quinta-feira, 4 de junho de 2026

HISTÓRIA: GAIA - HELOISA PRIETO - COM GABARITO

 História: GAlA

           Heloisa Prieto

        Quem já sentiu o aroma de minhas flores, o delicioso sabor de minhas frutas e a energia mágica que se acumula no cume de minhas montanhas, conhece a força de meu poder. Sou Gaia, a deusa da Terra.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgX6Eg4twJLdfg5e0BiPEcBI5thwMQmGlu9lPiIxE0FZlrh5bIDLgqwHdYE16PgMSJVZ_5lpQXYOj-CYv0H6aAht6Svt7huP7L-UOJpXJROb3dQZgqXLBdSlkQZAmCDy80ZlDuwIGDSMZ8vlhfxygnDSZRxeuw71zWoOeK6_DsHf0Vyj-156xwI_u5kNV8/s1600/artigo_43.jpeg


        O primeiro deus a surgir no mundo foi Caos; logo em seguida, eu nasci. Fiz surgir o céu, os vales, planícies e cordilheiras. Imediatamente fui coberta por florestas e habitada por animais.

        Sou amada pelas crianças, que adoram lambuzar-se em minhas terras enlameadas pela chuva e deitar-se sobre minhas relvas para contemplar os céus, onde vive Zeus, meu neto querido.

        Aliás, tive doze filhos. Cronos, o deus do tempo, é meu caçula. Houve uma época em que ele reinou sobre o mundo. Mas, infelizmente, Cronos não soube usar seus poderes e transformou-se num temível tirano. Tolerei seus atos o máximo que pude. Porém, quando ele tentou matar Zeus, fui obrigada a agir...

        COMO DESCOBRI OS SEGREDOS DO DESTINO

        Cronos embebedou-se com seu próprio poder. Sendo o deus do tempo, decidiu que seu reinado como senhor do universo seria eterno. Adivinhando que eu não concordaria com sua resolução, ocultou-a de mim. Ele sabia' que eu não acreditava no poder supremo de um único governante. Conhecia minhas opiniões: creio na mudança de estações, no eterno movimento da vida; penso que os jovens precisam assumir o lugar de seus pais para que o mundo se renove. Um dia, Cronos teria que ceder seu trono ao filho.

        Mais tarde, Cronos casou-se com Réia e dessa união nasceu o belo Zeus. Encantada com meu neto, fui até o lago do destino, cujas águas previam o futuro, e observei seus reflexos, procurando descobrir o que a vida reservava ao querido Zeus. A face adulta do menino surgiu através da transparência das águas e aos poucos notei que a cena ali estampada mostrava o pequeno como o futuro senhor do universo.

        Certa de que Cronos ficaria feliz em saber que seu poder seria herdado pelo próprio filho, comuniquei-lhe o que o destino lhe traria. Cronos enfureceu-se. Fez as horas começarem a correr e os homens a envelhecer. Para ele, desfrutar de um poder eterno era mais importante do que a vida de Zeus.

        Tentando proteger a vida de meu neto, voltei ao lago mágico para descobrir o segredo do futuro. Ao fitar novamente as águas prateadas, percebi que o futuro está sempre em movimento e que o gênio que as habitava era uma espécie de conselheiro indicando-me as escolhas possíveis. A primeira cena mostrava a morte do pequeno Zeus. Afastei-me das águas, revoltada. Depois, reuni toda a minha coragem e as observei mais uma vez. A segunda cena refletia minha imagem dentro de uma gruta. Foi então que fiquei sabendo o que deveria fazer.

        -- Réia, entregue seu bebê para mim imediatamente. Cronos não pode vê-Io –, fui dizendo assim que entrei no palácio de meu filho.

        Chorando, a bela Réia passou-me a criança envolta num lindo tecido branco. Eu o abracei com todo o carinho. Auxiliada por meu companheiro Urano, corri até a gruta secreta e escondi o menino num cantinho aconchegante. Chamei uma ninfa para cuidar bem dele.

        Quando regressei ao palácio de Cronos, encontrei todos em polvorosa.

        -- Onde está meu filho? –, gritava o deus do tempo, andando de um lado para o outro.

        Seu comportamento deu-me a certeza de que, infelizmente, meu filho havia enlouquecido. Obedecendo ao conselho das águas mágicas do futuro, entreguei a Cronos uma pedra do tamanho de um bebê envolta no mesmo tecido que Réia usara para cobrir a criança. Cronos transformou-se num gigante imenso e no mesmo instante engoliu o pacote inteiro. Convencido de que havia destruído o próprio filho, a quem via como um rival, o deus do tempo partiu para a terra, alegre e satisfeito.

        Zeus cresceu em segredo e muito amado por todos os que o conheciam. Quando se tomou um jovem, ganhou suas armas principais: o raio, a tempestade e os trovões. Ele sabia que no futuro teria que enfrentar o próprio pai. Para exercitar-se, montava nas nuvens, provocando as chuvas e fazendo raios cortarem os céus. No início, os humanos assustaram-se muito. Bem, para dizer a verdade, até hoje seus pequenos filhos temem as brincadeiras de Zeus. Foi esse o motivo por que meu neto permitiu que os humanos descobrissem uma parte do poder dos raios e o usassem em benefício próprio. Mas isso já não pertence às histórias do início dos tempos... 

