi disseminada pelos imigrantes japoneses. Antes da chegada deles, ela era plantada em pequena escala na Bahia. Hoje é um dos grandes trunfos do agronegócio brasileiro, graças aos japoneses.

        Na praia dos temperos e iguarias, os japoneses nos ensinaram a gostar de pimenta-do-reino (trazida por um chefe de embarcação que aportou aqui em 1933), a raiz forte (a pasta verde utilizada para degustar com peixe cru) e o Aji-no-moto (o tempero que realça o sabor dos alimentos é tipicamente japonês). Sem esquecer, é claro, do shoyu, o molho de soja japonês indispensável nas mesas brasileiras.

        O molho Shoyu é feito à base de soja.

        Mas não foram só frutas e saladas que aprendemos a comer com os japoneses. Com eles aprendemos a gostar de alimentos desidratados que com água fervente e três minutos estão prontos e saborosos (nada mais prático), aprendemos também a comer com dois pauzinhos (os “hashis”, que acabam muitas vezes nos cabelos das brasileiras) e a tomar chá verde (para emagrecer, principalmente). Outra bebida japonesa que tem lugar cativo na adega dos brasileiros é o saquê, resultado incrível de um processo de fermentação do arroz.

        Sem contar os próprios pratos tipicamente japoneses que experimentamos e adotamos como sushi, sashimi, yakisoba, temakisushi e sukiyaki.

        Não podemos negar que, em cem anos, os japoneses conseguiram colocar sua marca no Brasil. Até nome de cidade de origem japonesa existe: a cidade de Assaí, no Paraná, foi praticamente fundada pelos imigrantes que a batizaram com a versão “aportuguesada” de “asahi”, que, em japonês, quer dizer “sol nascente”.

        A garça "tsuru": Origamis são ensinados até em escolas no Brasil.

        Então, não importa se você nunca tomou banho em um ofurô, se nunca fez um origami de papel ou se não tem uma tatuagem “kanji”. O que importa é que, em 100 anos, os japoneses que vieram para o Brasil conseguiram ensinar um pouco de sua cultura para os brasileiros e, com isso, nos mostraram uma grande lição: eles nunca deixaram de ser japoneses, mesmo estando tão distantes de seu país.

MITYE, Camila. "100 anos de Japão no Brasil: O que aprendemos com os japoneses?"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/japao/100-anos-japao-no-brasil-que-aprendemos-com-os-japoneses.htm. Acesso em 10 jul. 2012. (Fragmento adaptado).

Fonte: Coleção Desafio Língua Portuguesa – 5° ano – Anos Iniciais do Ensino Fundamental – Roberta Vaiano – 1ª edição – São Paulo, 2021 – Moderna – p. MP163-165.

Entendendo a reportagem:

01 – Quando os japoneses chegaram ao Brasil?

a)   Eles chegaram em 1920.

b)   Eles chegaram em 1975.

c)   Eles chegaram em 1908.

02 – Onde se instalaram muitas das famílias japonesas quando chegaram ao Brasil?

a)   No norte do país.

b)   Em São Paulo e no Paraná.

c)   No sul do país.

03 – Atualmente há famílias de origem japonesa vivendo em todo o país:

a)   Porque elas estão concentradas apenas em alguns estados do Brasil.

b)   Porque elas estão vivendo de norte a sul do país.

c)   Porque elas têm muitas colônias espalhadas por todo o Brasil.

04 – No texto, há o nome de uma cidade de origem japonesa.

a)   Qual é o nome dessa cidade e onde ela se localiza no Brasil?

Assaí, localizada no estado do Paraná.

b)   O que quer dizer o nome dessa cidade em japonês?

Esse nome significa, em japonês, “Sol nascente”.

05 – Por que o texto diz que os japoneses que moram no Brasil nunca deixaram de ser japoneses?

      Porque, mesmo distantes de seu país de origem, incorporaram seus costumes à nova vida no Brasil, como vocabulário, frutas e legumes, pratos típicos da culinária japonesa e aspectos de sua cultura, como origamis e lutas marciais.

06 – Leia, no quadro, algumas palavras retiradas do texto que são de origem japonesa e que foram incorporadas ao vocabulário dos brasileiros.

Origami – caratê – sashimi – sushi – cabochá – caraoquê – ofurô – tatame.

·        Agora, indique quais são nomes de alimentos ou de pratos culinários.

      Cabochá, sashimi e sushi.

07 – Leia o trecho:

        “[...] O que importa é que, em 100 anos, os japoneses que vieram para o Brasil conseguiram ensinar um pouco de sua cultura para os brasileiros e, com isso, nos mostraram uma grande lição: eles nunca deixaram de ser japoneses, mesmo estando tão distantes de seu país.

a)   Entre as palavras destacadas no trecho, há quatro verbos, um substantivo próprio e dois substantivos comuns. Copie e identifique quais são eles.

Verbos: vieram, conseguiram, mostraram, deixaram; substantivos comuns: japoneses, país; substantivo próprio: Brasil.

b)   Quem mora no Japão é japonês ou japonesa. E quem mora em Portugal, na França ou na Inglaterra? Responda observando a terminação.

Português, portuguesa; francês, francesa; inglês, inglesa.