PRIETO, Heloisa. Divinas aventuras. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 1998, p. 35-36.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 112-114.

Entendendo a história:

01 – Quem é a narradora da história e como ela descreve sua relação com o surgimento do mundo?

      A narradora é Gaia, a deusa da Terra. Ela explica que o primeiro deus a surgir no mundo foi o Caos e, logo em seguida, ela nasceu. A partir de sua própria existência, ela fez surgir o céu, os vales, as planícies e as cordilheiras, sendo imediatamente coberta por florestas e habitada por animais.

02 – De acordo com o texto, quais são as opiniões de Gaia sobre o poder, o tempo e a renovação do mundo?

      Gaia não acredita no poder supremo de um único governante eterno. Ela defende a mudança das estações, o eterno movimento da vida e acredita que os jovens precisam assumir o lugar de seus pais para que o mundo possa se renovar.

03 – Como Cronos reagiu ao descobrir a profecia que Gaia viu no lago do destino?

      Ao saber que seu filho Zeus seria o futuro senhor do universo, Cronos enfureceu-se, pois queria que seu reinado fosse eterno. Como reação, ele fez as horas começarem a correr e os homens a envelhecer, demonstrando que desfrutar do poder era mais importante para ele do que a vida do próprio filho.

04 – O que Gaia descobriu ao olhar pela segunda vez para o lago mágico e que decisão tomou a partir disso?

      Ao olhar novamente para as águas prateadas, ela percebeu que o futuro está sempre em movimento e viu sua própria imagem dentro de uma gruta. Ela entendeu o conselho e decidiu agir: foi ao palácio, pediu o bebê Zeus para a mãe dele (Réia) e, com a ajuda de Urano, escondeu o neto em uma gruta secreta sob os cuidados de uma ninfa.

05 – Qual foi o truque que Gaia utilizou para enganar Cronos e salvar a vida de seu neto?

      Seguindo o conselho das águas mágicas, Gaia entregou a Cronos uma pedra do tamanho de um bebê, embrulhada no mesmo tecido branco que Réia havia usado para cobrir Zeus. Cego pelo desejo de destruir seu rival, Cronos engoliu o pacote inteiro sem perceber o engano.

06 – Quais armas Zeus ganhou quando se tornou jovem e como ele as utilizava para treinar?

      Ao atingir a juventude, Zeus ganhou o raio, a tempestade e os trovões. Para exercitar-se e se preparar para o futuro confronto contra seu pai, ele montava nas nuvens, provocando chuvas e fazendo raios cortarem os céus.

07 – Por que, segundo o fragmento, Zeus permitiu que os seres humanos descobrissem parte do poder dos raios?

      Os treinos de Zeus nos céus assustavam muito os humanos e seus filhos pequenos, que temiam os barulhos e as tempestades. Para compensar e acalmar a humanidade devido às suas "brincadeiras", Zeus permitiu que os homens dominassem parte do poder dos raios para usá-lo em benefício próprio.

 

CRÔNICA: UMA NOITE DE CÃO - MARCOS REY - COM GABARITO

 Crônica: Uma noite de cão

         Marcos Rey

        ─ Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?

        ─ Não sente o cheiro? Passei n'O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não ia chegar de mãos abanando.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3K-m-4PI_JnIc6fW7sL0kteFZcgbiuR9WKU4jVb93you8D6ZrlPmQpJkWnubMlUhKLLOS_Kz-LUOMrThs4nFdEmw-D4zeyILvpxAdV5msA_oNklnpWobaPI9URuoPhF3_P2_ZSTdO1h-WZnnJ1dEYaGecgRzUCrZLOrihY_K5DecjhQXOIWxcxMOj9fE/s320/CAO.jpg


        Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre parecia em meu apartamento com grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.

        Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango para a cozinha. Desembrulhando sobre a mesa, era uma tentação.

        Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar novidades sombrias do Rio. Vivíamos tempos pesados, tensos. Suas informações eram verdadeiras bombas. Confidenciou:

        ─ Um dos sequestradores é meu amigo.

        Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sob as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei para minha mulher que deixou escapar um:

        ─ Meu Deus!

        ─ Vocês sabem de que falo, não? – perguntou, grave.

        Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes certamente à espera de autorização para iniciar a ceia. Erguei-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé. Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-Ihe a cabeça. A centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde estava o seu jantar; eu teria de me vestir; descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.

        ─ Não quer saber qual é o amigo nosso que está envolvido?

        Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.

        ─ Claro que quero.

        Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.

        Olhei para o teto.

        ─ Aquilo não é um inseto? – apontei.

        Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.

        ─ É apenas uma mancha – ele observou.

        ─ Detesto insetos andando pela casa.

        O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor. Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.

        ─ Gosto desse terraço – disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.

        Num salto, apaguei a luz.

        ─ Ele fica mais bonito no escuro, observe.

        Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.

        ─ Vamos ao frango – ele decidiu. – O cheirinho tomou conta do apartamento.

        ─ Primeiro sirvo um uísque.

        Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.

        ─ A cachorra deve ter se machucado.

        Agarrei-lhe o braço.

        ─ Tome o uísque. Então um dos sequestradores é nosso amigo?

        Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!

        Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!

        ─ O Rei do Frango Assado está com tudo – disse Ramalho no final. – Este estava demais! – E generoso:

        ─ Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?

         ─ Sei lá!

Marcos Rey. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1996. p. 25-28.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 150-152.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é Ramalho e por que suas visitas costumavam incomodar o narrador e sua esposa?

      Ramalho é um amigo do Rio de Janeiro que sempre passava pelo apartamento do narrador em São Paulo. Ele causava incômodo porque tinha o hábito de chegar muito tarde da noite e faminto, justamente no horário em que o casal já estava se preparando para dormir.

02 – O que Ramalho levou para o apartamento naquela noite e qual revelação séria ele pretendia fazer?

      Ramalho levou um frango assado comprado no estabelecimento "O Rei do Frango Assado". Além disso, ele pretendia compartilhar notícias sombrias e confidenciais sobre tempos políticos tensos, revelando que um dos sequestradores de um caso recente era amigo deles.

03 – Quem é Virgínia Woolf na história e que situação cômica e tensa ela provoca?

      Virgínia Woolf é a cadela dálmata do casal. A situação tensa começa quando ela consegue pegar o frango assado inteiro que estava na cozinha e entra no living, postando-se elegantemente ao lado de Ramalho com a ave inteira na boca, sem que o visitante perceba.

04 – Por que o narrador ficou tão desesperado para esconder o roubo do frango? O que ele queria evitar?

      O narrador queria evitar o constrangimento e o transtorno logístico de ter que sair de madrugada para comprar outro jantar. Ele pensou que, se Ramalho descobrisse o roubo, ele seria obrigado a se vestir, descer até a garagem lotada, manobrar o carro e rodar pela cidade à procura de outro frango em plena madrugada.

05 – Quais foram os três truques ou estratégias que o narrador utilizou para impedir que Ramalho visse a dálmata com o frango?

      O narrador utilizou as seguintes estratégias visuais:

      Ficou de pé: Levantou-se repentinamente para forçar o visitante a olhar para cima.

      Mudou a mobília: Puxou um pufe para perto de Ramalho para diminuir seu ângulo de visão periférica.

      Inventou uma distração: Apontou para o teto fingindo ter visto um inseto, fazendo com que todos olhassem para o alto.

06 – Como o narrador agiu quando Ramalho decidiu ir até o terraço e, logo depois, quando a cadela começou a ganir no corredor?

      Quando Ramalho caminhou em direção ao terraço (onde a cadela se escondia com a presa), o narrador deu um salto e apagou a luz, alegando que o terraço ficava "mais bonito no escuro". Mais tarde, quando a cadela fujona faturou alguns ganidos no corredor, o narrador agarrou o braço de Ramalho, entregou-lhe um copo de uísque e mudou de assunto rapidamente, perguntando novamente sobre a identidade do sequestrador.

07 – Como a situação foi resolvida pela esposa do narrador e qual é a ironia no final da crônica?

      Enquanto o narrador distraía o amigo, a esposa conseguiu recuperar o frango (ou o que sobrou dele), preparou-o na cozinha e o serviu desossado para Ramalho. A grande ironia final é que Ramalho adora a refeição, elogia a qualidade do local onde comprou e, num gesto de generosidade, deixa um pedaço do peito para a cadela — sem ter a menor ideia de que ela já havia "temperado" e passado os dentes pelo frango inteiro minutos antes.

 

CONTO: AS CORES DO CREPÚSCULO - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: As cores do crepúsculo – Fragmento

            Rubem Alves

         [...]

        Mas a melhor coisa que pode acontecer na velhice é voltar a ser criança. Os velhos, tolos, querem continuar a ser úteis. Coitados! Ainda estão sob o domínio do olhar dos outros! Melhor seria se percebessem que o objetivo da vida não é ser útil. Útil é martelo, serrote, vassoura, fio dental, bicicleta. As coisas úteis, quando velhas, ficam inúteis. Inúteis, são jogadas fora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsImalFJsGLo-tsW9zBNmJvaLUXTyzTXKl8cjpTSbMAa4LN0Iq-W-HnDjAoyAEDWPVy7ZGuYy64BtkDAjZsK_8L07lWSq-xk142BVKwRpzfzlIxh3sqimuNI6yoq3Wnz4DAbhaN7EItg9XsCXiJXVNyUFeAenfiMj3ulbxGA9rQdHv9d7sbVKGPgikNzY/s1600/SOL.jpg


        [...]

        Mas o objetivo da vida não é a utilidade. É a feliz inutilidade do brincar. Brinquedo é uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá. Pode ser formar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar… E, acima de tudo, brincar com as crianças. Melhor ainda se tiver netos com quem brincar. Há mesmo os velhos que, na velhice, descobrem o amor. Amar é brincar com a pessoa amada. Tão bonito, o amor dos velhos. Lembro-me de uma cena do filme Doutor Jivago, a que mais me comoveu: um velhinho dando um beijo no rosto enrugado e velho da sua mulher, adormecida…

        Fiquei mais velho. Mas sou grato. Na velhice estou tendo felicidades com que nunca sonhei, quando jovem. [...]

Rubem Alves. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 175-176.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o autor, qual é a "melhor coisa" que pode acontecer na velhice e por que ele sente pena dos velhos que insistem em querer continuar sendo úteis?

      A melhor coisa que pode acontecer na velhice é "voltar a ser criança". O autor sente pena dos idosos que tentam se manter úteis porque afirma que eles ainda estão presos e sofrendo "sob o domínio do olhar dos outros", sem perceber que o verdadeiro sentido da vida na maturidade não está ligado à produtividade ou à utilidade.

02 – Rubem Alves faz uma analogia entre pessoas que buscam a utilidade e objetos de trabalho. Como essa comparação é utilizada para alertar sobre os perigos de se viver apenas em função de ser útil?

      O autor compara a utilidade humana a objetos como martelo, serrote, vassoura e fio dental. Ele alerta que a lógica das coisas úteis é cruel: quando elas envelhecem, tornam-se inúteis e, consequentemente, são jogadas fora. Ao basear o valor da vida na utilidade, o idoso corre o risco de se sentir descartável quando o tempo passar.

03 – Como o autor define o conceito de "brinquedo" no texto e quais exemplos de atividades ele cita como formas de "brincar"?

      Rubem Alves define o brinquedo como "uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá". Para ele, o objetivo da vida é essa "feliz inutilidade". Como exemplos, ele cita: montar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar e brincar com crianças/netos.

04 – De que maneira Rubem Alves relaciona o sentimento do amor na velhice com o ato de brincar e qual cena cinematográfica ele utiliza para ilustrar essa beleza?

      O autor afirma que "amar é brincar com a pessoa amada", integrando o amor na mesma categoria de atividades prazerosas e "inúteis" (livres de obrigações) que trazem pura alegria. Para ilustrar a beleza do amor na velhice, ele resgata uma cena emocionante do filme Doutor Jivago, na qual um velhinho dá um beijo carinhoso no rosto enrugado de sua esposa adormecida.

05 – No fechamento do fragmento, o autor expressa um sentimento de gratidão. O que justifica esse agradecimento em relação à sua própria velhice?

      O autor é grato porque, ao envelhecer, ele descobriu e experimentou felicidades com as quais nunca havia sequer sonhado quando era jovem. Isso demonstra que, ao desapegar da cobrança pela utilidade e abraçar a leveza da infância recuperada, a velhice se tornou um período de surpreendente satisfação e contentamento.

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: PRECICLAR E RECICLAR - PÓLITA GONÇALVES - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Preciclar e Reciclar

          Pólita Gonçalves

         Você sabe o que é preciclar? É muito simples!  É pensar antes de comprar.  Quarenta por cento do que nós compramos é lixo.  São embalagens que, quase sempre, não nos servem para nada, que vão direto para o lixo aumentar os nossos restos imortais no planeta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihBlMCygAgVT0FYGRUqYPz-kX3VazeHlqYr-p8FDUgqun02ozc9wCn_ARlmm3kSg03Q0jH2yCQU5JLmu1tY_L3o6YUhB0d13XtaGCXyYfHBQh33IC5ny18nmWnAPMmooGYKRDLqUjtp_QxymF8ELYcuuH9kKka-izApyQOftKVf618_2xbmWozJX1Gydc/s320/RECICLAR.png


        Poderia ser diferente?

        Tudo sempre pode ser melhor...

        Pense no resíduo da sua compra antes de comprar.  Às vezes um produto um pouco mais caro tem uma embalagem aproveitável para outros fins.

        Estes são os 3 Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

        Reduzir o desperdício.

        Reutilizar sempre que possível antes de jogar fora.

        Reciclar, ou melhor, separar a reciclagem, pois, na verdade, o indivíduo não recicla, a não ser os artesãos de papel reciclado.

        O termo reciclagem, tecnicamente falando, não correspondem ao uso que fazemos dessa palavra, pois, reciclar é transformar algo usado em algo igual, só que novo.  Por exemplo: uma lata de alumínio, pós consumo, é transformada, através de processo industrial, em uma lata nova.

        Quando transformarmos uma coisa em outra coisa, ocorre a reutilização.

        O que cada um de nós pode fazer é praticar os dois primeiros Rs: reduzir e reutilizar.

        Quanto à reciclagem, o que devemos fazer é separar o lixo que produzimos e pesquisar as alternativas de destinação ecologicamente corretas.  Pode ser encaminhar o lixo para uma cooperativa de catadores ou até para uma instituição filantrópica que receba material reciclável para acumular e comercializar.

        O importante é pensarmos sobre os três Rs, procurando evitar o desperdício, reutilizar sempre que possível e, antes de mais nada, preciclar.  Ou seja, pensar antes de comprar.

        Evite embalagens plásticas que não podem ser transformadas em produtos plásticos reciclados.  O vidro, por sua vez, é totalmente reciclável e muito mais útil em termos de reutilização.

        Preciclar é pensar que a história das coisas não acaba quando as jogamos no lixo.  Tampouco acaba a nossa responsabilidade.

 

GONÇALVES, Pólita. http://www.lixo.com.br ou http://www.online.com.br/sitio/lixo.htm.

 

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 132-133.

Entendendo o artigo:

01 – Segundo o texto, qual é o significado do termo "preciclar"?

      Preciclar significa "pensar antes de comprar". É o ato de o consumidor avaliar o resíduo e a embalagem de um produto antes de adquiri-lo, tendo consciência de que a história das coisas e a nossa responsabilidade não terminam quando jogamos algo no lixo.

02 – Qual dado estatístico a autora apresenta para justificar a importância de se pensar antes de comprar?

      A autora afirma que 40% do que nós compramos é lixo. Trata-se de embalagens que, na maioria das vezes, não possuem nenhuma utilidade para o consumidor e vão direto para a lixeira, aumentando os "restos imortais" no planeta.

03 – Qual é a diferença técnica que o artigo estabelece entre "reciclar" e "reutilizar"?

      Tecnicamente, reciclar significa transformar industrialmente algo usado em um objeto igual e novo (como transformar uma lata de alumínio velha em uma lata nova). Já reutilizar acontece quando transformamos uma coisa em outra coisa diferente, ou quando aproveitamos uma embalagem para outros fins.

04 – Por que a autora afirma que o indivíduo comum, na verdade, não recicla? O que devemos fazer então?

      Ela afirma isso porque a reciclagem real depende de um processo industrial (com exceção dos artesãos de papel). Portanto, o papel do cidadão em relação ao terceiro "R" (Reciclar) deve ser o de separar o lixo produzido e pesquisar alternativas corretas de destinação, como enviar os materiais para cooperativas de catadores ou instituições filantrópicas.

05 – Qual comparação a autora faz entre as embalagens de plástico e as de vidro?

      A autora aconselha a evitar embalagens plásticas que não podem ser transformadas em novos produtos plásticos reciclados. Em contrapartida, ela destaca o vidro como uma excelente opção, pois é um material totalmente reciclável e muito mais útil para ser reutilizado no dia a dia.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: OS QUADRINISTAS ATUAIS - FRAGMENTO - LEILA R. IANNONE E ROBERTO A. IANNONE - COM GABARITO

Artigo de opinião: Os quadrinistas atuais – Fragmento

        Do final dos anos 60 para cá, quadrinistas brasileiros têm lançado personagens interessantes: O Pato de Ciça (uma das pocas desenhistas de sucesso entre nós); Capitão Cipó, de Daniel Azulay; Rango, de Edgar Vasques, e muitos outros.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZgCj7stmMvhNLh6I8vdpj1cqmCCW5H1S8TigHr4K4Wllzjh5qbXHBgYlR2UU7uxt85MezxH6eDz7zrMZcvCPaXeWyf9X0PneCaQBzKGGrykLIREkd2AHnxcx3MdU4AD9bgp-U_u4qKfE8SXY9FeaMrWCLnOvEQgoRoIZAqwv7xkJKfzhJYevXMXcYz0I/s1600/pato.jpg
 

        Capitão Cipó, considerado uma obra-prima dos quadrinhos brasileiros, estreou como tira diária no jornal Correio da Manhã, em 1968. É uma sátira ao Super-Homem. O personagem, mistura desse herói com o Batman, carrega, em seu cinto de utilidades, um monte de quinquilharias, como pípulas anticoncepcionais, bombons e isqueiros sem fluido. Quando não está atuando como herói, o Capitão Cipó usa o disfarce de Irineu Pedrosa, um apresentador de televisão.

        Infelizmente, não temos espaço suficiente para detalhar toda a produção brasileira. Esperando não cometer muitas injustiças, vamos mencionar os artistas que estão em maior evidência. Assim, citamos Angeli, que nos brindou com os personagens Skrotinhos, Rê Bordosa e Bibelô, entre outros; Laerte, com a série Piratas do Tietê, uma crítica aos nossos costumes; e Glauco, criador dos Neuras, Geraldão e Dona Marta. [...]

        Devem-se registrar, também, Alain Voss, Miguel Paiva e Sérgio Macedo, autores que fazem sucesso na Europa com personagens tipicamente brasileiros.

Leila R. Iannone e Roberto A. Iannone. O mundo das histórias em quadrinhos. São Paulo, Moderna, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 166.

Entendendo o artigo:

01 – O autor menciona que o Capitão Cipó é uma sátira a heróis norte-americanos conhecidos. De que maneira as características desse personagem constroem essa sátira?

      A sátira é construída pela ironia e pelo contraste com os heróis originais. Em vez de possuir apetrechos tecnológicos ou armas poderosas como o Batman, o Capitão Cipó carrega em seu cinto de utilidades "quinquilharias" cotidianas e inúteis para o combate ao crime, como pílulas anticoncepcionais, bombons e isqueiros sem fluido. Além disso, seu alter ego, Irineu Pedrosa, é um apresentador de televisão, ironizando o disfarce tradicional de identidades secretas discretas.

02 – Qual é a justificativa apresentada pelo autor para não aprofundar a análise de toda a produção de quadrinhos brasileira no texto?

      O autor justifica que não o faz por falta de espaço suficiente no texto ("Infelizmente, não temos espaço suficiente para detalhar toda a produção brasileira"). Para contornar essa limitação e tentar não cometer injustiças, ele opta por focar a abordagem nos artistas que estão em maior evidência no momento.

03 – De acordo com o texto, qual é a principal característica ou objetivo da série Piratas do Tietê, da quadrinista Laerte?

      A principal característica da série Piratas do Tietê descrita no fragmento é o seu caráter satírico e social, funcionando explicitamente como uma crítica aos costumes da sociedade brasileira.

04 – O fragmento cita os autores Alain Voss, Miguel Paiva e Sérgio Macedo. Qual é o diferencial do trabalho desses artistas destacado pelo autor?

      O diferencial desses autores é o sucesso internacional alcançado por eles. O autor destaca que eles conseguem fazer sucesso no continente europeu utilizando personagens que carregam uma identidade e características tipicamente brasileiras.

05 – A partir da leitura do primeiro parágrafo, o que o autor sinaliza sobre a presença feminina no cenário de sucesso dos quadrinhos brasileiros até o momento de escrita do texto?

      O autor sinaliza que a presença feminina em patamar de destaque era uma exceção na época. Ao mencionar a personagem "O Pato", de Ciça, ele faz o parêntese de que ela é "uma das poucas desenhistas de sucesso entre nós", evidenciando que o meio era majoritariamente dominado por homens.

 

  

LENDA: DO SENHOR JUSTO DA PIEDADE - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Lenda: Do Senhor Justo da Piedade

         Como sempre acontece, o espírito do povo joeira e adorna a tradição a seu bel-prazer. Das várias versões que conheço referentes à fundação da igreja do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, prefiro a que vou contar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8LaJZvh6IHhZTHLalW-xOxPxUk3Npnv2oBc3WgsxTBnDFpRBdlQZSNUjkcQsX48bcYIS1-hKqnm5OKl6cFugY1Ss5mcBvhyViSBpVpSJWrQezMsHtoAZ2ZV3s5cruErt5s5O9LFWheTt4t_V2XtvLNo1rlZxG9lVrM76AjRPeeIG_sVCSQCLVIPjmRRQ/s320/piedade.png 


        Ali, na estrada praticamente deserta, havia apenas um tosco cruzeiro, a assinalar o caminho. E no cruzeiro, um Cristo batido pelas chuvas e pelos ventos era o único farol de Fé a iluminar os viandantes desnorteados.
        Ora, certa tardinha, vinham por aquela mesma estrada pai e filho, que regressavam de uma romaria. Vinham a discutir.

        — Já te disse, José, que não deves proceder assim. Um rapaz da tua idade tem de portar-se como deve ser. De outro modo irás por mau caminho.

        O rapaz mostrou-se azedo.

        — Sabe que mais? Estou farto dos seus sermões. Fartíssimo! Julga que sou algum gaiato? Já tenho barba na cara, não o esqueça?

        O homem retorquiu, zangado:

        — E isso leva-te a deixares de ser meu filho?

        O rapaz encolheu os ombros.

        — Claro que não. Mas não estou disposto a andar agarrado pelos cueiros, como se fosse um mocinho!

        — E que és tu, afinal, senão uma criança? Pelo menos a maneira como te portaste hoje de manhã assim o prova.

        O rapaz teve outro gesto de enfado.

        — Lá vem o pai outra vez com a mesma história! Que raio! Não sabe falar noutra coisa!

        O sangue subiu às faces do velho.

        — José, tem respeito pelo teu pai! Já tenho alguns anos em cima de mim, mas possuo ainda a mão bastante leve para...

        O rapaz interrompeu-o.

        — Deixe-se de lérias! Isso deve ser do vinho que bebeu a mais...
        A cólera quase superou o homem.

        — Que dizes, tratante? Insinuas que estou bêbedo? Tu é que bebeste demais! Parecias um odre sem fundo. E talvez fosse por isso que me quiseste roubar!

        O rapaz deu um salto de desespero.

        — Que está para aí a dizer? Olhe que a paciência tem limites! Já lhe afirmei que só quero aquilo que é meu! Ou pensa que todo o dinheiro da venda lhe pertence?

        O homem gritou:

        — Pois pertence! Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!

        — Histórias da carochinha! Já não vou nisso, deixei de andar de olhos tapados! Já sabe: daqui em diante quero o meu dinheiro, para o governar como entender, ouviu bem?

        — Endoideceste?

        — Não, não endoideci quero o meu dinheiro! E que isto fique dito de uma vez para sempre!

        Nesse momento preciso, pai e filho iam passando junto do velho cruzeiro. E aos ouvidos do rapaz soou uma voz semivelada:

        — Teu pai tem razão. És o seu filho. Deves-lhe obediência. Terás de seguir sempre os seus conselhos…

        O rapaz voltou-se, surpreendido.

        — De quem é esta voz? Foi vossemecê quem falou?

        O homem também se mostrou admirado:

        — Falar, eu? Agora não disse nada… Não me deste tempo para isso!
        Mas já o pai escutava, por seu turno, um murmúrio ao seu ouvido:

        — Não sejas severo em demasia com o teu filho. Lembra-te de que já não é criança. Trata-o como um homem igual a ti, e ele compreender-te-á.

        O homem olhou o filho.

        — Quem está aqui a falar?

        — Eu não! Também ouviu uma voz?

        — Ouvi. Mas... aqui não está mais ninguém. A não ser...

        — A não ser o quê?

        Pai e filho olharam a imagem do Cristo de pedra. Mas logo o rapaz retorquiu, enfadado:

        — Não me diga que julga que a fala vem dali.

        E apontava com um arremesso de cabeça a imagem do Cristo.

        — Sabe-se lá!

        — Agora vejo que está realmente bêbedo!
        O pai voltou a gritar:

        — Cala-te, imbecil!

        — Imbecil será vossemecê!

        A cólera tingiu de vermelho as faces do velho.

        — Ainda hoje não te livras de uma sova!

        Num ar rufião, o rapaz provocou-o:

        — Ora experimente!

        Os insultos seguiram-se. Mas continuaram caminhando, deixando para trás o Cristo de pedra. E porque ambos iam toldados pelo vinho, o inevitável aconteceu. O dinheiro voltou a ser o fulcro da discussão. Como o pai negasse, o rapaz fez menção de lho tirar. O primeiro empurrão surgiu. O agredido respondeu. E num instante os dois homens lutavam como se não fossem do mesmo sangue. Como se o próprio vento tivesse ficado surpreendido, uivou na encruzilhada, batendo forte, também, no rosto dos contendores. O velho caiu por terra. O rapaz vencera. Sacou das algibeiras do pai todo o dinheiro e abalou correndo, deixando o pai a gemer dolorosamente.

        Abandonado pelo filho no caminho deserto, o homem levantou-se depois de algum esforço. Chorando copiosamente, voltou para trás até junto do cruzeiro. Aí caiu de joelhos. Soluçava alto, como desvairado. Depois, um pouco mais sereno, sentindo viva a união do seu espírito ao Espírito Divino de Cristo, implorou:

        — Oh meu Jesus! Tu, que também foste homem, abaixa o Teu olhar sobre mim e derrama sobre o velho que hoje sou a Tua Misericórdia! O meu filho, aquele que eu criei, roubou-me e faltou-me ao respeito. É um ladrão e talvez um assassino, pois pouco se lhe dá que eu morra para aqui, abandonado. Não sei voltar à terra onde vivi. Mas não queria morrer sabendo que ele é um ladrão. Salva-me, pois, e salva-o a ele! Salva o meu filho, e eu Te juro que todo o meu dinheiro será para construir aqui, neste local, uma capelinha digna de Ti, ó meu Senhor Jesus! Salva-nos! Desce o Teu olhar sobre nós, ó Jesus de tanta Piedade!

        O vento zuniu mais forte sobre o silêncio que as palavras do homem deixaram ao extinguir-se. Mas logo outras palavras se ouviram:

        — Tem fé, e ser-te-á dada a salvação!

        O homem gritou:

        — Senhor! E ele? E o meu filho?

        A voz tornou, complacente:

        — Escuta o seu apelo... Ele vem implorar-te perdão. Sê razoável...

        Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!

        O homem curvou a cabeça. Chorava. De súbito ouviu-se uma voz que vinha de longe e se aproximava cada vez mais:

        — Pai, meu pai, onde está?... Responda-me, meu pai!

        O coração do homem bateu com violência. E gritou, rouquejando:

        — Filho! Estou aqui... junto ao cruzeiro!

        O rapaz acorreu. Agarrou as mãos do pai e implorou:

        — Por amor de Deus, perdoe-me e esqueça o que fiz! Eu devia estar louco! Se soubesse como sofro!

        O homem encostou a cabeça grisalha ao ombro do filho, chorando. Mal se ouviram as suas palavras de perdão. Por fim, desencostou-se. Já não chorava. Perguntou, movido por uma estranha curiosidade:

        — Filho! Porque voltaste?

        O rapaz respondeu como se estivesse a recordar um sonho:

        — Se soubesse o que me aconteceu! Quando ia a fugir, caí num barranco. Tão alto que nem sei como não me feri. Mas não conseguia sair de lá. De repente, senti medo. Um medo estranho. Tinha a sensação de ter caído vivo no Inferno. Foi nessa altura que me lembrei da voz que ouvi quando passámos por este cruzeiro. Então pedi ao Senhor Jesus que me salvasse, em troca do meu sincero arrependimento!

        Calou-se o rapaz por alguns instantes. Depois, continuou:

        — Mal havia feito este propósito... sem bem saber como... senti forças para erguer-me do barranco e vir até aqui!

        O vento levou até à imagem de pedra do Senhor Jesus esta elevação da alma de um pai agradecido:

        — Obrigado, meu Deus! Obrigado pela Vossa Piedade, meu Senhor Jesus Cristo!

        Pouco tempo depois, a promessa feita em circunstâncias tão dramáticas, num local ermo e batido pelo vento, foi cumprida pelos dois alentejanos. Ali mandaram construir uma capelinha. Mais tarde, essa capela humilde nascida de um voto transformou-se na igreja sumptuosa que hoje existe em Elvas, em memória do Senhor Jesus da Piedade.


Gentil Marques 

Entendendo a lenda:

01 – No início da narrativa, antes do clímax do conflito, pai e filho ouvem uma voz semivelada junto ao cruzeiro. De que maneira os conselhos dados por essa voz individualmente a cada um refletiam a raiz do problema que eles enfrentavam?

        A voz aborda diretamente a falha de postura de ambos no relacionamento familiar. Para o rapaz, a voz reforça a necessidade de respeito e obediência, combatendo a sua soberba e insolência juvenil. Para o pai, o conselho é de moderação, sugerindo que ele reconheça a transição do filho para a idade adulta e evite a severidade excessiva. O conflito existia justamente porque nenhum dos dois conseguia equilibrar esses papéis: o filho exigia independência com agressividade e o pai tentava impor autoridade com base no autoritarismo e no controle financeiro.

02 – O dinheiro é o fulcro (o ponto central) da discussão entre pai e filho. Explique como a questão financeira revela visões de mundo diferentes entre as duas personagens antes da reconciliação.

      O dinheiro simboliza o poder e a transição de autonomia. Para o pai, a gestão do dinheiro representa a manutenção da sua autoridade e liderança familiar ("Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!"). Para o filho, o dinheiro da venda é o passaporte para a sua independência e a afirmação de que deixou de ser criança. A disputa financeira materializa o choque de gerações, onde o pai se recusa a abrir mão do controle e o filho tenta tomá-lo à força, sem maturidade para dialogar.

03 – Descreva o cenário natural em que a história se passa e disserte sobre como os elementos da natureza (como o vento e a tempestade) funcionam como um espelho do estado psicológico das personagens.

      A lenda se passa em uma estrada praticamente deserta, marcada por um tosco cruzeiro e condições climáticas adversas. Os elementos da natureza funcionam como um reflexo patético da intensidade dramática da cena. Conforme a fúria e o orgulho das personagens aumentam, o vento "uiva na encruzilhada" e bate forte em seus rostos, emoldurando a violência física entre pai e filho. Mais tarde, quando o homem se ajoelha para rezar, o zunido forte do vento sublinha o silêncio e a solidão de seu desespero, mostrando que o ambiente externo acompanha o tumulto interno dos corações dos protagonistas.

04 – Após ser agredido e roubado pelo próprio filho, o pai recorre à oração. Quais são os dois pedidos principais que ele faz ao Senhor Jesus e o que essa prece revela sobre os seus sentimentos paternos?

      O pai pede a sua própria salvação (conforto e direção na solidão) e, principalmente, a salvação de seu filho, implorando para que ele não permaneça no erro como um ladrão ou assassino. Essa prece revela que, apesar da profunda dor, humilhação e violência sofridas, o amor paterno sobrepujou o orgulho e o desejo de vingança. O pai prioriza a restauração moral e espiritual do filho em detrimento da punição, demonstrando um espírito de sacrifício e misericórdia que ecoa a própria figura do Cristo a quem ele roga.

05 – A voz divina impõe uma condição ao pai para que ele receba a salvação que tanto pedia. Que condição é essa e qual a sua importância teológica ou moral dentro do contexto da lenda?

      A voz exige que o pai perdoe as ofensas do filho, utilizando o princípio de que para receber o perdão divino (do Pai Celeste), o ser humano deve primeiro ser capaz de perdoar o seu semelhante ("Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!"). Do ponto de vista moral e teológico, essa condição quebra o ciclo de ódio e violência. Ela estabelece que a verdadeira piedade e a salvação não vêm de barganhas ou promessas puramente materiais, mas sim de uma transformação interna baseada na empatia, no amor e na reconciliação.

06 – O rapaz decide voltar para os braços do pai após viver uma experiência traumática. Explique o que aconteceu com ele durante a fuga e de que forma esse evento operou o seu arrependimento.

      Durante a fuga, o rapaz caiu em um barranco profundo e, embora não tenha se ferido gravemente, viu-se incapaz de sair. O isolamento e a escuridão do local provocaram um medo avassalador, fazendo-o sentir como se tivesse caído "vivo no Inferno". Esse choque de realidade e a vulnerabilidade física desarmaram a sua soberba arrogante. Diante do desespero, ele se lembrou da voz misteriosa do cruzeiro e compreendeu a gravidade do seu ato, convertendo o seu medo em um sincero propósito de arrependimento e pedido de perdão.

07 – A lenda cumpre a função tradicional de explicar a origem de um monumento real. Com base no desfecho do texto, explique a promessa feita e como ela originou a Igreja do Senhor Jesus da Piedade em Elvas.

      No momento de maior desespero, o pai jurou que, se ele e o filho fossem salvos daquela ruína moral e física, utilizaria todo o seu dinheiro para construir uma capelinha digna no exato local do velho cruzeiro. Após a reconciliação milagrosa promovida pela fé, pai e filho cumpriram o voto construindo uma humilde capela naquele ermo alentejano. Com o passar do tempo e a devoção popular, essa estrutura inicial foi ampliada e modificada, transformando-se na "igreja sumptuosa" que hoje existe em Elvas, perpetuando a memória do milagre da piedade e do perdão familiar.